Por: João Pedro Diniz
O documentário Os Homens que Venderam a Copa (The Men Who Sold the World Cup), lançado em 2021 pela Sky Documentaries e NBC, investiga os esquemas de corrupção dentro da FIFA que levaram à escolha do Catar como sede da Copa do Mundo de 2022. Com uma abordagem investigativa, a produção revela como um sistema de subornos, acordos políticos e influência financeira moldou uma das decisões mais controversas da história do futebol. Baseando-se em depoimentos de jornalistas, ex-dirigentes e especialistas, o documentário reconstrói os bastidores do FIFAgate, o maior escândalo de corrupção da entidade máxima do futebol.
Ele se destaca pelo seu caráter jornalístico sólido, utilizando entrevistas e materiais exclusivos para expor como o Catar, um país sem tradição futebolística e com condições climáticas adversas, conseguiu vencer a concorrência de nações com mais estrutura esportiva e histórica. A obra conta com a participação de jornalistas como Heidi Blake e Jonathan Calvert, do Sunday Times, que lideraram investigações sobre o esquema de compra de votos. Essas denúncias foram fundamentais para as investigações que, anos depois, levaram à prisão de diversos dirigentes da FIFA e à queda de Sepp Blatter, então presidente da entidade.
No entanto, apesar de sua importância na exposição dos bastidores corruptos do futebol mundial, Os Homens que Venderam a Copa possui algumas limitações. A produção foca principalmente na corrupção dentro da FIFA e no processo de escolha da sede do Mundial de 2022, mas trata de forma superficial outras controvérsias envolvendo o Catar, como denúncias de exploração de trabalhadores migrantes, violações de direitos humanos e restrições às liberdades individuais. Esses temas são mencionados, mas não recebem a mesma profundidade da investigação sobre os subornos e tráfico de influência.
O impacto do documentário na mídia contemporânea é significativo, pois reforça a percepção de que grandes eventos esportivos não são apenas uma questão de paixão pelo esporte, mas também um jogo de poder, dinheiro e geopolítica. A produção contribuiu para o debate sobre transparência e governança no futebol, gerando questionamentos sobre os processos de escolha de sedes e a moralidade da FIFA. Além disso, o documentário se insere em um contexto mais amplo de crescimento do jornalismo investigativo no esporte, ao lado de outras produções como FIFA Uncovered (Netflix), que exploram os bastidores da entidade máxima do futebol.
Apesar de sua repercussão, o impacto prático do documentário na governança da FIFA ainda é limitado. Embora o FIFAgate tenha resultado em prisões e afastamentos de dirigentes, a estrutura da FIFA continua sendo alvo de críticas por falta de transparência, e a prática de sportswashing – onde governos usam eventos esportivos para melhorar sua imagem internacional – segue sendo uma realidade.
O documentário Os Homens que Venderam a Copa tem uma forte conexão com o livro Jogo Sujo: O Mundo Secreto da FIFA (2014), escrito pelo jornalista Andrew Jennings. Considerado um dos mais importantes repórteres investigativos da história do esporte, Jennings foi pioneiro na denúncia de esquemas de corrupção dentro da FIFA, revelando décadas de práticas ilegais que beneficiaram dirigentes e empresas parceiras da entidade. Seu livro expõe como nomes como João Havelange e Sepp Blatter consolidaram um sistema de subornos, tráfico de influência e enriquecimento ilícito, que se perpetuou por gerações no comando do futebol mundial.
Enquanto o livro de Jennings fornece uma visão abrangente e detalhada da corrupção dentro da FIFA ao longo das décadas, o documentário tem um recorte mais específico, focando no escândalo envolvendo a escolha do Catar para a Copa do Mundo de 2022. O livro oferece uma investigação mais profunda, abordando casos históricos e detalhando documentos e depoimentos obtidos pelo jornalista, enquanto o documentário utiliza uma narrativa mais visual e acessível ao público geral, com reconstituições de eventos e entrevistas dinâmicas.
A relação entre Os Homens que Venderam a Copa e Jogo Sujo reforça a tese de que a corrupção no futebol não é um fenômeno isolado, mas sim um sistema estrutural que se manteve por décadas. Ambos os trabalhos demonstram como a FIFA, uma organização que deveria zelar pelo esporte, tornou-se um centro de negociações obscuras e interesses políticos e financeiros. Apesar de suas diferenças de abordagem, tanto o livro quanto o documentário têm um papel fundamental na exposição dos bastidores do futebol e na pressão por mais transparência na gestão do esporte.
Embora a FIFA tente reconstruir sua imagem após os escândalos, o impacto dessas investigações vai além do futebol. A crescente produção de conteúdos jornalísticos e documentários investigativos sobre corrupção no esporte mostra que há um interesse contínuo do público em entender o que acontece nos bastidores. Isso gera um impacto na forma como os torcedores, patrocinadores e até mesmo os governos percebem a entidade e suas decisões.
O grande desafio é transformar essa indignação em mudanças reais dentro da FIFA e de outras organizações esportivas. A corrupção no futebol não é um problema recente, e as investigações revelam que, apesar das punições a alguns dirigentes, a estrutura de poder dentro da FIFA continua permitindo que interesses políticos e financeiros se sobreponham ao espírito esportivo. Tanto Jogo Sujo quanto Os Homens que Venderam a Copa são fundamentais para manter esse debate vivo, denunciando práticas ilícitas e questionando a governança do futebol mundial.
No fim das contas, essas obras não apenas expõem o lado obscuro do futebol, mas também nos fazem refletir sobre o impacto do dinheiro e da política no esporte que move paixões em todo o mundo. Mesmo que suas denúncias não tenham sido suficientes para reformar a FIFA completamente, elas ajudam a construir uma conscientização maior entre os torcedores e pressionam por mudanças que possam tornar o futebol mais justo e transparente no futuro.