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Créditos: Amábile Fernandes.

Copa das Bets promove espetacularização do vício em apostas esportivas

Brasil já é o 5° maior mercado das bets. Apostas se tornam ameaça financeira e psicológica

A febre das apostas esportivas online, as populares “bets”, já faz parte da rotina do brasileiro há um tempo, mas o mercado se prepara para viver um cenário inédito: a sincronia com o evento esportivo mais assistido do planeta. A 23ª edição da Copa do Mundo da FIFA, que em 2026 está sendo sediada no Canadá, Estados Unidos e México, é a primeira a ocorrer desde a regulamentação das “bets” no Brasil, aprovada no fim de 2023.

Quando a bola rola em uma Copa do Mundo, milhões de torcedores acompanham cada lance, discutem escalações e projetam resultados ao redor de todo o planeta. Nos últimos anos, porém, um novo elemento passou a integrar a experiência de assistir ao principal torneio do futebol mundial: as apostas esportivas online. Impulsionado pela popularização das plataformas digitais e pela regulamentação do setor no Brasil, o mercado das bets movimenta hoje cifras bilionárias e se consolidou como uma das atividades mais lucrativas da economia digital.

Mas, afinal, o que isso muda? Claramente para uns e mais sucintamente para outros, tudo. A popularidade crescente das casas de apostas esportivas online se torna uma ameaça financeira, psicológica e até mesmo criminosa. E, não se engane em pensar que tais consequências dizem respeito apenas ao apostador. As repercussões já ocorrem a nível nacional e podem se tornar, se já não são, uma emergência econômica e de saúde pública. A “nova epidemia”, desta vez, tende a nascer do vício.

Ilustração por Amábile Fernandes.

Qual o impacto das bets na economia?

A Copa do Mundo da FIFA de 2026 vai funcionar como uma poderosa “porta de entrada” para apostadores ocasionais nesse mercado, atraídos pelo engajamento emocional, além de um “atrativo a mais” para aqueles que já estão dentro das plataformas.

Os números ajudam a dimensionar o fenômeno, já que expectativa é que o torneio registre um volume recorde de apostas esportivas durante essa edição. Segundo projeção da consultoria especializada H2 Gambling Capital, cerca de US$ 60 bilhões (R$ 312 bilhões) serão apostados globalmente durante a competição, um crescimento de 71% em relação à Copa do Mundo de 2022 e de 185% na comparação com a edição de 2018. A estimativa considera apenas mercados regulados e legais, incluindo o Brasil.

O nosso país, inclusive, é hoje o 5º maior mercado de apostas esportivas em todo o mundo, é o que aponta um levantamento da consultoria internacional Regulus Partners divulgado pela BBC. Segundo estimativas apresentadas pelo Banco Central durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets, os brasileiros movimentam entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês em plataformas de apostas online. Em um cenário conservador, isso representa cerca de R$ 240 bilhões por ano, um volume financeiro superior ao orçamento anual de muitos estados brasileiros.

Além da movimentação financeira, o número de usuários cadastrados nas plataformas também chama atenção. Com a transição para um mercado regulamentado, operando sob domínios específicos e exigindo validação por CPF, o setor registrou um crescimento expressivo no número de registros.

Dados divulgados pelo mercado apontam que cerca de 25 milhões de CPFs estão cadastrados em plataformas oficiais de apostas. O número, no entanto, não representa necessariamente 25 milhões de apostadores ativos, já que uma mesma pessoa pode possuir contas em diferentes plataformas. Ainda assim, o dado ajuda a dimensionar o alcance das bets no país. Apenas no primeiro semestre do ano passado, 17,7 milhões de brasileiros realizaram ao menos uma aposta esportiva online.

