Colab
Arte: Clara Margotti

A culinária brasileira em BH: onde diferentes sabores se encontram

Entre aromas, temperos e receitas carregadas de memória, migrantes que escolheram a capital mineira como lar mantêm vivas suas raízes por meio de sabores que unem o Brasil de Norte a Sul

Quando se senta à mesa de um restaurante especializado em culinária amazônica, a rondoniense Suelen Rodrigues encontra uma experiência que vai além de um prato típico. Moradora de Belo Horizonte há quase três anos, ela conta que, quando sente saudades de casa, procura espaços onde possa reencontrar sabores que marcaram sua infância em Porto Velho. Entre eles, estão o Flor de Jambu, restaurante voltado à culinária paraense, o Bar Du Pedro, onde costuma pedir tambaqui, peixe bastante consumido na região Norte, e o Parada do Açaí, que vende a fruta com complementos naturais. 

“Eu amo açaí, que é algo do norte. Só que o açaí daqui, para mim, é sorvete, né? Então, teve um lugar de todos esses que eu já fui, que eu pedi um açaí batido com água e misturado com banana, que é algo que eu tomava em Porto Velho. E chegou um pouco próximo do sabor. Porque os outros açaís que eu provei aqui são mais na vibe de sorvete mesmo. Então, eu fiquei muito feliz de encontrar esse açaí. Quando eu encontrei, também, o restaurante que fazia o tambaqui, eles faziam o tambaqui assado, que é bem a forma como eu gosto de comer”, relatou. 

Embora reconheça que alguns pratos recebem adaptações para agradar ao público local, Suelen vê nesses estabelecimentos uma forma de manter vivas as referências culturais da terra natal. 

Por outro lado, os preços podem ser mais salgados. Segundo ela, alimentos comuns em sua região de origem costumam custar significativamente mais caro em Belo Horizonte, realidade que também percebe em outros restaurantes especializados em culinária nortista. A rondoniense costuma frequentar esses ambientes com amigos de outros estados da região norte, para deixar a experiência ainda mais alinhada à memória afetiva. Suelen conta que os amigos mineiros estranham formas de consumir alguns produtos, como o açaí.

Quando levou a sogra, por exemplo, para conhecer um prato tipicamente amazônico, a experiência não foi das melhores:

“Quando eu levei, por exemplo, a mãe da minha namorada pra tomar tacacá, ela odiou. Ela é mineira. Ela achou, tipo, horrível. Foi muito engraçado, mas ela odiou. Porque realmente é um prato muito diferente. Ou você ama, ou você odeia. E ela odiou. É isso. Eu levei uma mineira pra tomar um tacacá e foi horrível”, relembra, entre gargalhadas.

A experiência de Suelen ajuda a compreender um fenômeno presente na capital mineira: a cidade construiu, historicamente, uma identidade ligada ao acolhimento de pessoas vindas de diferentes lugares. Dados do Censo Demográfico de 2010 mostram que cerca de 6,3% dos moradores da capital nasceram em outros estados brasileiros. Para o diretor de Políticas de Turismo e Inovação da Belotur, Guilherme Lourenço, essa característica faz parte da própria formação da cidade:

“Belo Horizonte é uma cidade que recebeu gente de fora. A nossa história vem de uma identidade de receber pessoas de outros lugares”, afirma.

Segundo Guilherme, a força da gastronomia belo-horizontina ajudou a criar um ambiente favorável para que cozinhas de diferentes regiões do Brasil encontrassem espaço na capital: “Existe hoje uma grande quantidade de restaurantes que não trabalham com a culinária mineira propriamente dita, mas que acabaram sendo acolhidos e abraçados pela potência da nossa gastronomia”, explica. Para ele, esses estabelecimentos ampliam as possibilidades de experiências para moradores e turistas, reforçando a imagem de Belo Horizonte como um destino gastronômico diverso.

O reconhecimento internacional recebido pela cidade também ajuda a explicar esse cenário. Desde 2019, Belo Horizonte integra a Rede de Cidades Criativas da Gastronomia da UNESCO, título que, segundo a Belotur, fortaleceu a compreensão da gastronomia como um dos principais ativos turísticos da capital. “A nossa escolha como Cidade Criativa passa muito por isso: pela potência e pela diversidade dos restaurantes, tanto os locais quanto os que não são locais”, reforça Guilherme. Em pesquisa realizada pela Belotur com moradores e turistas em 2025, 95% dos entrevistados declararam satisfação com a experiência gastronômica oferecida pela cidade.

