Colab
Imagem em preto e branco em que há uma máquina de escrever em primeiro plano e, em segundo plano, um senhor abaixado mexendo em algo.
Máquina de escrever em mesa.

Mais um jornalista

Um senhor jornalista cansado da realidade.

Mais um dia de trabalho concluído: uma felicidade insignificante. De que adianta ter terminado o turno se nenhuma mudança foi alcançada? O sistema foi criado pra oprimir qualquer fagulha de revolução Uma vida é tirada sem mais, nem menos, sem nunca ter uma explicação. Os responsáveis jamais sofrerão as consequências, o corpo de uma minoria não tem valor – às vezes, tem muito e, por isso mesmo, ele é executado antes de se tornar um mártir contra o sistema. Pra você ver, nem mesmo eu estou sendo capaz de dar nome a esse corpo, sou mais uma vítima do Estado ou apenas estou consentindo com ele? Já não sei.

Mais uma notícia escrita: uma comunidade toda te trata como peça-chave para a mudança. Meu texto não correspondeu à expectativa, a transformação que era esperada foi ignorada pelos poderosos. Quem ouviria um “bando de favelados” suplicando por algo tão luxuoso como melhorias na saúde e educação da comunidade? O dinheiro clama mais alto do que eles e a superioridade da classe alta vence mais uma vez. Mas quem disse que eles estão no topo? Consinto com o sistema novamente.

Mais uma locução finalizada: pude falar daquilo que gosto para um pequeno número de ouvintes. Fui egoísta, mas tentaram me convencer do contrário, falaram que eu estava divulgando o trabalho do entrevistado. Mas em momento algum pensei na outra pessoa, apenas em meu benefício próprio. O sistema nos trata como produtos e, mesmo que você não queira, isso define o nosso comportamento pessoal e profissional.

Mais uma reportagem gravada: dois jovens foram mortos pela polícia e o repórter parabenizou a ação dos “defensores da lei”. Os garotos saíam de um sarau quando foram “confundidos” com traficantes. O que os fazia parecerem bandidos? Eu não sei, mas os jornalistas do programa conseguiam enxergar com facilidade a semelhança. Mas quem sou eu pra ir contra o editor-chefe, preciso do meu salário. Viver em um sistema em que existe dependência extrema do dinheiro é danoso, mas, diante de minha insignificância, não vou conseguir mudar isso.

Há aqueles dias em que o trabalho faz pensar que existe esperança. Bobagem. No final, seu texto será só um monte de palavras bonitas que terão prazo de validade curto. Você ainda escreve para um grande portal de mídia, seu trabalho será visto apenas como uma bonita tentativa de ir contra um poder muito maior que você. Talvez suas matérias lhe rendam o título de jornalista respeitado, mas não levarão você ao cargo de editor-chefe e nenhuma alteração do status-quo virá de dentro da redação.

Já estou velho pra participar da mudança. Meu trabalho não mostra e nunca mostrou o verdadeiro Brasil para ninguém. Quem o consome não se importa ou já sabe muito bem como as coisas funcionam por aqui. Não sou Mariátegui para fazer um ensaio da realidade brasileira. Infelizmente, o trabalho sempre consumiu boa parte do meu tempo, mas, para os que ainda têm esse luxo: vá para a rua. Vocês não têm nada a perder, a não ser suas correntes.

Danilo Valadares

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