Mídia, mito e mercado político: o socialismo performático de Zohran Mamdani e os limites da narrativa contemporânea

Por João Pedro Diniz

 

A eleição de Zohran Mamdani como novo prefeito de Nova Iorque representa um marco na política norte-americana contemporânea e, sobretudo, um fenômeno comunicacional digno de análise. Jovem, muçulmano e assumidamente socialista, Mamdani surge como uma figura que rompe com o perfil tradicional de liderança da cidade mais midiática do mundo. Sua ascensão política não se explica apenas pela conjuntura social e econômica, mas também pela forma como a mídia, as redes sociais e o próprio discurso político foram articulados para construir uma imagem pública marcada pela ousadia e pela promessa de enfrentamento ao poder estabelecido. Ao prometer “desafiar a FIFA e Donald Trump”, Mamdani não apenas traça linhas políticas, mas utiliza estrategicamente símbolos de poder global e nacional para se posicionar como o contraponto da elite econômica e corporativa que domina o imaginário nova-iorquino.

A postura de Mamdani revela como a comunicação política atual se transformou em uma extensão do marketing digital. O novo prefeito compreendeu que, na era da hiper-exposição e do engajamento instantâneo, ideias precisam ser comunicadas com a mesma lógica das marcas. Assim como empresas buscam consumidores fiéis, políticos buscam seguidores engajados e a fidelidade é conquistada por narrativas fortes, visuais simbólicos e antagonismos bem definidos. Ao se colocar contra a FIFA, Mamdani toca na indignação popular em torno do lucro excessivo e da exclusão dos torcedores comuns durante os grandes eventos esportivos, convertendo um tema global em causa local. Ao atacar Trump, ele aciona uma identidade política de resistência, apresentando-se como defensor da diversidade e dos valores progressistas diante de um inimigo comum. A mídia, por sua vez, amplifica essa retórica, transformando gestos políticos em performances comunicacionais e construindo a imagem de um líder que fala diretamente ao “povo” sem intermediações.

 

 

 

Essa estratégia de comunicação insere Mamdani em uma nova geração de líderes que se apoiam na autenticidade, na linguagem direta e na mobilização digital como ferramentas de poder. Ele entende que, na lógica midiática contemporânea, não basta administrar bem: é preciso performar bem. O discurso político se torna espetáculo e produto ao mesmo tempo. As redes sociais substituem os palanques, os vídeos curtos substituem os comícios e o engajamento substitui o debate aprofundado. Essa dinâmica, embora poderosa para conquistar apoio popular, também carrega riscos evidentes. A retórica de enfrentamento e de “rebeldia institucional” que alimenta sua popularidade pode, em um contexto de governo, se transformar em obstáculo à negociação e à governabilidade. A mídia, que inicialmente o exalta como símbolo de renovação, tende a ser igualmente rápida em cobrar resultados concretos quando o espetáculo cede lugar à realidade administrativa.

A crítica de mídia sobre Mamdani, portanto, deve enxergar além da superfície do carisma e da inovação comunicacional. Seu discurso contra a FIFA e Trump é um exemplo claro de como o antagonismo se tornou uma poderosa ferramenta de visibilidade. No entanto, a questão que se impõe é se essa lógica de confronto constante sustenta um projeto político coerente ou apenas perpetua o ciclo de polarização que domina a esfera pública contemporânea. O uso estratégico da “rebeldia” como marca pode gerar mobilização no curto prazo, mas corre o risco de esvaziar o debate sobre políticas públicas reais. A cobertura jornalística que o cerca muitas vezes reforça o mito do “prefeito revolucionário”, mas oferece pouca análise sobre a viabilidade das propostas concretas que sustentariam essa revolução.

 

 

A figura de Mamdani também simboliza uma tendência crescente na política global: a fusão entre ideologia, marketing e cultura digital. Em vez de apenas apresentar planos de governo, políticos passam a vender identidades e valores, construindo narrativas que conectam emoção e pertencimento. A promessa de “enfrentar os poderosos” é, nesse contexto, mais do que uma meta política, é um produto simbólico, um discurso que gera engajamento, curtidas e manchetes. A mídia, ao reproduzir essa estética de conflito, contribui para a espetacularização da política e, de certa forma, legitima a lógica da polarização como estratégia de comunicação eficaz.

Em síntese, Zohran Mamdani representa tanto uma renovação quanto uma contradição do marketing político contemporâneo. Sua eleição sinaliza o desejo de mudança e a busca por lideranças mais próximas das demandas sociais e culturais do presente. Contudo, ela também revela como a política passou a operar sob a lógica da visibilidade constante, onde gestos simbólicos e posicionamentos midiáticos pesam tanto quanto, ou até mais do que, políticas concretas. O novo prefeito socialista de Nova Iorque é, ao mesmo tempo, produto e protagonista de uma era em que o poder se mede pela capacidade de dominar a narrativa. E é justamente essa fusão entre política, mídia e espetáculo que desafia os limites do que entendemos por comunicação democrática e governança real.

Referências:

Canal Peleja
The Guardian
NY Post

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