Nesse contexto, restaurantes especializados em culinárias regionais reforçam memórias e ajudam a ampliar o repertório cultural dos belo-horizontinos, fortalecendo uma característica que a própria Belotur considera central para a identidade da cidade: a capacidade de acolher diferentes tradições sem perder sua própria essência gastronômica.

A representatividade da cultura paraense em BH

“Quando cheguei em Belo Horizonte, vi que, através da alimentação, eu iria conseguir me aproximar da minha cultura alimentar”.

As palavras de Fernanda Souza, proprietária do restaurante Flor de Jambu, descrevem o objetivo principal do estabelecimento. Criado por uma natural do Pará residente na capital mineira há 10 anos, o local funciona na região central da cidade desde 2019.

Segundo a fundadora, o restaurante busca dar visibilidade à cultura paraense e representa um ponto de  encontro entre diferentes públicos em BH:

É um ambiente dedicado não só a nortistas, mas também a pessoas que queiram diversificar, seja ouvindo uma música tradicional ou comendo uma comida típica.

O lugar também busca acolher a diversidade e receber todos os públicos. “Aqui a diversidade acontece, já que nossa equipe é composta totalmente por pessoas do grupo LGBTQIAPN+”, ressalta Fernanda.

Os pratos produzidos no Flor de Jambu refletem o compromisso com as raízes de sua fundadora. Segundo ela, os ingredientes utilizados vêm do Pará. Por isso, viajam 3 mil quilômetros até chegar em BH, o que exige uma logística de alto custo. “O prato preferido do público paraense do Flor de Jambu é o açaí e, dos outros públicos, o vatapá. O nosso açaí é mais puro e com a cara do Norte. E o do Sudeste é mais incrementado”, destaca a proprietária, que oferece os pratos preferidos dos clientes, preservando a cultura alimentar do estado natal.

Mesmo com a percepção positiva de grande parte dos clientes, ela conta que ainda existe preconceito em relação a algumas comidas típicas devido à falta de conhecimento sobre a diversidade de culturas alimentares no Brasil: “O maior problema é as pessoas não saberem de onde são os ingredientes. Muitos não entendem o porquê comemos açaí com farinha, com peixe ou com outras carnes”.

Além de possibilitar a reconexão com as raízes nortistas para quem está longe de sua terra natal, restaurantes como o Flor de Jambu ajudam a ampliar o conhecimento sobre a culinária amazônica em Belo Horizonte, combatendo preconceitos culinários. “Teve uma cliente nascida no Pará que há anos não comia a comida típica do estado. Quando ela provou a primeira vez, começou a chorar por lembrar de suas raízes”, relembra Fernanda.

Endereço do Flor de Jambu: Avenida dos Andradas, 367 – Edifício Central – 2° andar, sala 211A – Centro, Belo Horizonte.

Da mesa da família a restaurante na Pampulha

Localizado em uma movimentada avenida na região da Pampulha, o restaurante Do Peixe é uma combinação entre tradição familiar e adaptação gastronômica. O espaço foi criado pelo pai de Jairo, em meados de 2012, e permanece até hoje nas mãos da família. As estrelas do cardápio são peixes e frutos do mar – e a inspiração é mais afetuosa do que parece. 

Ao entrar no restaurante, somos remetidos a um ambiente com um quê praiano, e a decoração faz jus ao nome, com louças e pinturas de temática marítima expostas pelo ambiente. No banheiro, é possível encontrar o Manifesto Do Peixe, que afirma a missão de momentos que despertam memórias afetivas, de modo que cada refeição possa ser uma forma de reunir a família e amigos à mesa.

Jairo Moser, atual administrador do Do Peixe, relembra o que motivou seu pai a fundar a casa em 2012: “Como meu pai é catarinense, ele sempre fez na minha casa casquinha de siri e moqueca nos finais de semana. Quando nós íamos para o litoral de Santa Catarina, tínhamos esses pratos como os principais pratos de família da casa”, explica Jairo. Essa culinária sempre uniu a família à mesa nos almoços de domingo e foi o combustível para a criação do restaurante, que busca homenagear a comida transmitida de geração em geração. 

