O Atlético foi derrotado pelo Cruzeiro por 1 a 0 no Mineirão e viu chegar ao fim a hegemonia de seis anos em Minas Gerais. Os quase 46 mil atleticanos e cruzeirenses presentes no jogo do dia 8 de março, que marcou o retorno da torcida mista no Mineirão após quatro anos, viram uma partida de poucas oportunidades e quase nenhuma criatividade para ambos os lados. Kaio Jorge marcou de cabeça aos 15 minutos do 2° tempo e fez a festa da torcida cruzeirense, que estava em maioria nas arquibancadas. Porém, o fim do jogo será lembrado por uma das brigas mais violentas da história do futebol brasileiro, que terminou com 23 jogadores expulsos e virou notícia no mundo inteiro.
O caminho de Atlético e Cruzeiro até a final foi conturbado. Jogando os primeiros jogos com time misto, o Galo empatou as quatro primeiras rodadas. Enquanto isso, viu a URT abrir vantagem na liderança do grupo, ameaçando sua classificação para o mata-mata. A vitória de virada contra o maior rival na Arena MRV deu um gás para o alvinegro, que venceu três dos últimos quatro jogos e conquistou a classificação como líder do grupo A. Nas semis, empatou com o América nos dois jogos e se classificou nos pênaltis em grande noite do goleiro Everson, que defendeu duas cobranças.

O Cruzeiro também passou por uma instabilidade no começo da fase de grupos. Foram duas vitórias e duas derrotas nas primeiras rodadas. A derrota para o Atlético no quinto jogo ameaçou até mesmo a permanência do técnico Tite, que foi demitido alguns meses depois. Mesmo não apresentando um bom futebol, a Raposa venceu os últimos três jogos e se classificou como líder geral. Nas semis, passou pelo Pouso Alegre fazendo 3 a 1 e chegou a sua terceira final em sete anos.
Dominante no estado, instável no geral
Para o Atlético, a final era a chance de ficar em paz com a sua torcida. A hegemonia no estado fica clara nos números. Nos últimos 20 anos, o clube disputou todas as finais estaduais e venceu 12 delas. Maior campeão mineiro, com 50 títulos, o Galo estava em busca do 7° título consecutivo. Apesar do domínio em Minas Gerais nos últimos anos, o alvinegro passa por instabilidades. Desde 2021, quando conquistou o Brasileiro, a Copa do Brasil e o Campeonato Mineiro, o clube vem passando por uma queda na qualidade do elenco, uma crise de identificação com a própria torcida e brigas constantes contra o rebaixamento, ao mesmo tempo em que briga por títulos e disputa finais.

Desmanche do elenco e problemas financeiros
Em 2022 e 2023, sob direção de Rodrigo Caetano, o elenco ainda contava com muitos jogadores remanescentes do ano do Triplete, mas já houve uma queda na qualidade do elenco. Entre saídas e chegadas, a que mais chamou atenção foi a troca de Diego Costa, atacante de seleção espanhola com passagem histórica por grandes clubes da Europa e peça importante na reta final do Brasileirão de 2021, por Fábio Gomes, jogador pouco conhecido que pertencia ao Oeste e estava emprestado ao NY Red Bulls. O atacante não fez sucesso e foi o primeiro jogador a chegar com esse “novo perfil de contratações” proposto pela diretoria do Galo, que buscava reduzir os salários e pagar as dívidas.
Em 2023, o Atlético se despediu de jogadores-chave do time campeão como Nacho Fernández e Keno. Chegaram sete jogadores, dos quais cinco não geraram nenhum retorno técnico. As duas exceções foram o volante Rodrigo Battaglia e o camisa 10 Paulinho, vindo do Bayer Leverkusen. Ambos foram peças fundamentais para o sucesso esportivo do clube nos dois anos seguintes. Eliminado nas oitavas de final da Copa do Brasil pelo Corinthians e da Libertadores pelo Palmeiras, o Galo de Paulinho, Hulk e companhia fez uma grande reta final de Brasileiro e terminou a competição em terceiro.

2024: Derrotas traumáticas e briga contra o Z4
Em 2024, já com elenco curto e desequilibrado, o Atlético chegou nas finais da Libertadores e da Copa do Brasil. Enquanto ia longe nas competições de mata-mata, o clube sofreu com o elenco reduzido e chegou a jogar partidas de Brasileiro com apenas sete jogadores de linha no banco, sendo apenas dois deles utilizados com frequência. Nesse momento, a torcida do Atlético já tinha uma divisão clara entre apoiadores da SAF e da diretoria contra os críticos da gestão. A crise vem quando o Alvinegro passa pelo trauma de perder as finais da Copa do Brasil e da Libertadores em menos de um mês e escapar do rebaixamento por detalhes na última rodada do Brasileirão.
As críticas dos torcedores e jornalistas caíram principalmente para os responsáveis pela montagem do time. As poucas opções no banco do Atlético para a decisão, a clara superioridade do time titular dos adversários Flamengo e Botafogo nas finais, somadas ao cansaço e a preocupação com um possível rebaixamento a ser decidido na última rodada, tudo isso em decorrência de um planejamento mal feito e de uma montagem de elenco desequilibrada, foram alguns dos graves problemas percebidos por todos que acompanharam o ano do clube.

