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Preservação e identidade: Arturos é símbolo da cultura afrodescendente em Minas Gerais

Estado revalida o reconhecimento da Comunidade Quilombola dos Arturos como Patrimônio Imaterial de Minas Gerais.

Arturos é uma das mais antigas comunidades quilombolas do país e carrega consigo a ancestralidade, consolidando-se como símbolo da cultura afrodescendente em Minas Gerais. A comunidade se estabeleceu no território mineiro há cerca de 140 anos, antes mesmo da cidade de Contagem se formar. Sua história se funda a partir da resistência e enfrentamento aos resquícios do sistema escravocrata e da colonialidade do estado. A revalidação do reconhecimento da Comunidade como Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais, em 2025, representa não apenas a reafirmação de sua importância cultural, mas também o fortalecimento das políticas de preservação da memória e valorização das tradições afro-brasileiras

A origem da Comunidade começa no século 19,  com a trajetória de Camilo Silvério da Silva, trazido da Angola para o Brasil como escravizado. Silvério foi trazido para um povoado situado na Mata do Macuco, antigo município de Santa Quitéria, atualmente Esmeraldas, em Minas Gerais. Camilo casou-se com Felismiba Rita Cândida, também escravizada. Juntos, tiveram seis filhos, entre eles Artur Camilo Silvério, nascido em 1885, já na vigência da “Lei do Ventre Livre”. Ele é considerado o filho que mais prosperou, dando nome à comunidade.

Formada por filhos, netos, agregados e descendentes de Artur Camilo e de sua esposa, Carmelinda Maria da Silva, a comunidade se consolidou em Contagem, onde a família adquiriu o terreno que até hoje abriga seus descendentes. Com o passar do tempo, os Arturos se organizaram em torno da devoção a Nossa Senhora do Rosário e da forte estrutura familiar. O grupo ficou conhecido pelo nome de seu patriarca e, hoje, representa uma importante memória afro-brasileira e das tradições quilombolas em Minas Gerais.

Foto: Acervo IEPHA-MG

Patrimônio

A Comunidade dos Arturos mantém viva as práticas tradicionais e fortalece a resistência cultural afro-brasileira. Sua importância para o estado de Minas Gerais evidencia a amplitude e o valor da preservação dos quilombos como espaços de memória, identidade e luta histórica. Em entrevista, Nicole Batista, do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG), aborda o tema: “A partir das lutas e estratégias de vivência dos patriarcas e matriarcas da comunidade, os Arturos preservaram não apenas a continuidade de sua família extensa, mas também modos de vida muito enraizados nas matrizes africanas formadoras de Minas Gerais. Assim, reconhecer e salvaguardar a Comunidade dos Arturos é um ponto fundamental para o fortalecimento da memória, da história, cultura e do patrimônio de Minas”.

Situado no bairro Jardim Vera Cruz, em Contagem, a Comunidade realiza a tradicional festa de Nossa Senhora do Rosário, que, em maio de 2014, foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais pelo IEPHA-MG. Esse reconhecimento marcou o primeiro registro de um bem imaterial relacionado a uma comunidade tradicional dentro da categoria de “lugares”. Segundo Nicole, “o reconhecimento da Comunidade Quilombola dos Arturos como Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais em 2014 produziu impactos significativos em diversas dimensões da vida comunitária, e a revalidação, feita neste ano de 2025, pode reforçar e ampliar ainda mais os ganhos obtidos ao longo desses primeiros 10 anos de registro. O reconhecimento ampliou o acesso da comunidade a políticas públicas específicas para bens imateriais, como editais e programas de fomento”.

O reconhecimento oficial ajuda na proteção dos direitos territoriais e culturais da Comunidade, Nicole Batista afirma que a validação dos bens culturais imateriais em Minas Gerais se dá em quatro categorias: saberes, celebrações, formas de expressão e lugares. A Comunidade dos Arturos foi registrada na categoria de lugares, o que reforça de maneira significativa o vínculo entre território e identidade. “O território ocupado pela comunidade é reconhecido como o locus da sua significância cultural – ou seja, os Arturos são Arturos, e o patrimônio é patrimônio, porque existe e é produzido ali, naquele chão, com base nas relações históricas e de memória que se deram especificamente naquele local. Portanto, qualquer violação de direitos territoriais da comunidade, também é uma violação dos direitos culturais e patrimoniais”, complementa.

