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Rap em BH lida com marginalização e batalha por mudanças

Movimento é versátil e mantém diálogo com a cultura periférica

Segundo dados do Spotify, Belo Horizonte ostenta o título de terceira cidade brasileira com maior apreço pelo rap. Nos subúrbios, o movimento sonoro do rap em BH está redefinindo a paisagem musical da cidade. Os artistas mineiros BigMike e M$i Lp, integrantes do grupo Quinto Elemento, reforçam como o rap se tornou um veículo de resistência e manifestação de identidade que ecoa pelas vielas da metrópole, narrando as realidades e aspirações de uma geração.

O rap em Belo Horizonte nasceu como uma expressão autêntica da cultura urbana, refletindo as realidades, desafios e aspirações das comunidades na cidade. A área cultural mineira, em especial da capital, tem recebido frequentes e importantes registros na mídia nacional e internacional. Além da quantidade e da qualidade da produção artística belo-horizontina, também existe dinamismo na área, não apenas no que diz respeito ao surgimento de novos instrumentistas, cantores e grupos, mas também nos quesitos produção e gestão. O mercado tem crescido e, cada vez mais, profissionais competentes e apaixonados se destacam nesse meio.

A cena do rap em Belo Horizonte é caracterizada pela diversidade, com artistas de diferentes origens étnicas, sociais e culturais contribuindo para a riqueza do movimento. Das periferias aos bairros centrais da cidade, o rap serve como um canal para expressar a complexidade da vida urbana e promover a solidariedade entre as pessoas. “O rap sempre foi um conjunto”, relata M$i Lp, rapper belo-horizontino.

O rap se tornou uma voz poderosa para os jovens da capital mineira. Não é apenas um gênero musical, mas também uma forma de comunicação, de arte, que incorpora elementos de poesia, dança e também um estilo de vida.

Ao descrever o rap, o rapper BigMike cita a expressão thug life, do cantor Tupac, usada constantemente por diversos artistas do ramo, que significa “The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody”, traduzida para o português como: “o ódio que você semeia para as crianças, ferra todo o mundo”. A frase é por vezes traduzida para “vida bandida”, mas Tupac desmente tal ideia. O autor não relaciona thug com “criminoso”, mas associa o termo aos desfavorecidos, pessoas que lutam por melhores oportunidades e querem acabar com a opressão social. BigMike reconhece a influência norte-americana nos raps atuais, que trazem temas relevantes, como a luta da população negra contra a opressão policial, muito presente nos EUA.

Os eventos de rap, como shows ao vivo, batalhas de MCs e encontros culturais, são frequentes em Belo Horizonte, proporcionando espaços de expressão e interação para os artistas e fãs. Além disso, as redes sociais e plataformas de streaming têm ampliado o alcance e a visibilidade do rap local, permitindo que as vozes da cidade sejam ouvidas em todo o país e além. A relevância do gênero, juntamente com a cultura de rua em Belo Horizonte, influencia a moda, a linguagem, e até mesmo as políticas públicas, assim como destaca BigMike: “Tem uns amigos meus que são mais classe média e classe média alta, que eles viram e disseram: ‘ah eu gosto de rap, deixa eu conhecer’. E quando eles entraram mudaram muito tudo neles, do rosto, da maneira de se vestir. Não foi para aquele lado de querer ser favelado, foi que mudou a mente deles em relação a tudo o que acontece na comunidade, a gente mostra a verdade pra eles, entendeu?”. Nesse sentido, os artistas locais são reconhecidos não apenas por sua habilidade artística, mas também por seu ativismo e engajamento comunitário, contribuindo para a construção de uma cidade mais inclusiva e consciente.

