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Usando uma blusa verde-claro e uma calça jeans bege-claro, a jornalista segura uma caneca branca com um sol e a letra “N” na frente.
A jornalista com uma caneca no estúdio do telejornal/Arquivo Pessoal

Bruna Borges: quando o jornalismo se constrói com o outro

“Se a gente não faz diferença na vida do outro, será que o nosso trabalho faz sentido?”, questiona Bruna Borges

Escolher Bruna Borges como personagem deste perfil é também escolher observar o jornalismo a partir da ideia de pertencimento. Durante toda a entrevista, a jornalista retorna constantemente ao coletivo: aos telespectadores, aos vizinhos, aos colegas de redação e aos moradores que procuram a emissora em busca de ajuda. Além de falar sobre carreira, Bruna também fala sobre relações humanas.

Assim, uma das personas que compõem Bruna Borges transparece: a pessoa empática e amorosa com o próximo. Demonstrou o carinho pela família, pelos amigos, colegas de escola e faculdade, pelos companheiros de trabalho e pelos moradores da cidade onde vive.

Natural de Lagoa da Prata, na região Centro-oeste de Minas Gerais, considera-se divinopolitana, por ter se mudado para Divinópolis, localizada a cerca de cem quilômetros do local de nascimento, quando tinha poucos meses de vida. Estudou a vida toda em escola pública, sendo primeiro em um colégio municipal e, depois, na Escola Estadual Dona Antônia Valadares, onde concluiu o ensino médio. Foi lá que criou raízes e plantou a semente da  profissional que gostaria de se tornar.

“Eu sempre fui muito observadora e, hoje, olhando para trás, lembrando do ensino médio e das relações da infância e adolescência eu sempre tive muita facilidade de ouvir. Talvez mais para ouvir do que para falar. Quem trabalha para o jornalismo hoje sabe que para ser um bom jornalista e para trabalhar com comunicação precisamos de paciência para ouvir”, conta Bruna.

O interesse pela comunicação começou a tomar forma ainda no ensino médio, entre a familiaridade com a escrita, o gosto pela leitura e a curiosidade sobre as relações humanas. Foi nesse período que Bruna passou a perceber, ainda de maneira intuitiva, uma inclinação para a escuta e para os processos de comunicação. A certeza do caminho profissional, porém, viria alguns anos depois, durante a graduação em Comunicação Social pela então Funedi, atual Uemg, em Divinópolis. Entre as diferentes possibilidades oferecidas pelo curso, a televisão gradualmente deixou de ser apenas um interesse e passou a ocupar um lugar central na trajetória profissional.

O primeiro contato com a TV

A aproximação com o telejornalismo aconteceu cedo. Ainda no terceiro período da faculdade, incentivada pela coordenadora do curso, Bruna conquistou uma vaga de estágio na TV Candidés, emissora local da cidade. O que começou nos bastidores, entre pautas, telefonemas e a rotina silenciosa da produção, transformou-se em um percurso contínuo dentro da televisão. Mais do que um estágio, aquele espaço marcou o início de uma trajetória construída no contato diário com histórias, urgências e pessoas.

Desde a conclusão da graduação, em 2011, Bruna percorreu diferentes frentes da comunicação. Atuou como produtora de reportagem, assessora de comunicação, criadora de conteúdo para redes sociais e coordenadora da TV Pitágoras, ao mesmo tempo em que ampliava a própria formação com estudos em gestão de marketing e neuromarketing. Em diferentes funções, manteve-se conectada a um interesse constante: compreender pessoas, fortalecer vínculos e construir formas de diálogo. Hoje com 35 anos, a jornalista  atua como editora de textos e apresentadora do Integração Notícia na TV Integração, afiliada da Globo em Divinópolis.

A cidade em crise e a formação profissional

Um evento que foi uma virada de chave em sua vida ocorreu durante a época de estudante, enquanto fazia estágio na TV Candidés. Em 2008, ocorreu uma terrível enchente em Divinópolis.

