Entre a desumanização e o fim do Hospital Colônia
No dia 18 de maio de 2026, quem passou pela Avenida Afonso Pena, no centro de Belo Horizonte, pôde observar uma marchinha com samba, faixas, cartazes e artes. Ao centro, podia-se ver um cartaz que deixava claro o motivo do movimento: no dia 18 de maio é comemorado o Dia da Luta Antimanicomial, símbolo da luta nacional por uma saúde mental sem manicômios.
O final do mês de abril deste ano marcou também o fim de uma era dolorida, desumana e radical para a saúde mental no estado de Minas Gerais. Em 24 de abril, o Hospital Colônia de Barbacena foi fechado definitivamente, e os últimos pacientes foram transferidos para unidades de cuidado da prefeitura de Barbacena. Os últimos 12 pacientes não falam ou têm vínculos familiares, e por conta das especificidades do quadro clínico, devem permanecer sob os cuidados médicos da psiquiatria. Os últimos pacientes que fecham as portas do hospital marcam o fim de uma era permeada de horror e desumanização.
Criado em 1903 com o intuito de ser o lar para pacientes com transtornos mentais, o Hospital Colônia registrou mais de 60 mil mortes de internos no decorrer das décadas. O que nasceu com a leviana ideia de ser uma referência de tratamento psiquiátrico no Brasil, logo se tornou uma horrou que permeou a cidade e a região, contribuindo, inclusive, para a criação da expressão “Trem de Doido”. . O local foi o destino de milhares de jovens que eram considerados, pela família, como indesejados pela sociedade da época – como homossexuais, militantes políticos, grávidas e pessoas com deficiências. Mais de 70% dos pacientes que estavam internados no hospital sequer tinham laudo para doenças psicológicas.
O fim definitivo do hospital, mais de um século depois de sua inauguração, revela uma veia aberta no cenário da saúde mental no Brasil. Daniela Arbex, autora do livro “Holocauto Brasileiro” fala sobre os horrores do hospital. Em palestra realizada no Ministério Público de Minas Gerais, em 2025, Daniela Arbex afirmou, “as pessoas morreram de fome, diarreia, tortura, frio e eletrochoque. Foi um extermínio”. Ainda segundo ela, mais de 1800 corpos foram vendidos a faculdades de medicina do Brasil.
Passado e futuro caminham lado a lado
A avó de Joelson Rodrigues, enfermeiro formado pela PUC Minas e especialista em saúde mental, foi uma das milhares de vítimas decorrentes da precariedade dos hospitais psiquiátricos no século passado. Ele conta que ela tinha crises recorrentes e foi internada por diversas vezes, ficando longe dos filhos e da família em boa parte da vida. No fim, faleceu aos 53 anos e deixou uma marca na vida de Joelson: “Isso sempre me instigou, porque era meio que um tabu dentro da minha família. Quando fui cursar Enfermagem na PUC de Betim, no meu estágio de saúde mental, foi no serviço substitutivo que fui apresentado a essa proposta da luta antimanicomial. Para mim foi algo muito inovador, porque me veio como poderia ser na época da minha avó, se existisse um serviço que fosse possível de cuidar da pessoa, no meio familiar, e não separar, sabe?”.
A avó de Joelson não é uma exceção. De 1900 a 2000, o Conselho Federal de Psicologia estima que mais de 100 mil pessoas morreram confinadas em hospitais como o de Barbacena. De lá pra cá, observamos grandes avanços no setor do Brasil, apesar de ser uma luta contínua. Este ano a lei 10.216 completa 25 anos, e ela foi um marco transformador para o cenário da Saúde Mental no Brasil – a Lei garante, entre outras coisas, “o direito e a proteção das pessoas acometidas de transtornos mentais; e os direitos são assegurados sem qualquer forma de discriminação quanto à raça, cor, sexo, orientação sexual, religião, opção política, nacionalidade, idade, família, recursos econômicos e ao grau de gravidade ou tempo de evolução de seu transtorno, ou qualquer outra.”
A Lei também delimita atendimentos em saúde mental, de qualquer natureza, a pessoa e seus familiares. Para Joelson Rodrigues, o desfile do dia 18 de maio e o marco da luta antimanicomial foi o seu ponto de virada.
“É lindo porque são pessoas que historicamente foram dadas enquanto algo perigoso, algo que deveria estar preso, isolado da sociedade. Ali, parando a sociedade em um ato de festa, em um ato de alegria, isso chamou muita atenção quando eu vi, eu falei: “Nossa, eu quero trabalhar com isso”.
