Por Alice Giovana
Ao decorrer dos anos, mulheres enfrentam o apagamento dentro de diversos âmbitos na sociedade, seja ciência, tecnologia, arte, entre tantas outras descobertas e avanços que homens fizeram questão de invisibilizar. A indústria musical não foge desse padrão.
Desde a pressão estética e objetificação sofrida pelas divas pop, os backvocals de mulheres que nunca receberam crédito pelo uso da própria voz no jazz, o questionamento sobre a capacidade e a falta de reconhecimento no rap até tantos outros casos dentro de tantos outros gêneros musicais, são representações claras de que as mulheres lutaram e ainda precisam lutar para que a marca que buscam deixar dentro da indústria fonográfica não seja apagada.

Rappers Ebony, Duquesa e Ajuliacosta em ensaio para a revista ELLE.
Fonte: ELLE Brasil, 21/08/2024.
Dentro da cena do rap, essa luta constante vem ganhando reconhecimento atualmente, principalmente dentro das redes sociais à medida que o rap também se populariza como um gênero de música feito não só pelas ruas e para as ruas, mas também para o mainstream.
Uma prova de toda essa comoção é a recente polêmica dos Racionais Mc’s, que foram questionados por fãs após a divulgação sobre a publicação da lista de colaborações em um novo projeto, um álbum que conta com trinta e seis músicas com colaborações de outros artistas em comemoração aos trinta e seis anos de carreira do grupo. Dentre as colaborações divulgadas até então, a falta de nomes femininos surpreendeu a fanbase, principalmente porque essa ausência de mulheres na lista ignora não apenas a ascensão que diversos nomes do rap feminino tem tido na cena nos últimos anos, mas ignora até mesmo mulheres em destaque no gênero e estão sob a mesma agência do grupo.
Muitos nomes foram citados em meio a essa comoção, estrelas em ascensão na cena nacional como Ebony ou Ajuliacosta, entre tantas outras mulheres da mesma agência dos próprios Racionais Mc’s que alcançaram o estrelato e foram reconhecidas nas mídias e nas redes sociais durante os últimos anos como a rapper Duquesa.
A mesma ganhou reconhecimento por seus dois álbuns, “Taurus” e “Taurus vol.2”, onde aborda temas como autoestima e empoderamento em faixas líricas e dançantes que se encaixam numa produção diversa misturando rap, pop, r&b e até mesmo rock em seus sons, como na faixa experimental que busca referências a cultura emo “Toda garota como eu =(=)”. Em entrevista ao POPline, Duquesa relata:
“Agora a gente tem um público feminino que apoia muito mais as mulheres. Eu percebo que, mesmo antes, quando as mulheres estavam já inseridas ali no movimento, majoritariamente quem escutava essas mulheres e aprovava a qualidade do som eram homens. E agora a gente tem um público feminino muito forte, que escuta mulheres, aprova mulheres, consome, lota os shows, que escuta mulheres muito mais, então acabou essa aprovação de homens. Alguns deles escutam o som que nós fazemos, o que é legal, mas agora há um respeito maior pela nossa estética, linguagem e entender que, olha, ‘eu gosto do trabalho dessa mina, mas ela não está fazendo um trabalho majoritariamente pra mim’. E tudo bem, sabe?”
Ebony teve seu destaque com a faixa “Espero que entendam”, lançada em 2023 a diss track traz uma crítica ativa sobre a cena do rap, usando citações diretas de nomes de artistas masculinos e expondo o comportamento desdenhoso dos fãs da cena que escolhem ignorar artistas femininas pelo gênero, os trabalhos subsequentes da artista continuaram carregando mensagens que atingem o ouvinte sem rodeios. Em entrevista para a revista Rolling Stone Brasil, Ebony diz:
“Odeio o fato de verem o hip-hop como algo masculino. Odeio o fato de verem como uma subcategoria. Odeio o fato de acharem que a gente não vale a pena de investir milhares de dinheiros, enquanto gêneros como sertanejo e pop recebem.”
