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Fotografia em close de um caminhão tracionador Volvo FH vermelho e branco da empresa Lenarge parado em um pátio pavimentado sob céu azul.
Caminhão Volvo FH Globetrotter 500cv da Lenarge, simbolizando a modernização tecnológica e a eficiência no transporte rodoviário. Foto: Arquivo / Lenarge

Na boleia do futuro

Tecnologia, inteligência artificial e metas sustentáveis que redefinem a segurança e a gestão de frotas pesadas no transporte rodoviário

Tecnologia, inteligência artificial e metas sustentáveis que redefinem a segurança e a gestão de frotas pesadas no transporte rodoviário

A imagem tradicional do transporte rodoviário de cargas como um setor bruto e reativo ficou para trás. Impulsionadas pelas exigências de sustentabilidade corporativa (ESG) e pelo avanço do monitoramento por inteligência artificial, frotas de grande porte vêm transformando a gestão de veículos pesados em um modelo centrado na prevenção de acidentes e no controle rigoroso da pegada de carbono. De módulos de rastreamento básico e diagnóstico de bordo até sistemas altamente avançados de telemetria baseados em Inteligência Artificial (IA) e Internet das Coisas (IoT), essas tecnologias entregam às empresas e aos próprios condutores dessas máquinas enormes, segurança para seguir viagem de maneira tranquila e eficiente. 

Globalmente, mais de 35 milhões de caminhões comerciais encontram-se conectados mostrando ao mundo o poder e a eficiência de um setor tão necessário. No Brasil, de acordo com o estudo oficial da consultoria global Frost & Sullivan, detalhado no comunicado de mercado Brazilian Connected Trucks Telematics Will Reach 2.59 Million Units by 2027 e repercutido em veículos jornalísticos como o Estadão Blue Studio, estima-se que 2,59 milhões de caminhões comerciais estarão conectados por telemetria no país até 2027. 

Paralelamente, dados do Programa Despoluir, da Confederação Nacional do Transporte (CNT), reforçam a relevância da inteligência de dados ao somar mais de 5,3 milhões de avaliações ambientais na frota nacional, comprovando que a gestão de dados é o principal motor da transição ecológica do setor. Esse contingente digital transforma o ecossistema de transportes rodoviários, permitindo que frotas de alta performance atuem em todo o país, utilizando o cruzamento inteligente de dados com o intuito de reduzir emissões de CO², mitigar os riscos de acidentes e apresentar ao mundo uma logística nacional cada mais mais segura, sustentável e integrada à atualidade.  

Nesse panorama, a tradicional empresa  mineira Lenarge, com mais de 25 anos de história,  surge como um dos principais casos práticos dessa transformação digital e ecológica no transporte rodoviário. Movimentando cerca de 15 milhões de toneladas de carga por ano e rodando mais de cem milhões de quilômetros, a transportadora opera uma frota com mais de três mil veículos com  idade média de dois anos, sendo 100% monitorada em tempo real. Por meio da telemetria e do aplicativo próprio da transportadora, algoritmos analisam os parâmetros de dirigibilidade dos motoristas instantaneamente, corrigindo atitudes de risco, prevenindo acidentes e otimizando o uso do motor. 

Fotografia de uma fileira de caminhões basculantes brancos da Lenarge seguindo em comboio por uma via pavimentada ladeada por árvores.
Frotas de caminhões basculantes alinhadas em área operacional, refletindo o rigor na manutenção e na preparação para o trabalho pesado. Foto: Arquivo / Lenarge 

Em abril de 2025, a Lenarge deu um salto em sua trajetória rumo à transição energética ao adquirir a Zero Carbon Logistics, referência nacional em logística sustentável, com  o uso de veículos movidos a Gás Natural Liquefeito (GNL) e frotas 100% elétricas. Conforme divulgado pela reportagem da ESG Inside, a união de forças deu origem a uma nova gigante no setor, unindo mais de dois mil colaboradores e uma frota combinada superior a três mil equipamentos. Com a operação, o grupo projetou alcançar um faturamento de R$2 bilhões já no primeiro ano,  um salto de 30% que consolida a empresa como potência no transporte pesado brasileiro.

