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BH e a Copa do Mundo: conheça a relação entre torcedores da capital e o Mundial

Como Belo Horizonte transformou a forma de torcer nas Copas do Mundo de 1950 a 2026

A relação da capital mineira com a Copa do Mundo de Futebol se expandiu paralelamente ao desenvolvimento urbano da cidade. O Estádio Raimundo Sampaio, mais conhecido como Arena Independência, foi o primeiro estádio de Belo Horizonte a receber jogos do Mundial. Localizado na região leste da cidade, no bairro do Horto, o estádio, que já vinha sendo construído desde meados dos anos 1940, foi terminado às pressas com o intuito de sediar partidas da Copa e consolidar a então recente capital mineira como uma cidade moderna, durante a gestão do prefeito Otacílio Negrão de Lima.

Belo Horizonte foi palco de partidas marcantes da Copa do Mundo nas duas edições do torneio realizadas no Brasil, a primeira em 1950 e a segunda em 2014. Com sua tradição boêmia e seus bares sempre cheios, a capital mineira tem vocação para a festa e vive a expectativa de mais uma edição do Mundial, mobilizando torcedores que aguardam ansiosos pelo início da competição. Belo Horizonte possui uma trajetória marcada pela presença das Copas do Mundo.

Mais do que um espaço esportivo, o Independência simbolizava um projeto de cidade. Em uma Belo Horizonte ainda em processo de consolidação urbana e econômica, grupos políticos passaram a utilizar o futebol como instrumento de projeção política e de afirmação da capital mineira no cenário nacional.

A ideia de uma “modernidade por vir”, conceito discutido pelo pesquisador e jornalista Ives Teixeira, ajuda a compreender esse contexto: havia uma percepção constante de que Belo Horizonte ainda precisava alcançar um ideal de modernidade, o que justificava reformas, grandes obras e a construção de novos símbolos urbanos.

Autor do livro O dinheiro do Otacílio (2023), o jornalista acredita que, naquele período, as elites mineiras usaram os estádios de futebol como símbolos de modernização da cidade. Para ele, o futebol sempre esteve profundamente ligado aos interesses políticos e econômicos das elites mineiras. “Era muito mais uma questão política que envolvia eleição e voto”, afirma Ives. A Arena Independência é um dos principais exemplos dessa relação entre futebol, poder e urbanização.

As duas Copas em Belo Horizonte

Belo Horizonte vivia seu 53º aniversário quando o estádio foi inaugurado, em 25 de julho de 1950. O Independência recebeu três jogos da Copa do Mundo: Iugoslávia x Suíça, Uruguai x Bolívia e a partida histórica conhecida como “O Milagre de Belo Horizonte”, que terminou com a vitória de 1 a 0 dos Estados Unidos sobre a Inglaterra. O “milagre” em questão foi a vitória de uma seleção formada majoritariamente por trabalhadores amadores, como lavadores de pratos e motoristas, contra um elenco inglês considerado um dos favoritos ao título mundial.

Estádio Independência: 1950 x Atualmente

Belo Horizonte voltou a sediar partidas do torneio em 2014 no Mineirão, nome popular do Estádio Governador Magalhães Pinto. O estádio foi inaugurado em setembro de 1965 e recebeu jogos da Copa pela primeira vez em 2014, quando o Brasil foi país-sede do campeonato pela segunda vez.

O Mineirão sediou seis jogos, incluindo a semifinal entre Brasil e Alemanha, que marcou uma das maiores aflições da história do futebol brasileiro. Na ocasião, a seleção sofreu uma derrota histórica de 7×1, o que abalou a imagem do Brasil como “País do Futebol” e frustrou muitos torcedores que esperavam ansiosamente pelo “hexa”.

Onde você estava durante o 7×1?

Não é exagero dizer que, na Copa do Mundo de 2014, os brasileiros passaram por um trauma coletivo. A fatídica goleada de 7×1 da Alemanha contra o Brasil marcaria para sempre a história do futebol, esse traço tão marcante e constitutivo da nossa cultura e identidade.

Até quem não é muito fã do esporte, sentiu aquela derrota e tem alguma lembrança relacionada ao acontecido. Pensando nisso, fomos às ruas perguntar para as pessoas: Onde você estava no 7×1?

