Em meio ao som de explosões, aos riscos de uma guerra e ao silêncio que sucede grandes tragédias, um jornalista brasileiro construiu a carreira fazendo da reportagem um compromisso permanente com a realidade. Ao longo de quase três décadas de profissão, Sérgio Utsch, de 52 anos, transformou o mundo em seu campo de trabalho, percorrendo mais de 80 países e acompanhando alguns dos acontecimentos mais importantes do século XXI. Correspondente internacional pelo SBT, Utsch tornou-se uma das principais referências do jornalismo brasileiro em coberturas de conflitos armados, crises humanitárias e eventos de repercussão global.
A trajetória não começou em grandes centros internacionais nem diante das câmeras dos principais telejornais do país. Ela teve início em Belo Horizonte, onde nasceu e recentemente esteve para palestrar e conceder esta entrevista. Sentado no estúdio do Campus São Gabriel da PUC Minas, vestindo uma calça preta e um blazer bege, com um sorriso simpático no rosto, Sérgio conta que sempre quis ser jornalista. “Desde pequeno, eu, às vezes, abandonava a partida de futebol que eu jogava na rua para ficar narrando os gols dos meus amigos. Então, esse problema (não saber o que quer ser) não tive, eu sempre soube que eu seria jornalista.”
Apesar da convicção desde cedo, Sérgio não tinha jornalistas na família. Ele é o único entre os parentes mais próximos. Ainda assim, reconhece que cresceu em um ambiente onde a escrita ocupava lugar importante. “Tem uma veia literária na família. Meu pai, depois de aposentado, escreveu vários livros. A minha avó, mesmo sendo semialfabetizada, também escrevia. Talvez tenha um pouco dessa minha veia literária que veio dali”, reflete.
A certeza sobre o futuro profissional não esteve acompanhada de facilidades. Vindo de uma família que não tinha tantos recursos, a trajetória para realizar a graduação em Jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) teve alguns desafios. Sérgio conta que estudava à noite, e que, em certos momentos, chegava a ter três empregos para conseguir pagar a faculdade e o local onde morava. “Eu cheguei a ter três empregos, um de manhã, um à tarde e outro aos domingos. Um deles era, inclusive, num hospital psiquiátrico. Mas foi a partir daí, eu acho, que eu comecei a ganhar musculatura de jornalista, porque aí eu comecei a fazer um estágio aqui, outro ali.”
Trajetória profissional
Durante a graduação, Sérgio começou a ter experiência prática em veículos de comunicação e a construir uma rede de contatos no jornalismo mineiro. Trabalhou na Rádio Itatiaia, uma das mais tradicionais do estado, além de atuar na CBN, Band, Record e no jornal O Tempo. Essas experiências permitiram que ele desenvolvesse habilidades em diferentes formatos jornalísticos, desde o radiojornalismo à televisão.
Foi, porém, na TV Globo Minas que consolidou uma etapa fundamental da carreira. Ficou aproximadamente oito anos na emissora, sendo metade como repórter do Jornal Nacional. Na época, o caminho até os telejornais de rede seguia uma lógica mais gradual. Os jornalistas começavam em coberturas locais, passavam por programas regionais e, somente depois, chegavam aos grandes telejornais nacionais. “Isso me ajudou muito. Foi um privilégio ter tido aquela escola de telejornalismo, com figuras que eram muito experientes, então foi interessantíssimo para mim”, lembra.
Mudança para SP e coberturas internacionais
Em 2005, um novo capítulo começou. Sérgio mudou-se para São Paulo para integrar um projeto de reformulação do jornalismo do SBT, junto da jornalista Ana Paula Padrão. A partir de então, passou a viajar frequentemente para acompanhar eventos de grande relevância global. Cobriu os Jogos Olímpicos de Pequim, fez a primeira cobertura de guerra (Hamas contra Israel), narrou o terremoto no Haiti, atuou em eleições e produziu reportagens em países da América do Sul.
O contato com o jornalismo internacional ocorreu aos poucos. E ser correspondente não era algo que ele sonhava, aconteceu por acaso. Com o passar do tempo, a experiência acumulada transformou-o em um profissional especializado em coberturas fora do Brasil.

Londres como nova casa
Quando se tornou correspondente internacional, Sérgio Utsch estabeleceu sua base em Londres. A “Terra da Rainha” passou a ser seu ponto de partida para coberturas realizadas em diversas partes do mundo. Sérgio brinca que sempre foi meio “cigano”, e que, rapidamente, sentiu-se em casa.
“Não é muito difícil se sentir em casa em Londres, mas também não é fácil assim. E Londres é e sempre foi, nesses 15 anos que eu moro lá, a minha base. Eu viajo demais, assim, viajo muito. E hoje é o lugar que eu chamo de casa. Mas, não sei, amanhã eu posso ter outro lugar para chamar de casa.”
Sérgio brinca ao revelar o que torna a adaptação rápida: “a minha casa é onde estiver a minha coleção de smurfs, que sempre anda comigo”.