“Foi uma das piores enchentes em Divinópolis. Muitas famílias ficaram sem casa, muitas famílias perderam tudo, elas foram para abrigos, para escolas. Eu estava iniciando no jornalismo, eu era estudante na época. Esse fato já me marcou muito, porque a partir desse momento eu passei a ter conhecimento, eu passei a aprender sobre a minha própria cidade.”  

A partir dessa experiência, Bruna começou realmente a entender o impacto que tinha e que podia fazer nas vidas das pessoas. “Quando eu ouço as entrevistas que chegam para nós, muitas vezes são de moradores relatando algumas dificuldades, e isso dói. Dói saber que tem muita gente ainda sofrendo por falta de coisas básicas. E são coisas que não dependem do próprio morador. Ou às vezes ver ali um morador lutando para conseguir um emprego, um morador que está desempregado e está com a geladeira vazia. São pautas do nosso cotidiano, sempre falamos sobre isso. É difícil, eu não gosto de saber que existem pessoas nessa situação. É por isso que o jornalismo está aí. Para mostrar a realidade e cobrar a solução.”

Vestindo uma blusa verde-claro e calça jeans, a apresentadora está de frente para a câmera enquanto conduz a reportagem.
Bruna durante gravação de reportagem/Arquivo pessoal

Bruna também defende o papel humano dos jornalistas, em colaborar com a sociedade, sempre que possível. Durante o tempo como assistente de produtora, fazia questão de escutar e tentar entender as necessidades do público. Explica que começou na produção, “e um produtor marca entrevistas, atende ligações e conversa com o telespectador de várias formas”. Bruna diz que era difícil conversar com uma pessoa, escutar todos os problemas e apenas desligar o telefone. “Eu não conseguia fazer isso.” Por mais que o assunto não virasse reportagem, ela conta que buscava ajudar de alguma forma.

[…] Eu encontro com várias pessoas de várias idades, crianças, idosos, pessoas que me param e falam. Eu faço questão de ouvir, de abraçar, de agradecer, porque se a gente está em uma TV, em um jornal,  se eu apresento um jornal hoje, eu apresento para essas pessoas.

Com o passar dos anos, esse vínculo construído no cotidiano passou a retornar de diferentes maneiras. Bruna conta que telespectadores costumam abordá-la na rua para conversar sobre o jornal, comentar as reportagens, pedir orientações sobre problemas da vida cotidiana e, em alguns momentos, até brincar com bordões do telejornal. Em uma cidade onde a televisão local se mistura ao cotidiano, o reconhecimento parece vir menos da exposição diante das câmeras e mais da relação de confiança construída com quem acompanha o trabalho diariamente.

Entre a capital e o interior: grandes coberturas

A jornalista chegou a morar em Belo Horizonte e trabalhar na Globo Minas. Sobre a experiência de atuar na capital, Bruna afirma não ter percebido grande contraste em relação ao trabalho no interior, já que a estrutura e a dinâmica da emissora são as mesmas. No entanto, ressalta que, em Belo Horizonte, por se tratar de uma cidade grande, não conseguia estabelecer a mesma proximidade com a comunidade que vivenciava em Divinópolis.

Durante o período na capital, viveu experiências marcantes, como a cobertura do rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, considerado um dos maiores desastres socioambientais do país, que deixou 272 mortos e mobilizou intensamente equipes de resgate, autoridades e imprensa. “Centenas de pessoas morreram, famílias perderam entes queridos e casas foram levadas. Foi um momento marcante e é impossível esquecer. Consigo ouvir o som do helicóptero do Corpo de Bombeiros durante o trabalho de resgate dos corpos”, relata.

