A ideia de que produtos criados a partir de materiais reaproveitados possuem menor valor ainda resiste no imaginário de consumo. O público costuma associar roupas de segunda mão ao descarte, enquanto materiais simples, como o papel, raramente entram no repertório de matérias-primas para itens sofisticados.
Assista à reportagem que acompanha as histórias de Gabriella Santos e Mariana D’Agostino na construção de negócios ligados ao reaproveitamento e à moda circular em Belo Horizonte.
Como a Moda Circular Funciona?
O objetivo é que o ciclo de vida das peças seja contínuo, dividindo-se em quatro pilares principais:
- Design Sustentável: Peças criadas para durar, utilizando tecidos de baixo impacto, modelagens atemporais e processos que facilitem a reciclagem ou a compostagem no futuro.
- Reuso e Segunda Mão: Incentivo à compra em brechós e ao hábito de repassar, doar ou vender roupas que não são mais usadas.
- Modelos de Compartilhamento: Crescimento do aluguel de roupas e acessórios, ideal para ocasiões em que a peça seria usada apenas uma vez.
- Upcycling e Reciclagem: Transformação de roupas antigas ou retalhos em novas peças de maior valor, ou a trituração de tecidos para criar novos fios.
Contudo, uma onda de empreendedorismo liderado por mulheres em Belo Horizonte está subvertendo essa lógica. Elas transformam o que seria descartado em negócios estruturados, gerando autonomia financeira e questionando os padrões tradicionais de consumo.
Empreender com reaproveitamento na moda exige mais do que criatividade e conhecimento técnico. Quem trabalha com papel, roupas de segunda mão ou outros materiais reaproveitados também precisa convencer o público de que esses produtos carregam pesquisa, tempo de produção e valor de mercado. O desafio não se resume a criar um produto, mas passa por atribuir novos significados a itens descartados ou fora de uso, além de criar um mercado fora dos padrões convencionais.
Da química ao design autoral
No mercado da joalheria, a busca por uma assinatura própria levou a designer Gabriella Santos a escolher um caminho incomum: o papel. Longe de ser apenas um detalhe estético, o material é a base de sua marca de joias autorais sustentáveis e eco-gemas. A busca por independência e criação motivou a transição de carreira. “Eu estava num trabalho que não estava legal, queria sair desse trabalho e eu sempre quis trabalhar com arte, com criação”, relembra a designer.
O maior obstáculo inicial foi vencer a percepção de fragilidade associada à matéria-prima. Para provar que o papel poderia dar origem a peças duráveis, Gabriella transformou seu ateliê em um espaço de experimentação científica.
“Eu entendi que tinha um desafio, que era conseguir fazer com que esse trabalho de papel fosse durável para uso como acessório. E aí, a partir disso, eu estudei química, eu desenvolvi uma impermeabilização, que é uma impermeabilização própria da marca”, explica.
No ateliê da marca de joias contemporâneas que leva seu nome, Gabriella faz todas as etapas da criação das peças, do reaproveitamento das sobras de papel aos testes de acabamento e impermeabilização. Esse controle do processo ajuda a construir uma identidade própria para a marca e mostra que a inovação também pode surgir do que antes seria descartado.
A curadoria no brechó
O desejo de mudança e a necessidade de ressignificar a própria trajetória também guiaram Mariana D’Agostino na criação do Cantinho Moda Circular, um brechó com loja física no bairro Funcionários e forte atuação no garimpo digital. Para Mariana, o negócio representou um ponto de virada pessoal muito profundo. “Depois de ter superado um linfoma e ter decidido ressignificar as coisas, eu montei um brechó que veio junto com essa ideia de mudança”, conta a empreendedora. “Veio junto com essa ideia do verdadeiro valor das coisas, do que a gente quer ter e do que a gente precisa desapegar.”
