As mudanças no clima já alteram o ritmo das lavouras em Minas Gerais. Períodos de calor prolongado e a irregularidade das chuvas dificultam o planejamento no campo e pressionam a disponibilidade de água. Agora, a perspectiva de um El Niño aumenta a pressão sobre produtores, órgãos de extensão rural e universidades. Segundo a atualização da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) em setembro deste ano, o fenômeno alcançou 75% de chance de se tornar, entre outubro e dezembro de 2026, o mais intenso registrado desde 1950, se popularizando como “Super El Ninõ”. Diante de um clima cada vez mais instável e difícil de prever, a tecnologia passa a ser usada no campo para prever riscos, orientar decisões e reduzir perdas antes que elas cheguem à colheita.
No Norte do estado mineiro, no Vale do Jequitinhonha e no Vale do Mucuri, secas severas e recorrentes pressionam agricultores que já enfrentam historicamente a escassez de água. No Sul de Minas e na Serra da Mantiqueira, o cenário é outro, mas igualmente desafiador. Geadas, granizo, ondas de calor e mudanças bruscas de temperatura bagunçam o calendário das lavouras e aumentam a imprevisibilidade da produção. Essa divergência regional é destacada por Ariel Chaves, chefe do Núcleo de Gestão Ambiental da SEAPA-MG:
“Cada região de Minas tem sua particularidade. Quando a gente pensa em Norte de Minas e Jequitinhonha, a seca é o nosso principal problema. Quando a gente pensa em Sul, é a geada”.
O café segue entre as principais fontes de renda da agricultura familiar mineira e faz parte da identidade econômica e cultural do estado. Maior produtor de café do Brasil, Minas Gerais deve encerrar a safra 2026 com 35,59 milhões de sacas beneficiadas, segundo o 3º Levantamento da Safra de Café 2026 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O volume representa mais de 52% da produção nacional, estimada em 67,61 milhões de sacas. É justamente em uma das principais atividades agrícolas do estado que a mudança do clima aparece com mais nitidez. Um dos sinais mais evidentes está nas floradas. A irregularidade das chuvas e as temperaturas elevadas provocam ciclos fora do período tradicional, maior pressão de pragas e doenças, além de desfolha e queda no potencial produtivo do café arábica – originário da Etiópia e considerado um dos tipos de café mais nobres e cultivados do mundo, implicando a necessidade de mais tempo de irrigação e manejo mais intensivo.
A queda na produtividade do café ocorre em um período de forte valorização do produto, que atingiu recordes nominais em 2025 antes de recuar em 2026. Em setembro deste ano, o indicador Cepea/Esalq do café arábica fechou em torno de R$ 1.570 por saca de 60 quilos, abaixo do pico registrado em 12 de fevereiro de 2025, quando chegou a R$ 2.769 por saca. Segundo Rafael Rocha, zootecnista e gerente de agronegócio do Sistema Faemg/Senar, o café foi a cultura mais prejudicada pelo clima nos últimos cinco anos em Minas Gerais, a ponto de obrigar produtores a recepar lavouras inteiras, cortando o pé para que brote de novo. Os preços elevados dos últimos dois anos, de acordo com ele, não se converteram automaticamente em ganho. “O produtor tem recebido mais nos últimos dois anos pelo café, mas não necessariamente quer dizer que isso tudo está sendo positivo, em função da quebra de safra”, afirma Rocha.

Para os lavradores, especialmente os pequenos e médios, o desafio passa a ser reduzir a dependência das condições climáticas e identificar os problemas antes que comprometam a colheita. Os sinais de agravamento já aparecem nos indicadores de monitoramento. Segundo o Monitor de Secas, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em novembro de 2025, a seca atingiu 100% do território de Minas Gerais. As chuvas abaixo da média e a piora nos indicadores levaram ao avanço da seca grave nas regiões Centro, Oeste e Sul do estado, além de um pequeno avanço da seca moderada no Leste. Os impactos foram classificados como de curto prazo no Nordeste e de curto e longo prazo nas demais regiões.
É nesse cenário que Ariel Chaves chama atenção para a posição do produtor diante das mudanças climáticas: “O produtor é quem primeiro sente a seca, é o primeiro a sentir o excesso de chuva ou a geada que acaba com a colheita do café. Às vezes a gente tem a visão do produtor só como causador, mas ele é o primeiro a sentir as mudanças porque trabalha numa empresa a céu aberto.”