Principal acionista da SAF do Galo, Rubens Menin falou em entrevista à Rádio 98 FM sobre o ano: “Ninguém chega nas duas finais sem projeto bom, isso dá certa tranquilidade. Vamos tentar aprimorar e aprender com os erros para 2025, mantendo os acertos e corrigindo o que não deu certo”. Além disso, falou sobre o processo de contratações e investimentos do clube: “Acreditamos muito no CIGA (Centro de Inteligência do Galo), um departamento de altíssimo nível. Tê-lo nos dá uma grande tranquilidade em acertar nas contratações. Eles sabem como está o mercado. Sabemos exatamente o que queremos. Pode não dar certo um nome ou outro, mas temos uma série de opções”. O CIGA, citado por Rubens Menin, é o departamento responsável pela análise de mercado e contratações do Atlético.
Alto investimento, baixo retorno
Para 2025, o Atlético apostou em uma reformulação do elenco para tentar voltar à Libertadores. A venda de Paulinho ao Palmeiras por valor recorde na história do clube abriu espaço para a chegada de Rony, Gabriel Menino, Patrick e Caio Paulista, todos vindos do clube alviverde. Além deles, chegaram Biel, Natanael, Cuello, Robert Santos, Ivan Román e, por fim, Junior Santos, a maior contratação da história do Atlético, contratado junto ao Botafogo por 48 milhões de reais. Dos dez reforços, pode-se dizer que o único que deu resultados foi Cuello, destaque do time até se lesionar.
Ainda na janela de 2025, Battaglia e Zaracho foram vendidos por valores que, somados, não chegam aos 4 milhões de euros. Mariano, Alan Kardec e Eduardo Vargas não renovaram seus contratos. Como era de se esperar pela baixa qualidade das contratações, o Atlético teve um ano difícil. O clube terminou o Brasileirão a cinco pontos da zona de rebaixamento. Sob o comando de Jorge Sampaoli, ainda chegou à final da Copa Sulamericana. O Galo teve em suas mãos a oportunidade de voltar à Libertadores, mas foi derrotado pelo Lanús nos pênaltis.

2026: “Reformulação” e cobranças
Pregando reformulação total, o Atlético se desfez de 14 jogadores em 2026. Entre eles, três do pacotão de reforços do Palmeiras trazidos no ano anterior. Além deles, a contratação mais cara da história do clube se despediu com apenas 17 jogos disputados. O atacante Biel, que perdeu duas chances claras e um pênalti na final da Sulamericana, também foi embora. Entre os sete jogadores que chegaram, Renan Lodi e Victor Hugo vêm se destacando. Ambos vieram a pedido de Jorge Sampaoli, que foi demitido do clube no começo de fevereiro e deu lugar ao argentino Eduardo Dominguez, ex-Estudiantes. Apesar de pregar reformulação, o Atlético ainda utiliza com frequência 9 dos 11 jogadores que iniciaram a final da Sulamericana.
A demissão de Jorge Sampaoli em 12 de fevereiro, somada às quase duas semanas de demora para trazer o novo treinador e ao fato de o técnico escolhido não ter participado do processo de montagem do elenco, ilustra a desorganização que permeia a SAF do Atlético. Com acionistas envolvidos no principal escândalo financeiro do Brasil, o do Banco Master, falta de transparência dos donos, incerteza sobre a dívida, demora no aporte que havia sido prometido e conflito de interesses envolvendo a família, a imprensa e as empresas do dono do clube, o Atlético passa por um período de nebulosidade e incerteza.
O começo de Brasileirão do Galo é preocupante. Com apenas cinco pontos conquistados nos primeiros seis jogos, o clube começa a competição da mesma forma que a encerrou no ano anterior. Nos últimos 10 jogos disputados na liga nacional, o alvinegro venceu apenas três. O Atlético repetiu em 2025 e 2026 o pior começo de Brasileirão dos últimos 30 anos.
Afastamento e desconfiança
A derrota na final do Campeonato Mineiro terminou de vez de afastar a torcida do Atlético. A desconexão clube-torcida ficou clara nos números. O jogo entre Galo e Internacional, válido pela 5ª rodada do Brasileirão, registrou o menor público da história da Arena MRV: 10.132 torcedores. Após anos de acúmulo de descrença no discurso dos donos, irritação com a queda na qualidade do elenco e fim da paciência na cobrança por reforços e esclarecimentos, a torcida que era conhecida por nunca abandonar o clube, hoje se encontra afastada. O afastamento dos torcedores é um recado claro para aqueles que mandam no clube. Se não houver investimento, melhora e transparência, o Atlético vai perder de vez o seu maior patrimônio.

