Os apuros de homens profundamente sem talento, como visto nos filmes de Charlie Kaufman

Por Bernardo Carvalho Marujo

Ver um filme escrito por Charlie Kaufman às vezes sente como ler um diário escrito sob a influência de psicodélicos. Temos ideias absurdas, conceitos gigantescos, mas, no fundo, é só um diário: uma exploração direta do escritor, de suas inseguranças e sensibilidades. A revista Wired o caracterizou como “o escritor mais inteligente de Hollywood”; o jornal The Guardian, como “ambíguo e intensamente surreal”; e Roger Ebert, talvez o maior crítico de cinema do século, considerou seu filme Synecdoche, New York o melhor da década, citando-o como “intensamente perceptivo e ambicioso”.

Novamente: ambição, inteligência, ambiguidade e surrealismo. Mas se formos analisar o que faz cada uma dessas histórias funcionar, encontraremos a mesma pessoa, o mesmo eco distante do autor. Personagens que, apesar de usarem peles e personalidades diferentes e de se comportarem com tons distintos, estão cercados pelos mesmos medos, pelas mesmas falhas e pela mesma implacável mediocridade. Apesar do mesmo arquétipo estar presente em todos os filmes de Kaufman, decidi recortar apenas três, que acredito exemplificar quem é “o homem profundamente sem talento”. Em seu primeiro longa, Quero Ser John Malkovich, já temos a presença inegável desse personagem no protagonista Craig Schwartz (John Cusack), um titeriteiro infeliz com a vida, não reconhecido por sua arte e preso em um casamento que já não o agrada. Craig fundamentalmente não tem controle sobre a própria vida e, parcialmente por isso, se apaixona desesperadamente por Maxine (Catherine Keener), uma mulher assertiva e livre, que não tem o menor interesse nele.

O curioso é que, quando troca de pele, quando se torna outra pessoa, todas as coisas que ele acreditava merecer lhe são concedidas: Maxine agora o acha atraente, e o mundo o vê como um gênio das marionetes. Quando outros personagens incorporam John Malkovich, eles buscam escape, buscam sentir o mundo como ele sente — a euforia de não ser você mesmo. Mas não Craig: ele quer ser si mesmo, uma versão amada e reconhecida de si, alguém que o mundo vê como talentoso, bonito e verdadeiramente amado, não por sua esposa real, mas por uma mulher idealizada.

Craig é a mistura perigosa de um homem inseguro e de um narcisista e, enquanto isso tende a torná-lo odiável, acredito que os traços dele se revelam em todo artista: o desejo por reconhecimento, a necessidade de viver da sua arte, o repúdio por aqueles de mais sucesso e a dificuldade de conexões humanas. Ele é magnético, é como olhar para as piores partes de um criador, um retrato cínico pintado para ser alguém sem talento, miserável, mas nem sequer lamentável.

Em 2015 tivemos o primeiro filme animado de Kaufman, Anomalisa. Apesar de trocar pessoas por bonecos, Kaufman mantém o arquétipo no protagonista Michael (David Thewlis), um palestrante motivacional que vê todas as pessoas do mundo com o mesmo rosto e voz, com exceção de Lisa (Jennifer Jason Leigh), por quem se apaixona. Se em Quero Ser John Malkovich temos uma análise cínica e quase odiosa do homem sem talento, em Anomalisa voltamos a algo mais melancólico, lento e triste. Michael não é uma ótima pessoa, é narcisista e desleal, assim como Craig, mas enquanto Craig era neurótico e obcecado, Michael é mais deprimido e desinteressado. Ele chegou a um ponto avançado da vida e não tem a menor ideia do seu papel na existência. As pessoas o elogiam por seu trabalho, dizem-se inspiradas, melhoradas, mas isso não o satisfaz: são todas iguais. Ele é patético, alguém implorando por uma conexão real em um mundo de falsidade. Maxine era símbolo de algo idealizado, Lisa parece símbolo de algo real, amável e inocente, mesmo que breve. O final é emblemático disso: sua esposa age como se os eventos do filme já tivessem acontecido outras vezes. Temos a ideia de que aquela é a vida desse homem, lidar com dias idênticos, pessoas indistinguíveis, apenas para encontrar alguém especial, cuja singularidade inevitavelmente se corrói com o tempo.

