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A primeira mulher a narrar o CBLOL | Fonte: LeaguePedia

Uma voz, um microfone, uma história que o cenário tentou não contar

Os obstáculos na trajetória de Anyazita, a primeira mulher a narrar o CBLOL e uma das vozes mais relevantes da nova geração dos esports no Brasil

A mesa de vidro ficava na sala de jantar da casa dos pais. Foi ali, sem estúdio, sem contrato, sem ninguém para abrir caminho, que Ana Marcella Loyola Muniz, a Anyazita, começou a narrar. A voz saía crua, alimentada por paixão e por uma persistência que ela ainda não sabia que precisaria carregar por anos. 

Ela narrava campeonatos amadores, eternizava grandes jogadas de players que provavelmente nunca saberiam o nome dela, e encontrava ali, naquele momento simples e caseiro, o seu propósito. Ela sabia que sua missão não era apenas jogar, mas ser uma ponte entre a emoção do jogo e o público. Naquele momento, a mesa de vidro era tudo. Hoje, ela sabe que era só o primeiro espaço que ocuparia.

Os games entraram na vida de Anyazita pela porta do afeto paternal, dividindo o controle de um PlayStation 1 com seu pai no sofá, depois passando horas a fio em estratégias de “Age of Mythology” no seu primeiro computador. Como quase todo jovem que cresce dentro dos games, o sonho inicial era estar no servidor, na tabela, em uma carreira de atleta. Mas o cenário feminino naquela época não tinha estrutura, não tinha investimento, não tinha garantias. As portas estavam trancadas, não por falta de talento, mas por falta de espaço. Na época, como ela mesma recorda, “não existiam iniciativas focadas no cenário inclusivo”. Para ela, o que parecia um fim de linha foi um redirecionamento. A comunicação a escolheu quando o cenário competitivo a impediu de avançar. Foi então que Anyazita fez o que grandes heroínas fazem quando o caminho some: criou outro.

A narração chegou pela espontaneidade, mas ficou pela disciplina. Ela pesquisava técnicas de fonoaudiologia por conta própria para aguentar transmissões longas, analisava campeonatos internacionais e passava noites em claro decodificando o ritmo de cada modalidade. “O meu jeito desenrolado e destemido abriu a porta, mas foi o planejamento e a disciplina técnica que me mantiveram lá dentro”, ela explica. Não demorou muito para que a narradora que começou de forma amadora percebesse que tinha chegado a hora de cruzar fronteiras. Literalmente.

A construção desse novo caminho não teve nada de glamour. Foram ônibus e caronas saindo do interior de Minas Gerais para a grande São Paulo, equipamentos simples, calotes financeiros até em grandes eventos, e uma desconfiança silenciosa que ela precisava ignorar toda vez que pegava o microfone. Eram os primeiros anos de uma batalha que ela ainda não sabia que duraria tanto. Nos dias mais difíceis, a Anyazita do começo não conseguia enxergar o tamanho que ela teria um dia. Ela lutava pela sobrevivência da semana seguinte. O que a mantinha em pé era uma certeza interna, quase obstinada: a de que sua entrega técnica era de alto nível e sua paixão, intensa demais para ser ignorada para sempre.

A mesa de vidro ficava na sala de jantar da casa dos pais. Foi ali, sem estúdio, sem contrato, sem ninguém para abrir caminho, que Ana Marcella Loyola Muniz, a Anyazita, começou a narrar. A voz saía crua, alimentada por paixão e por uma persistência que ela ainda não sabia que precisaria carregar por anos. 

Ela narrava campeonatos amadores, eternizava grandes jogadas de players que provavelmente nunca saberiam o nome dela, e encontrava ali, naquele momento simples e caseiro, o seu propósito. Ela sabia que sua missão não era apenas jogar, mas ser uma ponte entre a emoção do jogo e o público. Naquele momento, a mesa de vidro era tudo. Hoje, ela sabe que era só o primeiro espaço que ocuparia.