Jairo conta que, há quase quinze anos, seu pai percebeu uma defasagem de restaurantes especializados em peixes e mariscos na região da Pampulha. A partir daí, surgiu o Do Peixe: “Nós colocamos esses pratos (no cardápio), que eram caros para a nossa família, estavam muito presentes no litoral de Santa Catarina e que faziam parte do repertório do meu pai. Essa foi a maior inspiração”, detalha Jairo.

A partir da criação inicial de um cardápio afetivo, o restaurante foi desenvolvendo outros pratos que abarcavam outras partes do Brasil, a pedido dos clientes — como o tambaqui, da região Norte, e pratos nordestinos, como o bobó de camarão e a moqueca baiana. A opção por um cardápio que abrange a culinária de diferentes regiões do país veio dos objetivos de ampliar a clientela e oferecer ao público mais diversidade gastronômica dentro do nicho de peixes e frutos do mar. 

“Nós fomos conhecendo outros peixes do Norte, como o Pirarucu e o Tambaqui, que são peixes maravilhosos, e trazendo outras partes do Brasil para essa gastronomia de peixes e frutos do mar brasileira”, conta Jairo. O cardápio hoje em dia é recheado com pratos que abrangem diversos litorais do Brasil — e o cliente é quem ganha com isso.

A dinamização dos ingredientes incorporados à carta da casa também ajuda a superar a dificuldade logística decorrente do transporte dos ingredientes de regiões distantes. Para Jairo, ao trabalhar com ingredientes mais diversos, evita-se o risco de escassez pela sazonalidade dos produtos.

Endereço do Restaurante Do Peixe: Rua Dr. Jeferson de Oliveira, 231 – Santa Amélia, Belo Horizonte

Um pedaço da Bahia em Minas

Unir duas culinárias tão diferentes quanto a mineira e a baiana pode parecer uma ideia arriscada, mas foi justamente nisso que o fundador do Baêa Uai, restaurante que mistura os sabores de Minas Gerais e da Bahia, resolveu apostar. Há um ano, Gilson Henrique Costa e sua esposa, Laila, comandam o estabelecimento localizado na área central de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte.

O local é frequentado principalmente por mineiros que apreciam o tempero da Bahia, migrantes baianos que vivem na capital mineira e turistas que já visitaram o estado nordestino.

O ambiente incorpora elementos decorativos que procuram trazer um pedaço da Bahia para Minas. Um destaque à parte é a música: apesar de mesclar influências para contemplar diferentes públicos, a casa privilegia a cultura baiana, com shows mensais que incorporam repertório tipicamente nordestino. 

O cardápio é composto por opções das duas regiões, sendo o acarajé o carro-chefe da casa e o mais procurado pelos clientes. “Recebemos muitas pessoas da Bahia que vem para matar a saudade desse prato. E também pessoas de Minas, que já foram à Bahia e nos visitam para matar a saudade da culinária de lá”, afirma o fundador.

Segundo Gilson, os ingredientes destas localidades não são semelhantes, mas complementam-se:

A culinária baiana tem seu charme por conta dos frutos do mar, e a daqui é marcada por ingredientes muito ricos, como o queijo.

Baêa Uai: conheça o interior do restaurante e alguns pratos servidos na casa. Captação: Beatriz Torres; Edição: Hannah Andrade.

Para ele, a fusão de referências resulta em um equilíbrio perfeito para agradar o paladar de quem deseja matar a saudade de sabores ou experimentar novos temperos pela primeira vez.

Gilson conta que, para ele e Laila, o restaurante é uma extensão de experiências que marcaram o relacionamento do casal, como viagens à Bahia. Foi daí que surgiu a inspiração para a criação do nome e a identidade gastronômica do Baêa Uai. “Queríamos trazer um pouco do estado para cá, sem deixar de lado as nossas raízes mineiras”, explica.

Atualmente, Laila é quem comanda a cozinha e coordena a criação dos pratos “Ela acompanha as cozinheiras e os nossos chefs, e eu faço a administração em geral”, explica Gilson.

O proprietário acredita que a diversidade está justamente na conexão de duas culturas diferentes, reunindo ingredientes baianos e mineiros nos mesmos pratos. “Muitas pessoas chegam em mim para elogiar os pratos, e eu sempre digo que o toque de Minas aos pratos nordestinos é o que dá tanto sabor aos nossos pratos”. 

