Em setembro de 2025, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) anunciou um investimento de R$ 317 milhões, assegurados junto ao governo federal para investimentos em mobilidade urbana. O objetivo é a transição para uma frota de transporte público mais limpa e sustentável, a partir da compra de 100 ônibus elétricos e 27 carregadores.
A mobilidade urbana sustentável tem ganhado protagonismo nas agendas municipais brasileiras, sobretudo em grandes regiões metropolitanas que enfrentam gargalos históricos relacionados à poluição, ao trânsito e à baixa qualidade do transporte coletivo. Nesse contexto, a iniciativa da capital mineira representa um marco importante. A ação sinaliza uma mudança estratégica na busca por soluções menos poluentes e mais eficientes, alinhadas a compromissos globais de redução das emissões de gases de efeito estufa e à necessidade de melhoria da qualidade de vida nas cidades.
A Região Metropolitana de Belo Horizonte concentra mais de 5 milhões de habitantes, e tem como o transporte coletivo um dos principais meios de deslocamento diário. A frota atual é predominantemente movida a diesel, combustível que gera altos níveis de poluição atmosférica e sonora. Através da substituição gradual por veículos elétricos apresenta benefícios diretos, como a redução de emissões de monóxido de carbono (CO), material particulado e óxidos de nitrogênio, além de menores custos de manutenção e maior eficiência energética. Essa transição também impõe desafios significativos, que vão desde a adequação da infraestrutura de recarga até o equilíbrio econômico e financeiro para operadoras e para o poder público.
Os testes com ônibus elétricos em BH tiveram início em outubro de 2023. O primeiro veículo avaliado, um modelo da Build Your Dreams (BYD), circulou por seis das nove regionais da cidade, com destaque para a regional Centro-Sul. Na nova fase de testagem, em julho de 2024, um veículo da Marcopolo operou na linha 2101 (Grajaú/Sion), em quatro viagens, partindo do ponto final da Avenida Silva Lobo, nos horários das 6h20, 8h26, 14h30 e 16h51. Segundo a PBH, foi um importante passo, a fim de ampliar o conhecimento sobre a tecnologia dos ônibus elétricos e fornecer informações para auxiliar no processo de aquisição desses veículos com recursos de financiamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Perspectiva de quem vive a mobilidade
Na prática, há quem enfrente as dificuldades e dilemas impostos pela falta de investimento em mobilidade urbana na capital. Yasmin Soares, de 21 anos, é estagiária de dados e cursa Ciência da Computação no Centro Universitário UNA, em BH. Como alguém que usa diariamente o transporte coletivo, ela considera o ônibus o meio mais acessível para conseguir se deslocar. “Considero essa opção mais viável para mim. Recebo um vale-transporte que funciona como vale-mobilidade, permitindo o uso em diversos meios de transporte. No entanto, o transporte público, como ônibus, é mais econômico em comparação a alternativas como Uber, táxi e outros meios particulares. Por isso, priorizo essa escolha no meu dia a dia”, revela.

Evandro Mendes, de 49 anos, é taxista em Belo Horizonte. Ele considera que a melhora da mobilidade urbana na região metropolitana de BH e das demais cidades seria possível com o investimento em transporte público coletivo de qualidade. “Seja ônibus, trem, metrô, trolleybus, qual for o transporte público coletivo, quanto maior e melhor for o transporte coletivo, menos carros você vai ter na rua circulando. Então, você consegue melhorar o trânsito”, pondera. Evandro ainda acredita que obras para viabilizar o processo também são necessárias. “Você tem que fazer viadutos, trincheiras, túneis, as obras têm que acontecer, mas se você não investir no transporte público coletivo de qualidade, o trânsito não melhora”, acrescenta.
Há também quem considere a atual frota de veículos de Belo Horizonte precária. Daniel Braga, 23 anos, é auxiliar técnico na Selbetti. Ele afirma que as maiores adversidades que encontra ao se deslocar na cidade com transporte público dizem respeito à falta de conforto. “A realidade já é conhecida. Muitos ônibus sucateados e muitas pessoas para poucos ônibus. É bem verdade que o trânsito é muito ruim, mas isso não é um demérito do transporte público. Com os novos investimentos, é possível contornar a situação”, aponta.