Ajuliacosta teve seu auge após o lançamento da faixa “Você parece com vergonha” em 2024, desde então a artista acumula prêmios nacionais e internacionais, sendo o destaque sua premiação em 2025 no BET Awards 2025, como Best New Internacional Act, além de novos lançamentos que carregam críticas sobre a indústria, posicionamentos políticos entre outros assuntos dentro de batidas fortes e um flow intenso. Em entrevista para o Correio Braziliense, Ajuliacosta diz:
“Eu acredito no poder do coletivo. A gente não tem que ter só mulher em cima do palco, tem que ter mulher negociando, iluminando, dirigindo. A gente precisa mudar a estrutura, não só quem tá cantando. Porque, senão, não mudam as contratações, os horários nos festivais, as oportunidades. Mesmo após tantos prêmios, shows lotados, músicas com milhares de visualizações dentre tantas outras vitórias alcançadas dentro da indústria, um questionamento que fica é: por que, as mulheres do rap ainda tem dificuldade em receber o prestígio e a atenção de certos artistas e de uma grande parte do público de fãs do rap, que muitas vezes tendem a desmerecê-las, rebaixando seus trabalhos ou agindo como se não fossem competição dentro do mercado?”
A resposta vem possui várias camadas, desde o machismo cultural construído por séculos dentro da sociedade que atinge não só as mulheres dentro do gênero, mas os homens que consomem o rap desde o berço até a objetificação e a idealização de mulheres dentro da indústria, de rostos frágeis e atitude submissa que não se encaixa na mensagem que as minas do rap estão tentando trazer a outras mulheres, o que pode excluí-las de grandes oportunidades no meio midiático, um viés enraizado dentro da própria sociedade brasileira e alimentado por muitas instituições que por tanto tempo negligenciaram o rap como um todo, como as indústrias de comunicação e entretenimento.
Toda essa tentativa de mascarar essas artistas dentro da própria indústria fonográfica, seja por preconceito, machismo estrutural o mesmo medo de todo o barulho que essas mulheres são capazes de fazer, se tornam um empecilho para que muitas pessoas sequer considerem consumir algum produto de alguma mulher dentro do rap, mas agora, com aplicativos de redes sociais, trends e fanbases fortalecidas, os próprios fãs podem auxiliar nesse processo, até que seja impossível ignorar a ascensão das mulheres na cena. Desta forma é possível reconhecer cada vez mais que apesar de todos esses obstáculos dentro da indústria, essas mulheres continuam lutando e conquistando reconhecimento nas mídias e palcos nacionais, marcando uma nova era, não só na cena feminina, mas em toda indústria do rap, que promete de forma promissora nos próximos anos se tornar um espaço mais aberto para novos talentos femininos.
GRUTTER, Felipe. Ebony critica falta de espaço para mulheres no hip hop: ‘Odeio o fato de verem como algo masculino’ [ENTREVISTA]. Disponível em: <https://rollingstone.com.br/musica/ebony-critica-falta-de-espaco-para-mulheres-no-hip-hop-odeio-o-fato-de-verem-como-algo-masculino-entrevista/>. Acesso em: 8 out. 2025.
CARVALHO, João Pedro. Mulheres transformam a cena do hip hop brasileiro com postura de resistência.Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2025/08/7223594-mulheres-transformam-a-cena-do-hip-hop-com-postura-de-resistencia.html#google_vignette>. Acesso em: 8out. 2025.
DE CARVALHO, Matheus. Duquesa reflete sobre machismo e força feminina no rap: “não conseguíamos expor nossa feminilidade”. Disponível em: <https://portalpopline.com.br/duquesa-machismo-forca-feminina-rap-nao-conseguiamos-expor-nossa-feminilidade/>. Acesso em: 8 out. 2025.


