Por: Larissa Cocenza

As mídias sociais oficiais do Governo dos Estados Unidos (The White House), assim como de qualquer outro governo no mundo, são os veículos que deveriam comunicar as ações governamentais de maneira responsável, para os residentes no país que têm diferentes opiniões políticas. Porém, o governo de Donald Trump decidiu fazer exatamente o contrário.
O objetivo da estratégia atual é gerar polarização, revolta, aceitação de um grupo seleto e, consequentemente, a viralização dos conteúdos. Adotando essa lógica, o Governo dos Estados Unidos tem como objetivo instituir que aquele país está sendo reformado para um grupo de pessoas e que os outros não são dignos dele. Para Trump, minorias marginalizadas, imigrantes e opositores são apenas personagens do seu show.
Em um vídeo publicado recentemente pela Casa Branca no Instagram, o Governo dos EUA divulga uma espécie “ASMR”, uma categoria de conteúdo que é comumente utilizada para meditação e relaxamento. A “ironia” presente neste vídeo é desumana: sons de correntes e algemas que prendiam imigrantes ilegais que estavam sendo deportados. Ou seja, para o Governo Trump, é prazeroso e tranquilo o som daquilo que aprisiona e humilha aqueles imigrantes.

Este é apenas um exemplo do universo midiático criado pelo segundo governo de Donald Trump. Ao contrário do seu mandato de 2017 a 2021, agora não há nenhum tipo de engajamento com discursos de justiça e inclusão, já que Trump está despreocupado com qualquer tipo de limite, até mesmo com o cumprimento dos direitos humanos. O que eles estão fazendo é integrar as políticas idealizadas pela extrema direita nas plataformas digitais, quase sempre como se fosse uma brincadeira.
Este ano, houve uma trend nas mídias sociais de representar uma foto original através de IA, como se ela houvesse sido desenhada por um famoso estúdio de animação japonês, o Studio Ghibli. Para ridicularizar a deportação de uma imigrante, os administradores das contas da Casa Branca publicaram uma imagem, gerada nestes moldes, da mulher chorando ao ser algemada pelo agente de segurança. Ou seja, eles “entraram na trend” ironizando o sofrimento da deportada.
Em resposta à indignação em torno da publicação sobre a deportada, o vice-diretor de comunicações da administração, republicou a imagem, prometendo que “as prisões continuarão. Os memes continuarão”. As declarações, não só de Trump mas de todos os integrantes de seu governo, são a prova de que eles não querem informar o povo de maneira íntegra através dos seus canais de comunicação, pois transformaram estes em uma brincadeira.
As imagens geradas por Inteligência Artificial são comuns nas publicações, inclusive aquelas feitas do próprio Presidente. Trump não se mostra sério nas mídias sociais: participa como um personagem, sempre exaltado nas publicações. Um exemplo que gerou revolta de muitos usuários das plataformas foi a postagem da imagem de Trump com os trajes de Papa (gerada através de IA), menos de uma semana após o falecimento do Papa Francisco.

Mas por que eles ironizam tudo?
De acordo com Sonia Gipson Rankin, professora de direito na Universidade do Novo México, o uso que Trump faz das redes sociais, as imagens de inteligência artificial e os “apelos diretos através de influenciadores partidários” criou “um espaço de versões alternativas dos acontecimentos onde o governo não está preso à realidade”.
Para a professora e pesquisadora, em entrevista à Agence France-Press (AFP), “em seu segundo mandato, a preocupação é que esta câmara de eco possa ficar ainda mais isolada”. Por isso, o governo Trump também não se preocupa em conquistar os veículos de notícias tradicionais e seus opositores. Eles apenas criam o seu próprio universo midiático, talvez com a intenção de normalizar o absurdo.
Essa insensibilidade através da comunicação, e principalmente a falta de regulamentação de postagens ofensivas, pode abrir portas para políticas que desumanizam ou tornam grupos minoritários ainda mais vulneráveis. A normalização dos discursos apresentados neste texto é uma ameaça da extrema direita à democracia, uma vez que eles conseguem criar um grupo cada dia maior e com mais ódio por aqueles que precisavam, principalmente, de políticas públicas e cuidado governamental.
Os discursos de ironia e que normalizam postagens com temáticas absurdas nos Estados Unidos deve ser um alerta para as demais democracias do mundo. Com a ascensão da extrema direita, é preciso denunciar práticas como essas para impedir que elas se tornem comuns e se espalhem cada vez mais.
Referências:


