Belo Horizonte amanhece com 16 mil rostos invisíveis. São homens, mulheres, crianças e idosos que dormem sob marquises, becos, viadutos e praças públicas, uma população que cresceu 76% nos últimos cinco anos na capital mineira, segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Enquanto o poder público patina entre a burocracia e a insuficiência de políticas estruturantes, uma organização constrói com as próprias mãos, aquilo que o Estado deveria garantir: cuidado integral e acolhimento.
A Associação Mãos de Assis, fundada pelo ex-frei franciscano Kauê, é hoje uma das mais expressivas redes de apoio à população em situação de rua (PSR) de Belo Horizonte. Com cerca de 80 voluntários ativos e uma atuação que abrange desde práticas integrativas de saúde até o acolhimento de mulheres em situação de violência, a ONG opera na contramão do descaso e oferece um modelo que especialistas defendem que seja replicado em todo o país: uma Rede de Atenção à Saúde específica para a PSR.
Em entrevista exclusiva, Kauê, que preferiu ser identificado apenas pelo primeiro nome. revelou os bastidores de uma luta diária contra a fome, o preconceito institucional e a burocracia que mata, e mostrou que, mesmo diante de um cenário nacional de 365 mil pessoas vivendo nas ruas, ainda há espaço para a esperança.
Dos muros das igrejas às ruas de BH
A trajetória de Kauê é, por si só, uma odisseia. Durante 16 anos, ele viveu como frei franciscano, imerso na vida conventual e no trabalho pastoral. Mas, dentro dos muros da igreja, algo o inquietava.
“Eu tinha tantas iniciativas para desenvolver que a instituição começou a ficar muito pequena para tanta coisa que precisava ser feita”.

O discernimento foi doloroso, mas necessário. Kauê deixou a vida religiosa e abriu a Associação Mãos de Assis. O nome não é à toa, a inspiração é Francisco de Assis, o santo medieval que, segundo Kauê, “tem muito a nos ensinar na modernidade”. Francisco foi um dos primeiros a tentar o diálogo inter-religioso, e até hoje, 800 anos depois, os franciscanos são reconhecidos como promotores da paz na Terra Santa.
“O respeito ao diferente significa que ninguém precisa mudar as suas convicções ou ideias, mas sim encontrar um espaço onde possamos dialogar naquilo que temos em comum”, explica.
Esse princípio guia a Mãos de Assis até hoje. Voluntários de todas as matrizes religiosas – católicos, espíritas, umbandistas, budistas, evangélicos – atuam lado a lado. “Todos se unem em nome de um propósito: cuidar de todos os seres”, resume.
Um SUS paralelo: práticas integrativas e saúde mental
O trabalho da Mãos de Assis começou com um ambulatório de práticas integrativas no centro de Belo Horizonte. Acupuntura, fitoterapia, Reiki e saberes da medicina tradicional chinesa eram oferecidos gratuitamente à população. Mas, quanto mais atendiam, mais percebiam que o adoecimento humano tem múltiplas camadas.
“Percebemos que o nosso grande público, o de maior sofrimento, era a mulher”, revela Kauê. “O adoecimento da mulher é muito… Eu não digo que é maior, mas a mulher busca mais o atendimento do que nós, homens.”
Foi assim que a ONG criou um departamento específico de apoio à mulher, com assistência jurídica, atendimento terapêutico e suporte para empoderamento e saída de situações de violência. Outro departamento voltou-se aos povos tradicionais – quilombolas, indígenas e ciganos – com uma abordagem que Kauê descreve como “postura de servir”: escutar o que as comunidades precisam e transformar em projetos concretos, como mapeamento de nascentes e captação de água.
Hoje, a Mãos de Assis mantém uma clínica social online de saúde mental, que atende pessoas em todo o Brasil, de Minas Gerais ao Pará. Em parceria com a PUC São Gabriel e a PUC Barreiro, amplia o alcance do atendimento psicológico e psiquiátrico.
“A demanda está altíssima”, admite Kauê. “A sociedade está chegando num ponto de um verdadeiro colapso de saúde mental.”
Os dados do artigo “Transformando práticas em modelo: caminhos para uma Rede de Atenção à Saúde da População em Situação de Rua” corroboram com essa percepção. O estudo, conduzido por pesquisadores da Fiocruz entre 2020 e 2022, aponta que os transtornos mentais estão entre as principais queixas da PSR em Belo Horizonte, com homens relatando mais depressão, ansiedade e esquizofrenia, e mulheres com maior prevalência de depressão e transtorno bipolar.
“Surto messiânico” na pandemia da COVID-19
Foi durante a COVID-19, porém, que a Mãos de Assis viveu seu momento mais dramático, e também mais emblemático.
“Nós éramos um coletivo ainda sem muita força, mas a gente conseguiu muita ajuda nesse tempo”, recorda Kauê. “Porque nós lutamos com uma situação na pandemia, que era oferecer comida, porque tinha gente que tava passando fome.”
A campanha começou em Belo Horizonte, mas logo se estendeu à Bahia, para atender ciganos que solicitaram apoio. Então, veio o pedido mais desafiador: os povos Waurá, do Xingu, precisavam de comida, máscaras e álcool em plena pandemia.

