Brasilcore, esse é o nome do termo que vem dominando as redes sociais e ganhando holofotes no mundo inteiro nos últimos anos. A palavra, ou tendência nas redes sociais, surgiu em 2022, durante a Copa do Mundo no Catar, e ela é uma forma de tratar a respeito da estética e da cultura do Brasil. O verde e amarelo, a bandeira do país estampado em chinelos, bonés e outros acessórios, o clima tropical, a feira de domingo… tudo isso se relaciona com a tendência que virou hashtag, em plataformas digitais.
Apesar das redes sociais terem impulsionado o crescimento do brasilcore, outros elementos também foram essenciais para a repercussão da estética que ganhou destaque no estilo de pessoas de outros países. Nos últimos anos, não apenas o Brasil, mas como toda a América Latina e até mesmo parte da Ásia, começou a ganhar destaques culturais fora de seus próprios territórios. O k-pop, música popular coreana e os doramas, novelas típicas da Coréia do Sul, foram ferramentas que impulsionaram a cultura do país para todo o planeta. O mesmo ocorreu com a América Latina, através por exemplo do artista Bad Bunny, que é porto-riquenho e um dos cantores mais ouvidos em todo o mundo.
Já a estética da cultura brasileira foi impulsionada pelos filmes, como Ainda Estou Aqui que ganhou prêmios incluindo Oscar e também o Agente Secreto, que teve bastante notoriedade no cenário internacional. A música também mostra como esse movimento vem ocorrendo. A apresentação da cantora Anitta no Coachella de 2022, exemplifica esse movimento. Em seu show a artista aderiu ao seu repertório o funk, música extremamente popular no Brasil, que também vem ganhando uma grande notoriedade fora do país. Entretanto não para por aí, as apresentações e mega-shows em Copacabana, no Rio de Janeiro, também são uma excelente vitrine para o público internacional. Em 2024, a cantora Madonna foi a pioneira e realizou a primeira edição do festival, Todo Mundo no Rio. Em 2025, Lady Gaga veio para a cidade praiana e levou mais de 2 milhões de pessoas para as areais de Copacabana. Já neste ano, a latina Shakira foi quem movimentou a cidade. As três artistas foram elementos que repercutiram internacionalmente o cenário cultural nacional por conseguirem levar tantos fãs para suas apresentações. Vale ressaltar também que as cantoras abraçaram a cultura brasileira durante suas apresentações. Em 2024, Madonna convidou Anitta e Pabllo Vittar para participar do seu show. No ano seguinte, Lady Gaga convidou um fã brasileiro para ler em português uma carta escrita pela artistas para seus fãs do país. Agora, em 2026, Shakira convidou Caetano Veloso que subiu ao palco e se apresentou ao lado da colombiana.
Tudo isso são exemplos de como a cultura e a estética do Brasil foram apresentadas para o público internacional. E com a chegada da Copa do Mundo de 2026, a expectativa é de que o brasilcore ganhe ainda mais destaque fora do território brasileiro.

Copa do mundo, brasilcore e Moda
A moda é a principal forma onde a estética do brasilcore ganha força e se materializa. Através de camisas, bermudas, chinelos e outros acessórios, as cores da bandeira do nosso país ganham destaque e são facilmente associadas à estética e cultura do Brasil. Para o estudante e profissional da área da Moda, Guilherme Ferreira, a lógica do surgimento do brasilcore é inversa ao surgimento de qualquer outra estética:
“… esse chamado BrasilCore mostra muito essa inversão de lógica, porque a tendência não nasce no luxo e desce para a rua. Ela nasce na rua e depois ela é absorvida pela indústria fashion.”.

De acordo com o profissional, no caso do surgimento da estética do brasilcore, todos os elementos utilizados para compor o arranjo visual final da obra surgiram em grande parte nas periferias e comunidades do nosso país. Por exemplo, o uso das camisas de seleção, do óculos juliete, do chinelo com a bandeira do Brasil, tudo isso antes era associado a essas pessoas, entretanto com o surgimento e fortalecimento da estética visual esses elementos deixaram de ser adotados exclusivamente por um grupo e passam a ser utilizados por diversas pessoas que estão dentro e fora do país. E para explicar esse fenômeno, Guilherme reforça que as redes sociais foram as principais ferramentas de propagação da estética, “eu acho que as redes sociais elas aceleraram completamente esse processo isso é óbvio porque hoje um look de arquibancada um styling feito por influenciadores brasileiros ou uma estética que nasce do TikTok ela circula tão rápido quanto um desfile internacional.”