É lindo porque são pessoas que historicamente foram dadas enquanto algo perigoso, algo que deveria estar preso, isolado da sociedade. Ali, parando a sociedade em um ato de festa, em um ato de alegria, isso chamou muita atenção quando eu vi, eu falei: “Nossa, eu quero trabalhar com isso”
Em Belo Horizonte, a cidade pode ser considerada uma pioneira na luta da saúde mental: a rede municipal possui o CERSAM em diferentes regiões, que cobre toda a cidade e o tratamento busca a estabilização do quadro clínico, a reconstrução da vida pessoal, o suporte necessário aos familiares, além do convívio e a reinserção social. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são unidades de saúde psiquiátrica que atendem centenas de pessoas que sofrem algum tipo de transtorno mental e outros segmentos como consultório na rua e o PAIPJ, que também é um serviço vinculado ao Tribunal de Justiça, que faz acompanhamento de pessoas em sofrimento mental que têm algum conflito com a lei. Joelson explica que passou por todos esses setores da saúde mental da cidade:
“Os avanços que vemos na inserção dos pacientes de saúde mental – principalmente em Belo Horizonte, devem ser celebrados e, principalmente incentivados. Os serviços substitutivos foram criados com o intuito de abarcar essa demanda no território e é feita para que a pessoa esteja no território e que ela possa realmente circular pela cidade. É uma rede que conecta paciente, família, cidade, cultura e cuidado, logo, não vai ser um dispositivo único e não vai ser um dispositivo simples, mas vão ser vários dispositivos e vários serviços que vão abarcar todas as necessidades dessas pessoas”, explica Joelson Rodrigues.
Para ele, a ideia dos serviços substitutivos é que a pessoa possa continuar no seu território, na sua casa, mas que o paciente possa circular pela cidade. Se ela tiver no momento de crise, o paciente pode ter o auxílio CAPS, do CERSAN, mas que o paciente volte para a casa dela. Esse momento de circular é importante, de ir e voltar.
A arte de cuidar
A cultura e a arte surgem como um apoio fundamental para a rede da saúde mental: Centros de Convivências, Centros Culturais e Associações como a Suricato são fundamentais para afastar a lógica manicomial – que tende a prender e restringir.
A Associação Suricato por exemplo, traz o conceito de economia solidária e é formada por pessoas acometidas pelo sofrimento psíquico que utilizam a Rede de Atendimento PsicoSocial (RAPS). No Instagram, eles divulgam artes feitas pelos pacientes. Em uma das obras, é possível ver o relato de um dos autores de um quadro: “O que me faz feliz é fazer o meu trabalho. Ninguém pode acreditar que remédio, terapia traga felicidade. Ver o meu trabalho é o que me deixa feliz.. “
A consolidação de um modelo que preza pela liberdade não nega a necessidade de internações ou pernoites protegidas em casos graves: a diferença crucial reside no respeito à individualidade e na brevidade deste cuidado, que agora acontece no próprio território e conta com equipes preparadas e capacitadas na atenção básica. Essa mudança estrutural fica evidente no contraste geracional: se, no passado, o destino inevitável de crises severas e doenças psiquiátricas era o isolamento definitivo em Barbacena, hoje, a luta antimanicomial prevê o direito de permanecer em casa, convivendo com a família de forma digna, de ter acesso ao Sistema Básico de Saúde e receber respeito, como uma pessoa, e não como um doente.
Apesar dos avanços, a continuidade dessa assistência exige compreender que a saúde mental vai muito além do diagnóstico clínico ou do acesso a remédios: ela está profundamente atrelada às vulnerabilidades sociais. Em um país marcado por desigualdades históricas, torna-se urgente questionar qual é a saúde mental possível quando faltam moradia e alimentação, ou quando o cotidiano é atravessado pela violência estrutural do racismo, pontua Joelson Rodrigues, enfermeiro pela PUC Minas.
É justamente por tocar em feridas tão profundas da estrutura social que o movimento se apoia no lema “Nada de nós sem nós”. Embora pesquisadores, técnicos e familiares dominem a teoria e guardem as memórias herdadas de seus antepassados, a legitimidade política para ditar os rumos dessa transformação pertence a quem de fato viveu e sobreviveu aos horrores do confinamento. Garantir o protagonismo dessas pessoas na formulação de políticas públicas é a única barreira capaz de impedir que a lógica manicomial se repita sob novas abordagens. Ao colocar os usuários no centro do debate, a Reforma Psiquiátrica cumpre seu papel mais urgente: devolver a palavra e a cidadania plena a quem a sociedade historicamente tentou silenciar.




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