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A Copa para poucos: ingressos que valem quase um ano de trabalho

Com torcida brasileira tímida no Catar, elite vai ao mundial enquanto as massas assistem de casa

A Copa do Mundo é conhecida por ser um evento de festividade e de senso de união, concentrando pessoas de diversas regiões para assistir aos jogos e celebrar o esporte e a cultura. No Brasil, não é diferente. Com uma tradição extremamente consolidada, o país costuma ter, historicamente, um ótimo retrospecto no evento. Essa realidade, no entanto, não reflete na vida de todos os brasileiros, já que muitos não têm a oportunidade assistir aos jogos, e muito menos de comprar os ingressos e viajar para o país anfitrião.

Segundo Bernardo Buarque de Hollanda, professor do CPDOC / FGV, pesquisador do futebol e doutor em História Social da Cultura pela PUC-Rio, a percepção de que os cidadãos do Brasil estão menos engajados com a Copa deste ano é passível de discussão. Para ele, existe um componente político-nacional arraigado nesse afastamento, “a ponto de a camisa ser alvo de interesse e de apropriação política”. 

“Hoje você tem uma intensidade na vivência dos fenômenos que é muito rapidamente substituída por outra notícia, por outro acontecimento. Calhou esse ano da gente ter pela primeira vez uma inversão quadrienal – porque sempre temos casadas as eleições nacionais e copas do mundo que acontecem antes. Então você já tinha um descolamento de quando a Copa era em julho do efeito político. E agora a gente tem o inverso, o efeito político sob o esportivo.”

Bernardo Buarque de Hollanda
Em um momento de apropriação, é preciso deixar claro que a utilização dos símbolos nacionais não é uma manifestação política.

Nos últimos anos, pudemos observar uma elitização e a transformação do futebol em um produto caro. Após a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, os preços dos ingressos nas novas arenas aumentaram drasticamente e o acesso do povo aos estádios ficou quase impossível.

Segundo estudos da Pluri consultoria, o preço médio dos ingressos saltou de R$23 , em 2010, para R$38, em 2013, quando muitas partidas já aconteciam nos novos estádios. Essa elitização reflete-se na distância e na falta de identificação de parte da sociedade brasileira com o esporte.

A seleção brasileira, ao vender o mando de seus amistosos para estádios da Europa e Estados Unidos, contribui ainda mais para esse afastamento, uma vez que o torcedor residente no Brasil não tem mais a oportunidade de ver de perto a sua seleção jogar.

Hollanda entende que a transformação do futebol em um grande negócio, voltada para o lucro máximo e não mais para o entretenimento como outrora, é fator fundamental para as mudanças que estamos presenciando. 

A Copa do Catar

Neste ano, a escolha da sede da Copa do Mundo nos ajuda a entender tal contexto. O Catar, emirado absolutista localizado no Oriente Médio, sem nenhuma ligação com o futebol e riqueza estrondosa, é o país-sede do evento em 2022. A escolha gerou muitas controvérsias e renderá à FIFA, organizadora do evento, cifras recorde em arrecadação.  

Com acesso dificultado por questões geográficas, mas também culturais e sociais, como a Sharia, conjunto de leis muçulmanas que apresentam contraste drástico à cultura e o estilo de vida do mundo ocidental, o evento deste ano será um dos mais caros da história e quase exclusivo à elite dos países que competem. E ainda há que se considerar que as economias globais sofrem com o impacto de uma pandemia devastadora e da guerra entre Rússia e Ucrânia.

Se trouxermos para a realidade do brasileiro, que recebe um salário mínimo, é a segunda Copa do Mundo mais cara do último século, ficando atrás apenas da Copa de 2002, realizada na Coréia do Sul e Japão. Ao juntar o fato da Copa no Catar ser a mais cara da história, com custos exorbitantes –  US $220 bilhões, de acordo com os dados da Front Office Sports – e o salário mínimo do brasileiro nos últimos anos ter tido reajuste abaixo da inflação, podemos entender melhor esse contexto.

Com o crescimento do desemprego, queda das projeções do PIB e alta do preço dos produtos, proporcionados pelo governo de Jair Bolsonaro e impulsionados pela pandemia de covid-19, é quase impossível que um trabalhador que ganha um salário mínimo, ou perto disso, consiga realizar o sonho de ir à Copa sem se endividar. Mesmo assim, o Brasil, considerado “o país do futebol”, sempre figurou no top-10 de países que mais compram ingressos para a Copa. 

Para fins comparativos, projetamos, dentre os países que mais compraram ingressos para a Copa de 2022, quantos dias um trabalhador que ganha um salário mínimo teria que trabalhar para conseguir o pacote de ingressos de sete jogos de sua seleção – sem considerar passagem, hospedagem e estadia, apenas o valor do ingresso. O Brasil obteve o pior resultado: o trabalhador tem que destinar quase um ano de trabalho exclusivamente para os ingressos.

A situação econômica atual do Brasil se escancara quando percebemos que o poder de compra dos ingressos baseado no salário mínimo para os brasileiros é menor do que países como México, Arábia Saudita e da nossa vizinha Argentina, que passa por uma crise econômica há anos.

Reportagem produzida por Gabriel Perdigão, Laura Peixoto, Mateus Leite e Pedro Viglioni para o Laboratório de Jornalismo Digital no semestre 2022/2, do curso de Jornalismo da PUC Minas - campus Coração Eucarístico, sob a supervisão das professoras Verônica Soares e Maiara Orlandini.

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Colab é o Laboratório de Comunicação Digital da FCA / PUC Minas. Os textos publicados neste perfil são de autoria coletiva ou de convidados externos.

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