@colabpucminas Não é exagero dizer que, na Copa do Mundo de 2014, os brasileiros passaram por um trauma coletivo. A fatídica goleada de 7×1 da Alemanha contra o Brasil marcaria para sempre a história do futebol, esse traço tão marcante e constitutivo da nossa cultura e identidade. Até quem não é muito fã do esporte, sentiu aquela derrota e tem alguma lembrança relacionada ao acontecido. Pensando nisso, fomos às ruas perguntar para as pessoas: Onde você estava no 7×1? #copa #copadomundo #alemanha #brasil #7a1 ♬ som original COLAB

A evolução da cobertura e da transmissão jornalística 

Nos anos 50, a principal e mais democrática forma de torcer era acompanhar as partidas pelo rádio reunindo várias pessoas em volta do aparelho. As narrações dos locutores empolgavam os ouvintes que, mesmo sem acompanhar as imagens da partida, vibravam com as jogadas.

A cada gol ou vitória da equipe para a qual torciam, a expectativa em torno do rádio aumentava e intensificava a emoção de acompanhar os jogos. Ives Teixeira destaca que torcer sempre foi uma prática coletiva.

Transmissão da Copa de 1958. Reprodução: Agência O Globo

O jornalista esportivo Chico Maia, que cobre Copas do Mundo desde 1986, acompanhou de perto as transformações tecnológicas e culturais das transmissões esportivas ao longo das décadas. Com passagens por rádio, televisão, jornais impressos e mídias digitais, Chico afirma que cada edição do Mundial representou também uma revolução na forma de produzir e consumir informação.

Ele conta que na Copa do México, em 1986, os textos ainda eram enviados por telex e as fotografias dependiam de processos demorados de revelação e transmissão. “O apartamento de todo fotógrafo era um laboratório de fotografia”, relembra.

Para o jornalista, a chegada da internet, dos celulares e, posteriormente, das redes sociais, alterou completamente a velocidade e a dinâmica das coberturas esportivas. “As redes sociais viraram protagonistas”, afirma Chico Maia, ao destacar que o jornalismo esportivo deixou de depender exclusivamente dos grandes veículos tradicionais e passou a disputar espaço com plataformas digitais, influenciadores e transmissões independentes, como as realizadas pela internet.

As redes sociais viraram protagonistas.

Ele também avalia que a comunicação esportiva passou por uma transformação irreversível com o avanço do ambiente digital. “Quem está fora do mundo digital está fora”, resume o jornalista, ao comentar como os veículos tradicionais precisaram se adaptar às novas formas de circulação da informação e ao comportamento do público nas redes sociais.

A cultura dos bares e as Fan Fests em Belo Horizonte

Em 2026, os jogos não acontecem no país, o que não impede que torcedores animados e apaixonados pelo esporte se reúnam em pontos de encontro tradicionais, como bares e praças, para vibrarem juntos durante as partidas da seleção. Muitos espaços em Belo Horizonte oferecem programações especiais para a Copa do Mundo, com shows e transmissões ao vivo dos jogos em telões, além de serviços de open bar e open food.

Durante o torneio, os torcedores transformam esses locais em pontos de encontro e mantém viva a tradição de acompanhar os jogos em grupo. Desde a era do rádio até os dias atuais, marcados pela internet e pelos serviços de streaming, os torcedores continuam se reunindo em bares, mas também em outros espaços coletivos como festivais dedicados ao torneio de futebol. 

Fifa Fan Fest durante a Copa do Mndo de 2014. Reprodução: Reverbere

As Fan Fests surgiram oficialmente na Alemanha, durante a Copa do Mundo de 2006, sediada no país. Chico Maia comenta que a criação desses eventos foi uma iniciativa importante para aproximar ainda mais os torcedores do torneio, já que muitas pessoas não conseguem adquirir ingressos para assistir às partidas nos estádios e acabam optando pelas Fan Fests. O jornalista também destaca que esses espaços costumam oferecer segurança e uma experiência coletiva para o público.

As celebrações acontecem durante o período da Copa do Mundo e reúnem torcedores em ambientes preparados para acompanhar as partidas em telões. Em muitos desses eventos há barraquinhas e stands com comidas e bebidas típicas dos países participantes, além de bandas ao vivo e outras atrações culturais.