A percepção também é compartilhada por quem vive a rotina da lavoura. É o caso de Grazi Reis, produtora rural em Varginha, no Sul de Minas, que deixou Belo Horizonte em 2022 para assumir a fazenda da família, onde cultiva café e cria gado de corte desde então. Bisneta de pioneiros da cafeicultura na região, ela encontrou uma lavoura destruída e um pasto degradado, derrubou os dez hectares antigos e recomeçou com um hectare de café. “Na teoria, é tudo muito diferente, tudo muito mais fácil e mais bonito. Na prática, você tem uma indústria a céu aberto. Então, você não tem o controle completo. Você faz um cronograma, e é muito difícil conseguir cumpri-lo. Você tem chuva em excesso, às vezes seca em excesso. (…) Essa questão climática é um problema sério, com o qual você tem que lidar todo dia”, relata
Diante de um contexto de instabilidade climática emergem soluções tecnológicas aplicadas em diferentes etapas do trabalho no campo, a partir de modelos de solução matemáticos como, sistemas que cruzam históricos de chuva, temperatura e características locais ajudam a identificar períodos mais adequados para o plantio e a colheita; drones que produzem imagens capazes de revelar deficiências nutricionais e falhas nas plantações; além de estações meteorológicas instaladas dentro das propriedades que ampliam o monitoramento das condições climáticas.
Tecnologia como aliada contra a seca
Durante décadas, boa parte dos agricultores lidavam com a seca por meio de medidas emergenciais. No semiárido mineiro, levantamentos de 2012 a 2023 do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) e do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (Sedec/MIDR) mostram que o abastecimento comunitário por meio da Operação Carro-Pipa e de caminhões-pipa contratados por prefeituras ainda faz parte da rotina diária de diversas comunidades rurais. Já a Emater-MG aplica há anos práticas de contingência que preveem a implementação de técnicas de convivência com a estiagem, como cisternas, barraginhas e plantas de cobertura do solo.
Como destaca Gilmar Oliveira, coordenador de Sustentabilidade Ambiental da Emater-MG, “as nossas orientações têm focado no manejo de solo e de água para aumentar a resiliência das propriedades. Sem isso, os efeitos da estiagem e do calor ficam muito mais severos para o pequeno produtor.” uso de tecnologias digitais amplia as possibilidades de prevenção: dados sobre clima, solo e condições da lavoura podem ajudar o produtor a antecipar riscos, identificar a necessidade de intervenção e tomar decisões antes que a escassez se transforme em prejuízo para a produção.
A inteligência artificial (IA) começa a ser incorporada ao manejo como uma ferramenta para orientar decisões sobre irrigação, por exemplo. Sistemas capazes de cruzar dados de umidade do solo, temperatura, previsão meteorológica e estágio de desenvolvimento das plantas ajudam a indicar quando irrigar e qual volume de água aplicar. Em períodos de chuvas escassas e concentradas, o uso desses dados pode evitar aplicações desnecessárias e preservar a água disponível para os momentos de maior necessidade da lavoura.
Os gráficos interativos foram gerados com o uso de inteligência artificial. As imagens representam uma simulação aproximada da realidade.
De acordo com Alexandre Martins, analista técnico do Sistema Faemg/Senar, esses sistemas permitem personalizar o manejo até o nível de cada área da propriedade. “A IA vai fazer históricos locais, levantamentos e perspectivas de clima e tempo para aquela região específica. O sistema cruza esses dados e os interpreta por meio da inteligência artificial, permitindo que o produtor tenha informações mais precisas até sobre o momento de plantio e de colheita”, explica.
Para que essas ferramentas funcionem, porém, é preciso ter dados confiáveis e integrados. É o que explica o professor Paulo Henrique Leme da Universidade Federal de Lavras (UFLA), coordenador do AgriTech UFLA e do projeto Semiárido Digital: “Se você tiver bons bancos de dados integrados entre clima, pluviometria e estrutura de solo, você consegue juntar tudo isso e começar a prever quais são os potenciais impactos de uma seca ou de uma chuva. A IA pode ajudar bastante nisso, mas só existe inteligência artificial se existe um bom banco de dados.”