A marginalização do rap no Brasil é um reflexo das desigualdades sociais e do preconceito enraizado na sociedade. Apesar de ser um dos gêneros musicais mais populares e influentes do país, o estilo musical enfrenta obstáculos significativos em sua busca por reconhecimento e legitimidade. Uma das principais formas de marginalização é a estigmatização de suas letras e mensagens. Na maioria das vezes, as letras abordam questões como violência urbana, racismo, desigualdade social e injustiça, refletindo realidades duras enfrentadas por muitas comunidades marginalizadas. Essas mensagens nem sempre são bem recebidas pela sociedade em geral, que as associa frequentemente a estereótipos negativos e preconceituosos sobre a cultura das periferias.

O rap também enfrenta dificuldades de acesso aos meios de comunicação tradicionais, como rádio e televisão. Muitas vezes, as rádios comerciais e as grandes gravadoras têm pouco interesse em promover artistas desse ramo, favorecendo estilos musicais tidos como “mais comerciais”. Isso limita a exposição e o alcance do movimento, dificultando a sua difusão e reconhecimento. Outro aspecto da marginalização do estilo musical é o baixo investimento e apoio institucional. Poucos recursos são destinados à promoção e desenvolvimento da cultura no geral, mas principalmente do rap, em nível governamental, deixando os artistas muitas vezes à margem do cenário cultural “oficial”.

O preconceito racial e social também desempenha um papel significativo na marginalização do rap. Muitos artistas são jovens negros e moradores de comunidades periféricas, que enfrentam discriminação e falta de oportunidades em outras esferas da sociedade. Apesar dos desafios, esse estilo musical continua a ser uma forma poderosa de expressão e resistência para muitos jovens brasileiros. Big Mike lembra que o movimento tem quebrado barreiras para superar o preconceito: “Acho que até mesmo por aquela questão cultural em que a mídia colocou o rap em tudo como uma forma criminosa. Mas isso vem mudando. Até hoje, na minha igreja, tem um ministério só de rap. O ministério está crescendo. Um ministério que hoje são 15, 20 pessoas, todo dia a gente se encontra, conversa, compõe, entendeu?”.

O artista BigMike traz à luz a realidade da periferia brasileira, quando relata a forma que a música foi um dos fatores responsáveis pela mudança no curso de sua vida, assim como M$i Lp, que conta como sua entrada no rap influenciou para que ele tivesse hoje seu próprio empreendimento. O rapper entende que a música é uma oportunidade de enxergar outras possibilidades, algo que pode trazer diferentes perspectivas às pessoas que foram levadas a pensar de uma forma limitada.

Dentro da periferia, muitos artistas se desenvolvem. Deste meio, em Belo Horizonte, surgiram grandes artistas extremamente relevantes para o cenário musical, como os artistas Djonga, WS da Igrejinha, Mc Rick e Sidoka. Outro exemplo de sucesso mineiro é o famoso MTG, gênero caracterizado pela “montagem” musical, que cresceu muito na capital e hoje faz sucesso em todo o Brasil. BigMike destaca WS da Igrejinha como um exemplo de força do MTG, trazendo novidades para o cenário artístico: “Ele buscou conhecimento para criar aquilo e hoje tá aí como tá né. […] Pro MTG de BH estar assim hoje, foi ele quem viu ali como um princípio que abriu as portas”.

As músicas são citadas e compartilhadas em mídias sociais, em manifestações de rua e em debates públicos, ampliando seu alcance e impacto para além dos limites do gênero musical. O rap desafia as normas sociais e amplifica as vozes daqueles que são silenciados, oferecendo uma perspectiva autêntica e muitas vezes crua sobre as realidades enfrentadas por muitas comunidades marginalizadas