Mais do que números robustos, a incorporação expandiu a atuação da transportadora em frentes cruciais para o mercado, como armazenagem, transporte MRO (Manutenção, Reparo e Operações) e locação de ativos limpos. Na prática, a movimentação fornece aos grandes contratantes da mineração, siderurgia e do agronegócio, o suporte tecnológico para mensurar e mitigar impactos ambientais, respondendo de forma direta às exigências de redução de emissões no disputado Escopo 3, categoria que contempla os gases poluentes gerados indiretamente por parceiros e prestadores de serviço em toda a cadeia de suprimentos.

Fotografia de um caminhão vermelho da Lenarge trafegando por uma rodovia asfaltada cercada por vegetação em um dia com nuvens no céu.
A tecnologia embarcada e a telemetria avançada garantem viagens mais seguras e monitoradas nas rodovias brasileiras. Foto: Arquivo / Lenarge 

Telemetria e sensores de fadiga: a segurança ativa que transforma a rotina nas estradas 

O papel da inteligência artificial no setor de logística impressiona pelos números, pela eficiência e pelos resultados que apresenta, mesmo a curto prazo. Na prática das rodovias, a tecnologia só funciona quando ganha a confiança de quem está ao volante e por trás dos motores. É exatamente nessa ponte entre os dados frios e a rotina da estrada que atua Leandro Galdino, master driver, profissional responsável pela instrução técnica e capacitação dos motoristas na Lenarge Transportes. O especialista aponta que a evolução dos dispositivos de segurança ativa mudou completamente a dinâmica de condução e a prevenção de colisões nas rodovias: “Hoje os caminhões contam com uma tecnologia embarcada muito avançada. Eles possuem sensor frontal perto da grade: se o motorista está acelerando e chegando perto do carro da frente, o sistema corta a aceleração e, se necessário, freia o caminhão sozinho. É um sensor de distância e colisão”, relata Leandro.

Ele destaca que essa evolução tecnológica resolveu gargalos históricos, que desafiavam os motoristas nas estradas, especialmente em manobras de emergência: “Os veículos mais recentes vêm com o sistema AEBS, que é um sistema eletrônico de frenagem. Ele freia o caminhão quando percebe que o motorista está desatento, prestes a colidir ou quando faz uma curva muito acentuada. Antes, as carretas não tinham o AEBS e o cavalinho mecânico freava, mas a carreta não, acabando por empurrar o cavalo. Hoje o sistema é integrado e obrigatório nas carretas novas”, explica o especialista.

Além da inteligência de frenagem, o aprimoramento visual e ergonômico também redefine o cotidiano dos motoristas, eliminando pontos cegos crônicos. Conforme Leandro, “já existem veículos que não têm mais retrovisor físico, mas sim câmeras, o que elimina os pontos cegos que o motorista não enxergava antes. Há um investimento cada vez maior na segurança do motorista e na segurança viária.”

 Fotografia aérea em ângulo aberto mostrando um caminhão preto e branco da Lenarge atravessando um viaduto em meio a uma região montanhosa e verde.
Caminhão pesado em trânsito sobre viaduto, ilustrando a capilaridade da logística nacional e a integração entre dados e estradas. Foto: Arquivo / Lenarge 

Responsável pelo treinamento e acompanhamento de condutores, ele vivencia de perto a transformação digital na cabine há cinco anos. Quando iniciou sua trajetória na empresa, os sensores de telemetria já estavam implantados, mas ele se lembra de ter visto uma resistência muito grande por parte dos motoristas, que temiam perder sua privacidade dentro dos caminhões. Alguns colaboradores eram contra a assinatura do termo de compromisso de liberação de imagem, mas isso mudou com os resultados que foram apresentados: “Com o tempo, eles perceberam que o sistema realmente ajudava na prevenção de sinistros e roubos. Aos poucos, foram entendendo a importância de ter as câmeras funcionando no caminhão.”

Ao aderirem à tecnologia e passarem a enxergá-la como uma aliada, os motoristas demonstraram, na prática, uma condução cada vez mais segura. Sabendo que estão sendo monitorados por câmeras, os condutores repensam suas atitudes ao volante. Como reforça Leandro: “Cobramos  muito a postura do motorista lá fora, pois ele está carregando a marca da empresa. Com isso, reduzimos acidentes, consumo e quebras.” O profissional cita ainda a chegada dos sensores de fadiga, que sinalizam à empresa quais motoristas apresentam sinais de cansaço e sonolência. É importante frisar que, nesses casos, o intuito não é punir o colaborador, mas sim ajudá-lo a passar por esse processo com o suporte adequado. Ao identificar o desgaste, o profissional é imediatamente encaminhado à medicina ocupacional, que avalia o quadro e pode, por exemplo, ajustar os turnos de quem roda à noite ou direcioná-lo a um especialista. 

