“A Substância”: a obsessão pela beleza e juventude na indústria de Hollywood.

Por: Davi Neiva

 

 

Estrelado por Demi Moore e dirigido pela francesa Coralie Fargeat, o filme A Substância (2024) é uma obra cinematográfica do gênero horror corporal que explora a relação entre o padrão de beleza feminino e a indústria de Hollywood. O longa apresenta Elizabeth Sparkle (Demi Moore), uma famosa apresentadora americana de 50 anos que vê sua carreira em ruínas por ser considerada “velha” e “ultrapassada” demais para o papel que ocupa. Rapidamente, ela descobre uma fórmula capaz de criar e desenvolver a melhor versão de si mesma: mais bonita, mais atraente, mais jovem e inteligente.

Com medo de ser esquecida e substituída pela indústria, ela ingere a substância e, a partir deste ponto, a trama se desenrola com a atriz Margaret Qualley entrando em cena ao interpretar Sue, a nova queridinha de Hollywood. Entretanto, para que a fórmula tenha o efeito desejado, as duas versões de Elizabeth precisam respeitar uma balança de revezamento de sete dias, coexistindo. O resultado desse experimento é desastroso, levando Elizabeth, por curiosidade, a se transformar na pior versão de si mesma, com uma aparência monstruosa e assustadora.

O filme utiliza imagens exageradas e grotescas como sátira à obsessão estética enfrentada e frequentemente imposta às mulheres no mundo do entretenimento. A personagem de Demi Moore encarna essa crítica ao desenvolver crises de ansiedade, autoestima e identidade, provocadas pelo medo de ser apagada e substituída pela televisão e pela mídia por uma versão idealizada de si mesma, algo que em determinado momento do filme se concretiza. Esse acontecimento representa uma realidade da indústria, em que mulheres são facilmente descartadas e trocadas por outras mais jovens, diferentemente dos homens. Em uma sociedade em que o padrão de beleza se torna cada vez mais inalcançável e distante, diversas artistas se submetem a cirurgias e intervenções plásticas para tentar se encaixar nesse modelo de corpo e aparência perfeita. O resultado disso impacta a vida de inúmeras garotas e mulheres ao redor do mundo, uma vez que as representações femininas na mídia são, muitas vezes, irreais e controversas. A maior parte das cantoras, atrizes, influenciadoras e outras personalidades da mídia são jovens, e representam uma estética e um estilo de vida associados a esse padrão.  A partir do momento em que começam a envelhecer, elas se tornam mais invisíveis e irrelevantes para o público e para a mídia, na maioria das vezes sendo alvo de discriminação etária, um dos principais tópicos abordados pelo filme.

Esse fato se faz presente na vida de várias celebridades femininas, cujas carreiras se transformam em uma constante luta e busca por uma aparência jovem. Isso evidencia não apenas que a indústria é, obviamente, misógina e machista com as mulheres, mas também escancara o sexismo e a desigualdade de gênero nos bastidores de Hollywood. Se compararmos o comportamento da imprensa tradicional em relação a homens e mulheres, fica claro o privilégio concedido aos artistas masculinos em detrimento das artistas femininas. Além de a pressão estética sobre eles ser praticamente inexistente, eles não precisam se preocupar em serem esquecidos e descartados pela indústria, mantendo suas carreiras estáveis por praticamente toda a vida.

Tal fator pode ser explicado de maneira simples: Hollywood ainda é controlada majoritariamente por homens. Os principais cargos e as tomadas de decisões mais relevantes são feitas por figuras masculinas, como diretores, acionistas, executivos de grandes companhias de entretenimento e investidores. No filme, essa estrutura é representada pelo personagem Harvey (Dennis Quaid), um produtor da TV que demite Elizabeth Sparkle (Demi Moore), dando o pontapé inicial em toda a trama. Ele é abertamente misógino e sexista com atrizes e apresentadoras que gerencia, retratando uma indústria que privilegia a beleza, estética, audiência e lucro.

Em suma, “A Substância” é uma ótima produção cinematográfica, indicada a seis categorias no Oscar e sucesso de crítica e bilheteria. O filme apresenta um excelente trabalho de roteiro e direção, expondo a realidade obscura e sombria da indústria do entretenimento, algo que ocorre não apenas nos Estados Unidos, mas também em diversos países, incluindo o Brasil. Sobretudo, o longa mostra de forma nua e crua o modo cruel que a sociedade trata as
mulheres, especialmente as mais velhas.

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