Para o Governo Federal, a conversão desse engajamento em receita é bilionária. Com uma taxa de 12% sobre o GGR (Gross Gaming Revenue, o lucro bruto das casas), o volume projetado para o mês da Copa deve gerar um pico histórico de arrecadação para a União. O tamanho desse cifrão fica evidente nos dados oficiais obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI): apenas no primeiro trimestre de 2026, o governo arrecadou R$ 4,17 bilhões com jogos e apostas. Para dimensão do valor, esse montante total equivale a mais de 2,7 milhões de salários mínimos ou à compra de 16.680 casas populares (avaliadas em R$ 250 mil cada). Desse total arrecadado, mais de R$ 1,15 bilhão veio especificamente das apostas de quota fixa online.

O avanço das apostas esportivas também tem provocado efeitos sobre outros setores da economia. Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que cerca de R$ 103 bilhões deixaram de circular no varejo brasileiro em 2024 em razão do crescimento das plataformas de apostas online. Segundo a entidade, parte da renda que antes seria destinada à compra de bens e serviços passou a ser direcionada para as bets, afetando segmentos como comércio varejista, turismo, alimentação e serviços.

O fenômeno representa uma mudança nos hábitos de consumo dos brasileiros e pode reduzir a atividade econômica em setores tradicionalmente dependentes do consumo das famílias. Nesse caso, o impacto das apostas ultrapassa a esfera individual e passa a influenciar o comportamento do mercado como um todo.

Outro dado assustador em relação a movimentações financeiras do mercado das bets surge quando analisamos de onde está vindo o dinheiro usado pelos apostadores nas plataformas online. Um levantamento do Banco Central apontou que beneficiários do programa social Bolsa Família transferiram cerca de R$ 10,5 bilhões para plataformas de apostas entre janeiro e agosto de 2024 por meio do Pix.

Somente no mês de agosto daquele ano, aproximadamente 5 milhões de beneficiários destinaram R$ 3 bilhões às bets, valor equivalente a cerca de 20% do orçamento mensal do programa, segundo dados analisados pelo órgão. Com a repercussão desses dados, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou ao Governo Federal a adoção de medidas para impedir que recursos de programas sociais sejam utilizados em apostas online.

E o resultado para o bolso do apostador? Endividamento. Os números revelam uma realidade alarmante para aqueles que transferem dinheiro as casas de apostas online ao registrar um expressivo aumento da inadimplência no país.

Ainda segundo o estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), cerca de 1,8 milhão de brasileiros passaram a ficar inadimplentes em 2024 em razão dos gastos com bets. O salto foi maior em famílias de classes sociais mais baixas.

Uma pesquisa realizada pela Serasa em parceria com o instituto Opinion Box mostrou que 46% dos consumidores com dívidas já apostaram ao menos uma vez na vida e que 16% continuam apostando regularmente.

Entre os entrevistados, 57% afirmaram que não estavam endividados antes de começar a apostar. O levantamento também revela um comportamento preocupante: 44% dos inadimplentes disseram já ter recorrido às apostas na tentativa de quitar dívidas, enquanto 30% admitiram ter deixado de pagar outras contas para continuar apostando.

Além disso, 13% afirmaram já ter se endividado diretamente por causa das apostas e outros 10% chegaram a solicitar crédito para financiar novas jogadas.

A pesquisa indica ainda que a busca por dinheiro rápido é uma das principais portas de entrada para o universo das bets. Entre os apostadores que ficaram inadimplentes em 2024, 61% afirmaram ter começado a apostar para tentar ganhar dinheiro de forma rápida e 32% buscavam uma fonte de renda extra. No entanto, a expectativa de lucro frequentemente não se concretiza: mais da metade dos entrevistados (52%) relatou ter perdido mais dinheiro do que ganhou ao apostar.

Para a especialista em marketing esportivo Natália Cavalcanti, que atua há mais de 15 anos em eventos esportivos internacionais e hoje faz parte da equipe da CONMEBOL, essa percepção não é por acaso. Ela explica que as empresas do setor investem fortemente em estratégias de marketing para garantir presença constante junto ao público.

