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Ditadura Militar e Futebol: Como o posicionamento político afetou os jogadores? 

página de revista com foto de atletas da seleção brasileira e de Médici segurando a taça Jules Rimet com a manchete escrita “A taça sem protocolo”

No ano de 1970, a Seleção Brasileira liderada por astros do futebol era considerada a melhor equipe da Copa do Mundo, o planeta se encantava com a magia do Brasil. Com um verdadeiro show de Pelé, nossa nação se tornava tricampeã mundial vencendo a Itália por 4×1 na grande decisão. Mas o que era visto como um momento de glória nacional, na verdade, escondia uma realidade cruel para os brasileiros: a ditadura militar.

Desde a consolidação do regime, em 1964, a população vivia com um constante medo do amanhã. Não se podia opinar ou ir contra o regime da época, nem nas ruas nem nos campos de futebol. Com o aumento da popularidade do esporte, o surgimento de figuras ativas politicamente era inevitável. Esse clima de repressão foi intensificado a partir de 1968, com a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que suspendeu garantias constitucionais, institucionalizou a censura, permitiu prisões arbitrárias e perseguições políticas, atingindo diretamente artistas, jornalistas, intelectuais e também o meio esportivo, onde qualquer manifestação crítica ao regime poderia ser interpretada como subversão. O surgimento de figuras ativas politicamente era inevitável. 

No fim da década de 60, começaram os primeiros casos de atletas engajados na causa; nomes como o meia Tostão e o técnico João Saldanha ganharam repercussão na mídia, por se posicionarem contra o regime autoritário e a repressão.

João Saldanha, na época apelidado por Nelson Rodrigues como “João sem medo”, foi um jornalista e militante histórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que se posicionava abertamente contra o regime autoritário. Durante a Copa de 1970, enquanto técnico da seleção, não aceitou a interferência do general Emílio Garrastazu Médici na escalação do time. Um dos episódios mais famosos enquanto técnico da seleção brasileira foi a não convocação do atacante Dadá Maravilha, que na época jogava no Clube Atlético Mineiro. A pressão militar pela convocação de Dadá era intensa, mas Saldanha se manteve irredutível, causando, assim, sua demissão.

Manchete do jornal O Globo após demissão de João Saldanha / Foto: Acervo digital/ O Globo

Pão e circo: o uso do futebol como propaganda e entretenimento

A censura sempre se fez presente durante a ditadura. Não somente no esporte, mas no meio comunicacional, intelectual e cultural. Portanto, pensar em combater o regime e demonstrar resistência perante o governo dos militares não parecia ser a melhor das ideias. Nesse cenário, quando um personagem aparecia demonstrando alguma forma de protesto contra o governo, a retaliação era iminente. Atletas como Reinaldo, Tostão e Sócrates se tornaram marcantes durante e após o período, pelo fato de terem sido figuras que representavam a luta contra a ditadura. 

Quando se percebe a opressão imposta pela ditadura, é natural imaginar que a seleção brasileira também não passaria ilesa dos efeitos do regime. O chargista e historiador Euclides de Freitas relata como o futebol precisava seguir os valores propostos pela ditadura, trazendo para o esporte o modelo militar. 

“O futebol precisava estar alinhado aos valores da ditadura militar. Se você pega um pôster da Copa de 70, todos os jogadores têm cabelo curto, quase como soldados seguindo ordem”, conta Euclides, que também menciona a cobrança vinda por parte dos comandantes do Exército, especialmente do general Costa e Silva, de que era “obrigação da seleção brasileira” vencer a Copa de 70.

Uma interessante fala de Heleno Abreu de Oliveira, ex-jogador do Galo sobre João Leite, também ex-jogador do mesmo clube, menciona o controle absoluto de qualquer ideia contrária à ditadura, mesmo não sendo “ameaça direta” ao governo ditatorial. “O João Leite era evangélico, você tem a ideia da censura, é um exemplo interessante, a censura. Ele usava a camisa, escrito ‘Jesus salva’. E foi proibido de usar. Ele dava a bíblia para o outro goleiro, e foi proibido. Então, veja bem, a censura não era só de manifestação política, era um controle, era um controle absoluto, sobre pessoas que podem ser referências de transmitir alguma coisa que o sistema, o governo não concorde.”