A partir desses alertas, a atuação da equipe de instrução passa a ser direta e preventiva, como destaca Leandro, “a nossa equipe de master drivers trabalha em cima desses dados. O pessoal da segurança identifica a fadiga em tempo real e encaminha o caso para nós. Assim, já localizamos o motorista, ligamos para entender a situação, conversamos com ele e explicamos todo o risco que ele corre na direção. É o tempo todo cuidando de cada um. Hoje, sem essa ferramenta, não saberíamos como fazer para controlar tantos motoristas na longa distância que percorrem, praticamente pela região Sudeste e Norte do país inteiro.” 

Adotar uma pilotagem defensiva e alinhada à tecnologia muda completamente o consumo de combustível e o desgaste dos veículos. Nos treinamentos com a frota, a equipe de master drivers demonstra que dirigir com eficiência é, acima de tudo, cuidar do futuro da operação e do meio ambiente. Como destaca Leandro, “o controle de combustível foi um ganho muito grande para a empresa, porque conseguimos identificar o condutor que opera o veículo de forma inadequada e com maior consumo. A telemetria veio para ajudar tanto o motorista quanto a gestão. No nosso treinamento já é algo automático: ao abordarmos o consumo de diesel, falamos sobre a redução da poluição e da emissão de gás carbônico na atmosfera. Todos os nossos caminhões, sem exceção, participam do programa Despoluir, em parceria com o Sest Senat. O projeto vem até a garagem, realiza o teste de fumaça em 100% da frota e, praticamente todo ano, recebemos o prêmio de empresa que menos polui.”

Considerado o maior programa ambiental do transporte privado no Brasil, o programa Despoluir, citado por Leandro, foi criado em 2007 pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) e pelo Sest Senat para aferir e reduzir as emissões de poluentes nas estradas. Na prática, unidades móveis realizam testes de opacidade e análise de combustível diretamente nas garagens. No caso da Lenarge, o acompanhamento rigoroso de 100% da frota rendeu, em outubro de 2026, mais uma vitória na Categoria Ouro do Prêmio Melhor Ar, promovido pela FETCEMG. A conquista reafirma uma sequência histórica: a transportadora mantém o selo de ouro de forma consecutiva desde 2016, além de premiação na Categoria Diamante recebida em 2025 pelo baixo índice de emissões.

Fotografia aérea de um caminhão circulando por uma estrada de terra margeada por plantações verdes extensas e um lago ao fundo.
Veículos de carga cruzando rotas agrícolas, unindo a eficiência operacional do transporte pesado às demandas de sustentabilidade do agronegócio. Foto: Arquivo / Lenarge 

O avanço tecnológico no transporte rodoviário de cargas não transformou apenas os veículos; redefiniu completamente o perfil exigido ao volante. Para acompanhar a transição de um setor cada vez mais digital e competitivo, a capacitação contínua deixou de ser um diferencial e tornou-se condição de sobrevivência profissional. Leandro Galdino sintetiza essa mudança de era dizendo que “hoje o motorista tem que se atualizar, ele não pode mais ficar preso ao passado. Antes os caminhões eram todos iguais: o cara ligava a chave, colocava a marcha e ia trocando. Hoje não. A eletrônica embarcada nos veículos é muito diversa; cada caminhão vem com mais tecnologia que o outro. Se o motorista não estudar e não tentar entender como se trabalha com aquela máquina, ele não consegue nem tirar o veículo do lugar.”

Como master driver na Lenarge, Leandro Galdino entende que seu papel principal é orientar os condutores para que operem os veículos com precisão, eliminando riscos à própria vida e a de terceiros nas rodovias. Para ele, a constante atualização da frota torna o treinamento obrigatório a cada novo modelo que chega à garagem: “Cada um vem com uma novidade diferente. Não adianta o condutor falar que tem 30 anos de estrada, porque a tecnologia embarcada chega o tempo todo de forma diversa.”