Para o futuro, o empresário pretende aprofundar o objetivo inicial de unir as duas culinárias: “Nosso intuito é ter um restaurante cada vez mais fusion. Por isso, quero implementar novas receitas. Quem sabe um pão de queijo de acarajé?”.

Endereço do Baêa Uai: Avenida Prefeito Gil Diniz Júnior 1850 Fonte Grande, Contagem

O tempero geraizeiro em BH

Restaurante Andu de Dois, aberto em 2025, celebra culinária do Norte de Minas no coração do bairro Santa Tereza. Gravação: Beatriz Torres e Hannah Andrade. Vídeo: Hannah Andrade.

“Poxa, mas se o Gerais é parte de Minas, então por que a nossa cultura é tão apagada aqui na capital?”. Foi desse questionamento da chef  Maria Clara Alves que nasceu o restaurante Andu de Dois, no bairro Santa Tereza, em 2025. Ela e Hernane Souto estão à frente do estabelecimento que oferece uma experiência gastronômica com ingredientes geraizeiros vindos diretamente do Norte de Minas Gerais.

Os chefs são casados, sócios e se conheceram durante a faculdade de Gastronomia. Na época, Maria Clara, nascida no município de Mirabela, no norte de Minas, veio a BH para estudar e conheceu Hernane, que já morava na cidade. Tempos depois, a parceria do casal resultou na criação do Andu de Dois, a partir de uma lacuna que perceberam no meio gastronômico belo-horizontino. 

Antes da inauguração, no ano passado, a história do restaurante já tinha começado a ser escrita. “Em 2021, começamos vendendo marmitas congeladas na minha casa. Desde essa época, os nossos pratos eram feitos  com ingredientes típicos do Norte de Minas”. O nome dado ao empreendimento faz referência a um dos insumos principais do norte de Minas, o baião de dois feito com feijão andu, um dos ingredientes principais da culinária do sertão mineiro. 

Segundo Hernane, o ambiente consegue alcançar um público diverso, sendo frequentado por pessoas que procuram o local para provar os pratos feitos com ingredientes típicos. “Tem muita gente que é norte-mineira, que é do Gerais, que é do Jequitinhonha e que está aqui na cidade, está na capital… é uma frequência baseada na saudade”, ressalta. Entre encontros de amigos e famílias que frequentam o local, o chef relembra um dos casos que mais o tocou: 

Teve um dia que um senhor pediu pra me chamar e pensei que tinha dado algum problema com o prato. Mas ele estava muito emocionado. Era um domingo, dia da parmegiana de carne de sol — um prato com arroz branco “alhudo”, purê de abóbora e filé. O purê de abóbora bem lisinho e bem amanteigado o lembrou da avó dele, que fazia igual o que ele comeu aqui.

O chef explica que 90% dos ingredientes usados vêm do norte do estado. “Hoje nós temos uma curadora lá no mercado municipal de Montes Claros e um açougueiro em Mirabela que nos ajuda no translado para BH”. Segundo ele, o transporte é feito por meio de táxis fretados, com todos os cuidados necessários para que os alimentos cheguem à capital mineira com qualidade. “É uma logística desgastante, envolve uma rede de pessoas que nos apoiam. Mas nos colocamos como representante das Gerais, então, não teria como a gente fazer diferente”, destaca.

O Andu de Dois desmistifica a crença popular de que comida do Norte de Minas é apenas pequi. O restaurante é um espaço de valorização de ingredientes sazonais que causam em seus clientes a sensação de estar em casa.  “Quando percebemos que aquilo que estamos fazendo, promove um momento de resgate de uma memória, de um significado familiar, faz tudo valer a pena”, diz Hernane.  

Endereço do Andu de Dois: Rua Gabro, 41 – Santa Tereza, Belo Horizonte

Cozinha de balcão com ar cosmopolita

Em uma esquina movimentada do Mercado Novo, atual polo cultural e gastronômico da cidade, funciona uma cozinha de balcão. Os balcões vermelhos, os símbolos típicos e a marca do Cozinha Tupis revelam que ali é servida uma culinária regional – mas com um toque diferenciado e um quê contemporâneo.

Artur Sgarbi — chef à frente da cozinha há três anos — é quem recebe a equipe do Colab PUC Minas para apresentar o Cozinha Tupis. Com foco em cozinha belorizontina, o Cozinha Tupis busca utilizar componentes da gastronomia mineira em pratos que misturam o sofisticado e o elaborado, empregando ingredientes quase 100% oriundos da Feira Livre e no Mercado Central, que fica a poucas quadras dali. 

