Por Lídia Caetano
Com a chegada da primavera e a celebração do Dia da Árvore (21/09), Belo Horizonte se transforma em um mosaico de cores, aromas e ideias. Mais do que uma estação, setembro marca um período de renovação e de consciência. Em meio aos ipês floridos e ao céu intensamente azul, a capital mineira revela um movimento crescente de sustentabilidade urbana, educação ambiental e participação cidadã. A educação ambiental tem ganhado espaço nas políticas públicas brasileiras como ferramenta essencial para formar cidadãos conscientes e atuantes. Em Belo Horizonte, iniciativas como hortas escolares se tornam laboratórios vivos de cidadania, sustentabilidade e inclusão. A primavera é uma oportunidade de ensinar que cuidar da terra é cuidar da vida.

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Educação ambiental que transforma
No Centro Educativo Comunitário Israel Pinheiro, voltada à educação infantil de 0 a 5 anos e localizada na região leste de Belo Horizonte, projetos como “Horta na Escola” têm ganhado força. Crianças aprendem a plantar, compostar e cuidar do meio ambiente com as próprias mãos. A iniciativa é promovida pela Secretaria Municipal de Educação, em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA), por meio de oficinas, mutirões e feiras ecológicas.
Créditos: Evandro Souza
Coordenado por Evandro Souza — servidor público formado em Gestão Pública, com pós- graduação em Desenvolvimento Sustentável e Administração de Programas Pedagógicos — o projeto “Horta na Escola” tem se destacado pela abordagem prática e transformadora. Evandro iniciou sua trajetória social em uma igreja local e, nos anos 2000, atuou no CECIP — Centro Educativo Comunitário Israel Pinheiro — onde estruturou projetos com impacto direto na educação infantil, tornando-se referência na região leste da capital mineira. Entre os projetos dos quais participou estão “Conhecer para Aprender”, “Trailer Teka” e, atualmente, “Horta na Escola”.
O espaço verde da escola tornou-se um ambiente fértil de aprendizado e transformação. Nela são cultivadas diversas hortaliças e plantas, com destaque para as folhagens — carro-chefe do projeto. Entre os cultivos estão alface, couve, almeirão, brócolis, couve chinesa, salsa, cebolinha e coentro. Também já foram plantados tomates, cenouras e beterrabas, ampliando a variedade e o valor nutricional dos alimentos produzidos.

Créditos: Evandro Souza
“A horta parece algo muito simples, mas, ao entender suas minúcias, percebemos que ela pode proporcionar às crianças um nível pedagógico que vai além. Elas observam a criação da fauna e da flora, porque há bichinhos — formigas, joaninhas, besouros — tudo o que é essencial para uma horta orgânica funcionar.” “Os alunos participam ativamente de todas as etapas: desde o preparo da terra até o plantio, os cuidados diários, a colheita e o consumo. Essa vivência prática fortalece o vínculo com a natureza e promove o entendimento sobre os ciclos da vida e da alimentação saudável.” —Evandro Souza, coordenador do projeto.
Desde a implantação do projeto, foram observadas mudanças significativas no comportamento e no desempenho pedagógico dos estudantes. A horta envolve, distrai e melhora a convivência entre crianças, colegas e educadores, estimulando a cooperação e o respeito mútuo. O impacto é ainda mais evidente entre alunos com autismo, que encontram na horta um ambiente acolhedor e terapêutico. Além disso, os estudantes desenvolvem noções de sustentabilidade e passam a compreender com mais facilidade a importância de cuidar do meio ambiente.
“A gente tem que cuidar da natureza, senão ela fica triste.” — João Gabriel, 5 anos, aluno da Escola Israel Pinheiro
Implantado há cerca de três anos, o projeto já beneficiou aproximadamente 600 crianças. As colheitas ocorrem de três a quatro vezes por ano, acompanhando os ciclos naturais das plantações e integrando-se às atividades pedagógicas da escola. A manutenção da horta é realizada de forma colaborativa, envolvendo alunos e funcionários da própria instituição. Essa participação ativa da comunidade escolar fortalece o senso de pertencimento e responsabilidade coletiva, tornando o projeto ainda mais significativo. Manter a horta funcionando ao longo de todo o ano letivo, no entanto, exige dedicação e organização. Um dos principais desafios enfrentados foi engajar os colaboradores na rotina de cuidados, especialmente nos fins de semana, quando a escola está fechada. A designação de responsáveis para esse período tornou-se essencial para garantir a continuidade do projeto. Apesar dessas dificuldades, o apoio da prefeitura na oferta de insumos e mudas tem sido constante, permitindo que a horta continue florescendo — em produtividade, aprendizado e cidadania.
A cidade que cuida de si
Belo Horizonte conta hoje com mais de 80 parques e áreas verdes, segundo dados da SMMA. O Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no coração da cidade, é palco de atividades ambientais durante todo o mês de setembro, como trilhas guiadas, plantio de mudas e exposições sobre biodiversidade urbana. A primavera não é apenas uma estação — é um convite à reflexão, à ação e ao florescimento coletivo. Em cada ipê que colore as ruas, em cada criança que cultiva a terra, a cidade reafirma seu compromisso com um futuro mais verde, consciente e participativo.