Os games entraram na vida de Anyazita pela porta do afeto paternal, dividindo o controle de um PlayStation 1 com seu pai no sofá, depois passando horas a fio em estratégias de “Age of Mythology” no seu primeiro computador. Como quase todo jovem que cresce dentro dos games, o sonho inicial era estar no servidor, na tabela, em uma carreira de atleta. Mas o cenário feminino naquela época não tinha estrutura, não tinha investimento, não tinha garantias. As portas estavam trancadas, não por falta de talento, mas por falta de espaço. Na época, como ela mesma recorda, “não existiam iniciativas focadas no cenário inclusivo”. Para ela, o que parecia um fim de linha foi um redirecionamento. A comunicação a escolheu quando o cenário competitivo a impediu de avançar. Foi então que Anyazita fez o que grandes heroínas fazem quando o caminho some: criou outro.

Uma das principais vozes do VCT Game Changers. | Fonte: Media Kit.

A narração chegou pela espontaneidade, mas ficou pela disciplina. Ela pesquisava técnicas de fonoaudiologia por conta própria para aguentar transmissões longas, analisava campeonatos internacionais e passava noites em claro decodificando o ritmo de cada modalidade. “O meu jeito desenrolado e destemido abriu a porta, mas foi o planejamento e a disciplina técnica que me mantiveram lá dentro”, ela explica. Não demorou muito para que a narradora que começou de forma amadora percebesse que tinha chegado a hora de cruzar fronteiras. Literalmente.

A construção desse novo caminho não teve nada de glamour. Foram ônibus e caronas saindo do interior de Minas Gerais para a grande São Paulo, equipamentos simples, calotes financeiros até em grandes eventos, e uma desconfiança silenciosa que ela precisava ignorar toda vez que pegava o microfone. Eram os primeiros anos de uma batalha que ela ainda não sabia que duraria tanto. Nos dias mais difíceis, a Anyazita do começo não conseguia enxergar o tamanho que ela teria um dia. Ela lutava pela sobrevivência da semana seguinte. O que a mantinha em pé era uma certeza interna, quase obstinada: a de que sua entrega técnica era de alto nível e sua paixão, intensa demais para ser ignorada para sempre.

Então veio o golpe mais duro, não do mercado, mas do próprio corpo. Um quadro de Paralisia de Bell roubou as expressões de seu rosto justo no momento em que os contratos começaram a aparecer. Olhar no espelho e ver o principal instrumento de trabalho falhando trouxe, nas palavras dela, “um pavor a nível existencial”. Ela teve que reaprender a falar, a sorrir, a se impor visualmente diante das câmeras. O que a fez continuar foi o suporte incondicional do marido e da família, e uma certeza que nenhuma paralisia conseguiu atingir: “Mesmo que o meu rosto falhasse, a minha mente estratégica e a minha voz ainda eram potentes demais para serem silenciadas.” E ela superou.

Anyazita em transmissão do Valorant Game Changers. | Fonte: Terra.

Com o nome construído na marra e a voz afiada por anos de transmissões em 19 modalidades diferentes, Anyazita se tornou uma “camaleoa”, expressão dela mesma para descrever a habilidade de se adaptar a cada jogo, a cada comunidade, a cada ritmo de narrativa. Ela não estuda apenas as regras e o patch de um jogo. Ela estuda a cultura, os jargões, o que faz o coração daquele torcedor específico bater mais forte. “Cada jogo tem suas próprias piadas internas, seu ritmo de narrativa. Eu passo dias assistindo a transmissões de streamers do nicho para que, quando eu abra o meu microfone, ele sinta que eu não sou uma invasora”, ela conta.

Essa entrega se traduz também nas múltiplas frentes que ela ocupa simultaneamente: a bancada séria de blazer colorido nos torneios, as lives sem filtro na Twitch, o humor ácido no TikTok e no YouTube. “O público que me vê trazendo autoridade técnica nos torneios é o mesmo que quer ver o meu humor vibrante nas minhas redes e lives”, ela explica. Para ela, não há contradição nisso, há estratégia.