É uma publicidade muito forte. O torcedor é impactado o tempo todo, em diferentes plataformas. Quando assiste a um jogo, acessa um portal de esportes, abre uma rede social ou utiliza um aplicativo de entretenimento, a chance de encontrar uma propaganda de apostas é enorme. Essa repetição constante contribui para normalizar a prática e despertar a curiosidade de quem ainda não utiliza essas plataformas”

Ilustração por Amábile Fernandes.

Bets viram caso de saúde pública

Se os indicadores econômicos causam apreensão, o diagnóstico clínico e social é ainda mais grave. O hábito aparentemente recreativo e inofensivo de “dar um palpite esportivo” pode evoluir de forma silenciosa para a ludopatia, o termo médico e científico utilizado para classificar o transtorno do jogo compulsivo.

Formalmente reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a ludopatia é uma patologia psiquiátrica grave, definida pela incapacidade crônica do indivíduo de controlar o impulso de jogar, persistindo no comportamento destrutivo apesar de colher consequências trágicas em sua vida pessoal, financeira, profissional e familiar.

Segundo o psicólogo Adriano Leite, um dos desafios para compreender a doença é superar a visão equivocada de que a ludopatia representa apenas uma falha de caráter ou falta de autocontrole. Para ele, a popularização de termos psicológicos no cotidiano frequentemente leva à culpabilização do indivíduo adoecido, ignorando a complexa interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais.

Além disso, o transtorno costuma estar associado a comorbidades, como ansiedade, depressão e uso problemático de substâncias psicoativas, condições que podem comprometer ainda mais o controle dos impulsos.

O cérebro do ludopata passa a ignorar o valor real do dinheiro; ele se torna dependente da adrenalina. A psicóloga clínica Lara Vargas explica:

Quando o prejuízo ocorre, o mecanismo de defesa do viciado não é recuar, mas sim realizar novas apostas em uma tentativa desesperada de recuperar o valor perdido, estabelecendo um ciclo compulsivo destrutivo. Adriano Leite ressalta que a excitação provocada pela expectativa do resultado e a intermitência entre ganhos e perdas acabam se tornando mais importantes para o apostador do que um episódio isolado de vitória.

Embora os índices de subnotificação clínica permaneçam elevados devido ao forte estigma social que cerca a dependência de jogos, levantamentos de entidades ligadas à saúde mental estimam que o contingente de brasileiros com sintomas claros de comportamento compulsivo já atinge a escala dos milhões.

A engrenagem por trás desse adoecimento em massa é alimentada por uma atividade digital febril: o volume de acessos às plataformas disparou para mais de 26 bilhões de visitas, um crescimento assustador de aproximadamente 275% na comparação anual.

Diante desse cenário, o impacto clínico deixou as projeções teóricas e passou a sufocar a rede de saúde. Na vanguarda institucional dessa crise, Belo Horizonte viu-se obrigada a instituir uma política municipal pioneira e específica voltada à saúde mental de pessoas com dependência em jogos de azar, com foco direto nos jogos eletrônicos e nas bets.

A legislação municipal prevê um protocolo de urgência que abrange desde a prevenção e o acolhimento até o tratamento psiquiátrico e a reinserção social dos indivíduos, além de fomentar campanhas educativas urgentes sobre as fraturas sociais, econômicas e psicológicas provocadas pela ludopatia.

A lei sancionada em 21 de janeiro de 2026 expõe a profunda contradição com que o poder público lida com o tema, ocorrendo apenas uma semana após o próprio município ironicamente criar a Política Municipal de Fomento aos Jogos Eletrônicos e e-sports. O senso de urgência da medida, contudo, é justificado pela realidade brutal dos hospitais belo-horizontinos: um hospital público da capital registrou um aumento dramático de 300% nos atendimentos médicos diretamente relacionados ao transtorno do jogo compulsivo. Esse sufocamento da rede hospitalar mineira antecipa o que já se desenha em nível nacional.