Embora o mercado de segunda mão venha crescendo no Brasil, Mariana enfrenta diariamente o estigma que ainda cerca as roupas usadas. A superação dessa barreira cultural é feita por meio de um criterioso processo de seleção. Ela aponta que o consumidor urbano, muitas vezes, desconhece o valor agregado por trás do comércio de usados:
“As pessoas ainda não conseguem entender a diferença da curadoria, da qualidade da peça que está no brechó, o cuidado que a gente tem na escolha dos tecidos, a durabilidade da peça”.
Desafios do mercado
As histórias de Gabriella e Mariana refletem um panorama estatístico mapeado pela 4ª edição da Pesquisa Mulheres Empreendedoras, realizada pelo Sebrae Minas. O levantamento mostra que 65% das entrevistadas no estado começaram a empreender por oportunidade, motivadas sobretudo pela busca por realização pessoal e profissional (35%), flexibilidade de tempo (22%) e independência financeira (21%). Os 35% restantes ingressaram no mercado por necessidade.
Além disso, a consolidação de negócios sustentáveis também passa por desafios de gestão logo na abertura da empresa. Com 51% das empreendedoras apontando falta de conhecimento em gestão, enquanto 29% citaram a conciliação entre trabalho e vida pessoal e 27% mencionaram dificuldade de acesso a crédito. Para mulheres que tentam fazer de uma criação autoral ou de uma curadoria de peças um negócio próprio, esses obstáculos aparecem junto de tarefas que ficam menos visíveis para o público.
A analista do Sebrae Minas, Michelle Chalub, explica que empreendimentos ligados à moda circular e ao reaproveitamento enfrentam desafios parecidos com os de outros pequenos negócios, principalmente quando são conduzidos por uma única pessoa. Na rotina, marketing e gestão financeira estão entre as áreas mais desafiadoras, porque envolvem divulgação, organização de custos, venda e planejamento.
Como resposta a esses gargalos, as redes de apoio e capacitação têm se mostrado essenciais para estruturar o mercado local. Um exemplo prático é o projeto Moda Brechó Sebrae, que, segundo Michelle, é composto por 90% de mulheres empreendendo, que repensam processos de consumo e fazem da circularidade um modelo de negócio viável e fonte de renda.
O design social e o exemplo da APAC
Quando a economia circular deixa os limites do comércio e encontra o design social, o impacto passa pela participação de mulheres em processos de criação e produção. Um exemplo aparece na Escola de Design da UEMG, por meio do Centro Integrado de Design Social (CIDS), em um projeto desenvolvido em parceria com a Receita Federal e a APAC Feminina de Belo Horizonte.
Selma Magalhães, professora da instituição e coordenadora do projeto, explica que a iniciativa usa vestuários falsificados apreendidos pela fiscalização na produção de roupas de bebê, camisas e outras peças. Com isso, o projeto dá novo destino a materiais que iriam para incineração e envolve as recuperandas em processos de costura, criação e aprendizado.
Para além do aprendizado técnico da costura, o projeto atua diretamente na recuperação da autoestima e na construção de novas perspectivas de futuro. “O projeto prova que o design social abre espaço de escuta, de criação e de valorização. As recuperandas da APAC passam a ser vistas pela capacidade de criar, de aprender e de transformar”, defende Selma.
Mudar o consumo pela reinvenção
Seja desenvolvendo fórmulas químicas para impermeabilizar papel, garimpando acervos têxteis ou transformando apreensões da Receita Federal dentro de uma unidade prisional, essas mulheres lideram uma mudança.
Elas provam, na prática, que o valor real de um produto não está necessariamente associado ao fato de ele ser inédito ou recém-saído de uma fábrica, mas sim à inteligência contida na capacidade de reinventar e criar o novo a partir do que já existe.
Esta reportagem foi produzida por Ana Júlia Paiva, Luana Cadar, Maria Luiza Mendes e Marina Saddi, sob a supervisão de Viviane Maia Vilas Boas.
