Arte e Cangaço: o marco cultural da música e da dança dos cangaceiros

Por: Jeania Cristine

O Cangaço foi um fenômeno social que sucedeu no Nordeste brasileiro entre os anos de 1870 e 1940. Surgiu em um contexto de uma sociedade marcada pela ausência do apoio do Estado, muita violência, seca, fome, precariedade e injustiça tremenda. Essas influências sociais geraram como consequência a formação dos grupos de cangaceiros, inicialmente apenas homens, que se uniram para fazer justiça com as próprias mãos e lutar para sobreviver nesse cenário de miséria por meio do banditismo.

Em meio a essa realidade de fuga das volantes, sol escaldante em uma terra árida, troca de tiros, vida e morte por um triz, esconderijos, vitórias, derrotas e sangue, os cangaceiros criaram cultura própria como visto na dança, com o Xaxado, na moda, com o Chapéu de Cangaceiro, e também na música. As canções do cangaceirismo são de grande relevância na cultura brasileira, influenciando estilos musicais do Nordeste e tornando-se símbolo de luta, resistência e legado.

A música é um elemento de expressão política utilizada em lutas sociais em diversos momentos no Brasil, como nos movimentos contra a ditadura militar, a favor das “Diretas Já”, e também no Cangaço. Nesse sentido, a música se torna um mecanismo de afirmação da existência e posicionamento de um indivíduo e no cangaceirismo não foi diferente. Criaram dentro de seus grupos canções com letras que celebram sua luta, relatam a árdua caminhada de sobrevivência, sofrimento da perda pela morte de companheiros, se divertiam, encontravam refúgio e, além disso, através dessa significativa ferramenta, deram voz a sua causa de maneira única, construindo marcas no estilo musical nordestino propagando o nome do Cangaço pelo país afora.

Um grande símbolo musical do cangaço é a canção “Acorda Maria Bonita” de autoria do cangaceiro Volta Seca, que exalta a beleza das mulheres cangaceiras nordestinas em referência à Maria Bonita. Volta Seca (Antônio dos Santos), após a morte de Lampião em 1938, ficou fugitivo e foi pego pela polícia em 1944. Cumpriu pena por 20 anos e conseguiu um perdão oficial de Getúlio Vargas. 5 anos após sua saída da prisão, produziu seu único disco chamado “Cantigas de Lampião” com 8 de suas canções que eram cantadas pelo grupo de Lampião. As músicas são: “Acorda Maria Bonita”, “A Laranjeira”, “Ia pra Missa”, “Mulher Rendeira”, “Se Eu Soubesse”, “Sabino e Lampião”, “Escuta Donzela” e “Eu Não Pensei Tão Criança”.

Ressalta-se que algumas músicas do cangaço são de autoria anônima, sendo atribuída e repassadas a vários membros do bando que posteriormente foram gravadas por Volta Seca. O registro histórico da produção das canções feito pelo ex-cangaceiro marca a passagem de glória e sofrimento descrevendo seus confrontos, a religiosidade, os arrependimentos, suas reflexões e outros aspectos sobre o cotidiano do grupo. O álbum é mais do que um documento histórico, é uma prova de que mesmo inserido em uma condição austera e penosa, a arte surge como a beleza de mandacaru numa paisagem de seca extrema no sertão, um canto como o barulho de chuva aos ouvidos do sertanejo que celebra sua ferrenha jornada na caatinga. Reafirma que um povo marginalizado em situação de combate são indivíduos que resistem e conectam suas identidades através da poesia musical. As canções do cangaço, feitas por Volta Seca, são uma fonte rica de expressão que inspirou outras produções artísticas como o cinema, teatro e literatura.

Em meio à caatinga, nos acampamentos dos cangaceiros, a música vinha acompanhada pela dança. É onde foi popularizado o Xaxado, que era uma forma de comemoração e entretenimento dos cangaceiros. Na coreografia, os cangaceiros dançavam com os rifles (simbolizando parceiras femininas) e batiam com a coronha da arma no chão produzindo um som rítmico com as canções cantadas por eles. Segundo o texto “Xaxado: expressão da história e da cultura nordestina”:

“Dançavam em fila indiana, o da frente, sempre o chefe do grupo, puxava os versos cantados e o restante do bando respondia em coro, com letras de insulto aos inimigos, lamentando mortes de companheiros ou enaltecendo suas aventuras e façanhas. ​A dança que nasceu nas brenhas da caatinga nordestina surgiu como uma alternativa para aliviar o tédio e as agruras dos cangaceiros que fervilhavam pelas matas secas, espinhosas e poeirentas da região mais árida do país.”

A dança e as cantigas do Cangaço se tornaram grandes influências para fortes nomes na cultura musical brasileira, trazendo a presença de personagens fascinantes e emblemáticos da história do Nordeste como Lampião, Virgínio e Maria Bonita para a indústria musical nacional. O Cangaço inspirou artistas como Jackson do Pandeiro, Marinês, Sérgio Ricardo, Zé Ramalho e principalmente, Luiz Gonzaga, que em suas músicas e figurinos fazia referência ao estilo dos cangaceiros.

A arte do Cangaço é um exemplo de que a produção popular tem um potencial de mover pautas sociais ao longo do tempo, mantendo viva a memória de força dos personagens que construíram o cangaceirismo. A arte popular carrega significado, sangue, grita a vida e a morte e faz registros. A figura dos cangaceiros divide opiniões de pesquisadores e admiradores do tema – se são bandidos, heróis ou outra coisa. Porém, é inegável que são ícones de produções culturais nordestinas, suas canções transmitem a valentia e a coragem.

A música, dança e a moda têm o poder de integrar o sentimento de pertencimento e identificação com um grupo social, práticas que os cangaceiros utilizavam com intensidade e originalidade. Hoje, esses elementos são heranças históricas e símbolos da capacidade da arte de repassar adiante a força e a resistência de um povo que já terminou sua luta, mas o exemplo de revolta e coragem manterá suas marcas na cultura e memória do país.

Jeania Cristine é graduanda do 3º período do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas.

Referências Bibliográficas:

PISADA DO SERTÃO. Xaxado: expressão da história e da cultura nordestina. Disponível em: https://www.pisadadosertao.org/xaxado. Acesso em: 13 jun. 2025.

HISTÓRIAS, LETRAS E VOZES. Volta Seca: música e cangaço em terras nordestinas. Disponível em: https://historiasletrasvozes.com.br/2020/08/volta-seca-musica-e-cangaco-em-terras-nordestinas/. Acesso em: 13 jun. 2025.

NEXO JORNAL. A história do cangaço: mito, estética e banditismo no sertão. Nexo Jornal, 2 set. 2018. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/explicado/2018/09/02/a-historia-do-cangaco-mito-estetica-e-banditismo-no-sertao. Acesso em: 12 jun. 2025.

MUNDO EDUCAÇÃO. Cangaço. Disponível em:
https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/cangaco.htm. Acesso em: 13 jun. 2025.

Um comentário em “Arte e Cangaço: o marco cultural da música e da dança dos cangaceiros

  1. É com muito orgulho e prazer que parabenizo a Jeania por esse belíssimo e incontestável trabalho.A Jeania é minha filha,ela é
    neta de Moreno e Durvinha,ex cangaceiros do bando de Lampião e Maria Bonita.Parabéns minha filha, por esse histórico trabalho que ora chega ao conhecimento do público.

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