Em entrevista ao Colab, o jornalista Guilherme Frossard falou sobre esse distanciamento entre a torcida e o clube. Para Frossard, isso passa muito pela forma como a SAF vem conduzindo o Galo. O posicionamento frio, distante e pouco emocional dos mandatários perante à torcida seria, para o jornalista, a grande causa do afastamento e desânimo do atleticano. “O torcedor hoje olha para o Atlético como um produto, porque infelizmente aqueles que mandam no clube olham pra torcida como consumidores”.
Segundo Frossard, o torcedor precisa perceber que quem está no comando sofre como ele para se sentir representado. A sequência de resultados ruins colabora para o desânimo do torcedor, mas isso nunca foi motivo para o atleticano se afastar do clube. A falta de transparência e as promessas vazias de anos anteriores geram desconfiança que, somada à ausência dos donos em momentos ruins e ao posicionamento distante e frio, estão conseguindo, pela primeira vez em sua história, distanciar o atleticano de seu time, algo que nem o rebaixamento do clube em 2006 conseguiu.
A entrevista coletiva do CSO e diretor de futebol Paulo Bracks em 16 de março, foi a primeira vez que um representante da diretoria foi colocado contra a parede em conversa com jornalistas e intimado sobre a ausência dos mandatários. Jornalistas questionaram Bracks e observaram que sua função naquele momento era de blindar os donos da SAF.

Em sua pergunta na coletiva, o jornalista Afonso Alberto questionou Paulo Bracks: “Eu acho que quem deveria estar sentado aí no seu lugar é o dono da SAF. Nem o filho, o dono: Rubens Menin. Você tá aqui hoje infelizmente aparecendo só pra tomar porrada”. Além dele, Guilherme Frossard foi outro a bater na tecla da ausência dos acionistas: “Queria saber por que aqueles que devem responder isso (questão de aportes, dívidas e extracampo) não falam, se já houve uma manifestação interna de que eventualmente eles vão responder essas dúvidas e se esse afastamento deles do microfone não atrapalha o seu trabalho”. Bracks concordou com Frossard e se esquivou da resposta, alegando que as decisões estão acima dele, mas disse que não pode responder pelos acionistas e que eles não apareceram porque estavam em viagem à passeio para a Europa.
Será que a SAF de torcedores é realmente o melhor caminho?
Procurado pela nossa reportagem para tentar resumir o momento do futebol mineiro em uma frase, Guilherme Frossard preferiu deixar uma pergunta no ar: “Será que a SAF de torcedores é realmente o melhor caminho?” Sem colocar em cheque o sentimento da família Menin e de outros torcedores sobre o Galo, o jornalista afirmou que não acha que o clube esteja entre as prioridades dos acionistas. O discurso de que os donos são torcedores do clube teria, para Frossard, enganado parte da torcida que achou que isso faria com que eles fizessem o que fosse melhor para o clube independente de qualquer coisa, algo que não vem acontecendo.

A chegada das SAFs veio para profissionalizar o futebol no Brasil e trouxe grandes empresas. A Red Bull no Bragantino, a 777 no Vasco, o Grupo City no Bahia e a Eagle Football Holdings no Botafogo são alguns dos exemplos. O futebol mineiro, no entanto, experienciou o fenômeno das “SAFs de torcedores”, como trouxe Guilherme Frossard. Os “4Rs” no Atlético (Rubens Menin, Rafael Menin, Ricardo Guimarães e Renato Salvador), além de Daniel Vorcaro e outros mandatários da SAF do Galo, são todos empresários de sucesso e torcedores do clube. No Cruzeiro, tanto o ex-dono Ronaldo quanto o atual dono Pedrinho possuem ligação emocional e se declaram torcedores do clube.
Guilherme Frossard enxerga o fenômeno com desconfiança, tanto pelo Atlético quanto pelo Cruzeiro. Pelo lado do Cruzeiro, Frossard vê um certo risco na SAF comandada por Pedro Lourenço. Assim como os donos do Galo, o empresário cruzeirense também não tem capacitação técnica para gerir um clube de futebol. Mas, ao contrário do que acontece no Atlético, age muito com a paixão do torcedor. “Se a SAF do Atlético é menos emocional do que deveria, a do Cruzeiro é mais emocional do que deveria, e ambos são perigosos no longo prazo”.




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