Com a chegada da Copa do Mundo, os próprios brasileiros começaram a procurar mais os itens como roupas e acessórios para utilizarem durante as partidas da seleção nos jogos. Em Belo Horizonte, segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-BH), o comércio realizou preparações para as vendas durante a exibição do mundial. Segundo o órgão, as lojas dos setores de roupas e acessórios temáticos ouvidos pela pesquisa registraram cerca de 13,3% da inteção de gastos por parte dos consumidores.

Renato Ronnie: um Brasil além do cartão-postal
Para entender como o brasilcore atravessou as redes sociais e virou estética de moda, a reportagem conversou com o fotógrafo Renato Ronnie, de Belo Horizonte.

Aos 26 anos, Renato vem construindo um trabalho muito ligado à cena fashion e underground da capital mineira, principalmente em espaços onde moda, música e comportamento acabam se misturando. É uma vivência que aparece direto nos ensaios que produz. Frequentando festas, eventos independentes, marcas autorais e ambientes ligados à cena techno e LGBT de Belo Horizonte, Renato desenvolveu um olhar muito particular sobre imagem, estética e representação. Um olhar que entende a moda muito mais como expressão do que como tendência passageira.
Talvez seja justamente isso que faça com que o trabalho dele chame tanta atenção. Renato consegue pegar elementos extremamente populares, quase saturados visualmente, e reorganizar tudo de uma forma que parece nova. Camisa da seleção, cerveja de garrafa, mesa de bar, calor, futebol, chinelo, estética suburbana. Referências que poderiam facilmente cair em uma imagem caricata acabam ganhando outra leitura quando passam pelas lentes dele. Existe uma preocupação em deixar tudo muito visualmente limpo, moderno, jovem, mas sem apagar o aspecto popular dessas referências. Nada parece montado só para performar uma ideia mercadológica pronta de Brasil.
Durante a entrevista, Renato comentou que a estética brasileira sempre esteve presente no cotidiano, mas passou a ganhar outro peso quando começou a ser percebida esteticamente também pelo exterior. Para ele, a relação do brasilcore com a identidade brasileira nasce justamente desse encontro entre uma cultura que sempre existiu aqui e um olhar estrangeiro que passou a enxergar valor visual nesses elementos. O boteco, o futebol, a cerveja de garrafa, o calor, o chinelo, o jeito informal de se vestir. Tudo isso sempre fez parte da paisagem brasileira, mas, quando essas referências começaram a aparecer internacionalmente como símbolos muito característicos do Brasil, os próprios brasileiros passaram a abraçar isso com mais orgulho.
“É um pouco dos dois. Isso sempre existiu na nossa cultura, mas quando as pessoas de fora começam a enxergar aquilo como algo muito nosso, a gente também passa a olhar diferente.”
Renato Ronnie
Foi justamente dentro desse movimento que Renato recebeu o convite para produzir um ensaio para a revista estadunidense Galore, publicação voltada para moda, beleza e cultura pop, conhecida pelos editoriais com celebridades e artistas internacionais. Segundo o fotógrafo, uma das primeiras perguntas feitas pela equipe foi se ele era do Rio de Janeiro.
Cheguei a perguntar se seria necessário ir para o Rio produzir o ensaio. Tive que explicar que sou de Belo Horizonte. Eles acabaram achando interessante justamente essa proposta de mostrar um Brasil além do Rio.
O ensaio acabou sendo produzido na “praia” da Praça da Estação, no centro da capital mineira. E talvez essa escolha diga muito sobre a forma como Renato enxerga o próprio país.
Para ele, existe uma facilidade muito grande em recorrer sempre às mesmas imagens quando o assunto é representar o Brasil visualmente. Porque elas já vêm prontas. Funcionam. Já existe um imaginário consolidado em torno disso.
Mas o fotógrafo parece interessado justamente no contrário.
Eu poderia ter ido para o Rio e feito algo que eu sei que funcionaria, porque já existe uma estética muito pronta sobre o Brasil. Mas isso não me interessa. O Brasil é muito maior.”
A associação entre a imagem do Brasil e o Rio de Janeiro aparece o tempo inteiro quando o país é representado internacionalmente. E isso também passa por uma construção histórica. Durante muito tempo, o Rio ocupou o lugar de principal vitrine brasileira para o exterior. Foi capital do país, cenário de novelas, cartão-postal turístico, referência cultural. Aos poucos, muitos símbolos cariocas passaram a ser tratados quase como sinônimo da identidade nacional. O Cristo Redentor, as praias, o carnaval, o futebol. Como se o Brasil pudesse ser resumido a uma única paisagem.
