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A obra "Encontro Marcado", em frente à Biblioteca Pública de Belo Horizonte,com estátuas dos autores Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos.
A obra "Encontro Marcado", em frente à Biblioteca Pública de Belo Horizonte.

Fortalecendo a Cultura: Políticas Públicas e o Papel da Literatura em BH 

As políticas públicas são fundamentais para manter a cultura literária viva e para ajudar cada cidadão a desenvolver seu papel socialmente.

Belo Horizonte tem se destacado nos últimos anos por adotar políticas públicas que visam democratizar o acesso à cultura e à literatura. Com investimentos crescentes e projetos inovadores, a cidade aposta na literatura como pilar de inclusão social, formação cidadã e desenvolvimento cultural, mas ainda enfrenta o desafio de formar novos leitores e garantir o acesso pleno à cultura. 

Programas como a Lei Municipal de Incentivo à Cultura (LMIC) e a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) têm injetado recursos importantes para fomentar a produção artística local. No entanto, desafios como burocracia, desigualdade no acesso e descontinuidade de projetos ainda limitam o real alcance dessas iniciativas — especialmente em relação à formação de novos leitores e ao fortalecimento da literatura mineira. 

Crédito: PNAB

Políticas Públicas em Ação: Investimento e Direcionamento 

Em 2024, a Prefeitura de Belo Horizonte destinou R$ 45 milhões às atividades culturais, sendo R$ 15 milhões da PNAB e R$ 30 milhões do orçamento municipal. Já os editais da LMIC de 2025 contam com R$ 16 milhões via renúncia fiscal. Esses valores refletem uma visão estratégica: a cultura como vetor de transformação social e desenvolvimento humano.  

Segundo dados da Secretaria Municipal de Cultura, mais de 400 projetos culturais foram contemplados apenas em 2024, com foco em literatura, teatro, audiovisual, música e formação de público. Boa parte deles se desenvolve em regiões periféricas da cidade, onde o acesso à cultura foi limitado historicamente. 

Essas políticas públicas têm papel fundamental na valorização da literatura local ao fomentar autores independentes, projetos de incentivo à leitura e eventos que aproximam o livro da comunidade. Além disso, contribuem para a geração de renda e dinamização da economia criativa. 

O Desafio da Formação Leitora 

Apesar dos investimentos, os índices de leitura ainda estão em declínio, especialmente entre crianças e adolescentes. Dados da Câmara Mineira do Livro mostram que o percentual de leitores no Ensino Fundamental I caiu de 49% (2019) para 40% (2024). Entre crianças de 5 a 10 anos, houve redução de 71% para 62% no mesmo período. 

Essa queda preocupa especialistas, pois o hábito da leitura está diretamente ligado ao desempenho escolar, à capacidade de interpretação e ao desenvolvimento do pensamento crítico. De acordo com o Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), crianças que leem desde cedo têm maior facilidade de aprendizado, maior empatia e melhor desempenho acadêmico ao longo da vida. 

Criança lendo gibi da turma da Monica / Crédito: Victor Oliveira 

A inspetora escolar Zeilzia da Silva, da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, reforça que: 

“A leitura precisa ser uma experiência afetiva desde os primeiros anos de escolarização. Quando isso acontece, a criança constrói um vínculo que vai além da escola. Ela se torna leitora de mundo.” 

Bibliotecas Públicas: Pontos de Cultura e Formação Leitora 

Em Belo Horizonte, as bibliotecas públicas exercem um papel fundamental na formação leitora e na democratização do acesso ao livro. Com acervos amplos e gratuitos, esses espaços funcionam como verdadeiros núcleos de resistência cultural e promoção da cidadania. Entre os destaques está a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil (BPIJ), localizada na Praça da Estação, um dos principais pontos de efervescência cultural da capita mineira. 

Fachada da Biblioteca pública infantil e juvenil / Crédito: Ricardo Laf 

A BPIJ é voltada especificamente para o público infantojuvenil e abriga mais de 20 mil títulos, com obras de literatura brasileira, estrangeira, quadrinhos, clássicos infantis, livros acessíveis e acervo pedagógico. Com espaços lúdicos e programação permanente — como contação de histórias, oficinas de escrita criativa, clubes de leitura e sessões de cinema —, a biblioteca atrai famílias, estudantes e educadores de todas as regiões da cidade. Muitos eventos são realizados em parceria com escolas públicas e ONGs culturais, reforçando a ligação entre educação formal e formação cultural. 

Outro destaque são as bibliotecas instaladas nos Centros Culturais da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), como os dos bairros Alto Vera Cruz, São Bernardo, Venda Nova e Salgado Filho. Essas bibliotecas são parte integrante de uma política de descentralização do acesso à cultura, voltada especialmente para regiões com menos aparatos culturais. Elas oferecem não apenas o empréstimo de livros, mas também acesso gratuito à internet, rodas de leitura, saraus e oficinas. Em muitos casos, são o único espaço público de leitura nos bairros em que estão localizadas. 

Segundo a Fundação Municipal de Cultura, mais de 250 mil atendimentos foram realizados pelas bibliotecas públicas da cidade em 2023, incluindo empréstimos, visitas escolares, oficinas e eventos. Esses números reforçam a importância de manter e expandir essa rede, tanto em infraestrutura quanto em programação e acervo atualizado. 

Ao lado da Biblioteca Pública Estadual, que possui mais de 500 mil títulos em seu acervo, essas instituições formam uma rede de leitura e conhecimento que precisa ser fortalecida continuamente. A integração dessas bibliotecas com eventos como a Bienal Mineira do Livro e projetos como a Jornada Literária tem potencial para consolidar uma cultura leitora duradoura e transformadora.