Ambulatórios da rede pública de outras capitais e centros de referência universitários históricos voltados ao tratamento de transtornos do impulso, como o Promen, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, enfrentam o mesmo crescimento exponencial na busca por socorro terapêutico.

As filas de espera por tratamento psiquiátrico e psicológico especializado expandem-se em ritmo acelerado, correndo atrás do prejuízo em um país onde o bombardeio publicitário massivo das bets nos meios de comunicação e nos patrocínios esportivos continua a adoecer a população muito mais rápido do que o Estado é capaz de acolher.

A digitalização do vício

Esse salto estatístico avassalador não é um acidente de percurso; ele possui uma raiz tecnológica agressiva e deliberada. Historicamente, a prática de jogos de azar exigia barreiras físicas e geográficas: o indivíduo dependia do deslocamento até cassinos, bingos ou pontos de apostas locais.

Esses obstáculos geravam um tempo de fricção, um momento de hesitação, e impunham barreiras sociais e morais, já que a exposição pública do jogador servia como um freio inibidor diante da comunidade e da família.

Para a Lara Vargas, a popularização dos smartphones ampliou significativamente os riscos relacionados ao jogo. “Antes era necessário se deslocar até um bingo, cassino ou casa de apostas. Hoje o acesso acontece de qualquer lugar e a qualquer momento. Isso facilita muito o desenvolvimento do comportamento compulsivo”, afirma.

A digitalização irrestrita, contudo, promoveu uma perversa democratização do vício ao implodir essas barreiras. Ao transferir o mercado de apostas para o ambiente virtual, as plataformas passaram a operar ininterruptamente, 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem qualquer filtro social eficaz.

A fusão entre o imediatismo das transações via Pix e as interfaces baseadas em neurodesign, que utilizam estímulos visuais e sonoros idênticos aos dos videogames, transformou o smartphone em uma máquina caça-níqueis de bolso altamente destrutiva.

As empresas de apostas capitalizam sobre essa vulnerabilidade ao utilizar bônus de boas-vindas predatórios e algoritmos de retargeting que perseguem o usuário com notificações agressivas no momento exato em que ele está mais propenso a jogar. Sob o manto de um “entretenimento legítimo”, essa arquitetura predatória mercantilizou o desespero e preparou o terreno ideal para que eventos de comoção cultural de massa, como a Copa do Mundo, funcionem não apenas como uma festa do esporte, mas como o estopim definitivo para uma crise coletiva de saúde mental e colapso financeiro doméstico.

A invasão das bets no futebol brasileiro 

A expansão das bets no Brasil não pode ser compreendida sem observar sua crescente presença no futebol, esporte que é paixão nacional e um dos símbolos do país ao redor do mundo. Em poucos anos, as casas de apostas deixaram de ser anunciantes ocasionais para se tornarem as principais financiadoras do esporte nacional.

Atualmente, todos os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, que foi inclusive rebatizado oficialmente como “Brasileirão Betano” após um aporte de mais de R$200 milhões da casa de apostas pagos à CBF (Confederação Brasileira de Futebol), tem a marca de bets estampadas em suas camisas durante os jogos. As empresas pagam valores milionários aos clubes para ocupar aquele espaço.

O Flamengo, por exemplo, fechou um contrato também com a Betano que rende ao clube cerca de R$268,5 milhões anuais. Ao todo, de acordo com um levantamento feito pelo Estadão, as bets injetaram em clubes brasileiros mais de R$1 bilhão em 2025.

A presença das bets também se estende aos estádios, placas publicitárias, transmissões esportivas, programas de televisão e conteúdos produzidos para as redes sociais: elas estão em todos os lugares.