Existem critérios objetivos que podem ser considerados ao avaliar a qualidade de um rap. BigMike destaca que pode sim existir “rap ruim” e discorre sobre a falta de originalidade nas letras ou na batida, resultando em uma música genérica e pouco inspiradora. Além disso, a falta de habilidade técnica por parte dos artistas, tanto na composição das letras quanto na execução do rap, pode prejudicar a qualidade da música. Questões como dicção inadequada, falta de flow (fluxo) ou ritmo desajeitado podem comprometer a experiência auditiva. Já M$i Lp conta que acredita não haver rap ruim, pois toda arte tem um público e a opinião de cada consumidor da música é pessoal, porém, quando se trata de produção musical sua visão é semelhante a de BigMike, pois, dessa forma, eles avaliam as músicas tecnicamente. Outro aspecto que pode levar um rap a ser considerado ruim é a falta de autenticidade e honestidade nas letras. O estilo é frequentemente valorizado por sua capacidade de transmitir experiências de vida reais e abordar questões sociais relevantes, entretanto, quando as letras são superficiais, desonestas ou simplesmente carecem de significado, isso pode afetar negativamente a percepção da qualidade da música.

É notável que também existem artistas que, ao encontrarem uma “fórmula” de sucesso, usam isso ao seu favor e, a longo prazo, pode tornar-se um tipo de música genérica e até sem tanta personalidade, por se atender mais ao que é aceito pelo público geral do que se comunicar com sua voz de protesto e contra a cultura dominante.

O futuro do rap é muito incerto. M$i Lp acredita que o estilo ainda vai permanecer como resistência. As discrepâncias sociais, para ele, permanecerão existindo, e o rap, por ser envolto nessa questão, vai continuar expressando, de maneira ousada e poética, os gritos entalados de uma sociedade marginalizada.

A origem do Rap

O Rap surgiu na Jamaica, na década de 60, e logo foi levado aos Estados Unidos, na década de 70. Foi inicialmente valorizado nos bairros pobres de Nova Iorque, onde os jovens de origem negra e hispânica em busca de uma sonoridade diferente, deram um novo impulso e significado ao estilo musical. A sigla RAP vem do inglês “rhythm and poetry”, que na tradução para o português significa “ritmo e poesia”.

O Rap no Brasil

No Brasil, o rap surgiu em São Paulo, na década de 80. Era considerado um estilo de música violento, típico da periferia, sendo reprimido pela sociedade da época. É apenas uma década depois que esse estilo musical começa a ganhar força nas rádios e na indústria fonográfica.

Os primeiros rappers a terem sucesso foram o DJ Hum e Thayde. Depois deles, vieram nomes como Racionais MCs, Planet HEmp, Pavilhão 9, Detentos do Rap, Cambio Negros, Xis & Dentinho e Gabriel, O Pensador, que até hoje é uma referência.

Também aqui começa a ser usado e misturado com outros estilos e gêneros musicais, como, por exemplo, o movimento manguebeat, em que está presente na música de Chico Science & Nação Zumbi e até com ritmos tradicionais brasileiros, como o samba, que muitas vezes é encontrado em pontes nas músicas atuais.

O rap cresceu na década de 90 na união, onde o 509-E, o Racionais, todo mundo ali se ajudava. Se você pegar o contexto histórico ali o Mano Brown fazia alguns beats pro 509-E, entendeu? Sabotage também estava ali no meio com todo mundo, e hoje não é assim. Hoje, querendo ou não, é um por um. É triste falar isso”

BigMike

Atualmente, o rap no Brasil é muito relevante para o cenário musical, vencendo preconceitos e superando os desafios da periferia ao alcançar o grande público

Conheça rappers mineiros

Da esquerda para a direita: Sidoka; M$i Lp; BigMike; Djonga.

Confira a entrevista com o rapper BigMike:

Reportagem produzida por Beatriz Pena, Oade Zimer, Stella Maya e Maria Fernanda Navarro, sob a supervisão do professor Vinícius Borges, para a disciplina Apuração, Redação e Entrevista. 

Leia também: Belo Horizonte: a casa do Duelo de MC’s Nacional

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Colab é o Laboratório de Comunicação Digital da FCA / PUC Minas. Os textos publicados neste perfil são de autoria coletiva ou de convidados externos.

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