O Cozinha Tupis, que abriu em 2018 no Mercado Novo, foi pioneiro na ocupação do espaço que hoje é um dos principais pontos de encontro entre os jovens e adultos da cidade. O conceito da cozinha de mercado, explica Artur, é natural, afinal, no subsolo do mercado, funciona uma das maiores feiras da América Latina, e o Mercado Central de Belo Horizonte encontra-se a poucas quadras dali. 

Sobre o cardápio, Artur explica que, apesar de privilegiar ingredientes adquiridos em locais muito próximos, o restaurante esbarra na questão da sazonalidade: “Vou dar um exemplo básico que eu tô vivendo nesse momento. A gente tá tentando trabalhar com ervilhas-tortas. Ervilhas-tortas é a ervilhinha na fava, supergostosa, supercrocante, super bonita, mas ela só tá bonita no meio do ano, entendeu?”. 

Mas a sazonalidade está longe de ser um fator limitante para o Cozinha Tupis. Artur explica que ele e sua equipe de cozinheiros tentam explorar ao máximo todos os ingredientes – e até mesmo suas limitações de disponibilidade. 

“Esse aqui, por exemplo, é o nosso tempurá de milho. É basicamente milho frito, um queijo feito em Minas Gerais — é um queijo parmesão Grana dos Lauro —, um furikake feito na casa com peixe seco, amendoim, alga nori, e é o prato que mais sai da casa”, explica Arthur. 

Artur diz que busca ser o mais sustentável possível, trabalhando com os ingredientes que a natureza fornece no melhor momento, durante todo o ano, mas também precisa considerar aspectos financeiros. Segundo ele, diante do alto custo da operação do restaurante, é preciso usar a sazonalidade de forma estratégica.

Se a gente não aproveitar o insumo na época que ele tem mais, e que consequentemente ele está mais barato, o negócio em si fica insustentável.

O maior desafio do Cozinha Tupis, porém, está na atração do público jovem durante as noites de funcionamento do Mercado Novo. Esses frequentadores, segundo Artur, não demonstram tanto interesse por comida. Talvez por isso, apesar do grande movimento de jovens nas noites do Mercado Novo, o pico de movimento do restaurante segue sendo no período da manhã.

Quando o restaurante Cozinha Tupis foi inaugurado, Artur tinha apenas 13 anos — agora, aos 21, está à frente da produção de insumos e pratos, comandando uma equipe que faz o balcão funcionar seis dias na semana. 

Ele explica que Henrique, o chef proprietário, é o grande nome por trás do Cozinha Tupis e o idealizador da proposta de fazer “comida de verdade”. “Aqui a gente consegue servir uma comida com alma. E é muito bonito o trabalho que a gente faz, eu tenho muito orgulho disso e fazer parte disso, e a gente quer cada vez mais melhorar esses aspectos”, explica Artur, orgulhoso. 

Sobre a rotina no Cozinha Tupis, Artur expõe seu olhar gen z sobre o trabalho: “Aqui na Tupi, a gente não grita com ninguém, a gente não humilha ninguém, por isso que eu falo que isso é revolucionário perto da cozinha global né?”. Ele explica que a maioria dos integrantes do time de funcionários passaram por experiências prévias traumáticas em outras cozinhas: “A gente sempre tenta conversar, encontrar o erro e dar um norte palpável para a pessoa, não ser abstrato”.

Para o chef, esse processo de formação humana é sustentado pela escuta e pela troca: “Quando chega uma pessoa aqui e ela escuta, ela consegue escutar, ela tem o interesse em aprender, é muito mais fácil. Eu consigo confiar muito mais fácil na pessoa e essa pessoa acaba confiando muito mais no meu trabalho e torna tudo muito mais fácil”. 

Quando provocado a eleger um único ingrediente indispensável e verdadeiramente mineiro em sua cozinha, o chef hesita diante da complexidade da identidade culinária de Minas Gerais: “É uma pergunta muito difícil”. Para ele, a capital abriga uma gastronomia cosmopolita que abraça heranças profundas, desde a forte comunidade italiana que inspira releituras de massas até a robusta presença siro-libanesa, que se faz notar em pratos ricos em coalhada.