O objetivo por trás das estratégias de controle dos militares era manter o povo “entretido”, sem que houvesse nenhuma manifestação contrária ao regime. E, para esse fim, era necessário silenciar aqueles atletas “barulhentos”, do ponto de vista da representatividade que possuíam. “O futebol na Copa de 70 foi usado para alegrar a população, para acalmar a população, então é mais ou menos o circo e o pão”, cita Heleno.

Apesar de ser tricampeã mundial, a Seleção Brasileira foi a maior jogada da ditadura para distrair a população. Foto: Reprodução/Instagram Pelé

Atuação de Tostão

Tostão, considerado um dos maiores jogadores do futebol brasileiro e peça fundamental para a conquista do terceiro título mundial, enfrentou problemas por declarações contra a ditadura militar, que na época, quase o tiraram da competição mais importante do esporte. 

Em uma entrevista dada ao semanário alternativo Pasquim, publicada no dia 10 de maio de 1970, o jogador cita questões envolvendo o regime militar, que foram consideradas polêmicas: “Infelizmente, ainda não podemos agora dizer o que queremos porque estamos privados de muita coisa. Eu acho que isso é um direito de todo homem, está escrito na Constituição, isso é lei. […] está na Declaração dos Direitos do Homem. Às vezes, a gente tem que ficar sujeito a coisas que vêm de cima, então a gente não pode dizer o que quer, o que pretende.”

Democracia Corinthiana

Entre 1981 e 1984, quando o Brasil ainda sofria com a restrição à liberdade de expressão nos últimos anos da ditadura militar, surgiu no futebol paulista um movimento de libertação. O Sport Club Corinthians Paulista tornou-se um símbolo inesperado de autogestão e resistência, dando origem ao movimento que ficaria conhecido como Democracia Corinthiana.

O nome era uma resposta irônica ao regime vigente e definiu com precisão a essência do movimento: dentro do clube vigorava uma democracia plena e radical. A gestão do time era conduzida de forma coletiva por um conselho que incluía os jogadores Sócrates e Wladimir, que tinham voz e voto sobre a concentração, os contratos e até mesmo sobre a escalação da equipe, subvertendo a pirâmide autoritária e a hierarquia tradicional do futebol.

A figura central desse movimento foi o próprio Sócrates, médico de formação e um intelectual engajado. Em um país em que a Assembleia Nacional estava fechada, o jogador transformou o vestiário em um fórum político, onde as decisões coletivas eram tomadas após debates e votações. O “Doutor” e companheiros Wladimir, Casagrande e Zenon, tinham consciência de que o futebol poderia ser um palco para protestos, levando para os gramados bandeiras que iam muito além do esporte. 

Álvaro do Cabo, advogado, historiador e professor do curso de Comunicação Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), explicou o papel de cada um dos jogadores no movimento. “O Sócrates é o lado mais intelectual, seria o lado mais contestador. O Casagrande, até de forma imagética e tal, seria a coisa mais da rebeldia, aquela coisa dos longos cabelos, do rock and roll e tal. O Zenon, até mesmo pela postura dele, né? Enfim, tanto em campo quanto fora, de ser uma pessoa mais discreta e tal, cerebral, seria como se fosse um grande articulador. […] E o Vladimir, eu acho que ele apresenta muito a questão do povo. Ele era, enfim, mais introspectivo, mas ele estava representando ali, de certa forma, dentro desse movimento, o elemento negro.  […] Sendo um líder, mas dentro dos bastidores.” 

O auge da politização aconteceu em 1983, durante a campanha pelas “Diretas Já”. Os jogadores corintianos aderiram publicamente ao movimento e Sócrates declarou que deixaria o país se a emenda constitucional que restabelecia as eleições diretas para presidente não fosse aprovada. Em um gesto icônico, a equipe entrou em campo com um banner onde se lia “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. A mensagem era clara e corajosa: a luta por um país livre também se daria dentro das quatro linhas.

Após a derrota da emenda no Congresso, em abril de 1984, Sócrates cumpriu a promessa e se transferiu para a Fiorentina, na Itália, tornando-se um “exilado político por opção” e consolidando o vínculo indissolúvel entre aquele time e a causa da liberdade.

