
Por Tom Schuenk
A recente aventura dos Estúdios Marvel traz de volta personagens que em suas introduções ao Universo Cinematográfico (UCM) eram coadjuvantes ou antagonistas, mas que agora assumem o protagonismo e o heroísmo.
Eric Pearson já é veterano em adaptar os quadrinhos da Marvel para o UCM, mas aqui ele vai um pouco além. Diferente de Thor: Ragnarok e Viúva Negra, ambos roteirizados por ele, nesse filme ele não está limitado a escrever uma sequência ou um filme de uma personagem cujo destino todos já conhecem. Sua liberdade criativa é o que brilha no filme. Escolher personagens com histórias e índoles agridoces e fazer o público se importar com eles não é tarefa fácil. Mergulhar em temas mais sérios e manter o timing cômico é alvo de crítica em algumas produções do estúdio, mas felizmente não acontece aqui.
Florence Pugh é uma das melhores atrizes de sua geração, e aqui ela demonstra mais uma vez o porquê. O charme e carisma de Yelena estão de volta, mas não só isso: uma camada foi acrescentada à sua personagem. O luto por sua irmã e o sentimento de abandono pelo pai afetam sua vida pessoal, que é deixada de lado para se envolver 100% com o trabalho. Além do luto, o filme lida com a frustração de alguns personagens. Frustrações e arrependimentos consequentes de eventos de produções anteriores. E é assim que o filme começa, com a personagem sem expectativas e esperanças.
O longa ainda introduz Bob (Lewis Pullman), um personagem que apresenta características de um paciente com transtorno de ansiedade e depressão, além de ser dito pelo próprio que, em uma fase da vida, fez uso de substâncias ilícitas. Bob é a força motora do roteiro, é ele quem faz com que nossos personagens não se separem assim que possível. O personagem de Lewis Pullman é construído de forma que o espectador se afeiçoa a ele logo de cara, então todos os momentos de tensão e perigo envolvendo o personagem se tornam mais interessantes para o público. Ele é um personagem misterioso e, assim que Valentina (Julia Louis-Dreyfus) assume o controle da situação e consegue manipulá-lo, os problemas mais sérios começam a aparecer.
O Vazio, o grande “vilão” do filme, não machuca suas vítimas com ataques físicos. O roteiro mesmo esclarece que não existe morte naquele lugar, apenas dor, e vemos, através de Yelena e Bob, qual o tipo de dor o antagonista tenta causar: ele força a pessoa a reviver seus momentos mais dolorosos e cruéis.
No fim, Thunderbolts*, além de preparar terreno para o próximo filme dos Vingadores, é um filme de cura interior dos personagens. Ao juntar um grupo de assassinos de aluguel para uma missão quase impossível, o roteiro junta também um grupo de pessoas capazes de se entender e de se ajudar. Mesmo com piadinhas e ironias, o longa é muito competente ao mostrar a jornada de cura emocional dos personagens e deixa a mensagem de que até mesmo os super- heróis têm seus problemas com saúde mental e precisam de ajuda.