Só que o próprio Renato questiona essa ideia quando fala sobre a dimensão cultural do país. Durante a conversa, o fotógrafo citou o impacto que Isabelle Nogueira, a Cunhã, causou ao levar referências do Festival de Parintins para o Big Brother Brasil. Segundo ele, aquilo despertou curiosidade até em pessoas que nunca tinham tido contato com aquela cultura antes.
“Eu mesmo não conhecia a fundo aquilo antes dela aparecer no programa. E foi muito interessante ver tanta gente descobrindo aquilo ao mesmo tempo.”
A fala acaba esbarrando numa questão maior sobre o próprio brasilcore. Talvez a tendência tenha crescido tanto porque ela toca justamente nessa vontade de revisitar símbolos brasileiros, mas também de descobrir outros. Existe um interesse muito forte em olhar para a cultura popular de uma forma menos engessada, principalmente entre os jovens.
Para Renato, consumir referências de diferentes regiões do país também muda completamente a maneira de criar imagens. Quanto maior a bagagem cultural, maiores as possibilidades de construir novas leituras sobre o Brasil.
“É importante estudar o Rio, claro. Existe uma potência cultural enorme ali. Mas nossa estética não está baseada só nisso. O Brasil tem tamanho de continente. Imagina quanta coisa a gente ainda não conhece.”
Com a aproximação da Copa do Mundo, a convocação dos jogadores e o retorno das discussões em torno da brasilidade, o brasilcore voltou a ganhar ainda mais força, nas redes e nas ruas.
Uma semana depois da entrevista, Renato foi procurado para produzir mais um ensaio com essa proposta. O editorial reúne justamente alguns desses símbolos já muito associados ao imaginário brasileiro. Camisa verde e amarela, mesa de sinuca, cerveja, referências urbanas.
Mas o resultado passa longe daquela estética pronta que costuma aparecer quando o assunto é “cara de Brasil”. Existe um olhar muito próprio reorganizando tudo aquilo.
Talvez seja justamente esse o ponto mais interessante do brasilcore agora. Não se trata apenas de repetir símbolos nacionais porque eles estão em alta. Existe também uma tentativa de ressignificar essas imagens a partir das próprias referências culturais, da moda e dos lugares que cada pessoa ocupa. No caso do Renato, isso aparece quando ele transforma elementos extremamente populares em algo visualmente novo, mas sem perder o aspecto brasileiro que torna tudo reconhecível.
E, com a Copa cada vez mais próxima, a tendência é que essas imagens circulem ainda mais. Nos editoriais, nas campanhas e no jeito de se vestir. Porque, no fim, o brasilcore talvez fale menos sobre uma estética fechada e mais sobre a tentativa constante de reinventar visualmente o que significa ser brasileiro.
Quando a brasilidade ganha novos fios: entre tendência e tradição
Mas talvez nem todos os símbolos que hoje ajudam a construir essa ideia de brasilidade sejam tão evidentes quanto uma camisa da seleção ou as cores da bandeira estampadas em uma peça de roupa. Parte do sucesso do brasilcore está justamente em revisitar elementos que sempre estiveram presentes no cotidiano brasileiro e enxergá-los sob uma nova perspectiva. Em meio às redes sociais e aos editoriais de moda sobre identidade nacional, surge também um movimento de valorização de referências que não carregam necessariamente o verde e amarelo, mas que ainda assim ajudam a contar quem somos.
Existe uma tendência natural de associar a cultura brasileira aos símbolos já consagrados internacionalmente, mas a construção da identidade de um país acontece também em lugares menos óbvios. Ela está nos saberes transmitidos entre gerações, nos trabalhos manuais, na música que atravessa décadas e nas influências culturais que permanecem vivas mesmo quando deixam de ocupar o centro dos holofotes.
Talvez por isso seja possível observar, entre os jovens, um interesse crescente por referências artísticas que ajudaram a construir a ideia contemporânea de latinidade. Há uma nova geração redescobrindo artistas que transformaram a música popular brasileira em espaço de experimentação estética e afirmação cultural. Nomes que carregam uma identidade brasileira profundamente conectada à América Latina e que continuam influenciando a forma como o país se enxerga.
Entre eles está Ney Matogrosso. Décadas depois de cantar em “Sangue Latino” sobre uma identidade marcada pela intensidade e pela resistência, sua obra continua dialogando com artistas que hoje ocupam o imaginário de uma nova geração. E talvez um dos exemplos mais interessantes desse encontro entre passado e presente seja justamente a trajetória de Marina Sena.