O correspondente também tenta encontrar equilíbrio na vida construída em Londres. Entre pedaladas e corridas de vez em quando, uma das atividades preferidas do jornalista é ir aos tradicionais pubs londrinos. Ele conta que, ao contrário do Brasil, seus amigos na capital britânica são pessoas que não são jornalistas, e que isso é muito importante para dar uma “quebrada” na rotina.
Haiti e suas marcas
Ao longo dos anos, o jornalista esteve presente em algumas das regiões mais perigosas do planeta. Cobriu a guerra na Ucrânia, acompanhou conflitos no Iraque, na Síria e no Afeganistão, além de realizar reportagens em Israel e na Palestina.
Entre todas as experiências vividas ao redor do mundo, nenhuma marcou tanto Sérgio quanto a cobertura do terremoto no Haiti, em 2010. O desastre provocou a morte de cerca de 200 mil pessoas e destruiu grande parte do país. Ao chegar ao local, o jornalista se deparou com um cenário que descreveu como inesquecível.
Eu olhava para esquerda, para direita, para baixo, para cima. Tinha gente morta na rua. Ali foi uma dificuldade absurda. Foi muito difícil, muito difícil mesmo. E foi num momento, algo que me desestabilizou muito emocionalmente. Eu tenho até hoje aquele cheiro da morte na minha cabeça.
Sérgio conta que presenciou famílias tendo que enterrar parentes diante das próprias casas, pois o cemitério também estava tomado pela destruição.
O peso emocional da profissão
O jornalista explica que, com o tempo, entre uma guerra e outra, acabou “ganhando casco” em meio a tantos conflitos, e isso acabou diminuindo o desgaste emocional. Uma das coisas que o ajudaram a controlar essas emoções é a psicanálise. Ele conta que o método terapêutico o ajudou muito a entender e a controlar essas situações.
Ainda assim, em meio a essas coberturas, às vezes é impossível não desabar. Durante um trabalhos perto de Mossul, no Iraque, ele conversava com uma criança que chorava e mostrava uma tatuagem no braço com o nome do pai, sequestrado pelo Estado Islâmico. “Você conhece o meu pai? Você conhece o meu pai? O nome dele está aqui.” A cena marcou profundamente o jornalista. “Aquilo me derrubou. Eu lembro desse menino várias vezes até hoje.”
Mas Sérgio relata que os momentos mais difíceis nem sempre acontecem durante a cobertura. O impacto emocional costuma surgir quando a adrenalina diminui e o jornalista finalmente tem tempo para processar tudo o que viveu. “É o encontro de você com os traumas acumulados nos últimos dias, nas últimas semanas, com as memórias, que às vezes não são nem tão traumáticas, mas são difíceis”, explica.
Falta de apoio emocional
Segundo o jornalista, empresas de comunicação mais experientes em coberturas de guerra e crises humanitárias costumam oferecer acompanhamento psicológico aos profissionais após coberturas de impacto emocional. Ele defende que isso também seja adotado no Brasil. Na avaliação do jornalista, as empresas brasileiras ainda não têm maturidade para ofertar suporte a profissionais expostos a situações extremas.
Cobertura da guerra na Ucrânia
Sérgio define a cobertura da Ucrânia como a mais importante da carreira. Acompanhando o conflito desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia, o jornalista afirma que os anos de cobertura lhe deram “musculatura para entender o que é a Ucrânia e como esse conflito com a Rússia é complexo. Ao longo de mais de uma década, ele acompanhou diferentes fases do conflito, observando não apenas os impactos militares, mas também as transformações políticas, sociais e culturais provocadas pelo confronto.
Para o correspondente, compreender a guerra exige ir além dos acontecimentos no campo de batalha. Por isso, busca contextualizar nas reportagens os interesses geopolíticos envolvidos e mostrar como o conflito afeta a vida da população ucraniana. “Uma cobertura de guerra às vezes não é apenas estar ali na trincheira.” Ao longo das viagens ao país, entrevistou soldados, civis, autoridades e lideranças políticas, buscando apresentar ao público as diferentes dimensões do conflito.
O jornalista também defende presença mais ativa da imprensa brasileira na cobertura internacional. Para ele, o Brasil ainda depende excessivamente de conteúdos produzidos por veículos de comunicação estrangeiros e precisa fortalecer sua própria produção jornalística sobre temas globais. “Nós precisamos produzir o nosso conteúdo com a nossa visão (brasileira) de mundo”, destaca.
Riscos e intimidação
Durante as coberturas mais recentes na Ucrânia, Sérgio acompanhou de perto o avanço do uso de drones, tecnologia que redefiniu a dinâmica dos combates e aumentou significativamente os riscos para jornalistas em campo.
Até o silêncio deve ser usado como instrumento de segurança para que a gente possa ouvir a aproximação de drones.
Sérgio também testemunha os desafios enfrentados por repórteres em zonas de conflito. Se as marcas emocionais fazem parte da rotina, os riscos à própria segurança também caminham lado a lado com a profissão. Este ano, em cobertura da guerra na Ucrânia, foi ameaçado após a publicação de uma reportagem produzida em parceria com o jornalista americano Jared Goyette, do Kyiv Independent. O conteúdo reunia relatos de testemunhas que denunciavam supostos casos de tortura praticados por uma unidade do Exército ucraniano composta por recrutas brasileiros. Entre as vítimas mencionadas estava um brasileiro de 28 anos.