Nas propriedades de maior porte, a combinação de diferentes fontes de informação permite ampliar a precisão das decisões no campo. Além dos dados climáticos disponíveis para a região, os produtores podem contar com estações meteorológicas instaladas dentro da própria fazenda, o que permite uma leitura mais específica das condições locais. “A utilização da IA para os grandes produtores vai além de ter essa informação globalizada. Ele ainda tem uma estação meteorológica dentro da propriedade, cruza esses dados, interpreta com a inteligência artificial e vai saber até o momento de colheita, o momento de plantio, para que consiga sair um pouco dessa situação que o El Niño traz para a agricultura”, complementa Alexandre.
A tecnologia também amplia a capacidade de diagnóstico ao identificar sinais que ainda não são perceptíveis a olho nu. Drones equipados com câmeras captam imagens das plantações que, analisadas por sistemas de inteligência artificial e visão computacional, podem revelar áreas com estresse hídrico, doenças, deficiências nutricionais ou falhas no desenvolvimento da cultura antes que os problemas se tornem visíveis.
Esse uso está entre os conteúdos do curso “IA para Fazendeiros”, do Sistema Faemg/Senar Minas, criado para aproximar produtores rurais e suas famílias das ferramentas de inteligência artificial aplicadas ao agronegócio. O piloto foi realizado em julho de 2026 em Elói Mendes, no Sul de Minas, e a própria instituição o descreve como uma ação experimental. A capacitação tem idade mínima de 16 anos e busca também contribuir para a sucessão rural.
Grazi Reis foi uma das convidadas para o piloto. Sem ter tido a quem suceder na prática – perdeu o pai aos 18 anos e, depois, o avô – , ela diz que aprende com o Senar o que não pôde aprender com eles, e já que havia passado por outros cursos da instituição, como o de “Gestão com Qualidade em Campo” (GQC), além de integrar o programa de Assistência Técnica e Gerencial. Conciliar a agenda da fazenda com a sala de aula, porém, nem sempre é simples. “Nem sempre o produtor rural consegue sair de dentro da propriedade para fazer um curso. Eu, sempre que posso, faço todos os cursos para me capacitar, porque não tive sucessão”, conta.

O treinamento parte dos conceitos básicos sobre inteligência artificial e avança para aplicações práticas na lavoura. “A gente traz para eles IAs voltadas para a identificação de deficiências nutricionais dentro da área plantada. Então, por meio de fotos, a gente entra com a tecnologia, que é o drone. A IA faz o processo de reconhecimento das imagens, e ali a gente consegue identificar onde está a deficiência, onde tem a falha na cultura”, detalha Alexandre.
Na prática, o processo começa com o sobrevoo da propriedade e a captura das imagens. Esses registros são enviados para plataformas de IA, que analisam os padrões da plantação e apontam os pontos que precisam de atenção. A partir do diagnóstico, o profissional responsável orienta o produtor sobre as medidas necessárias. “A gente mostra na prática: o drone voa, pega as informações, traz para os nossos produtores, eles inserem nas plataformas direcionadas de IA para ter resultados positivos, e o profissional vai lá e faz a recomendação necessária para esses controles”, conclui o analista Alexandre Martins.
Do lado de quem senta na sala de aula, a produtora Grazi Reis conta que já usava o ChatGPT, “ainda de uma forma mais limitada” e havia instalado em seu smartphone o Claude, o Gemini e a Meta AI, que se apresenta dentro do próprio WhatsApp. No curso, promovido pelo sistema Faemg Senar, Grazi pôde exercitar o uso de diferentes ferramentas de inteligência artificial e conhecer aplicativos voltados ao agro, como os de identificação de doenças em plantas. “(…) nós aprendemos um pouco da história de como surgiu a inteligência artificial no mundo, dos problemas que foram enfrentados, inclusive éticos. E a gente aprendeu sobre as ferramentas que podem ser adequadas e como fazer os pedidos, como gerar os prompts. A partir de um bom prompt, que deve ser feito utilizando a sua própria inteligência. É que você consegue ter as melhores respostas e as melhores soluções”, explica.
Dois meses depois do piloto, a IA entrou na rotina da produtora, sobretudo como forma de verificação. Antes de construir um barracão que vai abrigar a instalação de energia solar e servir de base para a irrigação do vinhedo, ela submeteu o projeto e as dimensões à ferramenta para avaliar o melhor desenho. Também confere as doses dos produtos aplicados no café e leva as planilhas da propriedade para identificar onde estão os maiores custos e as possibilidades de melhoria. “A gente já tem as noções, tem os profissionais que trabalham e que são especializados. Mas você consegue checar e melhorar a eficiência”, diz.