A Democracia Corinthiana marcando presença dentro de campo / Foto: Reprodução Twitter

O legado da Democracia Corinthiana transcende o futebol. Ela mostrou o potencial de mobilização e conscientização política que um clube de massa poderia ter, utilizando sua popularidade não para alienar, mas para iluminar e questionar as estruturas autoritárias do país. Foi um raro momento em que o esporte, longe de servir como “ópio do povo” ou instrumento de propaganda do regime, assumiu um papel ativo e pedagógico na luta pela redemocratização. Mais do que um capítulo glorioso da história corintiana, o período permanece como um testemunho poderoso de como a sociedade civil, mesmo em setores aparentemente apartados da política, encontrou brechas para respirar, debater e, de fato, praticar a liberdade.

Avanços no esporte financiados pela ditadura

Na copa de 1966, a seleção brasileira não teve uma boa performance, sendo eliminado pela seleção de Portugal. A derrota foi vista como vexatória pela imprensa brasileira e pelo governo, e vencer a edição seguinte era considerada obrigação dentro do país. 

Buscando projetar uma imagem de eficiência e progresso, o regime destinou recursos à construção da infraestrutura esportiva. O chargista e historiador Euclides de Freitas cita como os militares viam a necessidade de ter avanço no futebol brasileiro como uma estratégia para ser utilizado como vitrine política. “O general Costa e Silva dá uma entrevista dizendo que ganhar a Copa de 1970 seria obrigação da seleção brasileira. O futebol era um bem nacional, um símbolo, e a ditadura queria colar sua imagem ao sucesso no esporte.”

A maior crítica direcionada a seleção de 66 foi o condicionamento físico dos atletas, apontado como abaixo do ideal para disputar um mundial. Com uma metodologia de treinamento inédita, o futebol brasileiro evoluiu na preparação física dos jogadores, adotando treinamentos militares. O historiador aponta essa contribuição para a evolução do esporte.

A ditadura, do ponto de vista futebolístico, ela contribuiu para o desenvolvimento do futebol, na medida em que ela investiu em metodologias e na  qualificação de profissionais da escola de educação física do Exército.

Além da seleção brasileira, a mudança também atingiu os clubes. O ex-atleta do Atlético Mineiro Heleno de Abreu conta sobre a presença do militarismo no futebol e nos treinos: “A educação física, o treinamento, ele era muito vindo do regime militar, do militarismo […]. Não tinha ainda profissionais na área, a não ser do regime militar. Todo o treinamento da época de 70 é proveniente da educação física militar, então pode ser que tenha ajudado, do ponto de vista do rigor, da disciplina. […] Em 78, o Coutinho, que foi treinador, ele era militar, o treinador físico era militar.

Reinaldo é indenizado pela Comissão de Anistia

Reinaldo fazendo seu gesto icônico após marcar um gol. Foto: Delfin Vieira/CPdoc JB

A força de um gesto imponente, importante e representativo. Um punho cerrado erguido aos céus como sinal de resistência marcou a comemoração de um dos principais jogadores do Brasil na época. Reinaldo, ídolo do Atlético Mineiro, não era apenas um atleta; ele também se tornou um símbolo para aqueles que desafiaram a ditadura.

A relação de Reinaldo com o governo ditatorial foi marcada por vigilância, repressão e tentativas de silenciamento, reflexo de um regime que não admitia dissidências, sobretudo entre figuras públicas de grande alcance popular. Ídolo carismático e politicamente consciente, o atacante nunca escondeu suas posições contrárias à ditadura, o que o colocou sob constante tensão com autoridades esportivas e setores ligados ao Estado, num contexto em que a seleção brasileira era tratada como recurso de propaganda oficial. 

Apesar de seu talento inquestionável, sua trajetória na seleção foi gradualmente esvaziada. Décadas depois, o próprio Estado reconheceu essa perseguição ao conceder a Reinaldo sua anistia. A decisão da Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), divulgada em 2 de dezembro de 2025, durante a 10ª Sessão de Turma do órgão, em Brasília, reconheceu que o ex-atleta sofreu perseguição política durante o regime por suas posições e manifestações, como celebrar gols com o punho cerrado.