Fotografia frontal de um caminhão Volvo FH preto e branco da Lenarge em movimento em uma rodovia asfaltada de pista dupla.
Caminhão Volvo FH com pintura personalizada em rodovia, evidenciando o padrão de excelência visual e mecânica da frota.
 Foto: Arquivo / Lenarge  

O olhar da oficina

Toda essa tecnologia transforma a experiência de condução nas estradas. No entanto, existem outros profissionais que trabalham diariamente para garantir que cada sensor, módulo e freio funcione com precisão absoluta. E isso começa dentro da garagem. É na oficina que a eletrônica de ponta encontra as manutenções preventivas e corretivas que trazem a devida segurança para os motoristas, que viajam por quilômetros e precisam retornar em segurança para suas famílias. Marcelo Flávio, encarregado de mecânica da Lenarge na filial de Nova Lima (MG), explica que os sistemas modernos e os scanners de diagnóstico mudaram a dinâmica de trabalho, permitindo agir com rapidez antes mesmo de o caminhão chegar à garagem. De acordo com ele, “o que mudou é que fica muito mais fácil para trabalhar, muito mais fácil para encontrar o problema e para fazer um diagnóstico. E, dependendo da situação, o próprio motorista, de onde ele estiver, faz o diagnóstico para a gente. Nós já resolvemos o problema até mesmo sem estar perto.”

Fotografia de um caminhão basculante branco com caçamba levantada parado em frente a grandes montes de terra e minério sob céu azul limpo.
Caminhão basculante branco posicionado em área de mineração, destacando a robustez dos equipamentos utilizados nas operações pesadas. Foto: Arquivo / Lenarge

Com toda a tecnologia atual, ficou mais fácil e rápido descobrir um defeito antes que o caminhão saia para a viagem, evitando que ele quebre na estrada. Tais soluções são possíveis, graças às avaliações e revisões preventivas que os mecânicos realizam nos caminhões. Segundo o encarregado, essa agilidade no processo de rastreamento e a rotina de revisões periódicas são a verdadeira chave, neutralizando riscos e impedindo possíveis imprevistos durante as viagens. Ele explica que “as revisões preventivas são exatamente para isso: para cuidar e não quebrar na estrada. Então acontece muito da gente descobrir defeito evitando que o caminhão quebre na rua. Isso aí é cotidiano.”

 Fotografia de uma pá carregadeira amarela despejando minério na caçamba de um caminhão prateado e preto da Lenarge em um complexo de mineração.
Operação de carregamento em mina, onde a precisão logística e a sincronia operacional garantem produtividade e segurança. Foto: Arquivo / Lenarge

Um dos pontos mais críticos na operação de veículos de carga pesada é a sincronia dos freios entre o cavalo mecânico e a carreta. Embora os veículos modernos contem com sistemas eletrônicos avançados, como o freio eletrônico (EBS) e o sistema de frenagem autônoma de emergência (AEBS), Marcelo destaca que a tecnologia depende diretamente da precisão da manutenção física, “quanto à frenagem em composições longas e pesadas, como rodotrens e bitrens, é extremamente necessária uma regulagem manual precisa para que a regulagem eletrônica venha a funcionar de forma efetiva. Tem que haver primeiro uma regulagem mecânica para que os módulos venham a se comunicar de forma padrão, para que aconteça uma frenagem perfeita.”

Essa busca pela precisão técnica se reflete diretamente nos compromissos ambientais da companhia. Para manter a eficiência dos motores Euro 6 e Arla 32 e garantir notas máximas em testes de opacidade e emissões, como por exemplo aquelas do programa Despoluir, a disciplina na manutenção do sistema de pós-tratamento de gases é inegociável. Marcelo explica que “nos caminhões que utilizam o Arla 32, é extremamente necessário manter o reservatório limpo, muito limpo. Os filtros têm que estar limpos, as peneirinhas que vão no catalisador também, além de manter a descarga em perfeito estado de vedação.  Os caminhões hoje já vêm preparados para não poluir. O que a empresa faz é manter com excelência a regulagem de válvula, passar o opacímetro frequentemente e manter tudo dentro dos parâmetros para não agredir o meio ambiente.”

Além do monitoramento remoto e dos testes na garagem, o canal direto com quem está ao volante é peça-chave para o diagnóstico preventivo. Essa integração ocorre tanto pelo ambiente digital quanto na conversa direta de pátio. O encarregado explica que os motoristas possuem no telefone o aplicativo da empresa para abrir ordens de serviço e relatar eventuais falhas, “a partir daí, ela chega até as mãos dos mecânicos ou do responsável pela oficina, que puxa o caminhão para a garagem, confere e passa para o profissional executar o que deve ser feito. Mas também tem a questão de o motorista vir pessoalmente à oficina e pedir para dar uma conferida no caminhão para ele. Isso também acontece.”

