CHATÔ e o Poder da Mídia.

Por: João Gabriel Ferreira

“Chatô, o Rei do Brasil” é uma biografia escrita pelo jornalista Fernando Morais, publicada no ano de 1994, que reconstrói a vida de Assis Chateaubriand (1892-1968), mais conhecido como Chatô, uma das figuras mais influentes da imprensa e da política no Brasil do século XX. A obra é uma das biografias mais marcantes da literatura brasileira contemporânea, sendo o resultado de uma extensa pesquisa documental e de entrevistas, o que dá à narrativa densidade histórica e, ao mesmo tempo, ritmo de romance-reportagem.

Morais apresenta um personagem complexo, ao mesmo tempo brilhante e controverso. Chateaubriand foi fundador dos Diários Associados, conglomerado de jornais, rádios e, mais tarde, da primeira emissora de televisão do país, a TV Tupi. Sua trajetória foi marcada por ousadia, visão de futuro e uma inesgotável capacidade de articulação política. No entanto, a publicação não deixa de expor o lado obscuro de Chatô: o uso dos veículos de comunicação como instrumento de chantagem, manipulação e poder pessoal.

O texto revela como Chateaubriand construiu um império midiático quase inatingível, financiado muitas vezes por relações escusas com empresários e políticos. Para além da imprensa, sua influência se estendia às artes (com a criação do MASP) e à diplomacia, já que chegou a ser embaixador do Brasil em Londres. Esse retrato mostra um homem que entendia como poucos a força da mídia na formação da opinião pública e na conquista de espaços de poder.

Quando comparado a partir do momento presente, um dos aspectos mais fascinantes do livro é a maneira como é exposta a relação entre mídia e poder político. Chatô via a imprensa não apenas como negócio ou como serviço público, mas como uma verdadeira arma de guerra: capaz de destruir reputações, eleger políticos e pressionar governos. Essa lógica, retratada nos anos 1930 a 1960, ainda ressoa na sociedade contemporânea, ainda que em formatos diferentes.

Hoje, o domínio dos meios de comunicação de massa já não é tão concentrado quanto no tempo dos Diários Associados. A ascensão da internet e das redes sociais descentralizou uma parte desse poder, dando espaço a novos atores. Contudo, a sede de influência e a manipulação da informação permanecem. Se antes figuras como Chateaubriand usavam jornais e rádios para negociar favores, atualmente vemos conglomerados midiáticos, plataformas digitais e até influenciadores disputando espaço na arena política e econômica, muitas vezes guiados por interesses próprios.

A comparação é inevitável: se Chatô soube explorar o jornalismo impresso e o rádio para consolidar seu império, hoje vemos mecanismos semelhantes na lógica dos algoritmos, na disseminação de fake news e no controle narrativo feito por grandes corporações de tecnologia.

“Chatô, o Rei do Brasil” não é apenas uma biografia, é também um retrato da formação da mídia brasileira e de como ela se mistura com a política e a economia. Fernando Morais não idealiza seu personagem, tampouco o demoniza: expõe suas contradições com um texto envolvente, que equilibra crítica e fascínio. Ao mesmo tempo em que revela um homem movido por ambição e ego, o livro também serve de alerta para refletirmos sobre o presente: a concentração de poder mediático, seja em mãos de empresários de imprensa ou de plataformas digitais, continua sendo uma das grandes questões democráticas do Brasil e do mundo.

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