Fragmentos do Tempo e do Desejo no Cinema de Wong Kar- Wai

Por Ana Valácio

 

Wong Kar-Wai é um diretor que chama atenção no cinema contemporâneo justamente porque seus filmes não seguem o que a gente está acostumado a ver no cinema tradicional. Em vez de contar uma história de forma linear, ele trabalha muito mais com sensações, atmosferas e relações humanas que são atravessadas pelo tempo, pela memória e pelo desejo. “Amores Expressos” (1994), “Amor à Flor da Pele” (2000) e “2046” (2004) são três filmes que, mesmo diferentes entre si, se conectam pelas mesmas questões. Neste texto, pretendo discutir como o diretor constrói essas histórias que parecem mais pedaços de lembranças do que narrativas fechadas, explorando o estilo visual, o ritmo, a estrutura narrativa e, principalmente, o tratamento do amor e do tempo.

O tempo, em sua filmografia, não é uma linha reta. Ele se dobra, se repete, se desfaz. Em “Amores Expressos”, uma espécie de crônica cinematográfica, acompanhamos duas histórias de amor desconectadas entre si, mas unidas pela mesma cidade melancólica e pela solidão dos personagens. O tempo aqui parece sempre fora do compasso, um personagem que conta os dias desde o fim de um relacionamento, outro que compra abacaxis com vencimento marcado, como se quisesse encontrar uma data exata para esquecer alguém. O modo como o tempo cotidiano se torna um marcador afetivo cria uma relação intensa entre a passagem dos dias e a dor do esquecimento.

Em “Amor à Flor da Pele”, o tempo é quase imóvel. O filme caminha devagar, como se cada gesto dos protagonistas carregasse o peso daquilo que não pode ser dito. Os encontros são contidos, os olhares falam mais do que as palavras. Tudo se passa num presente prolongado, em que a repetição parece prender os personagens num ciclo que nunca evolui. Já em “2046”, o tempo é fragmentado por completo, o protagonista escreve ficção para lidar com suas memórias e as linhas entre passado, presente e futuro se apagam. O futuro, o “2046”, é menos uma possibilidade e mais uma prisão onde ele revê, incessantemente, o que perdeu. Nesses três filmes, o tempo é sempre afetivo, subjetivo, mais ligado à memória e ao desejo do que à cronologia. Essa abordagem faz com que o espectador não apenas assista à história, mas entre no fluxo emocional dos personagens.

A estética dos filmes é parte essencial dessa experiência. Wong Kar-Wai tem uma assinatura visual muito marcante. A fotografia, especialmente nos trabalhos com Christopher Doyle, é sempre carregada de cor, contraste e enquadramentos pouco convencionais. Em “Amor à Flor da Pele”, os ambientes são apertados e os personagens são filmados por frestas, janelas, espelhos e cortinas. Há sempre uma barreira visual entre eles e o que desejam. Esses enquadramentos, somados aos movimentos lentos de câmera, criam a impressão de um tempo que se alonga e nunca se resolve. As cores são quentes, dominadas por vermelhos, verdes e dourados, e isso contribui para a sensação de calor emocional e tensão constante, que parece não ter fim.

Já “Amores Expressos” aposta em uma estética mais urbana e acelerada, com muito movimento de câmera, uso de câmera na mão, cortes rápidos e cores vibrantes. É como se a imagem acompanhasse a confusão emocional dos personagens e refletisse um tempo que corre depressa demais. Em “2046”, a fotografia ganha um tom mais sofisticado e melancólico, com muito dourado, preto e vermelho. As cenas parecem ter um brilho artificial, como se fossem lembranças idealizadas ou sonhos.

A trilha sonora também é um elemento fundamental para a criação dessa atmosfera temporal. Wong Kar-Wai costuma repetir músicas ao longo do filme, o que reforça a ideia de obsessão, de lembrança que não passa e de um presente que nunca se encerra. “Yumeji’s Theme”, por exemplo, aparece várias vezes em “Amor à Flor da Pele” e praticamente se torna a marca sonora do desejo contido dos personagens. Em “Amores Expressos”, o uso repetitivo de músicas pop ocidentais como “California Dreamin” vira parte fundamental da narrativa e ajuda a criar a sensação de um cotidiano cíclico, em que os mesmos sentimentos se renovam todos os dias. “2046”, no entanto, mistura música clássica com sons eletrônicos sutis, reforçando essa mistura entre passado e futuro. O som, nos filmes de Wong, nunca está lá só para preencher espaço, ele carrega sentido emocional e temporal, ajuda a marcar o ritmo e muitas vezes substitui o que os personagens não conseguem dizer em palavras.