Além desses problemas, a demora nos trajetos também lidera as reclamações dos usuários do transporte público. Pedro Wan, de 22 anos, é estagiário na Prefeitura de Betim. Ele acredita que os desafios da mobilidade acabam influenciando suas oportunidades de trabalho, estudo ou lazer em BH. “Sempre tenho que pensar no tempo e no local para o qual irei me locomover, tanto para estudo, trabalho, lazer. Tenho que me planejar muito antes, e isso pode se tornar um motivo para que as empresas olhem com maus olhos para mim, por exemplo, pela grande locomoção que tenho que fazer até chegar ao local de trabalho. A expansão da frota, ainda associada a um modelo mais sustentável, pode sanar esse problema”, analisa.
Ônibus elétricos: a ideia na prática
Em nota enviada ao Colab PUC Minas, a Superintendência de Mobilidade de Belo Horizonte (Sumob) informou que o processo de aquisição de 100 novos ônibus elétricos está em andamento. Entre as principais vantagens dos novos veículos, a Sumob elenca zero emissão de poluentes locais, baixo ruído e ausência de vibração, autonomia entre 230 e 250 km por carga e eficiência energética, com economia de até 80% em relação aos ônibus a diesel, além de acessibilidade universal.
Ainda segundo a Sumob, as especificações do modelo serão detalhadas na licitação, atualmente em preparação. As linhas que receberão os primeiros ônibus e o cronograma de operação serão definidos após a conclusão desse processo. Em 2023 e 2024, testes realizados com modelos elétricos de diferentes fabricantes apontaram menor custo operacional, mais conforto para os usuários, redução de ruído e diminuição significativa das emissões de CO₂.
Por meio de publicação em seu portal de notícias, a PBH diz que o termo de compromisso envolvendo o Ministério das Cidades e BNDES para a aquisição dos ônibus elétricos prevê recursos provenientes do projeto Renovação de Frota do Programa de Aceleração do Crescimento – Seleções (PAC Seleções), na categoria Mobilidade Urbana Sustentável. A inclusão de ônibus movidos a combustíveis não fósseis busca contribuir com a qualidade do meio ambiente urbano, aumentar a eficiência ao sistema de transporte e proporcionar mais conforto aos usuários.
Os ônibus serão adquiridos e cedidos em regime de comodato às concessionárias responsáveis pela operação das linhas. Ao final do contrato, em novembro de 2028, os veículos retornarão à administração pública. A compra será feita em lotes de 20 unidades, com entregas fracionadas em cinco etapas, de forma a compatibilizar a instalação dos carregadores e a capacidade produtiva das montadoras. Dos 27 carregadores previstos, 25 serão instalados em garagens de concessionárias e dois em área pública para recarga de oportunidade, ampliando a flexibilidade da operação.
Os incentivos governamentais, por sua vez, desempenham papel decisivo para viabilizar esse processo. A experiência nacional e internacional mostra que o sucesso dessas iniciativas depende de políticas públicas consistentes, estabilidade regulatória e articulação entre diferentes esferas de governo. No caso da capital, a cooperação entre outros municípios da região metropolitana pode ampliar o impacto positivo da eletrificação, reduzindo custos por meio de compras conjuntas e compartilhando infraestrutura de recarga.
Do ponto de vista dos usuários do transporte público, a melhoria da qualidade dos ônibus, de sua eficiência e sustentabilidade contribui diretamente para a inclusão social, quando atrelada às políticas de energia limpa, segundo o Instituto de Defesa dos Consumidores (Idec). A eletrificação da frota não deve ser vista apenas como uma mudança tecnológica, mas como parte de uma política mais ampla de mobilidade sustentável, que inclua integração modal, ampliação da acessibilidade, incentivo ao uso do transporte coletivo e compromisso com metas ambientais.
Impasses energéticos e ambientais
Estudos sobre a eletrificação de frotas de ônibus em outras cidades mostraram que o aumento da demanda pode sobrecarregar a rede elétrica, especialmente se a recarga dos veículos ocorrer de forma concentrada, em horários de pico. Para evitar instabilidades, seria necessário adaptar subestações, instalar novos transformadores, reforçar a rede de média tensão nas garagens e nos terminais, além de implementar sistemas inteligentes de recarga que aumentem o fornecimento de energia ao longo do dia. Caso contrário, o sistema elétrico poderá enfrentar pressões adicionais, aumentando o risco de interrupções ou elevando o custo da energia, devido à tarifação mais alta em horários de maior consumo.