É essa entrega que, em 4 de fevereiro de 2024, a levou a se tornar a primeira mulher a narrar uma partida oficial do CBLOL (Campeonato Brasileiro de League of Legends) em 12 anos de história da competição. O convite veio no susto, num sábado à noite, para o dia seguinte. Era uma substituição de urgência, uma questão de proximidade geográfica. Mas Anyazita sabia, e diz isso sem vaidade: “A oportunidade pode ter batido na minha porta por uma questão de logística, mas eu passei a minha vida inteira me preparando para aquela exata ocasião.”

Dentro do estúdio, acolhimento. Do lado de fora, o tribunal da internet. Ela entregou a narração, foi indicada ao Prêmio eSports Brasil na categoria Melhor Caster, e carregou no peito a certeza de que havia provado algo, não para si mesma, mas para cada menina que assistiu àquela transmissão e percebeu que chegar ali era, sim, possível. “Aquele dia foi uma vitória enorme, não apenas para mim, mas para todas as mulheres que assistiram à transmissão e perceberam que almejar e chegar àquele lugar é uma realidade possível para nós”, ela afirma.

Mas Anyazita não deixou a conquista virar conforto. Com a lucidez de quem conhece o cenário por dentro, ela é direta: “Você pode provar o seu valor no topo, mas ele não é garantido.” Mesmo após a narração histórica, nenhum contrato fixo veio. Nenhuma sequência no Tier 1. A vitória foi real e simbólica, mas a estrutura ainda é falha. É exatamente aí que está o seu argumento mais poderoso: não no aplauso, mas no que ele ainda esconde. Nos bastidores, a misoginia se apresenta de forma mais sutil e corporativa. “Produtoras simplesmente deixam de te convidar para novos projetos se você assume uma postura firme e cobra profissionalismo ou os pagamentos devidos”, ela revela. “Há uma certa perversidade em tentar pintar a mulher que exige seus direitos como alguém difícil de trabalhar.” 

Indicada na categoria Melhor Caster no Prêmio eSports Brasil em 2025. | Fonte: PEB Premio eSports Brasil.

O cenário cresceu em nomes e visibilidade, mas o pink-washing corporativo ainda mascara o gatekeeping nos bastidores. Mulheres são convocadas para campanhas e esquecidas nos contratos. “Precisamos de calendários fixos, salários equiparados e profissionalismo na gestão de torneios femininos”, ela diz, sem rodeios. “Janelas de oportunidade curtas não constroem carreiras estáveis.”

A permanência de Anyazita por seis anos em um cenário que historicamente descarta as mulheres não é acidente. É resultado de uma teimosia que ela cultiva com consciência e com propósito. “Eu me cobro a perfeição porque entendo que a minha permanência há seis anos nesse cenário é uma exceção, e infelizmente não uma regra”, ela reconhece. Cada transmissão impecável é, também, um argumento contra o preconceito. Cada espaço ocupado com excelência enfraquece a barreira para a próxima mulher que tentar o mesmo. “Quando minha voz ecoa em uma transmissão oficial, a intenção é que ela pavimente o espaço para a próxima narradora que vier.”

Seis anos depois da mesa de vidro, Anyazita narra, cria, transmite, aparece, persiste. Traz seu blazer colorido e humor ácido nas lives, autoridade técnica na bancada e uma comunidade que a segue porque reconhece nela algo raro: uma profissional que não apagou a própria essência para ser aceita. “Quero que as meninas que estão começando hoje olhem para a Anyazita e vejam que é possível chegar ao topo sem precisar mudar a própria essência, sem aceitar desrespeito, sendo fiéis à sua própria voz”, ela diz. E se pudesse voltar à mesa de vidro da sala dos pais para falar com a versão de 2019 dela mesma? “Aquela mesa de vidro vai virar os palcos principais do país. Aguenta firme, porque o mundo inteiro vai te ouvir.” O mundo ouviu. E ainda bem que ouviu.

Conteúdo produzido por Ana Carolina de Oliveira Trindade na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a supervisão do professor e jornalista Vinícius Borges. 

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Colab é o Laboratório de Comunicação Digital da FCA / PUC Minas. Os textos publicados neste perfil são de autoria coletiva ou de convidados externos.

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