Outro ponto que merece destaque é a montagem. Os filmes não seguem uma montagem convencional com cortes que priorizam a continuidade. Em vez disso, ele aposta em cortes bruscos, repetições, fusões de imagem, câmera lenta e acelerações. Essas escolhas contribuem para uma percepção de tempo subjetivo, em que não sabemos ao certo quando as coisas começam ou terminam. Em algumas cenas de “Amores Expressos”, por exemplo, o fundo parece estar acelerado enquanto o personagem se move em câmera lenta, o que dá uma sensação de deslocamento emocional e temporal. “2046” utiliza os saltos temporais e o entrelaçamento entre realidade e ficção para confundir o espectador de forma proposital, não para dificultar a compreensão, mas para mostrar que a experiência do tempo é sempre fragmentada. E em “Amor à Flor da Pele”, há cenas que se repetem com pequenos detalhes diferentes, como se estivéssemos vendo a mesma memória sendo revisitada várias vezes na mente dos personagens.

 

 

O amor, nesses filmes, nunca é simples. Na verdade, ele quase sempre aparece como algo impossível, interrompido ou que simplesmente não dá certo, e em todas essas histórias, o tempo desempenha um papel central, seja como obstáculo, seja como espaço de nostalgia. Em “Amor à Flor da Pele”, os dois protagonistas se aproximam por causa da traição dos parceiros, mas ficam presos na dor e no receio de repetir os erros. Eles criam um vínculo muito forte, mas não deixam esse sentimento se realizar. É tudo muito contido, cheio de gestos não feitos, como se o tempo deles tivesse parado no instante em que descobriram a traição. Já em “2046”, o protagonista tenta se envolver com outras mulheres, mas está claramente preso ao passado. É como se ele procurasse a mesma mulher em todas as outras, sem nunca conseguir esquecer de verdade. No enredo de “Amores Expressos”, os encontros são passageiros. Quando um personagem está pronto para amar, o outro já foi embora. Em todos esses casos, o amor é tratado como algo que poderia ter sido, mas não foi, e isso gera uma dor que os personagens carregam.

A estrutura dos roteiros acompanha essa proposta. Wong Kar-Wai escreve de forma não convencional, muitas vezes construindo os filmes a partir da montagem, e não de um roteiro fixo. Isso faz com que seus filmes pareçam mais vividos do que escritos. A impressão que fica é de que o espectador acompanha um tempo interior, cheio de sobreposições, em vez de uma narrativa ordenada. Em “Amores Expressos”, duas histórias completamente separadas convivem no mesmo filme. Em “2046”, há camadas de narrativa, a história do escritor, os trechos do livro que ele escreve e suas memórias reais ou distorcidas. Já em “Amor à Flor da Pele”, o roteiro é quase mínimo, deixando o peso da narrativa nas pausas, nos olhares, nos gestos e nas músicas. E a narração em off, que aparece com frequência, não serve apenas para explicar o que está acontecendo, mas funciona como um diário emocional, como uma forma dos personagens falarem o que não conseguem externar.

No fim das contas, ele consegue transformar coisas simples, um olhar, uma música, um corredor estreito, em cenas carregadas de emoção. O tempo passa, o mundo muda, mas o que eles sentem continua ali, preso dentro deles. Assistir a esses três filmes juntos dá a sensação de que a gente está vendo diferentes versões de uma mesma história, uma história sobre o amor que não se realiza, sobre a memória que insiste em ficar e sobre um tempo que não se deixa esquecer. É um cinema que não quer entregar tudo de bandeja, ele quer que a gente sinta, com o mesmo silêncio e intensidade dos personagens, essa experiência temporal que molda cada escolha, cada gesto e cada perda.

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