O jornalista afirma que “telões assim são espetaculares para você ver o jogo de todos os ângulos e, no final das contas, o pessoal fica se divertindo, conhecendo gente do mundo inteiro”.  As Fan Fests representam uma forma de confraternização universal entre torcedores de diferentes países e culturas. 

Telões assim são espetaculares para você ver o jogo de todos os ângulos e, no final das contas, o pessoal fica se divertindo, conhecendo gente do mundo inteiro

A última Copa

Chico Maia destaca que a Copa deste ano pode ser a última de grandes estrelas do futebol em Mundiais da FIFA, entre elas Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar. Segundo ele, esse processo também abre espaço para o surgimento de novos destaques que devem assumir o protagonismo nos ciclos seguintes da Copa do Mundo e nas futuras edições do torneio. Isso torna a edição de 2026 ainda mais atrativa para os torcedores, porque marca a despedida de alguns dos principais ídolos do futebol mundial. 

Em Belo Horizonte, a tradição de reunir torcedores para acompanhar os jogos da Copa do Mundo também se mantém presente em eventos e espaços voltados para transmissões coletivas. Na região da Pampulha, o Mineirinho, nome popular do Ginásio Jornalista Felipe Drummond, está entre os locais que promovem eventos temáticos ligados ao torneio.

Na Copa deste ano, o espaço recebe a Arena Nº1 Brahma, um dos principais eventos da Copa do Mundo em Belo Horizonte, com shows, áreas temáticas e transmissão simultânea das partidas junto a outras cidades do país. 

O tradicional na cidade

Entre os bares da cidade em que a tradição de assistir aos jogos durante a Copa se mantém, o que mais se destaca é o Bar do Orlando. O bar se consolidou como um dos mais antigos da cidade, o espaço foi inaugurado há mais de cem anos, em 1919, no bairro Santa Tereza, conhecido por sua tradição boêmica, na região leste da capital.

Antes de se tornar o tradicional boteco, o estabelecimento era um comércio dedicado à venda de artigos de pesca. Inicialmente conhecido como “Bar dos Pescadores”,  o estabelecimento passou a ser chamado pelo nome do atual dono. Aos poucos, o espaço foi se tornando um ponto de encontro boêmio e turístico da cidade. 

Orlando Júnior de Siqueira, ou Orlandinho, é filho do homem que deu origem ao nome do bar, Orlando Silva de Siqueira. Junto com o pai, ele auxilia e cuida da gestão do estabelecimento. Para Orlandinho, a tradição de torcer em grupo faz parte da cultura mineira. Por isso, o Bar do Orlando mantém o costume de fechar a rua para reunir a galera e assistir aos jogos, principalmente em campeonatos com partidas dos times mineiros América, Atlético e Cruzeiro. Durante as Copas do Mundo, o estabelecimento passa a receber um público mais amplo.

O gestor do bar relembra momentos marcantes ligados às Copas passadas, como a rifa de uma televisão que precedeu o Mundial de 1998. Orlandinho conta que a história foi engraçada. Uma pessoa comprou dois números da rifa, encontrou alguém que não conseguiu comprar nenhum número e se ofereceu para vender um dos seus. O número vendido acabou sendo sorteado, e o caso marcou os amigos do bar que se reuniram para assistir aos jogos da Copa de 98. 

Agora, em 2026, a expectativa é que espaços como o Bar do Orlando e pontos semelhantes lotem durante a Copa e mantenham viva a tradição de comemorar os jogos da seleção e assistir em conjunto ao Mundial.

A capital mineira possui outros estabelecimentos conhecidos por transmitir partidas de futebol e reunir torcedores, como o Buteco do Rod, localizado no bairro Ouro Preto, região da Pampulha, na parte noroeste da cidade; o The Brothers Cervejaria, que, assim como o Bar do Orlando, se encontra na região leste; o Elis Bar, localizado na região oeste de Belo Horizonte, no bairro Buritis; e o Amarelim Beagá, no bairro Santo Antônio, região Centro-Sul.

Esses são alguns dos espaços frequentados por torcedores durante campeonatos e partidas importantes de futebol. Além dos bares e Fan Fests, Belo Horizonte possui outros espaços que irão transmitir os jogos da Copa e para a reunião de entusiastas durante o torneio. 