Além da anistia, a comissão também reconheceu o direito de Reinaldo a uma reparação financeira. Ele receberá uma indenização de R$ 100 mil do Estado brasileiro, paga em uma única parcela. Esse valor representa uma forma de reparação estatal pelos danos morais e à sua carreira causados pela perseguição, monitoramento e campanhas difamatórias que ele enfrentou, incluindo a vigilância pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) e iniciativas que buscaram minar sua reputação e oportunidades esportivas.

Reinaldo durante Comissão de Anistia / Foto: Clarice Castro/MDH

Durante a Copa do Mundo de 1978, realizada na Argentina, Reinaldo marcou um importante gol contra a Suécia e fez sua clássica comemoração, alertando ao mundo, no maior torneio do futebol sobre a repressão da ditadura. Euclides, explica o que aconteceu após o lance:

Quando ele faz o primeiro gol da seleção brasileira contra a Suécia, na Copa de 78, ele comemora com o punho cerrado, e depois disso quase não joga mais pela seleção. Ele afirma que foi retaliado pelo técnico Cláudio Coutinho, capitão do Exército, que recebia ordens diretas do sistema para não escalá-lo.

Anos depois o jogador foi cortado da Copa de 1982, realizada na Espanha. O boletim oficial afirma que Reinaldo não estava fisicamente apto, mas Heleno Abreu, ex-jogador do Atlético, apresentou uma outra versão. “Em 82 ele não foi convocado para seleção, para disputar o Mundial, por perseguição política, se você for analisar o seu conjunto, por que o Reinaldo não foi convocado? Ele foi em 78 e em 82 não foi. Ele era o maior centroavante do Brasil naquele momento”, argumenta. A seleção, por sua vez, sentiu a ausência do jogador e terminou a copa com uma eliminação vexatória para a Itália.

A dualidade entre rebeldia e representatividade

Vivendo em um período opressivo, era fato que os atletas, mesmo sob constantes ameaças, se encontravam em uma posição privilegiada. A possibilidade de se posicionar contra o regime de maneira indireta e sutil permitia com que os nomes mais conhecidos, como Reinaldo e Tostão, pudessem opinar sem necessariamente serem afetados pelos horrores da ditadura. “Dificilmente alguém iria lá na casa do Tostão prender e levá-lo para os porões da ditadura. Por quê? Porque a própria midiatização do jogador o protegia. Ele não era qualquer pessoa; era alguém querido por muitos e o fato de estar na mídia o tempo todo servia como um escudo.”, afirma o historiador Euclides de Freitas.

Essa flexibilidade acabava criando certa dualidade por parte dos torcedores, dirigentes e outros jogadores, que, da mesma maneira em que enxergavam nessas personalidades formas de representatividade, também viam esses posicionamentos como casos de rebeldia, o que de certa forma desvaloriza essa luta. 

Muitas vezes, as ações dos atletas contra o regime acabavam sendo mal interpretadas pelos torcedores, que não tinham completa noção do peso das manifestações. Segundo Freitas, “O número de pessoas capazes de ler o Reinaldo como rebelde era muito pequeno. Havia alguma ressonância? Havia. Pessoas da época sempre dizem que ele era rebelde em campo. Mas essas pessoas eram artistas, acadêmicos, gente com outra percepção política. A massa do Galo realmente não sabia o que estava por trás daquele gesto.”

Heleno, ex-jogador do Atlético e companheiro de Reinaldo entre os anos de 1973 e 1985, complementa: “O torcedor estava muito preocupado com a vitória do clube, não estava muito preocupado com o posicionamento dos atletas. Mas aqueles que se manifestavam, os torcedores entendiam, entendiam sua manifestação e na maioria concordavam.” 

Reportagem desenvolvida por Enzo Samuel, Henrique Aguiar, Irvin Jardin, Luiza Barroso, Rafael Martins e Victor Viana para a disciplina Apuração, Redação e Entrevista no campus Coração Eucarístico sob supervisão da professora Fernanda Sanglard, no semestre 2025/2. Diagramação da monitora Danielly Camargos.

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