Kauê não tinha recursos, nem logística. Mas um dos voluntários era piloto de avião. Em um gesto que ele mesmo classifica como “quase um surto messiânico”, conseguiu articular com as Forças Armadas o transporte das doações.
“As Forças Armadas foram na nossa casa, buscaram as doações e levaram até o Waurá”, conta, ainda emocionado. “Isso me fez ver como a gente tem a capacidade, quando a gente deseja ajudar o próximo, de fazer coisas que nunca imaginamos.”
Não foi a única vez que a burocracia quase inviabilizou o cuidado. Kauê relembra o caso de uma mãe com duas filhas – uma delas com uma mão amputada – que dormia na rua enquanto o poder público enrolava a papelada para oferecer acolhimento.
Segundo Kauê, a burocracia institucional e política do nosso país, faz com que as pessoas fiquem em situação de rua enquanto uma papelada ou documento não é lançado.“Por isso, na Mãos de Assis, eu prefiro ser o menos burocrático possível.” afirma.
O diagnóstico de uma cidade que não vê seu povo
O artigo “Diagnóstico Situacional da População em Situação de Rua de Belo Horizonte/MG e Equipes Consultório na Rua”, de Rodrigo Caetano Arantes (2017), já apontava, há quase uma década, as dimensões do problema. Com base no Terceiro Censo da População em Situação de Rua e Migrantes de Belo Horizonte (2014), o estudo revelou que:
- 86,8% da PSR era composta por homens;
- A idade média era de 39,6 anos;
- 79,4% se autodeclaravam negros ou pardos;
- 82,2% sabiam ler e escrever;
- 52,2% apontavam problemas familiares como principal motivo para estar na rua;
- O tempo médio de vida na rua era de 7,4 anos.
Os dados de saúde eram igualmente alarmantes: hipertensão (16%) e doenças infectocontagiosas (10,4%) eram as mais prevalentes. O uso de álcool e tabaco atingia 69,5% e 74,7%, respectivamente.
Mas o dado mais revelador, talvez, seja este: a maioria da PSR procurava os Centros de Saúde para atendimento e medicação, e não os Consultórios na Rua, muitas vezes por desconhecimento da existência do serviço.
O estudo mais recente, do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da UFMG, atualiza esse cenário: Belo Horizonte tem hoje 16.115 pessoas em situação de rua, um aumento de 76% em cinco anos. A capital mineira é a terceira do país com maior população de rua, atrás apenas de São Paulo (108.202) e Rio de Janeiro (24.403).
O cenário atual em BH mostra uma clara preocupação da Prefeitura de Belo Horizonte com a População em Situação de Rua, porém, a resolução do problema segundo especialistas, não tem sido realizada corretamente. A aprovação da LEI Nº 12.044, de 19 de junho de 2026 que visa a desobstrução de calçadas e vias públicas em BH, causou discussão na Câmara Municipal com alegações da lei ser “higienista”.
Consultório na Rua: a solução pouco divulgada do SUS
O Consultório na Rua (CnaR) é uma das principais estratégias do SUS para atender a PSR. Equipes multiprofissionais, com enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, médicos e agentes sociais, atuam de forma itinerante, levando saúde a quem está em situação de vulnerabilidade extrema.
Em Belo Horizonte, existem atualmente quatro equipes de Consultório na Rua, atuando nas regionais Norte, Noroeste, Centro-Sul e Oeste. O serviço faz parte da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e atua por meio de vans.
Mas, como aponta o artigo da Fiocruz, a cobertura ainda é insuficiente. Durante a pandemia, o CnaR acompanhou 597 pessoas antes da crise e apenas 372 durante, uma queda que reflete tanto as dificuldades de acesso quanto a mudança no perfil da PSR, com aumento de idosos, mulheres e famílias inteiras nas ruas.
“O CnaR é como se fosse um serviço complementar, ele se faz ponte entre os usuários e os serviços pra conseguir vinculá-los no território”, afirmou uma gestora de saúde entrevistada no estudo. (olho)
No entanto, a falta de integração entre os sistemas de informação do SUS e do SUAS ainda é um gargalo.
O futuro: uma casa, muitas mãos
Os planos da Mãos de Assis são ambiciosos. Kauê quer transformar a própria casa – onde hoje funciona a sede da ONG – em uma casa de acolhimento para mulheres em situação de violência e para pessoas prestes a ir para a rua. Ele conclui, ainda, que quem passar pelo processo terapêutico ainda vai receber cursos formalizantes, apoio para inserção no mercado de trabalho e suporte para seus filhos. Outro projeto é ampliar a oferta de fitoterapia para mulheres ciganas, indígenas e quilombolas, resgatando o conhecimento ancestral sobre plantas medicinais.
“A nossa ideia é fazer com que os povos indígenas resgatem o conhecimento ancestral e voltem ao uso das plantas medicinais”, defende Kauê. “Porque a gente vê no ambulatório: pessoas com câncer, pessoas com adoecimentos que já estão anos em tratamento médico sem resultado, aqui, em alguns meses, a pessoa está melhor.”
Ele chama isso de “SUS 2.2”, uma nova perspectiva de cuidado, que integra o saber científico ao tradicional.

Para quem quiser ajudar, Kauê é direto: “É só falar comigo”. A Mãos de Assis forma novos terapeutas, ensina Reiki, massagem e técnicas de acolhimento. Voluntários podem atuar em aldeias, comunidades ou na clínica social online.
“O nosso objetivo maior é que a gente consiga financiar essas pessoas, ou seja, voluntário, mas que possa receber algum apoio por isso”, planeja.
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Trabalho voluntário maravilhoso e de grande ajuda a população carente que infelizmente cada vez cresce mais em Belo Horizonte e no nosso Estado.
É sublime o trabalho dessa equipe que consegue aquecer e alimentar o estômago e principalmente os corações.
A presença deles ilumina e acalenta.
Que Deus continue dando a eles força e suprimentos.
Parabéns a essa grandiosa equipe.