Em 2020 temos essencialmente o clímax do homem sem talento, um finale perturbador, trágico e denso. Estou Pensando em Acabar com Tudo traz Jake (Jesse Plemons), uma memória distorcida de um faxineiro velho (Guy Boyd), que adiciona à história uma mulher inteligente e bonita para ser apresentada aos pais como sua namorada. Esse é o auge de todos os temas de Kaufman: enquanto a ideia do homem sem talento e da mulher idealizada era subtexto, agora é tema de diálogos longos e profundos. Jake é o exemplo perfeito de alguém pateticamente ordinário: inteligente, mas não genial; diligente, mas não perspicaz. Sofre quieto, sozinho, a ponto de precisar imaginar alguém que sequer o ouça. Ele é como um porco abandonado, devorado por larvas, aceitando sua posição cruel no destino.

Craig era desesperado e apaixonado, Michael era perdido, Jake é só… nada. É a decomposição desse homem a um ponto de sub-humanidade, invisível e facilmente substituível. O faxineiro quase não tem falas, quase não tem voz, e até mesmo em seu sonho, onde conquista uma mulher verdadeiramente dele, as memórias corroem essa paisagem: a mãe o diminui, o pai é frio. Até quando ele tem o que queria, é infantilizado pelo mundo. Não acredito que reste ali narcisismo: mesmo no fim, quando canta com uma medalha diante de uma plateia formada pelas pessoas que conheceu, isso não vem de uma necessidade de controle ou propósito, como nos outros dois. É visível apenas o desespero.

A mulher idealizada não é um personagem distante e perfeito: é ativamente nossa perspectiva do filme. Ela é complexa, multifacetada, em larga parte por ser inconsistente. Não é a ideia de alguém que Jake quer controlar ou que acredita merecer, é a ideia de alguém com quem ele possa se conectar, amar. Uma pessoa que pode estar em romances, poemas e filmes, mas também em lojas de sorvete. Uma figura com o formato vago de uma mulher, para preencher o buraco vago em sua alma. Quando o zelador a abraça, existe uma certa inocência, uma melancolia, uma necessidade profunda de ser entendido, cortada pela realidade de sua condição, a tragédia de ter dado azar ao simplesmente nascer.

O homem sem talento está oficialmente morto. Ninguém guarda luto por ele, a não ser as criações de sua cabeça, misturadas às memórias corroídas de uma vida de diligência e nada mais. Nesse ponto, o personagem está em seu estado mais dócil, mais frágil e, por tudo, mais gostável, ou no mínimo em seu ponto mais lamentável: um porco sendo devorado por larvas, apodrecendo na nevasca.

Quando se pensa em exímios artistas, é comum pensar em versatilidade: escritores capazes de dominar múltiplos gêneros, diretores que controlam tons narrativos distintos, músicos que tocam inúmeros instrumentos. Não é o caso de Kaufman. Todos os filmes dele são, em essência, a mesma coisa: a mesma ideia central, o mesmo olhar no espelho cruel e cínico, mas indiscutivelmente fascinante. Como disse o diretor alemão Rainer Werner Fassbinder, em entrevista em ao jornal Another Gaze: “Todo bom diretor só tem um assunto, e finalmente faz o mesmo filme de novo e de novo…”. O assunto de Kaufman é um homem ordinário, patético e sem amor, tentando sobreviver em um mundo sem sentido ou acolhimento. E, no fundo, por mais doloroso que seja, esse personagem representa eu, você e o homem que o colocou em palavras.

Fontes fílmicas

Anomalisa (2015)- Acesso em: 15 set. 2025.

Eu quero ser John Malkovich( 1999)- Acesso em: 15 set. 2025.
https://www.primevideo.com/detail/Being-John-
Malkovich/0IDQZ79R4P4CR6OO4QJKEHRR1Q
Estou pensando em acabar com tudo (2020)-Acesso em: 15 set. 2025.
https://www.netflix.com/br/title/80211559

Fontes de jornalismo
https://www.wired.com/2008/10/ff-kaufman

https://www.rogerebert.com/roger-ebert/the-best-films-of-the-decade Acesso em: 15 set.
2025.
https://www.theguardian.com/film/2009/may/15/synecdoche-new-york Acesso em: 15 set.
2025.

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