O caso mobilizou entidades que defendem a liberdade de imprensa em diversas partes do mundo. Repórteres Sem Fronteiras, Comitê para a Proteção dos Jornalistas e Associação dos Correspondentes Estrangeiros em Londres manifestaram apoio. No Brasil, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) também demonstraram solidariedade aos jornalistas. “É importante, porque não é defender o jornalista. É acima de tudo defender o jornalismo.”
O jornalista conta que, apesar das ameaças, nunca deixou de refletir sobre os riscos envolvidos nas coberturas. Em cenários de guerra e política, algumas decisões podem trazer consequências para a segurança da equipe. Nesses momentos, o desafio não está necessariamente em recuar, mas em escolher qual caminho seguir. “Várias vezes eu já pensei, vou por esse caminho ou vou por aquele caminho? Qual caminho seguir? Essas escolhas são colocadas na frente em muitos momentos desses trabalhos mais difíceis, como o trabalho de cobertura de conflito armado.”
Ouvir todos os lados
O mineiro afirma que entrevistou personagens com diferentes perspectivas sobre uma mesma história, incluindo integrantes de grupos armados. Ao ser perguntado sobre como consegue contato para fazer essas entrevistas com pessoas frequentemente vistas como “vilãs”, Sérgio brinca que usa do seu jeitinho mineiro para abordar as pessoas. “Olha, eu sou muito mineiro na abordagem e eu acho que isso ajuda, sabe? Como pelas beiradas”. Mas para além disso, o jornalista considera essencial chegar sem pré-conceitos.
O que eu acho da Rússia não interessa, o que eu acho da Ucrânia não interessa, eu estou ali para ouvir e para contar histórias.
Para Utsch, embora seja impossível eliminar completamente a subjetividade — já que toda escolha narrativa passa pela forma como cada profissional enxerga o mundo —, a escuta deve vir antes do julgamento. “Tem uma grande coisa aí, que é ir com coração e mente abertos para ouvir as histórias”, afirma.
Ele então relembra um episódio vivido no Afeganistão. Em um mirante em Cabul, enquanto gravava imagens da cidade, foi abordado por homens armados ligados ao Talibã, quando fizeram um convite de forma inesperada para ele. “‘Vamos comer melancia?’ Eu tive que ir comer, né?”, conta, aos risos.

Entre esses homens, estava um jovem de cerca de 18 anos, hoje já com pouco mais de 20, natural de Kandahar, cidade considerada o berço do Talibã. Apesar da imagem associada ao grupo, Sérgio recorda do encontro. “Esse menino me deu a mão. A gente andou de mão dada e ele com uma metralhadora enorme”, relata.
A conversa com o rapaz revelou uma história marcada pela guerra. Duas gerações de sua família foram mortas durante bombardeios dos Estados Unidos. “Esse menino cresceu numa pegada de ódio por um outro país. Quem são os terroristas para esse menino?”, questiona o jornalista. Para Sérgio, experiências como essa ajudam a compreender os diferentes lados do conflito. “O movimento internacional é isso. Vocês têm que estar preparados para as contradições, porque elas são muitas.”
Ele fala que sentar, conversar e compartilhar uma melancia com aquelas pessoas foi uma oportunidade de entender quem elas eram para além dos rótulos. “Esse tipo de experiência é interessante, porque você senta ali e tenta entender quem são essas pessoas.”