Com o acompanhamento de um agrônomo do Sistema Faemg/Senar, Grazi usa a IA para complementar o trabalho técnico, inclusive na análise de custos e na elaboração de gráficos. O diagnóstico de pragas por imagem, apresentado durante o curso, ainda não faz parte da rotina da propriedade, mas pode ser acionado caso surja alguma suspeita. “Eu consigo fazer uma foto da folha e tentar identificar algum problema”, afirma. Por enquanto, a ferramenta é usada principalmente para acompanhar o clima, analisar custos e apoiar decisões de implantação e investimento.
Onde a internet não chega
O avanço da agricultura digital, porém, esbarra na dificuldade da conexão com a internet. Ter sinal na casa do produtor não significa ter sinal na lavoura. “Tem estabelecimentos rurais que, infelizmente, ou não têm acesso ou o acesso é de má qualidade”, pontua Alexandre. De acordo com o Indicador de Conectividade Rural (ICR), desenvolvido pela associação ConectarAGRO em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a cobertura 4G ou 5G nas áreas agrícolas do país passou de 18,7% para 33,9% entre 2024 e 2025. Ainda assim, a diferença da qualidade de conexão entre a sede da propriedade e a área onde efetivamente se produz se torna um obstáculo para tecnologias que dependem de conexão constante.
Os gráficos interativos foram gerados com o uso de inteligência artificial. As imagens representam uma simulação aproximada da realidade.
“O produtor sai da sede dele, onde normalmente ele já tem internet, e vai para o campo, e ele não consegue ter acesso à internet”, explica Paulo Henrique Leme. A limitação afeta principalmente sistemas que precisam enviar dados para servidores externos ou plataformas de inteligência artificial. Sem conexão, informações coletadas por sensores, máquinas e drones não podem ser processadas imediatamente na nuvem.
“Os aplicativos que têm que trabalhar mesmo com inteligência artificial precisam do acesso à internet para se comunicar com os servidores. A não ser que você consiga acumular essas informações dentro do celular, dentro de fotos ou imagens, e aí quando ele chega na propriedade dele, ele consegue subir essas informações e conversar com a inteligência artificial”, explica o professor. A qualidade dos dados disponíveis é outra condição prévia. Sem informações suficientes e organizadas sobre clima, solo, produtividade e características da propriedade, a capacidade de análise das ferramentas fica limitada.
Enquanto a infraestrutura de telecomunicações não acompanha a expansão das tecnologias digitais, produtores e instituições têm buscado alternativas. Uma delas é o funcionamento offline: os dados são coletados na lavoura e armazenados nos equipamentos para, posteriormente, serem enviados à nuvem quando o produtor retorna à sede ou encontra um ponto com conexão.
“O pequeno produtor realmente tem a internet em casa, mas ele não tem como levar a internet para o campo. Hoje nós temos modelos offline, em que ele vai à propriedade, faz toda a captação dos dados e, quando ele voltar para casa ou para um ponto que tenha acesso à internet, ele sobe essas informações para a nuvem”, detalha Alexandre.
Os drones são um exemplo de tecnologia que pode operar sem internet durante a coleta. O equipamento utiliza sistemas de posicionamento e georreferenciamento por satélite para percorrer a área programada e registrar as imagens. A conexão passa a ser necessária posteriormente, no momento de transferir e processar os dados. “O drone não precisa desse sinal de internet para ele fazer o seu trabalho, porque ele já tem esse sinal através do RTK [Real Time Kinematic], através do georreferenciamento, através do satélite. O operador coloca as especificações e ele faz as coletas. Para isso eu não preciso da internet, preciso da internet depois para rodar a IA”, explica o analista.
Já Leme diz que o avanço da agricultura digital também depende da capacidade do produtor de compreender e incorporar essas ferramentas à rotina. Embora o smartphone esteja presente na maioria das propriedades, seu uso ainda está concentrado em comunicação e lazer. O professor aponta dois desafios que precisam avançar simultaneamente: a capacitação para o uso das tecnologias e a adaptação dos próprios sistemas à realidade do campo. O primeiro passa pelo chamado letramento digital, que, segundo ele, deve fazer parte do trabalho de extensão rural. Não basta disponibilizar uma ferramenta, é preciso ensinar o produtor a utilizá-la e mostrar como ela pode ser incorporada às decisões do dia a dia.