Dados revelados por uma reportagem da DW Brasil apontam que seis em cada dez painéis publicitários ao redor de campos de futebol durante o Campeonato Brasileiro de 2024 exibiam anúncios de apostas esportivas ou outros tipos de jogos de azar. Esse número ainda subiu para sete em cada dez na rodada final do torneio. Ainda de acordo com a página, a competição brasileira é a que maior registrou publicidade à casas de apostas em todo o mundo, ficando 16 pontos percentuais a frente do segundo colocado, o torneio da Colômbia.

Reprodução: DW Brasil

O novo juiz do jogo

O impacto do mercado de apostas ultrapassou os limites das finanças e da saúde mental; ele penetrou nas quatro linhas, ameaçando a própria integridade do próprio futebol. A linha que separa o entretenimento do crime tornou-se perigosa com o envolvimento de atletas em esquemas de manipulação de resultados.

O futebol brasileiro e internacional assiste, com apreensão, a uma realidade onde o apito final parece, por vezes, ser ditado pelas flutuações das odds das plataformas online, e não pelo desempenho em campo. Será que o futebol passou a ter as bets como seu novo juiz?

Casos de grande repercussão evidenciam a gravidade do cenário. O meia da seleção brasileira, Lucas Paquetá, foi formalmente denunciado pela Federação Inglesa de Futebol (FA) sob a acusação de forçar cartões amarelos deliberadamente para favorecer apostadores em partidas do West Ham pela Premier League. Embora tenha sido inocentado e evitado o banimento vitalício, punição máxima prevista, o episódio expôs a vulnerabilidade até mesmo das ligas mais ricas do mundo ao assédio do mercado de apostas.

Em solo brasileiro, a fragilidade ficou escancarada com a “Operação Penalidade Máxima”, conduzida pelo Ministério Público de Goiás. A investigação revelou uma rede de aliciamento que culminou na suspensão do zagueiro Eduardo Bauermann, ex-Santos, punido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) após aceitar propina para forçar advertências em jogos da Série A.

A ironia desse cenário reside no topo da pirâmide esportiva. Ao mesmo tempo em que a Justiça e as entidades desportivas tentam punir fraudes, astros de primeira grandeza da Amarelinha, como Neymar Junior, e o goleiro Ederson, figuram como embaixadores e garotos-propaganda globais de grandes casas de apostas.

Essa ambiguidade cria um ecossistema de conflito de interesses éticos: o mesmo mercado que financia os clubes, patrocina as transmissões e estampa o peito dos maiores ídolos do país é o que fornece os incentivos financeiros para a corrupção do jogo. Ao transformar cada lateral, escanteio ou cartão amarelo em um ativo monetizável instantâneo, a digitalização das bets descentralizou a fraude, tornando a fiscalização uma tarefa quase impossível e colocando em xeque a maior riqueza do futebol: a imprevisibilidade e a confiança do torcedor.

Para Natália Cavalcanti, o fenômeno alterou profundamente a dinâmica do mercado. Segundo ela, as empresas de apostas não apenas entraram no futebol, mas elevaram os valores de patrocínio a patamares inéditos. Contratos de patrocínio master que, até poucos anos atrás, giravam em torno de R$ 60 milhões ou R$ 70 milhões anuais passaram a ultrapassar a marca de R$ 120 milhões em alguns clubes da elite nacional.

As apostas esportivas realmente conseguiram mudar toda uma forma de trabalhar o marketing esportivo. Elas colocaram muito dinheiro no mercado”

O avanço das bets ocorre em um ambiente particularmente favorável a essas empresas: a necessidade crônica de recursos enfrentada pelos clubes brasileiros. Natália observa que o país possui mais de 700 clubes credenciados e que a dificuldade de captação financeira é uma realidade muito além da Série A.

Nesse cenário, a chegada de empresas dispostas a investir dezenas de milhões de reais tornou-se praticamente irrecusável. “Vem uma bet com recurso financeiro e diz: toma aqui o dinheiro que você está precisando. Em troca, você vai divulgar meu jogo. Esse clube, no primeiro momento, vai aceitar. A discussão se isso vai de encontro aos meus valores ou não vem muito depois”, afirma.