Preservação do que vivenciou
Sérgio também reflete sobre preservar as histórias que produziu ao longo dos anos. O blog Argumento, onde ele reunia reportagens, reflexões e registros de suas coberturas pelo mundo, ajudou nesse processo.
Hoje, dedica um pouco do tempo que encontra à escrita de um livro sobre a Ucrânia e as coisas que já viveu. Segundo o jornalista, um livro com muitas memórias e informações. Acostumado a trabalhar com reportagens para televisão e com uma escrita mais jornalística, Sérgio explica que escrever um livro exige outra lógica. “Eu não sou um escritor de livros. Eu trabalho com a escrita de uma outra maneira. Então o livro tem sido um grande desafio para mim e que eu tenho colocado energia.” A publicação do livro representa um desejo de produzir algo mais autoral. Embora tenha participado do livro “Reportagem na TV: como fazer, como produzir, como editar”, publicado em 2010, escrito em colaboração com outros profissionais da área, ele vê o novo livro como uma oportunidade de fazer um trabalho mais pessoal.
Além das coberturas
Quando perguntado se tem vontade de voltar ao Brasil e cobrir histórias mais leves, Sérgio responde que não se vê retornando ao país por agora, mas destaca que esse tipo de narrativa mais leve continua despertando seu interesse. Ele cita o documentário “O Menino que Fez o Museu”, um projeto que definiu como “super despretensioso”, mas que acabou conquistando reconhecimento em festivais pelo mundo.
O filme foi realizado em parceria com um amigo mineiro, Emerson Penha, de outro amigo de Emerson e do britânico Louis Blair, cinegrafista que já havia acompanhado Sérgio em coberturas como a do Iraque. Na época, o jornalista sentia a necessidade de se afastar um pouco dos cenários de guerra e voltar a atenção para outras histórias.
Foi no cenário do Sertão do Cariri,Ceará, que nasceu a história do documentário, um menino que sonha em criar um museu com um sonho alimentado por tristezas e frustrações.
Para Sérgio, a produção foi uma das melhores coisas que já fez. “Foi um respiro ali com esse filme”, conta. Apesar de não ter gerado retorno financeiro, o documentário permanece como uma das experiências mais gratificantes da carreira.

Prêmios marcantes
Entre os trabalhos que mais marcaram sua trajetória estão reportagens investigativas sobre a exploração sexual infantil e vulnerabilidade social no Vale do Jequitinhonha.
Ao relembrar esses conteúdos, o jornalista destaca que algumas das consequências mais significativas vieram anos depois da publicação. Um dos exemplos é o relato do jornalista britânico Matt Roper, fundador da ONG Casa Rosa, em Minas Gerais. Segundo Utsch, Max contou que uma das motivações para criar o projeto, voltado ao acolhimento de meninas em situação de vulnerabilidade, surgiu após assistir a uma série de reportagens produzidas por ele sobre o tráfico de órgãos e exploração infantil.
“Esse é o maior prêmio que eu já recebi. Isso é o que me faz sair da cama”, afirma sobre impactar positivamente a vida das pessoas que mais precisam.
O reconhecimento também veio por meio de premiações importantes do jornalismo brasileiro. Em 2009, Sérgio foi finalista do Prêmio Esso com uma reportagem sobre a exploração sexual de crianças no Vale do Jequitinhonha e recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog pela série Infância Roubada. Apesar disso, ele ressalta que o valor do trabalho está no impacto junto à sociedade.
“Aquelas meninas, no caso do Vale do Jequitinhonha, me ajudaram mais do que eu ajudei elas”, reflete. Para ele, reportagens desse tipo representam a essência do jornalismo investigativo: trabalhos construídos com tempo, apuração aprofundada, sensibilidade e compromisso público, capazes de dar visibilidade a problemas muitas vezes ignorados.
Jornalismo como sacerdócio
Com a experiência de quem percorre o mundo, Sérgio aborda a trajetória profissional com a sensação de ter realizado tudo o que queria fazer dentro do jornalismo. Hoje, ele não fala em metas grandiosas ou conquistas para o seu futuro. Seu desafio agora é outro: aperfeiçoar aquilo que faz. “Transformar aquilo em algo melhor, mais perfeito. Eu tenho muito compromisso em fazer as coisas e de entregar algo para as pessoas entenderem, gostarem, e para tirarem alguma mensagem daquilo.” explica. Para ele, o jornalismo só faz sentido quando cumpre com a missão de aproximar o público dos acontecimentos e ajudá-lo a compreender o mundo.

Quando as câmeras se desligam, o correspondente tenta encontrar equilíbrio na vida construída em Londres. Entre pedaladas e corridas de vez em quando, uma das atividades preferidas do jornalista é ir aos tradicionais pubs londrinos. Ele conta que, ao contrário do Brasil, seus amigos na capital britânica são pessoas que não são jornalistas, e que isso é muito importante para dar uma “quebrada” na rotina.
Reportagem produzida pelas monitoras Ana Luiza Rodrigues e Cibelle Irias, sob a supervisão da professora e jornalista Fernanda Nalon Sanglard.




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