Por João Pedro Diniz
O show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl 60 ultrapassou os limites tradicionais do entretenimento esportivo e se consolidou como um acontecimento simbólico no debate cultural e político dos Estados Unidos. Ao ocupar o maior palco midiático do país com uma apresentação majoritariamente em espanhol, o artista porto-riquenho não apenas celebrou sua identidade cultural, como também tensiona noções historicamente excludentes sobre quem pode representar a “americanidade”. A performance, marcada por elementos visuais ligados à vida cotidiana, à comunidade latina e às raízes caribenhas, foi amplamente interpretada como um gesto de afirmação cultural em um evento que, por décadas, privilegiou narrativas anglo-saxônicas.
Esse impacto simbólico se intensifica quando se observa o contexto político que cerca a figura de Bad Bunny. O artista já havia se posicionado publicamente contra a atuação do Immigration and Customs Enforcement (ICE), especialmente em relação às políticas de deportação e criminalização de imigrantes. Embora o show não tenha trazido mensagens explícitas contra o órgão, a leitura midiática conectou imediatamente a apresentação a esse histórico de posicionamento. Dessa forma, o espetáculo passou a ser entendido como parte de uma narrativa maior de resistência cultural e crítica às políticas migratórias restritivas, transformando o halftime show em um espaço de disputa simbólica.

A reação de Donald Trump exemplifica como manifestações culturais podem ser rapidamente convertidas em armas de guerra política. Ao classificar o show como uma “afronta à grandeza da América” e criticar o uso do espanhol, Trump desloca o debate do campo artístico para o ideológico, reforçando uma visão excludente de identidade nacional. Suas declarações não se limitaram ao gosto pessoal, mas ecoaram um discurso recorrente de rejeição à diversidade cultural, tratando a presença latina como algo estranho ou incompatível com os valores estadunidenses.
Do ponto de vista da crítica de mídia, a cobertura do episódio revelou uma polarização clara. Veículos alinhados a pautas progressistas destacaram o caráter histórico e inclusivo da apresentação, ressaltando a importância da representatividade latina em um evento de alcance global. Por outro lado, setores conservadores enquadraram o show como excessivamente político ou inadequado para um evento esportivo, ignorando o fato de que o Super Bowl, há anos, funciona como uma vitrine de discursos culturais e identitários.

Nesse cenário, o papel da mídia foi central na amplificação do conflito. Ao enfatizar as críticas de Trump e relacioná-las diretamente às posições de Bad Bunny sobre imigração e ICE, os veículos ajudaram a transformar o espetáculo em um símbolo das tensões contemporâneas nos Estados Unidos. O show deixou de ser apenas uma apresentação musical e passou a representar um embate entre diferentes projetos de nação, um mais fechado e homogêneo, outro plural e multicultural.
Em síntese, o show de Bad Bunny no Super Bowl 60 evidencia como a cultura pop atua como campo político, especialmente quando artistas pertencentes a grupos historicamente marginalizados ocupam espaços de visibilidade máxima. As críticas de Donald Trump e a associação do espetáculo às discussões sobre imigração e ICE revelam que, nos Estados Unidos atuais, até a música em um evento esportivo pode se tornar um território de disputa ideológica. Mais do que entreter, a apresentação expôs fissuras profundas sobre identidade, pertencimento e poder simbólico na sociedade americana.