Leia o QRcode para cessar um mapa interativo das bibliotecas públicas de Belo Horizonte

Literatura em Movimento: Iniciativas Públicas Transformadoras 

Muitos dos projetos contemplados pelas políticas públicas vêm atuando diretamente na formação de leitores e na valorização da produção local. Entre os destaques estão: 

Pitch Literário na Expo Favela 2024: A iniciativa promoveu autores e editoras independentes de BH e da Região Metropolitana. Graças ao apoio da LMIC, vários livros foram publicados e distribuídos gratuitamente em comunidades e escolas. 

Jornada Literária das Escolas Públicas de BH: Alunos participaram da criação de livros coletivos com temáticas relacionadas às culturas indígenas, às afro-brasileiras e à história local. 

Clube da Leitura Urbana: Projeto itinerante que promove encontros literários em praças, ônibus e espaços públicos, levando livros e autores para lugares não convencionais. 

Bibliotecas Vivas: Reestruturação e reativação de bibliotecas comunitárias nas regiões Barreiro, Venda Nova e Norte, com acervo novo, mediações de leitura e atividades culturais semanais. 

Festa do Livro da UFMG e Festival de Verão: Espaços de encontro entre literatura, música, oralidade e performance, com foco em narrativas periféricas e ancestrais. 

Esses projetos mostram como a cultura, quando acessível e descentralizada, atua diretamente na redução das desigualdades sociais e na ampliação de repertórios. 

Seminário Beagalê: Fortalecendo a Leitura na Era Digital 

Realizado anualmente desde 2007, o Seminário Beagalê é uma iniciativa da Prefeitura de Belo Horizonte, em parceria com o Instituto Lumiar, que visa qualificar profissionais das áreas do livro, leitura, literatura e bibliotecas. O evento se consolidou como um espaço de encontro e debate sobre práticas leitoras, especialmente diante dos desafios impostos pela era digital.  

A 15ª edição do seminário ocorreu nos dias 29 e 30 de maio de 2025, na Rua Espírito Santo, 605, 7º andar, no Centro de Belo Horizonte. Com o tema “Entre páginas e desafios: leitura em tempos de desatenção”, o evento promoveu mesas redondas, conferências e oficinas conduzidas por especialistas em literatura, educação, pedagogia e ciência da informação. O objetivo foi estimular a reflexão sobre as práticas leitoras no cenário contemporâneo, marcado pela superexposição à tecnologia digital. 

A conferência de abertura, intitulada “Leitura em tempos de desatenção: a biblioteca que queremos”, foi ministrada pela doutoranda em Ciência da Informação pela UFMG e escritora de literatura infantil e juvenil Andreza Félix, doutoranda em Ciência da Informação pela UFMG e escritora de literatura infantil e juvenil. A palestra abordou o papel fundamental das bibliotecas num contexto de múltiplas desatenções forjadas na era tecnológica.  

O Seminário Beagalê complementa outras iniciativas culturais da cidade, como a Bienal Mineira do Livro e os projetos literários mencionados anteriormente, ao promover a formação contínua de mediadores de leitura, educadores e bibliotecários. Essas ações integradas fortalecem a cadeia produtiva do livro e ampliam o acesso à leitura, especialmente em comunidades periféricas e rurais de Minas Gerais 

Bienal Mineira do Livro 2025: Cultura em Grande Escala 

A Bienal Mineira do Livro, que aconteceu entre 3 e 10 de maio de 2025, no Centerminas Expo, é considerado um dos maiores eventos literários do Brasil neste ano, reunindo mais de 100 expositores, 200 autores e uma estimativa de mais de 100 mil visitantes. 

Essa edição foi especialmente marcada pelo incentivo à produção literária mineira e à participação de autores independentes, fruto do fortalecimento das políticas públicas locais. Parte da programação da Bienal foi construída com base em editais da LMIC e da PNAB, o que garantiu diversidade de vozes, temas e formatos. Oficinas de escrita, debates com escritores indígenas e saraus poéticos serão destaque. Paloma destaca como a Bienal vai além do livro:  

“A Bienal desempenha um papel fundamental no incentivo da leitura aqui em Belo Horizonte, em Minas, porque muita gente das cidades ao redor vem, as promoções de livros facilitam o acesso das pessoas. Tem muita e excursão que as escolas fazem, é um grande evento literário” 

Perspectivas e Recomendações 

Minas Gerais possui um dos maiores acervos públicos do país, com mais de 500 mil títulos disponíveis apenas na Biblioteca Pública Estadual, e o maior número de bibliotecas comunitárias do Brasil. Ainda assim, 48% dos mineiros não se consideram leitores habituais (dados da Câmara Mineira do Livro e do Instituto Pró-Livro). 

Isso revela não só um desafio, mas uma oportunidade. Se esse público for incorporado à cadeia produtiva do livro, haverá um crescimento potencial de até 48% no mercado editorial mineiro, o que representa mais emprego, mais leitura e mais cidadania. 

O cenário deixa claro: é necessário fortalecer a articulação entre as políticas públicas de cultura e de educação, garantindo continuidade, acesso, formação de mediadores e valorização da produção literária local. Só assim será possível formar uma geração leitora, crítica e protagonista. 

Confira os outros capítulos dessa reportagem especial:

Reportagem produzida por Daniel Langsdorff Castro, Henrique Junger Vilela, Ian Luiz Almeida de Oliveira Lima, Lucas Maia Gomes, Lucas Oliveira de Castro Faleiro, Lucas Parreiras dos Santos Gomes e Victor Souza para a disciplina Laboratório de Jornalismo Digital sob a supervisão da professora Luana Viana.

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