Identidade

Entre as diversas festas, celebrações e cerimônias realizadas pela Comunidade dos Arturos, destaca-se a Festa da Abolição da Escravatura, que relembra o período de cativeiro e celebra a libertação dos escravizados. Tradicionalmente, o evento ocorre no segundo fim de semana de maio, em referência ao dia 13 de maio, data oficial da abolição no Brasil. Outro elemento importante das manifestações culturais da comunidade é o Batuque, uma dança de matriz africana que, durante o período escravocrata, era praticada pelos negros como forma de resistência simbólica e refúgio espiritual diante da dor, do sofrimento e da opressão.

Lucí Sallum/ Festa da Abolição da Comunidade Quilombola dos Arturos, na cidade de Contagem

Glaura Lucas, 66 anos, professora aposentada da Escola de Música da UFMG, etnomusicóloga e pesquisadora da Comunidade, trabalha com os Arturos há 30 anos. Hoje, atua dentro do comitê de salvaguarda com o objetivo de preservar as tradições das famílias e elaborar um plano de salvaguarda desses temas, junto da Comunidade. “Isso é muito importante para a manutenção e revigoração também das suas práticas, se elas se mantêm até hoje resistindo num mundo que inferioriza, que invisibiliza essas práticas, é às custas dos processos deles de preservação e salvaguarda, porque eles sempre tiveram essas formas de proteger, sobretudo a parte sagrada, dos olhares críticos e depreciativos das pessoas de fora desse ambiente. Então, o reconhecimento do Estado é importante porque se cria uma forma de haver a proteção por parte de quem deveria, de fato, protegê-los, que é o Estado”.

De acordo com o último Censo, já são 670 pessoas dentro dos Arturos. A pesquisadora Glaura Lucas explica que na medida em que a comunidade vai ampliando, e a tendência é de ampliar cada vez mais, ela vai ficando também mais heterogênea e diversificada.

Uma parceria com o poder público, no sentido de garantir essa proteção, o direito deles de existirem como eles querem existir, isso é muito importante. Agora, isso só se dará de uma forma harmoniosa para o futuro se os Arturos forem esses protagonistas”.

Herança

No âmbito cultural, o aumento da valorização das práticas tradicionais, como o Reinado, a Folia de Reis, o Batuque, o João do Mato, e as formas específicas de culinária e a agricultura ganharam visibilidade e respaldo institucional, o que contribui para sua difusão em diversos outros espaços, como universidades, comunidades escolares, conselhos e espaços participativos diversos, entre outros. O fortalecimento dessas expressões culturais reforça a identidade da Comunidade dos Arturos e promove o diálogo entre saberes populares e acadêmicos, ampliando o alcance e a preservação de um legado ancestral.

De acordo com Nicole Batista, gerente de Patrimônio Cultural Imaterial, do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, o reconhecimento oficial reforça o protagonismo da comunidade como referência cultural no estado e impressiona a forma como a comunidade é amplamente referenciada tanto por outros grupos tradicionais ao redor do território mineiro, quanto por outros agentes culturais. “No âmbito da educação, consideramos um grande destaque dos últimos dez anos o reconhecimento de José Bonifácio, o Mestre Bengala, capitão de Reinado dos Arturos, como Doutor em Música por Notório Saber pela Universidade Federal de Minas Gerais”, finaliza. A realização das celebrações atrai visitantes, pesquisadores e agentes públicos, promovendo o turismo cultural e gerando oportunidades de renda, sobretudo para mulheres e grupos que atuam nas áreas da música, da alimentação e dos artesãos. 

Foto: Lucí Sallum / corpografia.imaginaria

Para a pesquisadora Glaura Lucas, o futuro da comunidade é promissor justamente porque suas práticas continuam sendo cultivadas com sentido e dedicação. “A comunidade realiza muitas das suas práticas com muito empenho. Se aquilo se mantém com o sentido, com os propósitos, com os valores mais profundos, a gente vê um futuro longo pela frente, principalmente com essa ampliação da comunidade e comprometimento com as tradições. Então, eu vejo um futuro de muitas e muitas décadas aí pela frente, com eles mantendo o sentido daquilo que eles fazem”, conclui.

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Isabella Silva

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