Ao longo da história, o que o ser humano veste sempre foi mais do que um tecido. A moda não diz respeito apenas à proteção, mas também a símbolos de poder, rebeldia, individualidade, coletividade, tendências e muito mais. Dos grandes trajes utilizados pelos reis europeus no século XVI até a moda alternativa dos anos 2000, o que se veste é, além de auto conhecimento, uma forma de comunicação.
Tecidos, cores e estilos foram usados em diferentes épocas para afirmar posições políticas, desafiar normas ou reforçar estruturas de poder. A moda acompanha os movimentos sociais, conta a história do ser humano e molda o passado, o presente e o futuro, transformando-se em uma terapia para aqueles cujas vozes são silenciadas, uma identidade para os esquecidos e uma individualidade para aqueles que não querem se encaixar. Ela não tem barreiras, não tem limites e não tem escrúpulos — a moda não é algo definitivo, mas, sim, o que você quer que ela seja.
“A moda é cíclica”, explica a coordenadora do Museu da Moda de Belo Horizonte, Carolina Ladeira.Para ela, a moda é um documento histórico que permite ao ser humano saber o que acontece na sociedade, na política e na cultura de um certo lugar e tempo. Da mesma maneira que fotos, escrituras e fosséis, ela ajuda a desvendar o passado e entender o presente.
“Toda roupa comunica algo”, explica Luiz Fernandes, mestre em Comunicação Midiática pela PUC Minas. “A maneira como cada um de nós, enquanto indivíduos, escolhe nos apresentar está em constante diálogo com os meios que nos cercam. Creio não ser possível escapar. O ato de vestir realoca o corpo dentro de grupos e estruturas sociais. Dá pistas sobre regionalidade, identidade de gênero, religiosidade, classe social, dentre vários outros aspectos. Roupas trazem contextos e carregam marcadores que vão além de quem as veste”.
Pelo mar de preconceitos
A área da moda costuma ser cercada por vários preconceitos que simplificam um campo complexo e multidisciplinar, geralmente associando este campo apenas à aparência: “Há uma crença de que a moda é fútil, um equívoco causado pela associação do campo apenas a roupas bonitas ou tendências passageiras em que falta profundidade”, explica Carolina Ladeira. Esse mito pode ser associado também à misoginia e ao machismo da sociedade, que vê a moda como algo explicitamente feminino e, por isso, diminui a área constantemente, associando-a a algo fácil e frívolo.
Na realidade, a moda está diretamente ligada à cultura, identidade, política e comportamento social. Ela comunica valores, pertencimento e posicionamentos ideológicos, sendo um instrumento de luta e voz tanto quanto outras formas de arte.
Um reflexo do capitalismo
O capitalismo transforma a moda em produto, produzindo peças em larga escala e criando a obsolência programada, ou seja, a diminuição da vida útil de produtos visando um aumento de compras da mercadoria vendida. Para Carolina Ladeira, apesar das grandes indústrias democratizarem o acesso à moda, são as modas autorais e artesanais que definem o que vai caracterizar o zeitgeist (o espírito de um tempo).
“A moda como a conhecemos necessita do sistema capitalista para manter-se, precisa estar sempre em transformação, correspondendo a necessidades e maneiras de pensar de uma uma época”, diz Luiz Fernandes. Profundamente ligada à lógica do capitalismo, a moda incentiva a produção em massa, o consumo constante e a busca por lucro. Deste modo, ela deixa de ser apenas expressão cultural e se torna um dos setores econômicos mais lucrativos do mundo.
Tecidos que viram história
As roupas usadas por figuras famosas muitas vezes ultrapassam o campo da estética e se tornam verdadeiros marcos culturais. Elas passam a ser não só peças de vestuário, como também símbolos que ajudam a moldar comportamentos, valores e até a memória coletiva de uma época. Seja o vestido branco de Marilyn Monroe que se levanta no filme “O Pecado Mora ao Lado”, a roupa usada por Madonna na performance de Vogue no MTV Awards de 1990 ou o vestido de carne usado por Lady Gaga em 2010, a moda molda a sociedade e faz história.
Ao ganhar visibilidade, a moda redefine padrões, influencia comportamentos e até muda a forma como uma sociedade enxerga certos temas. “Cada um desses looks conta o que estava acontecendo naquele tempo”, diz Carolina Ladeira. “Lady Gaga, por exemplo, poderia ter escolhido qualquer estilista famoso, mas optou por fazer um protesto vestindo uma roupa feita de carne”.
Muito mais do que roupa
A moda vai muito além da aparência e se consolida como uma linguagem política que atravessa desde o cotidiano até os grandes acontecimentos midiáticos. Do tecido ao corte, da cor ao tamanho ou da sensação passada ao contexto em que a roupa é usada, cada escolha pode expressar posicionamentos, reforçar identidades ou questionar normas sociais. Na sociedade atual, em que cada relação humana é profundamente marcada pela imagem, o vestir torna-se um ato de comunicação que dialoga com temas como gênero, classe, raça e poder.
“Se pensarmos na construção de uma identidade racial, podemos dizer que a moda ajuda na construção, sendo capaz de dar materialidade, seja nas escolha de determinadas vestimentas ou elementos culturais, como roupas que remetem ancestralidade, uso dos cabelos black como exaltação da negritude, podem ser usadas como formas de expressão que vão além da estética visual, constituindo também arranjos políticos e sociais”, aponta Luiz Fernandes.
Todavia, a moda revela contradições. Enquanto ela pode ser instrumento de expressão e resistência, também está inserida em uma indústria que muitas vezes padroniza comportamentos e estimula o consumo. Ainda assim, sua força política não pode e não deve ser apagada. Ao ocupar o corpo e o espaço público, a moda transforma indivíduos em agentes simbólicos, capazes de influenciar e definir valores culturais. Compreender a moda como forma de expressão e luta é reconhecer que aquilo que vestimos nunca é neutro, mas sim uma tomada de posição no mundo.

O futuro da moda
Diante dos impactos ambientais causados pela indústria da moda, cresce a pressão por práticas mais sustentáveis, éticas e transparentes. Carolina Ladeira acredita que o futuro da moda será voltado para práticas verdes e a preservação do meio ambiente. Isso já pode ser observado pelo crescimento do slow fashion, conceito que, ao invés de coleções constantes e produção em massa, valoriza peças duráveis, atemporais e produzidas com responsabilidade social e ambiental.
Luiz Fernandes, por sua vez, atribui o futuro da moda à autenticidade. “Vivemos numa época de tendências, onde estar na moda é parecer com alguém ou ter algo que o aproxima desse ideal. Nos próximos anos, ao meu ver, quando falarmos de moda será muito menos sobre o que está na moda, mas sobre o que essa peça ou estilo diz sobre mim”.




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