A cantora norte-mineira tem se consolidado como uma das principais vozes da música brasileira contemporânea e, ao mesmo tempo, como uma artista que assume referências muito claras da tradição musical que a antecede. Em sua sonoridade, em suas performances e na construção de sua imagem pública, é possível perceber ecos de nomes como Gal Costa e do próprio Ney Matogrosso. Não como reprodução, mas como continuidade.
Uma forma de atualizar linguagens que ajudaram a moldar a identidade cultural brasileira.
Essa influência aparece de maneira especialmente interessante na estética de seu álbum “Coisas Naturais”. Ao incorporar peças artesanais, especialmente o crochê, como parte da identidade visual da nova turnê, Marina recupera elementos que durante muito tempo foram associados apenas ao ambiente doméstico ou ao artesanato regional. Quando esses elementos passam a ocupar os palcos, os editoriais de moda e as redes sociais, eles ganham novos significados sem perder a conexão com suas origens.
Quando Marina Sena canta “é que meu jeito é totalmente natural, baby”, a frase acaba servindo como uma coincidência interessante para essa discussão. Porque talvez exista algo muito brasileiro nessa naturalidade. O brasilcore talvez seja justamente isso: o momento em que o mundo passa a enxergar valor estético naquilo que, para nós, sempre foi natural. Afinal, poucas coisas parecem mais brasileiras do que transformar a própria identidade em tendência sem sequer perceber que estava fazendo isso.
É justamente nesse ponto que o crochê encontra o brasilcore. Não porque carregue símbolos nacionais explícitos, mas porque participa do mesmo movimento de valorização das referências culturais brasileiras. Assim como a camisa da seleção foi ressignificada pela moda, o trabalho artesanal também passa a ser visto como uma expressão contemporânea de identidade. Existe ali uma memória coletiva.
O crochê e a estética
O nome “crochê” vem do francês, que significa “gancho” por causa da agulha utilizada para criar cada ponto. No Brasil, essa arte chegou junto aos portugueses e se consolidou como fonte de sustento e importante forma de expressão de identidade em várias regiões do país. Essa técnica atravessa gerações e permanece viva na decoração de interiores, em peças utilitárias e no vestuário que também faz parte da estética brasileira. Mais do que um trabalho manual, o crochê faz parte do imaginário coletivo brasileiro: seus padrões, cores e texturas trazem memórias afetivas e referências culturais que permitem reconhecer, quase instantaneamente, aspectos da nossa história e forma de viver.
Na época da copa do mundo, a procura pelo crochê vem junto da originalidade que ele trás consigo. A juventude têm se aproximado desse meio e buscado produtos que transmitem personalidade e singularidade. A possibilidade de inovar e poder fazer isso à sua própria maneira é um dos pontos fortes dessa geração. Embora o crochê tenha raízes tradicionais, existe a liberdade de transformá-lo em algo moderno e completamente novo.
Tem coisa que eu vejo que é feito de crochê que se você não sabe, você não fala que aquilo é artesanal, porque tem uma estética muito moderna. E eu gosto desse desafio.
diz Stella Maya, dona da Maya Crochê e estudante de moda. A artesã produz tanto peças de seu próprio catálogo quanto trabalhos inspirados em referências enviadas por clientes, projetos que viralizam na internet também costumam servir de inspiração para novas criações.
A criatividade buscada em peças do crochê vem em resposta à tendência minimalista que estava em alta. Após tanto tempo de minimalismo as pessoas têm buscado algo novo, com mais cor, que representa a latinidade. Stella conta que ao produzir peças na ‘estética brasileira’, uma de suas maiores inspirações é a própria natureza, a fauna e flora são essenciais para nosso país e consequentemente ganharam grande proporção na hora de representar o Brasil em peças de roupa. É quase um caminho de volta, algo tão tradicional vestindo corpos da atualidade.
Agora em época de copa as buscas por designs que refletem a brasilidade aumentou. O brasilcore é uma forma de voltar às origens e valorizar o nosso próprio país que por muitos anos foi deixado de lado. O crochê junto com essa tendência crescente vem com a ideia de valorizar o que é nosso, segundo a artesã. Mais que uma estética, todo esse processo de crochetagem carrega uma história que há de ser contada, um povo buscando identificação e mãos dispostas a fazer algo belo, único e representativo.
Reportagem desenvolvida por Fabio Augusto Santos Pereira, Oade Nathaly Bispo Ferreira e Rhayssa Junqueira Reis para a disciplina Laboratório de Jornalismo Digital do curso de Jornalismo campus Lourdes da PUC Minas, sob a supervisão da professora Tay Gregório.




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