O segundo desafio está na forma como essas ferramentas são apresentadas ao usuário. Para o professor, aplicativos voltados ao campo precisam considerar as condições e as limitações de quem os utiliza. “Tem um outro ponto também, que é a questão da usabilidade, o user xperience (UX). A interface tem que ser muito amigável. Alguns têm dificuldade até de ler, então a coisa tem que ser muito visual e simples de usar”, pondera.
Disponibilizar a tecnologia, portanto, não garante sua adoção. Em parte das propriedades, a resistência também está relacionada à familiaridade com ferramentas digitais e à percepção de utilidade. “Nós temos produtores rurais que não têm nem Pix”, afirma Alexandre, ao descrever a distância tecnológica encontrada em parte do público atendido pelo Senar.
Para enfrentar essa resistência, a instituição aposta na demonstração prática, a partir de unidades demonstrativas e experiências em campo que permitem que os agricultores acompanhem o funcionamento das ferramentas antes de incorporá-las à própria rotina. A estratégia encontra respaldo em resultados preliminares de uma pesquisa, ainda não publicada, conduzida por Leme com 270 cafeicultores do Sul de Minas. O levantamento aponta que um dos principais fatores associados à adoção de novas tecnologias é a capacidade das instituições de oferecer assistência e demonstrar, na prática, como essas ferramentas funcionam. Dias de campo, laboratórios experimentais e outras atividades que permitem ao produtor observar a tecnologia em funcionamento ajudam a reduzir a distância entre a inovação e sua aplicação na propriedade.
Um assistente no whatsapp

A inteligência artificial também começa a mudar a forma como a assistência técnica chega ao produtor. A Emater-MG está presente em cerca de 800 dos 853 municípios mineiros, mas a distância entre as propriedades rurais e as equipes de extensão pode dificultar visitas frequentes e encarecer o atendimento. “A Emater conta com equipes em quase todos os municípios, mas a extensão rural digital nos permite expandir esse alcance”, destaca Gilmar Oliveira.
Para ampliar essa atuação, a empresa lançou no fim de 2022 a EMA, uma assistente virtual que atende produtores de forma automatizada pelo WhatsApp e pelo site, inicialmente com foco em cafeicultura e crédito rural. A ferramenta funciona como uma primeira camada de atendimento, oferecendo respostas para dúvidas recorrentes e permitindo que os extensionistas concentrem o trabalho presencial em situações que exigem avaliação direta na propriedade.
Mas a adaptação do produtor, a exemplo das mudanças climáticas e tecnológicas, depende também de condições que vão além da assistência técnica. O acesso à água é uma delas. A Política Estadual de Agricultura Irrigada Sustentável, instituída pela Lei nº 24.931, de julho de 2024, e regulamentada pelo Decreto nº 49.072, de julho de 2025, criou a possibilidade de outorga coletiva para grupos de produtores de uma mesma bacia hidrográfica. Na prática, o mecanismo permite que os agricultores solicitem a autorização para o uso da água em conjunto, reduzindo custos e parte da burocracia envolvida no processo.
“A política de irrigação permite ao produtor colher até três safras no ano na mesma área, sem desmatar”, pontua Ariel Chaves. A possibilidade de dividir entre os produtores os custos de estudos hidrológicos pode facilitar o acesso de agricultores familiares à regularização e, consequentemente, à irrigação.
Outro elo dessa cadeia está na comercialização. A PAAFamiliar, política estadual criada pela Lei nº 20.608, de 2013, determina que órgãos públicos de Minas Gerais destinem pelo menos 30% dos recursos de compra de alimentos à agricultura familiar. Para produtores de menor escala, a existência de um mercado institucional ajuda a dar previsibilidade à produção. Com uma perspectiva mais segura de venda, o agricultor consegue planejar a safra e avaliar investimentos em tecnologias, irrigação e outras formas de adaptação.
Do campo mineiro para o mercado global
Se, dentro da propriedade, os dados ajudam o agricultor a decidir quando plantar, irrigar ou intervir na lavoura, fora dela eles cumprem outra função: registrar e comprovar como aquela produção foi feita. A digitalização, portanto, não termina no campo. Ela acompanha o produto pela cadeia e pode determinar até mesmo seu acesso a determinados mercados.
Para quem pretende exportar, a rastreabilidade ganhou ainda mais importância com o regulamento antidesmatamento da União Europeia (EUDR), que estabelece exigências para a entrada no mercado europeu de commodities como café, soja e carne bovina associadas a áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. Adiadas duas vezes, as regras passam a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas e em 30 de junho de 2027 para micro e pequenas.
