A destruição de um clássico pelo fetiche

Por: Tom Schuenk

Se tirar a violência sexual disfarçada de fetiche dos filmes da Emerald Fennell, sobra alguma coisa? Bom, é inegável que sua parceria com o diretor de fotografia Linus Sandgren entrega peças visualmente bonitas, mas até isso entra em xeque nesse filme; a artificialidade de alguns cenários, talvez escolhidos para passar uma mensagem de incômodo da protagonista, não fazem jus à história de Emily Brontë.

A escolha de adaptar apenas um terço do livro pode se dar pela questão de a realizadora querer aproveitar o tempo do longa para desenvolver o “romance” de Cathy e Heathcliff, tendo em vista que o filme foi vendido como um grande romance, tendo sido lançado no Valentine´s Day. No entanto, o sexo aqui surge como uma ferramenta que nada acrescenta à narrativa. Enquanto no livro a relação dos dois nunca foi carnal, aqui parece que o único elo de ligação é justamente o ato sexual; Cathy parece não ver Heathcliff como um ser humano, mas como um mero objeto para satisfazer seus desejos e frustrações. Essa falta de tato e o desprezo pela obra original criaram uma trama que se assemelha à de Brontë apenas nos nomes das figuras centrais.

O filme parece uma grande fantasia sexual escrita por Colleen Hoover, com pouco aprofundamento em tramas importantes. Aqui, personagens que nunca trocaram um diálogo se amam, ou têm amores não correspondidos e ressentimentos, e você tem que aceitar isso para que a trama possa prosseguir. E como se isso não bastasse, o novo trabalho de Fennell é péssimo em deixar clara sua passagem de tempo.

Enquanto no clássico literário nós sabemos que a personagem de Margot Robbie faleceu por volta de seus 19 anos, aqui é difícil entender a linha cronológica; nós partimos das cenas com as crianças para cenas com Margot e Jacob já crescidos e, como os atores já têm uma grande diferença de idade, não fica claro que idade Fennell pensou para seus protagonistas. Se por um lado pensamos que eles ainda estão em seus anos de adolescência, a idade mais avançada
dos atores não deixa que essa mensagem seja bem passada; mas, se pensamos que já são mais velhos e estão na fase adulta, o filme se torna ainda mais estranho, já que as cenas seguintes ao flashforward são sobre o amadurecimento sexual desses.

No entanto, um dos tópicos mais polêmicos e discutidos desde o anúncio do filme é a descaracterização dos personagens. Heathcliff é descrito como um homem de pele escura,cabelos e olhos negros, de origem misteriosa, mas aqui recebemos um personagem totalmente eurocentrado. Nas páginas de Brontë, grande parte dos conflitos vividos pelo personagem se deve à sua etnia ambígua; sua vivência, frustrações, medos e motivações vêm por sempre ter
sido tratado diferentemente por personagens que se sentiam mortalmente elevados. Ao colocar o personagem como um homem branco, parte do peso de sua trama e suas motivações se esvazia, de forma que parece que ele é apenas um jovem incompreendido em busca do amor.

E por falar em amor, todo o conceito complicado das relações interpessoais do livro foi meramente reduzido a desejos carnais no filme. Personagens como a Nelly foram passadas de uma ama que conta a história da casa para uma jovem invejosa que quer atrapalhar o romance proibido de sua chefe, algo problemático quando paramos para refletir que tanto Nelly quanto Edgar foram escalados por atores racializados, e a trama os coloca como a principal força que impede o amor dos protagonistas. Não acho de bom tom o embranquecimento do mocinho e a racialização dos antagonistas. Na arte, nenhuma decisão é por acaso e fica bem clara a mensagem que Emerald Fennell quis passar com a mudança.

Outra personagem que sofreu nas mãos da realizadora foi Isabella, que no romance original é quase um símbolo de resiliência ao fugir de um relacionamento abusivo para proteger a si mesma e ao filho. Aqui, a personagem vivida por Alison Oliver passa metade do filme agindo como uma criança mimada e a outra parte como um objeto sexual deturpado de Heathcliff. No fim das contas, a única coisa que o filme conseguiu trazer das páginas dos livros foi a moral ambígua dos protagonistas, mas a que custo? A experiência de assistir a essa adaptação é como se eu estivesse vendo “50 tons de cinza”, mas se o filme tivesse sido mantido como uma fanfic de “Crepúsculo”.

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