Fotografia de quatro caminhões basculantes brancos alinhados lado a lado em um pátio de terra com vegetação densa ao fundo.
Frotas de caminhões basculantes da Lenarge prontas para o trabalho, sublinhando a organização logística e a gestão de ativos. Foto: Arquivo / Lenarge

Essa interação diária faz com que todo o ecossistema técnico ganhe vida. Para o encarregado, no entanto, a responsabilidade final de liberar um veículo pesado para a rodovia repousa no rigor técnico e ético de quem põe a mão na massa.“Para liberar um caminhão para que o motorista rode com total segurança, a manutenção, sendo ela preventiva ou corretiva, precisa ser muito bem feita. Após terminar, o sentimento tem que ser sempre de dever cumprido”.
A evolução dos scanners e do monitoramento digital soma-se ao fator humano e ao repasse diário de conhecimento no pátio. Para o encarregado, a precisão da manutenção depende do trabalho em equipe e da supervisão de quem tem bagagem prática. Para ele, “a real importância de toda a equipe trabalhar alinhada é saber o que deve ser feito, como deve ser feito e o verdadeiro significado do serviço depois de pronto. Acima de tudo, tem que haver segurança. Por isso é necessário ter sempre um técnico com conhecimento maior por perto, avaliando e orientando o trabalho de toda a equipe”, destaca Marcelo.

Fotografia frontal de um caminhão Volvo FH vermelho da Lenarge trafegando em rodovia asfaltada com cercas e vegetação nas laterais.
Caminhões basculantes da marca Volvo, equipados com caçambas da Rossetti e identificados com a marca da Lenerge, estão estacionados em uma área de terra, alinhados lado a lado. Foto: Arquivo / Lenarge

Governança corporativa e ESG: os dados a serviço da sustentabilidade real 

Daniela C. Pedroza, conselheira de administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e CEO da DP Consulting, acumula quase três décadas de atuação em governança e regulação socioambiental. Engenheira de Segurança do Trabalho e Ambiental, conselheira do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (COPAM/MG) e membro do Grupo de Trabalho sobre Clima do Instituto Brasileiro de Mineração (GT Clima do IBRAM), a especialista analisa a ascensão da IA no transporte pesado a partir do topo da pirâmide decisória, onde o dado se transforma em responsabilidade e a preservação, em valor de longo prazo. Com a chegada da inteligência artificial às boleias, a prevenção de acidentes deixou de ser uma pauta meramente operacional para se tornar uma responsabilidade direta da alta gestão. Para Daniela, o grande diferencial está na forma como o topo da pirâmide corporativa lida com o volume de informações captadas nas estradas: “A tecnologia gera dados; a governança transforma esses dados em decisão. A telemetria permite que o transporte pesado deixe de ser apenas discurso, porque gera evidências auditáveis”.

Fotografia frontal de um caminhão tracionador Volvo FH vermelho da Lenarge trafegando por uma estrada de terra ladeada por uma fileira alta de eucaliptos.
Caminhão da Lenarge trafegando por estrada em área florestal, destacando a atuação das frotas pesadas em rotas desafiadoras e de silvicultura. Foto: Arquivo / Lenarge

No entanto, a especialista alerta que, ao mesmo tempo em que a tecnologia mitiga riscos históricos, como tombamentos, roubos de carga, descumprimento de jornada e desperdício de combustível, ela passa a exigir cuidado da alta gestão com novas frentes, por exemplo a privacidade dos dados dos motoristas (LGPD – Lei nº 13.709/2018), e da dependência de sistemas digitais: “não basta ter o dado da telemetria ou da IA, a empresa precisa responder por esse dado, e esse é o papel do conselho”, completa a especialista.

Apesar dos indiscutíveis benefícios de proteção, muitos caminhoneiros ainda enxergam esses dispositivos a bordo como um mecanismo punitivo e de vigilância excessiva das empresas, e não como uma ferramenta de preservação à vida. Para a especialista, a liderança possui um papel fundamental de conscientização, pois tem a oportunidade de trazer os motoristas para perto: “a resposta para essa transição é comunicação e treinamento. O motorista precisa ser parceiro dessa tecnologia, ele não pode ser o alvo dela, porque se ele passa a ser o alvo, o sistema já nasce morto. Não adianta fazer telemetria sem governança; isso vai ser só um painel bonito na parede”, adverte Daniela. A engenheira ressalta que cabe aos gestores transformar o controle em suporte real no dia a dia, “é preciso monitorar não para gerar medo ou punição, mas para cuidar, criando uma cultura de cuidado. O papel central da liderança não é punir nem cobrar: é estar junto com o motorista. Liderança consciente é entender que somos parceiros na estrada. Quando o gestor adota um tom de chefe fiscalizador, ele está punindo; quando ele mostra que está ali para proteger, o motorista vira seu parceiro e isso minimiza os riscos”.