A consequência é uma presença cada vez mais abrangente das plataformas, que hoje aparecem em uniformes, placas de estádio, ativações de marca, transmissões esportivas, redes sociais e conteúdos produzidos por influenciadores ligados ao futebol.

Ainda segundo a especialista, o sucesso das casas de apostas não está ligado apenas ao volume de investimento, mas também à sofisticação de suas campanhas. Ela compara as estratégias do setor às de grandes marcas de bebidas, historicamente reconhecidas por suas ações de marketing esportivo. As empresas investem em produções audiovisuais de alto custo, experiências imersivas nos estádios, distribuição de brindes e ativações voltadas à interação dos torcedores.

“São produções cinematográficas. As ativações de marca das casas de apostas estão entre as mais elaboradas e caras do futebol brasileiro”, afirma.

Para ela, a estratégia busca ampliar a presença das marcas para além do momento da aposta, inserindo-as no cotidiano dos torcedores e criando uma sensação constante de familiaridade. Em ano de Copa do Mundo, quando a audiência do futebol alcança níveis excepcionais, essa exposição tende a se intensificar ainda mais, transformando o torneio em uma das principais vitrines comerciais do setor.

Sequestro de ídolos

Se os clubes oferecem visibilidade institucional às casas de apostas, os jogadores fornecem algo ainda mais valioso: identificação emocional. Nos últimos anos, empresas do setor passaram a investir cada vez mais em atletas renomados, especialmente jogadores da seleção brasileira, para promover suas marcas. A estratégia busca associar as plataformas a figuras admiradas pelo público, capazes de transmitir atributos como sucesso, confiança e credibilidade.

Para a especialista em marketing esportivo Natália Cavalcanti, a lógica é simples: o atleta moderno deixou de ser apenas um esportista para se tornar uma marca com enorme capacidade de influência.

O jogador não é mais um CPF. Ele é um CNPJ. Ele é uma marca”

Segundo ela, as empresas perceberam que determinados atletas possuem alcance e engajamento capazes de superar até mesmo os de grandes clubes, tornando-se canais diretos de comunicação com milhões de torcedores e consumidores. Dessa forma, a imagem dos ídolos passa a funcionar como um atalho para a construção de confiança em um mercado cuja principal matéria-prima é a aposta do usuário.

Dentro dos 26 nomes da nossa seleção escalados para a Copa do Mundo 2026, 11 jogadores atuam em times que usam suas camisas como palanque das bets. 9 deles, inclusive, posicionam as marcas das casas de aposta bem no centro do peito dos atletas, as maiores vitrines do futebol. Confira: 

Além da camisa do time, alguns casos ultrapassam essa camada. Vinícius Júnior, por exemplo, o jogador mais valioso da seleção brasileira, hoje defende o Real Madrid, da Espanha. O clube, um dos maiores no cenário esportivo, não é patrocinado por nenhuma plataforma de jogos de azar, já Vinicíus Júnior, por outro lado, se tornou o rosto principal da Betnacional durante sua última campanha. 

Divulgação | Betnacional

Outro bom exemplo seria o de Neymar, de longe o jogador mais midiático e influente do Brasil, o camisa 10, visto por muitos torcedores como “referência”. Além disso, Neymar é, desde 2022, o embaixador global da casa de apostas Blaze. Às vésperas da convocação da seleção para disputar a Copa do Mundo 2026, rumores sobre a possibilidade de Neymar ter sido deixado de fora da lista final tomaram força. A expectativa era grande para milhões de torcedores naquele dia, inclusive, o assunto dominou todas as primeiras colocações do Google Trends (ferramenta que indica os termos mais pesquisados na internet no Brasil em determinado momento).