Nesse cenário, ferramentas digitais ajudam produtores a reunir informações sobre suas propriedades, registrar coordenadas e comprovar a conformidade socioambiental da produção. É o que faz a SafeTrace, empresa de rastreabilidade de alimentos fundada em 2006 a partir da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), no Sul de Minas. Segundo Vasco Picchi, um dos fundadores e atual CEO da empresa, o WhatsApp foi escolhido como uma das portas de entrada por já fazer parte da rotina dos produtores. “Todo produtor acaba, do mais sofisticado ao menos sofisticado, usando o WhatsApp na vida dele”, explica. A partir do aplicativo, a SafeTrace facilita a coleta de informações e permite que o produtor envie a localização da propriedade para receber uma análise de sua conformidade socioambiental.

Neste trecho em áudio, Vasco Picchi, CEO da SafeTrace, explica como a empresa utiliza inteligência artificial, tecnologia RFID, blockchain e smart contracts para conectar a cadeia produtiva, proteger os dados do produtor e viabilizar novas oportunidades financeiras, como créditos de carbono.
A inteligência artificial também é utilizada para reduzir uma barreira comum no preenchimento de informações: a necessidade de transformar registros feitos no campo em dados estruturados. O produtor pode, por exemplo, gravar um áudio pelo celular e enviar o conteúdo para a plataforma. “A gente utiliza a inteligência artificial para receber um áudio e transcrevê-lo para dentro de uma solução nossa de rastreabilidade. A IA para o pequeno produtor está sendo muito importante para democratizar o acesso à informação e facilitar a coleta de dados no campo”, afirma Picchi.
No caso do regulamento europeu, a comprovação da origem permite verificar se a produção está associada a áreas de desmatamento após a data estabelecida pela legislação. Para o CEO, esse processo pode transformar a própria relação do produtor com a conservação ambiental. “Com isso, a gente consegue garantir que a cadeia como um todo está livre de desmatamento, desde o nascimento do bezerro até chegar na gôndola do supermercado lá na Europa. O produtor entende que a Europa já não compra mais se ele desmatar depois de 2020, e passa a ser um agente de proteção das suas áreas de floresta”, afirma.
O acesso a essas ferramentas, porém, também passa pelo custo. Para evitar que as exigências de rastreabilidade se transformem em mais uma despesa para quem produz em menor escala, a SafeTrace afirma adotar um modelo em que a remuneração vem dos elos mais fortes da cadeia. “Nas nossas ferramentas, a gente não onera o produtor. A nossa remuneração acaba vindo dos elos mais fortes da cadeia. É o grande varejista e a indústria pagando parte da conta, entendendo que não há interesse em onerar o produtor, justamente porque a gente quer estimulá-lo a ter acesso às ferramentas”, explica Vasco Picchi.
Quem já incorporou as ferramentas à rotina faz uma ressalva sobre os limites da tecnologia. “Toda pessoa que se envolve com a inteligência artificial tem que ser cuidadosa, justamente para não se acomodar, porque ela não é perfeita. Ela pode te induzir a erros”, afirma Grazi Reis. Para a empreendedora, a ferramenta deve complementar, e não substituir, a capacidade de decisão de quem está no campo: “Ela veio para ajudar, veio para somar, mas a inteligência humana ainda é a protagonista disso tudo.”
A tecnologia passa a atuar em diferentes pontos da cadeia, desde a decisão sobre quando irrigar até a identificação de doenças; da assistência técnica à rastreabilidade. Para o agricultor mineiro, entretanto, a inteligência artificial não elimina a principal variável de incerteza do campo: o clima. Ela pode ajudar a medir, antecipar e responder aos efeitos da seca, mas sua adoção depende de condições que vão além da existência da ferramenta.
“É muito importante a gente discutir o papel das políticas públicas para a pequena e média produção. O produtor só vai adotar uma tecnologia se houver redução no custo de adoção, apoio de crédito e assistência técnica para diminuir o risco financeiro”, conclui o professor da UFLA, Paulo Leme.
Esta reportagem foi produzida pelos alunos Alice Oliveira, Ilana Penido, Maria Eduarda Abranches, Mariele Ferreira sob a supervisão da professora Viviane Maia Vilas Boas.




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