Essa clareza sobre o retorno do investimento é o que divide o setor de transporte entre as empresas de vanguarda e aquelas que ficaram para trás. Analisando o cenário nacional atual, a especialista citou o movimento anti-ESG que levou muitas empresas a pisarem no freio no quesito segurança e meio ambiente, especialmente no setor de logística. No entanto, existem companhias que já integraram essa cultura não como uma forma de cumprir regras em troca de imagem, mas como um princípio estratégico e inegociável. De acordo com a especialista, “o mercado pode até não usar a sigla ESG, mas ele evoluiu na gestão de riscos e no apetite ao risco. Isso é maturidade de gestão e governança real, algo que antes não existia quando se tinha ‘conselho para inglês ver’. Eu sempre defendi o ESG como algo estratégico para o negócio, porque ele traz resultados sólidos. Quem faz só para mostrar gera prejuízo, mas quem faz de verdade colhe retornos”, destaca.

Daniela aponta que o mercado brasileiro hoje vive dois extremos: de um lado, iniciativas pioneiras; do outro, uma maioria vulnerável aos próprios gargalos de gestão: “a gente tem muitas empresas, como a Lenarge, que já identificaram o valor disso. Elas entenderam que contra números não há argumentos: os dados já mostravam que o investimento trazia bons resultados, sejam reputacionais, sejam tangíveis ou intangíveis. As empresas que enxergaram esse valor deslancharam; as que agiram de forma meramente reativa não deram continuidade. Mas a grande massa ainda não se atentou. E essa grande massa corre um sério risco de desmoronar, causar acidentes, poluir o meio ambiente e se desmantelar por questões reputacionais”.

A conselheira aprofunda essa análise mostrando que a proteção da marca no transporte pesado não é mero detalhe conceitual, mas uma questão de sobrevivência econômica: “porque quando eu falo do reputacional, ele é muito tangível. Pode ser algo que eu não consiga medir em uma régua exata no primeiro momento, mas eu consigo ver a sua extensão no mercado. Hoje, com a comunicação tão rápida nas redes sociais, o reputacional é o maior risco. Se você perde a reputação, acabou, não tem como voltar atrás”, conclui a executiva.

O transporte rodoviário de cargas tem se transformado, e as tecnologias embarcadas mostram ao mundo a possibilidade de fazer viagens cada vez mais seguras. Com o devido apoio e investimento, o potencial de redução e mitigação de acidentes e de emissões de gases de efeito estufa torna-se cada vez mais palpável no cotidiano das frotas pesadas.

Ao unir a precisão técnica das revisões na oficina, o compromisso de quem treina os motoristas e de quem controla e analisa os sistemas na estrada, e a visão estratégica da alta governança, os indicadores e resultados evidenciam que a inteligência de dados e o fator humano são inseparáveis. A eficiência operacional e a preservação socioambiental deixam de ser metas distantes para se consolidarem como uma realidade concreta, responsável e transformadora nas rodovias de todo o país.

Fotografia em ângulo frontal de um caminhão Volvo FH branco e cinza da Lenarge em movimento por uma rodovia cercada por árvores e vegetação verde.
Veículo de carga pesada em rodovia asfaltada, evidenciando a eficiência e a conectividade das frotas no escoamento logístico nacional. Foto: Arquivo / Lenarge

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Yngrid Marcelly

Yngrid Marcelly é estudante de Jornalismo na PUC Minas - Campos Lourdes e acredita no poder das histórias para informar e conectar pessoas. Apaixonada por criatividade e comunicação, busca explorar diferentes formas de transformar ideias em conteúdos relevantes.

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Yngrid Marcelly é estudante de Jornalismo na PUC Minas - Campos Lourdes e acredita no poder das histórias para informar e conectar pessoas. Apaixonada por criatividade e comunicação, busca explorar diferentes formas de transformar ideias em conteúdos relevantes.