Neymar estava no centro de todos os holofotes da mídia do país, e ele sabia disso quando tomou uma decisão um tanto quanto curiosa ou até de caráter questionável. Depois de ter sido, enfim, anunciado, em sua primeira manifestação sobre o assunto o jogador fez uma única publicação em suas redes sociais: divulgando plataformas de jogo de azar. Naquele momento, após a convocação, Neymar ganhou mais de 1 milhão de seguidores em seu perfil no Instagram.

Reprodução | Redes Sociais

Jogadores Anônimos: uma imersão nos impactos sociais da ludopatia

Para compreender melhor os impactos sociais provocados pelas bets, visitamos uma reunião do grupo Jogadores Anônimos (JA), em Belo Horizonte. A irmandade reúne pessoas que compartilham experiências e apoio mútuo com o objetivo de interromper o ciclo da compulsão pelo jogo. Além dos encontros para jogadores, também são realizadas reuniões do Jog Anon, destinadas a familiares e pessoas próximas afetadas pela doença.

Fomos recebidas pelo coordenador da “sala” (como o grupo se chama), Kaleb Costa*, que nos levou até um auditório onde estavam reunidos os demais “jogadores”. A primeira impressão já foi surpreendente: haviam pessoas dos mais variados perfis. Homens e mulheres, idosos e jovens. O coordenador Kaleb, inclusive, chegou a nós contar que já haviam tido pedidos para receber menores de idade no grupo. A demanda, porém, não pôde ser acatada vista a restrição de idade do JA.

Outra surpresa foi perceber que muitos participantes estavam há anos sem apostar, mas continuavam se considerando em recuperação. Para eles, a ludopatia é uma doença crônica, cujo tratamento dura a vida inteira.

Durante a reunião, acompanhamos a entrega de chaveiros que simbolizavam períodos de abstinência e ouvimos relatos marcados por perdas financeiras, rompimentos familiares e tentativas de suicídio. Destaca-se a frase ressoada por eles tantas vezes, como um lema, “só por hoje”. Naquele momento, compreendemos que os números sobre o crescimento das apostas não eram capazes de traduzir a dimensão humana do problema.

O impacto se tornou ainda mais evidente na reunião do Jog Anon. Enquanto entre os jogadores havia espaço para celebrações e acolhimento, entre os familiares predominava um sentimento de exaustão: a atmosfera era similar a de um velório. Ouvimos histórias de dívidas acumuladas, conflitos familiares, medo, angústia e da difícil tarefa de tentar reconstruir a própria vida enquanto assistiam ao adoecimento de alguém que amavam.

Um caso em especial chamou nossa atenção. Dessa vez, já na segunda visita ao local, e agora já bem apresentadas a dinâmica da sala, fomos novamente ao espaço destinado aos familiares. Naquele dia, um casal chegava pela primeira vez ao grupo. Ainda tímidos, como nós na semana anterior, se apresentaram. A mãe, em lágrimas comoventes, e o padrasto.

A mulher chorava tanto e contava fatos tão inacreditáveis que surgiu um nó na garganta. O restante do grupo, um pouco menos comovido do que nós, apenas consentia. Para eles, apenas um espelho daquilo já viveram ou ainda vivem.

A reunião seguiu e, quando acabou, no momento em que os familiares se reencontram com os jogadores, fizemos questão de fitar aquela mãe chorosa. Nos assustamos ao notar que o filho, tão novo, devia ter acabado de entrar na casa dos 20. A realidade foi como um soco no estômago: tem gente morrendo, tem gente pedindo ajuda. 

Ilustração por Amábile Fernandes.

A vida em jogo

Em entrevista, conversamos com um membro do JA, que decidiu compartilhar sua história com o vício em apostas esportivas.