Embora a espinha dorsal do cardápio do Cozinha Tupis seja a sazonalidade — o que tornaria injusto conferir protagonismo definitivo ao milho, à mandioca ou à batata-baroa —, existe um clássico afetivo que sempre encontra o caminho de volta à mesa. “Deixa eu eleger o meu favorito, então: é a couve. A couve é muito boa”, conclui, celebrando a hortaliça que, de folha em folha, costura a tradição rural ao paladar urbano da cidade.

Endereço do Cozinha Tupis: Av. Olegário Maciel, 742 – LJ 2161 – Centro, Belo Horizonte

Cultura alimentar dos tempos coloniais

Para narrar a história do restaurante Dona Lucinha, Márcia Nunes relembra a trajetória da mãe, que fundou o estabelecimento que leva seu nome. Dona Lucinha era professora em uma escola rural, onde tinha o hábito de cozinhar juntamente aos alunos. “Ela foi tomando gosto pela cozinha típica e foi entendendo que os próprios mineiros não valorizam de verdade o patrimônio alimentar”, explica Márcia.

Depois, Dona Lucinha se mudou para o Serro, onde se tornou diretora escolar e passou a ser convidada para festivais de cozinha mineira em outras cidades, incluindo Belo Horizonte. “Ela serviu tropeiro, canjiquinha, rabada, molho pardo, tudo que é comida mineira”. Por 20 anos, ela participou de eventos que valorizavam a cultura mineira pelo Brasil. 

Dessa maneira, ela amadureceu a ideia de criar um restaurante em Belo Horizonte, plano concretizado em 1990, quando o restaurante Dona Lucinha foi aberto na Savassi. “Ela pesquisou os pratos mais significativos da cozinha mineira do período do ciclo do ouro e dividiu esses pratos entre a cozinha da fazenda e a cozinha do tropeiro. Devido a esse peso cultural, do quanto ela era simpática, inclusiva e da forma como ensinava as crianças a valorizar os pratos, ela já tinha um nome forte”.

Herança de família: Márcia Nunes, filha da fundadora do Dona Lucinha, comanda a cozinha da casa. Fotos: Clara Margotti e Pedro Almeida

Márcia relata que sua mãe ouvia críticas até mesmo dentro da família, mas não se deixava abalar: 

As minhas tias falaram: ‘Lucinha, como que você vai fazer um restaurante na Savassi e colocar angu? Isso não é comida que você põe em um restaurante na Savassi!.

Mas Lucinha seguiu em frente com a sua ideia. “Ela era uma mulher de interior, começando um negócio com investimento, com 11 filhos. Era um desafio fazer dar certo, né? Mas eu acho que ela nunca duvidou”, afirma Márcia.

Márcia elenca os principais pilares da culinária mineira presentes no cardápio do Dona Lucinha: “O porco é muito presente, né? Ele é muito rústico, ele não precisa de pasto, ele não é frágil como o frango. Então, por isso, ele é a principal fonte de proteína da cozinha mineira”.

A canjiquinha também tem papel importante para Márcia: “O milho é mu’ito abundante na região de Minas Gerais, e a canjiquinha é um alimento que parece sagrado. Você pega meio quilo de canjiquinha, ela vira uma panela desse tamanho, ela multiplica”, explica Márcia.

A filha de Dona Lucinha acredita que sua mãe classificaria a canjiquinha como um dos alimentos mais importantes da culinária mineira. “Tem pesquisas que mostram que é dos alimentos mais saudáveis que tem, sobretudo quando é feita em panela de ferro, como minha mãe sempre fez, porque a canjiquinha absorve o ferro, então ela combate a desnutrição infantil. Então, pelo aspecto social, cultural e nutricional, eu acho que ela elevaria a canjiquinha com costelinha como um prato mais relevante”.

Quase quatro décadas depois, a filha dá continuidade ao legado da mãe, mantendo o restaurante Dona Lucinha em funcionamento e seguindo os ensinamentos da própria fundadora: “Hoje em dia, a gente vê que é muito difícil a preservação de culturas e a preservação de comidas típicas. Foi algo que foi se perdendo, ainda mais nos tempos modernos. As pessoas querem algo mais rápido, algo mais prático, e como ela dizia, o primeiro ingrediente da comida é o amor”.

Endereço do Dona Lucinha: R. Padre Odorico, 38 – São Pedro, Belo Horizonte.

