“A longa marcha” é um espelho da sede por tragédia

Por: Tom Schuenk

O livro A longa marcha foi originalmente publicado por Stephen King, sob o pseudônimo de Richard Bachman, em 1979. A obra acompanha uma competição brutal e televisionada, onde 100 adolescentes (no filme, adaptado para 50 participantes, um de cada estado dos Estados Unidos) caminham até que reste somente um vencedor.

Na competição planejada pelo “major”, os jovens devem estar sempre a uma velocidade mínima. Caso diminuam o ritmo, recebem advertências, e na terceira advertência, o candidato ganha “seu bilhete”, uma forma menos direta de dizer que ele vai de encontro à luz. O único jovem a sobreviver recebe um prêmio vitalício, com tudo o que desejar. No longa, o prêmio foi alterado para uma grande quantia em dinheiro e um único desejo a ser realizado.

O livro já traz uma forte crítica ao voyeurismo do sofrimento humano. O filme é dirigido por Francis Lawrence, que já tem prática em universos distópicos em que adolescentes são alvos de crueldades do Estado, tendo dirigido a franquia do Jogos Vorazes. Nesse longa, o diretor foi capaz de se desprender das amarras impostas pela classificação indicativa e criar um filme mais gráfico, para que os impactos da trama fossem sentidos mais profundamente.

 

 

Nesse universo, a “marcha” não é apenas uma competição capaz de mudar a vida dos participantes, que em sua maioria são pobres e em situação de vulnerabilidade, mas é também uma forma de entretenimento, sendo um evento televisionado e atraindo multidões de espectadores por onde passa. O sofrimento dos jovens se torna um produto consumível, onde o público declara sua torcida e celebra a cada “eliminação” de um concorrente. No mundo real, vemos algo parecido acontecer quando paramos para analisar um grande consumo de notícias de tragédias. Comumente, o sofrimento é exposto e compartilhado de forma massiva, mas a profundidade da dor é frequentemente ignorada pelos veículos de comunicação.

Mesmo com muitos personagens, três se destacam por serem os finalistas, tanto na obra literária quanto cinematográfica, mas aqui entram as diferenças que ajudam o filme a ter um final mais impactante. O protagonista indiscutivelmente da história é Ray Garraty, é ele quem nos conduz pela exaustão física e psicológica de toda a competição.

Junto dele, nos momentos finais, estão Stebbins, que se demonstra um personagem enigmático e aparentemente invencível. Distante de todos, ele evita ao máximo se apegar e criar laços de amizade. E, por fim, Peter McVries, que nos poucos dias de competição se torna grande amigo do protagonista. Esse personagem serve como uma bússola moral dentro desse universo caótico e sangrento. Ele oferece um senso de humanidade e camaradagem em meio à crueldade da marcha.

 

 

No livro, após a partida de McVries, Stebbins se revela como filho ilegítimo do major e declara que, por esse motivo, entrou na marcha. Ao perder a competição, e sobrar apenas Garraty, somos surpreendidos com um final ambíguo. Ele deixa o leitor com a incerteza do que é real e do que é alucinação do personagem, focando no terror que ele passou nos últimos dias e deixando o questionamento de seu futuro. Nessa versão, somos levados a questionar o real significado e prêmio dessa competição.

No longa, Stebbins se despede do trio, deixando a dupla de amigos para terminar a competição. Em uma virada surpreendente, Garraty recebe seu bilhete e deixa a todos no cinema sem entender o que aconteceu. O filme então termina com McVries vingando seu amigo e matando o Major. Em um final semelhante ao livro, o ganhador olha para o horizonte e continua a caminhar, representando que, apesar de ter terminado este teste, sua vida está sempre em prova.

A obra sabe não ser monótona. Apesar de se passar inteiramente durante a competição, ela não deixa o espectador se sentir distante, nem abre espaço para enrolação. Tudo é muito fluido e crível ao decorrer da trama. Assim como outras obras de King, A longa marcha transcende os limites do gênero de horror. É uma história emocionante sobre amizade, ganância e glamourização do sofrimento alheio. Tanto no filme quanto no livro, somos levados a questionar nossos papéis como espectadores dessas tragédias. A história incomoda por fazer o espectador se questionar sobre a linha tênue entre informação e entretenimento.

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