Eu comecei a jogar porque eu sempre gostei muito de esporte. Meu vício, meu problema, foi sempre com a aposta esportiva. […]

Ao todo, o que eu perdi mais de R$1 milhão. O vício tirou tudo de mim, em todos os aspectos. Ele tirou minha dignidade, ele tirou meu nome, tirou minha moral, tirou muitos amigos, tirou meu emprego na época, tirou minha namorada. O pior é as pessoas olharem para você de outro jeito, você perder a confiança, as pessoas te afastarem. […]

Eu comecei a jogar porque eu sempre gostei muito de esporte. Meu vício, meu problema, foi sempre com a aposta esportiva. Eu sempre considerei que entendia muito de esporte, então fazia sentido para mim brincar com isso. Durante muito tempo eu apostava no valor baixo, R$10, R$20, no muito, R$50. […]

Em 2020, veio a pandemia, eu era estagiário na época e tinha R$5 mil guardado, trancado em casa, não fazia nada, peguei os R$5 mil e pus na bet. Na época, os campeonatos do mundo todo estavam parados, não tinha esporte e aí a bet começou a colocar jogos de FIFA (videogame). No primeiro mês eu comecei com R$5 mil e, no final desse mesmo mês eu já tinha R$25 mil. Ali eu achei que tinha achado o meu futuro. De fato eu vivi disso por algum tempo, durante um ano mais ou menos eu ganhei dinheiro. Mas depois se tornou compulsão. […]

No primeiro mês que eu perdi R$30 mil, eu não aceitei esse prejuízo. Eu não aceitava que eu já tava muito no lucro, na minha cabeça eu precisaria de qualquer forma recuperar esses R$30mil. Foi aí que comecei a perder o controle, só ladeira abaixo. Eu fazia tudo que fosse necessário para conseguir dinheiro: pegava emprestado, pegava cartão de crédito, pegava empréstimo, inventava história, tudo que precisava para ganhar. Foi a hora que eu parei e pensei ‘talvez eu esteja viciado’ […]

Já fiz muita dívida, uma parte que eu perdi era minha, outra parte que eu perdi eu tinha ganhado no jogo. Ao todo, o que eu perdi, juntando o meu dinheiro e o dinheiro da minha família, passou facilmente de R$1 milhão. O vício tirou tudo de mim, em todos os aspectos. Obviamente muito dinheiro, mas eu acho que nem é o principal. Ele tirou minha dignidade, ele tirou meu nome, tirou minha moral, tirou muitos amigos, tirou meu emprego na época, tirou minha namorada. O pior é as pessoas olharem para você de outro jeito, você perder a confiança, as pessoas te afastarem.

[…] É muito difícil pedir ajuda. Se você está viciado em drogas, muito rapidamente as pessoas em volta vão perceber, porque os sinais são claros, no jogo não, a pessoa começa a jogar normalmente. O caminho é começar a jogar, aí demora um tempo para se viciar, depois que se vicia demora um tempo para perceber, depois que percebe demora um tempo para pedir ajuda, e ao longo disso se passaram anos. Normalmente, quando as pessoas pedem ajuda, já está tudo muito destruído. É muito difícil perceber e depois tomar coragem, talvez a parte mais difícil do processo é essa: pedir ajuda. […]

Quanto à publicidade, influencia muito. Acho que principalmente até no ponto de incentivo para as pessoas experimentarem, principalmente quem não conhece, não sabe o que é isso e não tem noção do tamanho do buraco que pode se enfiar. Tudo no esporte hoje está dominado pelas bets. É igual dizerem ‘experimenta essa droga aqui, mas não vicia não, joga com responsabilidade’. Eu acho isso complicado, porque depois que você vicia não tem mais esse controle de responsabilidade, é muito difícil.

* Nomes fictícios para preservar a identidade dos membros do JA


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Reportagem desenvolvida por Beatriz Pena Rodrigues e Gabriela Luisa Ferreira Neves na disciplina Laboratório de Jornalismo Digital do curso de Jornalismo campus Lourdes da PUC Minas, sob supervisão da professora Tay Gregório.

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