Entre chefs e especialistas

Compreender a presença da culinária de diferentes regiões brasileiras em Belo Horizonte exige olhar para a comida como ato político e elemento de afirmação identitária. A análise de quem estuda e divulga a gastronomia na capital mineira revela a mesma conclusão: a cidade ainda carece de redutos consolidados das cozinhas de outros estados. A jornalista especializada em gastronomia, Joana El Khouri, explica que a capital ainda caminha para se consolidar como um polo de “cozinha criativa”.

Por outro lado, para a influenciadora gastronômica Mafê Lages, existe um fenômeno nas redes sociais que pode explicar por que comidas tradicionais nem sempre são tão populares. “O apelo visual nas redes sociais é imediato. Principalmente com os produtos de massa, como o hambúrguer, que gera um engajamento muito maior”.

É justamente nesse cenário que surge a necessidade de incentivos governamentais para a valorização das culturas regionais. Para o diretor de Políticas de Turismo e Inovação da Belotur, Guilherme Lourenço, o enaltecimento da diversidade aparece em iniciativas como a Bienal de Gastronomia, um espaço de discussão técnica, acadêmica e cultural sobre alimentação. O gestor destaca que a edição mais recente do evento promoveu debates sobre o reconhecimento de cozinhas historicamente menos visibilizadas. “Na última Bienal, a gente fez uma mesa voltada para essa discussão. Acho que é muito válido entender esses pontos e pensar essas rotas”, explica.

Segundo ele, a Belotur também tem buscado ampliar a visibilidade de grupos e tradições que nem sempre ocupam espaço de destaque nos roteiros turísticos convencionais. Entre as iniciativas, estão discussões sobre rotas afroturísticas e ações voltadas ao reconhecimento de territórios e práticas culturais ligadas à alimentação. “Hoje, a gente tem discutido, inclusive, rotas afroturísticas para reconhecer exatamente onde estão esses polos e como potencializá-los”, afirma.

Para Guilherme, um dos desafios é ampliar o diálogo entre os diferentes atores do setor gastronômico e garantir recursos para que essas iniciativas se consolidem. Nesse sentido, a Belotur tem utilizado editais públicos para apoiar eventos gastronômicos e fortalecer projetos ligados à cultura alimentar da cidade:

A gente tem feito um movimento de atender esses eventos com investimento público através do nosso edital de eventos, dando um destaque para aqueles em que a gastronomia está evidenciada.

Se a comida é considerada uma ferramenta de preservação histórica, como defende a jornalista Joana El Khouri, sua sobrevivência e diversidade precisam ser reconhecidas e fortalecidas em grandes metrópoles. 

Entre o ancestral e o atual, o peso histórico e contemporâneo, o cenário gastronômico da cidade é uma verdadeira antítese, com cozinhas tradicionais, como o Dona Lucinha, e afetivas, como o Flor de Jambu e o Andu de Dois; cozinhas familiares, como o restaurante Do Peixe; cozinhas contemporâneas e cosmopolitas, como o Cozinha Tupis; e cozinhas que promovem fusões entre diferentes identidades culinárias, como acontece no Baêa Uai

Na cidade onde cada esquina é um potencial ponto de encontro entre os amantes da boa prosa e da boa mesa, a comida une as diferentes gerações e regiões do Brasil. Como observa Guilherme Lourenço, quem visita BH encontra na gastronomia uma das principais formas de vivenciar a cidade e sua diversidade cultural. 

Não à toa, turistas e moradores de Belo Horizonte encontram nas cozinhas da cidade mais do que pratos de comida: vivem uma experiência de afeto, em que a tradição se renova a cada garfada e a hospitalidade se traduz em sabor. 

Reportagem desenvolvida por Beatriz Torres, Clara Margotti, Hannah Andrade, Letícia Nogueira, Millena Alves e Pedro Almeida para a disciplina Laboratório de Jornalismo Digital, da PUC Minas, sob supervisão da professora Nara Scabin, no 1º semestre de 2026.


Colab PUC Minas

Colab é o Laboratório de Comunicação Digital da FCA / PUC Minas. Os textos publicados neste perfil são de autoria coletiva ou de convidados externos.

Adicionar comentário

Instagram

Instagram has returned empty data. Please authorize your Instagram account in the plugin settings .

Colab PUC Minas

Colab é o Laboratório de Comunicação Digital da FCA / PUC Minas. Os textos publicados neste perfil são de autoria coletiva ou de convidados externos.