Comunicação e argumentação

Por Lucas Quadros.

A comunicação é um elemento que impacta significativamente certas decisões debatidas por organizações ou grupos de pessoas. No filme Doze Homens e uma Sentença, vemos um grupo de jurados debatendo um caso. Eles precisam dar uma resposta unânime para julgar um jovem como culpado, assim sendo condenado à cadeira elétrica, ou inocente. No início do filme, a decisão parecia óbvia: todas as evidências e argumentos dados no julgamento contribuíam para o jovem ser julgado como culpado, mas um jurado discordava e, por isso, surge a necessidade de um debate.  Assim, nesse filme, acompanharemos essa argumentação conduzida por um roteiro com diálogos muito bem desenvolvidos  onde, no começo, havia 11 jurados que julgavam o jovem como culpado e apenas um que o julgava como inocente, e, ao fim, todos responderão que o jovem acusado é inocente.

Desde o começo do filme e do debate, havia vários elementos a serem discutidos e considerados no caso. Acontece que o roteiro é feito de tal forma que esses elementos são abordados de maneiras diferentes de acordo com a argumentação dos jurados. No caso, havia uma testemunha visual do crime e é eventualmente concluído que ela tinha uma visão ruim, já que tinha marcas de óculos no rosto, e por isso não poderia ser levada em consideração. Esse é apenas um dos exemplos de mudança de ponto de vista que há ao longo do filme. Isso mostra como o roteiro desse filme soube plantar pistas para desenvolver ao longo da narrativa.

Outro aspecto que a narrativa de Doze homens e uma sentença consegue desenvolver muito bem é o modo de agir e pensar de cada um dos jurados. Cada personagem mostra seu ponto de vista e os motivos de suas opiniões e ações. Há,  por exemplo, um jurado que já teve muitas experiências com julgamentos. Há jurados que impõem suas opiniões na discussão, mas também há jurados mais introspectivos que evitam fazer grandes afirmações sobre o caso.  O primeiro jurado que afirma que o jovem é inocente não faz afirmações certeiras desde o início e nem mesmo desenvolve uma grande linha de argumentação quando questionado. No começo, o jurado explica que afirmou que o jovem era inocente por, basicamente, mera empatia. Ele mostra ser uma pessoa simples: não se sente tranquilo em condenar um jovem tão facilmente assim.

Por outro lado, conhecemos também o jurado que tem o preconceito como motivo de suas ações e decisões. O jovem acusado vem de uma favela e, por isso, esse jurado não chegava a considerar as evidências e novos argumentos quando apresentados. Para ele, o acusado era culpado e não importava o que os outros jurados poderiam dizer. Isso mostra que a narrativa de Doze Homens e uma Sentença consegue explorar como o preconceito e a intolerância podem afetar os processos de julgamento e a aplicação das leis.

Há também no roteiro de Doze Homens e uma Sentença o recurso da questão espacial e temporal. Os jurados precisam tomar essa decisão confinados em uma mesma sala e, quando o debate começa a se estender, o nível de tensão da trama aumenta cada vez mais. Deixar um grupo de personagens, com comportamentos e opiniões bem distintos e até conflitantes, obrigados a permanecer em um espaço por muito tempo é um excelente recurso para melhorar o debate. Com o tempo, os jurados começam a se estressar ou mudar de opinião e, também, apresentar novos argumentos e pontos de vista. Um exemplo de que a trama evoluiu para um cenário mais complicado e tenso é que, no início, vemos os personagens fugindo do tema e até falando de seus próprios interesses ou fazendo piadas. Mas, com o passar do debate, há um foco cada vez maior no caso, que se torna mais debatível. Até mesmo quando os personagens fogem do assunto ou quando ficam em silêncio, nota-se um desenvolvimento da personalidade e do caráter deles. Esses assuntos paralelos mostram quem eles são e justificam suas ações. Durante o debate, alguns jurados passam a demorar mais para responder se o garoto é inocente ou culpado. Assim percebemos que os personagens passam a realmente considerar as opiniões e respostas no debate.

Acontece que, inicialmente, nenhum dos onze jurados que julgaram o jovem como culpado pensava que havia a necessidade de se debater aquele caso. Tudo parecia claro. Mas as evidências são questionadas uma a uma, começando pela arma do crime. A arma do crime era uma faca que só o jovem poderia ter, segundo a conclusão do julgamento e dos jurados. Mas isso logo é contrariado quando um dos jurados mostra uma faca igual. Quando esse argumento é respondido, os jurados começam a finalmente aceitar a necessidade de debater cada pista e argumento. Esse aspecto é muito interessante, já que, ao portar uma faca com mola, o jurado estava violando a lei, mas isso leva o roteiro para uma direção considerada positiva. Quando esse filme faz isso, ele está contrariando o maniqueísmo comum nos roteiros de grande parte do cinema.

Como já foi mencionado, os jurados mudam seu voto para inocente um a um. Isso mostra não só o quão bem desenvolvido é o roteiro, mas também o quão importante a comunicação pode ser. Uma pessoa com  bons argumentos pode conduzir outras pessoas a compartilharem de uma mesma opinião ou decisão. Por isso, é evidente a necessidade de desenvolver uma boa comunicação para conseguir se beneficiar disso no âmbito pessoal ou profissional e para não se arriscar em uma mensagem mentirosa ou mal-intencionada. Esse filme também deixa evidente a necessidade de conhecer e dominar a comunicação para desenvolver e melhorar a argumentação entre personagens em uma trama. Assim como é necessário elaborar personagens que pareçam pessoas vivas: suas profissões, personalidades, comportamentos e opiniões. Doze Homens e uma Sentença mostra que diálogos e personagens bem desenvolvidos não apenas criam tramas excelentes, mas também permitem que atores façam interpretações nas quais conseguimos acreditar e nos relacionar.

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