Além da infraestrutura, outro ponto crucial é a origem da energia. O impacto ambiental positivo dos ônibus elétricos está diretamente relacionado à matriz energética utilizada, segundo estudo realizado pelo portal Ensaio Energético. Se a eletricidade vier de fontes renováveis, como hidrelétricas, solares ou eólicas, os ganhos em termos de redução de emissões são maximizados. No entanto, se a energia utilizada para recarregar a frota for proveniente de termelétricas movidas a combustíveis fósseis, parte dos benefícios climáticos será comprometida, o que é equivalente a não haver ônibus elétricos.
Um levantamento da plataforma Sustainable Bus aponta que ônibus elétricos convencionais de 12 metros consomem entre 1,15 e 1,3 kWh por quilômetro rodado, enquanto veículos maiores, como os articulados, podem atingir até 1,6 kWh por quilômetro.
Em Bangalore, na Índia, a empresa estatal BMTC informou que seus ônibus percorrem, em média, 203 quilômetros por dia. Para uma conversão à frota elétrica, segundo estudo feito pela C40 Cities Finance Facility (CFF), esses valores resultariam em um consumo de aproximadamente 240 kWh por ônibus, diariamente. Para uma frota de 100 veículos, o consumo total por dia poderia ultrapassar os 24 megawatts-hora (MWh). Em um ano de operação, considerando 300 dias de atividade, o volume necessário de energia elétrica atingiria a marca de 7,2 gigawatts-hora (GWh).

Também será importante adotar tarifas diferenciadas que incentivem a recarga fora dos horários de pico, reduzindo o custo da operação e minimizando o impacto na rede elétrica. Segundo estudo de pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba, 69% dos usuários do sistema no período de alta demanda estariam dispostos a mudar o horário da viagem para obter alguma economia. Investimentos em geração limpa, como paineis solares instalados em garagens e prédios públicos, ou a compra de energia certificada de fontes renováveis, podem reforçar o compromisso ambiental da capital mineira.
A produção de baterias que alimentam veículos elétricos envolve a extração e o processamento de minerais como lítio, cobalto e níquel – atividades que geram emissões consideráveis de gases de efeito estufa e provocam impactos socioambientais em regiões produtoras, especialmente em países da América Latina, África e Ásia. Embora o uso dos ônibus elétricos traga benefícios diretos às cidades, a sustentabilidade completa da tecnologia depende do desenvolvimento de cadeias produtivas mais limpas, transparentes e socialmente responsáveis.
Por outro lado, estudos ambientais realizados pela BYD, uma das maiores fabricantes de veículos elétricos, cada ônibus elétrico em circulação pode evitar a emissão de até 125 toneladas de CO₂ por ano, o que equivale ao plantio de aproximadamente 900 árvores no mesmo período – impacto comparável ao de um pequeno bosque urbano. Além da redução de CO₂, esses veículos contribuem para melhorar a qualidade do ar, diminuir problemas respiratórios em áreas urbanas densas, reduzir a poluição sonora e auxiliar no cumprimento de metas internacionais de combate ao aquecimento global.
Outro fato a ser analisado, e não menos importante, será a formação e a adaptação da mão de obra. Mecânicos, eletricistas, motoristas e gestores precisarão passar por treinamento especializado para operar e manter os novos veículos, como já ocorre em outros municípios brasileiros. Futuramente, a expansão da frota elétrica também exigiria um planejamento financeiro de longo prazo. É o que indica o relatório da Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica (PNME), em uma avaliação de cenários prospectivos para eletrificação de ônibus no Brasil.
Embora o custo operacional dos ônibus elétricos seja menor que o dos movidos a diesel, a aquisição inicial ainda é significativamente mais cara, o que demanda linhas de financiamento específicas, parcerias público-privadas e previsibilidade orçamentária. Sem mecanismos claros de financiamento e garantias contratuais, o processo de eletrificação pode avançar de forma lenta e desigual, dificultando a renovação da frota em ritmo compatível com as metas ambientais da cidade.
Reportagem desenvolvida por Gabriel Arlindo Costa Soares, Guilherme Martins Robson, João Vitor Rangel Matos e Lucas Silveira Marques para a disciplina Laboratório de Jornalismo Digital, da PUC Minas, sob supervisão da profa. Nara Scabin, no 2º semestre de 2025.




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