O sentimento da torcida para o Mundial 

O torcedor Denilson Gonçalves, de 44 anos, está entre os belo-horizontinos que mantêm altas expectativas para a Copa do Mundo deste ano. Ele conta que começou a acompanhar o Mundial ainda na infância, por volta dos dez anos de idade, e relembra a tradição de pintar ruas e muros da cidade com as cores da bandeira do Brasil, costume que, segundo ele, já não acontece com a mesma frequência de antigamente. Denilson também destaca o hábito de se reunir com familiares e amigos para assistir aos jogos da seleção brasileira durante a competição. 

Entre os torcedores que responderam à pesquisa, cinquenta e duas no total, 74,5% assistem aos jogos pela TV aberta. Outros 15% acompanham pela TV por assinatura, enquanto 7,8% utilizam plataformas de streaming e internet. Já 1,9% afirmaram assistir às partidas por todos os meios disponíveis. O depoimento faz parte de um levantamento realizado pela nossa reportagem, por meio da plataforma Google Forms, com torcedores e entusiastas de Belo Horizonte, sobre suas memórias e expectativas para a Copa do Mundo de 2026. 

Entre os entrevistados, 28,8% demonstraram baixa ou nenhuma expectativa para a Copa do Mundo deste ano. Outros 36,5% afirmaram estar com expectativa boa ou alta para o torneio, enquanto 36,5% apontaram expectativa neutra ou moderada.

Em relação ao desempenho da seleção brasileira, 7,7% esperam que o Brasil chegue às quartas ou oitavas de final, e 17,3% acreditam que a seleção brasileira trará o hexacampeonato para casa.

Das cinquenta e duas respostas, cerca de
90,6% afirmaram perceber mudanças na
forma como os torcedores acompanham
a Copa do Mundo ao longo dos anos.

Entre os principais pontos em comum nas
respostas estão o crescimento do uso da
internet, das redes sociais e das plataformas
de streaming para acompanhar os jogos; a
percepção de menor empolgação e
envolvimento dos torcedores com a seleção
brasileira; e as mudanças na experiência
coletiva da Copa, que passou a contar com
interações digitais, memes e comentários em
tempo real.

A torcedora Maria Tereza Marques, de 20 anos, também participou do processo de perguntas e respostas. Maitê, como gosta de ser chamada, acompanhou sua primeira Copa do Mundo em 2010, quando o torneio foi sediado na África do Sul. Ela conta que, apesar de ser muito nova na época, possui lembranças marcantes, como uma bela camisa personalizada da seleção brasileira que era estampada com os animais da fauna sul-africana. Ela também ressalta que a música “Waka Waka (This Time for Africa)” de Shakira, que marcou gerações e é considerada um dos hinos do Mundial, ficou na sua mente. 

Maitê geralmente assiste às Copas com a família e torce pelo Brasil com as pessoas que ama, e acredita que este ano não será diferente. Quando perguntada sobre uma memória especial relacionada aos jogos, a torcedora destacou a experiência de torcer com outras pessoas. “Lembro que, na Copa de 2014, minha família e meus vizinhos se reuniram na casa de alguém e assistimos todos juntos aos jogos do Brasil.”

Para a Copa deste ano, Maitê afirma não estar confiante e que não cria grandes expectativas para os jogos da seleção, mas que espera por bons resultados. “Se muitas vitórias vierem, será legal”, complementa a torcedora.

Apesar das mudanças na forma de acompanhar os jogos ao longo das décadas, a tradição de torcer coletivamente continua presente em Belo Horizonte. Do rádio às redes sociais, a Copa do Mundo segue reunindo torcedores em bares, eventos e espaços públicos da capital mineira.

Apesar de alguns torcedores demonstrarem desânimo em relação ao desempenho da seleção brasileira, a chegada do Mundial renova as expectativas em torno da seleção e do sonho do hexa. 

Onde assistir aos jogos do Mundial?

Quer assistir aos jogos da Copa fora de casa? Acompanhe o nosso mapa e confira os pontos de BH que vão transmitir as partidas do Mundial.

Reportagem desenvolvida por Danielly Lorrany de Souza Andrade e Maria Carolina Luvizoto para a disciplina Laboratório de Jornalismo Digital do curso de Jornalismo campus Lourdes da PUC Minas, sob a supervisão da professora Tay Gregório.

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