De pé em cima de um banco, a jornalista usa um conjunto de calça preta e camisa azul-escuro enquanto é cercada por equipamentos para gravação ao ar livre
Bruna durante uma gravação externa/Arquivo pessoal

Representatividade e mudanças no telejornalismo

Ao falar sobre a própria trajetória, Bruna direciona o olhar menos para barreiras e mais para as transformações observadas ao longo do tempo. Em vez de enfatizar obstáculos, destaca mudanças percebidas ao longo dos anos em um meio historicamente marcado pela rigidez estética. Durante muito tempo, pessoas com deficiência, jornalistas negros e profissionais cujos corpos ou trajetórias fugiam dos padrões dominantes permaneceram sub-representados ou invisibilizados na televisão aberta.

Nesse contexto, a presença de uma jornalista com deficiência diante das câmeras ainda produz deslocamentos. Não porque Bruna transforme a condição física em centro da narrativa, mas porque a própria ocupação desse espaço evidencia transformações, ainda que graduais, em um ambiente profissional tradicionalmente restritivo. 

Ao comentar essas mudanças, Bruna chama a atenção para uma televisão menos homogênea e mais próxima da vida cotidiana. Em vez de concentrar o debate apenas na aparência de quem ocupa a bancada, a jornalista aponta para algo mais amplo: a importância de diferentes corpos, histórias e experiências passarem a ocupar o espaço público da informação, ampliando as possibilidades de identificação para quem assiste. O foco, na fala da jornalista, retorna constantemente ao exercício do jornalismo e à relação construída com quem está do outro lado da tela. Para Bruna, a mudança mais significativa talvez esteja justamente na aproximação entre quem noticia e quem acompanha a notícia.

“O foco é sempre a notícia. E como é maravilhoso ver ‘jornalistas comuns’ na telinha da TV e no jornalismo diário. Ser uma dessas jornalistas me enche de orgulho e gratidão. Se algum detalhe do corpo chama atenção e desperta em outras pessoas inspiração e vontade de seguir em frente, já valeu a pena”, afirma.

O público como parte da notícia

Esse caminho que Bruna segue demonstra muitos de seus ideais, no modo como ela vê a área da comunicação social, como o jornalismo deve ser um pilar para a comunidade e o papel atento do jornalista com o público. Ela considera, além de vários profissionais com quem trabalhou e diz ter aprendido muito, o jornalista César Tralli como uma inspiração. “É um jornalista que está no Jornal Nacional, muito simpático e muito simples, que mostra, nas redes sociais, coisas básicas do dia a dia. O que ele faz é muito com o coração; é uma pessoa muito humana, com muita empatia pelo próximo. Já era inspiração desde quando estava no Jornal Hoje, bem antes disso, porque quando alguém é inspiração, não é pelo lugar que ocupa ou pelo jornal que apresenta, mas pelo que é. Então, a inspiração hoje é o César Tralli, pela empatia e pelo olhar carinhoso com o próximo”, declara.

A fala de Bruna também evidencia uma compreensão contemporânea do jornalismo, em que o telespectador deixa de ser apenas receptor e passa a integrar a construção da notícia. Para ela, a participação do público contribui diretamente na produção das pautas e no direcionamento das coberturas, fortalecendo o caráter social da comunicação. 

Para finalizar a conversa, a equipe fez uma última e simples pergunta: “Por quê?” Em resposta, Bruna diz: “porque se a gente não faz diferença na vida do outro, será que o trabalho faz sentido? Se não há transformação na rotina do telespectador de forma positiva, será que vale a pena? Então são vários por quês. São vários motivos, são várias respostas. Mas vale a pena? Se não tem valido a pena, por que estou fazendo? Por que tenho feito?”

A jornalista usa um conjunto de calça e blusa azul-marinho e está em um estúdio de telejornal enquanto segura um tablet preto.
Bruna Borges no estúdio do telejornal/Arquivo pessoal
Conteúdo produzido por Amanda Silveira, Gabriela Silva, Lucas Portugal, Sofia Guedes e Matheus André Soares na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a supervisão da professora e jornalista Fernanda Sanglard. 

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