Por João Pedro Diniz

O Athletic Club de Bilbao não é apenas um time de futebol, é um símbolo vivo da resistência cultural do povo basco. Em uma era de globalização extrema no esporte, a política do clube de aceitar apenas jogadores nascidos ou formados futebolisticamente no País Basco representa uma afirmação política e cultural poderosa. Trata-se de uma escolha identitária, profundamente enraizada no sentimento de pertencimento e na valorização das raízes regionais.
A mídia frequentemente oscila entre romantizar essa política como um gesto de pureza esportiva ou criticá-la como um anacronismo. No entanto, essa abordagem muitas vezes negligencia o aspecto mais importante: a luta histórica do povo basco por autodeterminação e preservação cultural frente à repressão do Estado espanhol, especialmente durante o franquismo, quando símbolos e idiomas regionais foram sistematicamente perseguidos. Nesse contexto, o Athletic Club se tornou um espaço de resistência silenciosa, um território simbólico onde a cultura basca não apenas sobreviveu, mas ganhou projeção internacional.

A cidade de Bilbao, marcada por forte identidade regional e passado operário, vê no clube não apenas um time, mas uma extensão do seu próprio povo, das suas lutas e da sua história. A política de contratação não é apenas futebolística, é um manifesto cultural, que inspira debates profundos sobre identidade, pertencimento e autonomia.
Ao resistir ao apelo do mercado global, o Athletic desafia o modelo dominante e propõe uma visão alternativa: a de que é possível competir em alto nível sem abrir mão de princípios, mesmo que isso signifique não vencer tanto quanto os gigantes financeiros do futebol. E isso, por si só, já é uma vitória.
Pessoas de fora dessa região chamam os bascos de xenofóbicos, muito por conta dessa manutenção de sua cultura. Mas os moradores de Bilbao deixam claro que não. Em um documentário do canal Peleja, chamado “Por que nesse clube o Raphinha e o Salah seriam rejeitados”, um torcedor argumenta: “Não praticamos xenofobia, só queremos que nossa cultura seja valorizada. Temos Maroan (atacante do Athletic Club) no elenco, um garoto filho de pais marroquinos, que nasceu aqui e defende nosso povo.”
Essa postura levanta uma questão importante para a mídia: qual o papel dos clubes de futebol na preservação e expressão das culturas locais? No caso do Athletic Club, a resposta parece clara: eles são guardiões da identidade de um povo.


