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O tarot existe há centenas de anos / Reprodução Google Imagens Creative Commons

Espiritualidade conectada: o tarot na era da internet

O tarot existe há centenas de anos

Por muito tempo, o tarot esteve associado a ambientes silenciosos, salas decoradas com velas e encontros presenciais cercados de mistério. Toda essa misticidade, no entanto, vem sendo substituída pelos holofotes conquistados pelas mídias sociais. Não é preciso mais do que um clique para abrir o TikTok ou o Instagram e encontrar leituras coletivas, vídeos sobre signos, previsões amorosas e interpretações de cartas voltadas para milhares de pessoas ao mesmo tempo. A circulação em nichos espiritualistas deu lugar ao cotidiano digital de jovens conectados.

Na internet, hashtags e perfis relacionadas ao tarot acumulam milhões de adeptos. Apenas no Instagram, a hashtag “tarot” compila 34,1 milhões de visualizações. Em vídeos curtos, criadores de conteúdo embaralham cartas diante da câmera enquanto frases como “essa mensagem apareceu para você por um motivo” chamam a atenção do público. O formato rápido e interativo transformou a prática em um fenômeno cultural online.

A taróloga Laura Maia relata a mudança na essência de uma sessão online para uma presencial. “Antigamente, antes de uma leitura, era muito comum rituais e uma preparação adequada do ambiente. Hoje, eu vejo que isso não é tão comum. Hoje está mais canalizado em perguntas diretas e objetivas, não uma visão sistêmica da coisa”. Ela também explica que, apesar das mídias sociais abrirem espaço para um acesso mais fácil ao tarot, também facilitam a propagação de golpes na prática.

Do lúdico ao espiritual

Apesar da origem ainda ser estudada, uma das histórias mais aceitas sobre o tarot é a que começa na Itália do século XV. Estudos apontam que, inicialmente, o tarot era um instrumento lúdico utilizado por nobres. Os primeiros baralhos conhecidos tinham cartas ilustradas chamadas de arcanos maiores e menores, que eram usadas em jogos semelhantes ao baralho comum.

A associação do tarot com o ocultismo surgiu apenas no século XVIII. Intelectuais e estudiosos franceses passaram a afirmar, ainda que sem comprovação histórica, que o tarot teria origem no antigo Egito e guardaria conhecimentos secretos. Desta maneira, o tarot deixou de ser apenas entretenimento e passou a ser associado ao misticismo, ao ocultismo e à espiritualidade. No século XVIII, estudiosos e ocultistas começaram a interpretar as imagens das cartas como símbolos ligados ao autoconhecimento, à intuição e à reflexão sobre a vida. Foi nesse período em que diversos aspectos das cartas foram mudados para se adequar a uma combinação de diferentes crenças e mitologias.

Como funciona?

Aqruivo/Reprodução Instagram

O tarot consiste em um baralho de 78 cartas, dividido em 22 Arcanos Maiores e 56 Menores, e quatro naipes (ouros, espadas, copas e paus). A leitura é um processo interpretativo feito a partir das cartas do baralho. Durante a consulta, a pessoa pensa em uma pergunta ou situação, embaralha as cartas e escolhe algumas delas para a tiragem. Cada carta possui símbolos e significados próprios, que podem representar emoções, desafios, mudanças ou possibilidades futuras. O tarólogo interpreta as cartas de acordo com a posição em que aparecem e a relação entre elas, buscando oferecer reflexões e orientações sobre a questão apresentada.

“Existem diferentes baralhos com ilustrações diferentes”, explica a taróloga Isabella Brasileiro. “O tarot de marselha (ou de waite), em específico, segue sempre a mesma estrutura, mas pode receber diferentes ilustrações. Pesquisando sobre, encontramos opções legais, como o baralho da bruxa moderna, baralho de caveira, de gatinhos e até da Rita Lee”.

Os mitos do tarot

Existem muitos mitos em torno do tarot, principalmente devido a sua ligação com o misticismo. Um dos mais comuns é a ideia de que o tarot prevê o futuro de forma exata e inevitável, quando, na verdade, a maioria dos tarólogos o vê como uma ferramenta de orientação e reflexão. 

Outro mito frequente é que as cartas trazem azar ou atraem forças negativas, mas o tarot é apenas um conjunto de símbolos interpretativos. Também há quem acredite que apenas pessoas com “dons especiais” podem ler tarot, embora qualquer pessoa possa estudar e aprender seus significados.

Além de mitos quanto ao funcionamento do tarot, também há preconceitos sobre a prática. “Pessoas questionam minha ética porque acham que estou tirando dinheiro em cima da crença dos outros”, conta Isabella Brasileiro. A taróloga também relata casos de intolerância religiosa onde seu trabalho foi comparado a jogos de azar e a prática como um pecado perante os olhos de Deus, ainda que Isabella não se considere cristã.

Laura Maia, por sua vez, cita a crença de que que o tarot é uma certeza absoluta. “[O tarot] É energia, logo, é mutável, e o destino está sempre mudando de acordo com nossas ações. O tarot é mais um auxílio do que fazer do que uma resposta definitiva”, explica. 

O novo tarot

Domínio Público/Freepik

Com o avanço da internet e das mídias sociais, o tarot ganhou novas formas de prática. Hoje, é comum encontrar leituras online, aplicativos de tarot e conteúdos sobre cartas em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube. Em Belo Horizonte, é possível encontrar baralhos mesmo em livrarias comuns, como a rede Leitura, e também no Mercado Central. Cursos online, baralhos personalizados, livros e acessórios esotéricos atraem consumidores jovens de todos os gêneros, idades e classes econômicas.

Isabella Brasileiro questiona essa popularização. Ela acredita que a internet ajudou na banalização da prática e explica sua visão, não só como taróloga, mas também como jornalista: “A sabedoria ancestral não é passada pela criança de 11 anos tiktoker, por mais bem-intencionada que ela seja. Ainda assim, tem gente pagando migalhas para ver o jogo dela, assim como tem gente contratando gente sem diploma para ser jornalista”.

O medo de Isabella é compartilhado por Laura Maia: “Tenho medo de ser banalizado. Já vi gente jogando em festas ou em bares e não acho que isso é algo positivo ou que vai dar um resultado fidedigno. A energia do lugar e da pessoa que joga acaba influenciando também”. Todavia, Laura justifica que uma taróloga ou tarólogo mais experiente talvez consiga manter a mesma conexão e espiritualidade de uma consulta presencial em uma online, enquanto novatos podem ter dificuldades em fazê-lo. “Eu mesma, por exemplo, quando vão ler para mim eu prefiro que leiam presencial porque acredito que vou estar mais conectada”.

Ao ser perguntada sobre a importância do tarot, Isabella Brasileiro não vacila ao responder, mostrando que o que é visto como apenas crença também é a voz dos oprimidos, e é esperado que os novos praticantes continuem honrando essa cultura tão rica e diversificada: “Independente de onde surgiu, é indiscutível que o tarot atravessa o saber negro, o saber cigano, o saber feminino e o saber periférico. Também é um saber que hoje em dia atravessa o mundo”.

Com a curiosidade das novas gerações, a globalização e o fácil acesso à internet, o desconhecido ganha espaço e visibilidade. Ainda que as mídias sociais possam trazer efeitos negativos à prática, Laura consegue enxergar essa mudança por um lado otimista, em que o fácil acesso ao tarot pode ajudar na luta contra o precoceito com a atividade. “O maior medo da humanidade é o medo do desconhecido”, conclui Isabella Brasileiro.

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Gabriela Oliveira

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