Dezenove anos atrás, uma das primeiras grandes batalhas de rima mineiras nasceu na Praça da Estação. O Duelo de MCs, batalha idealizada pelo coletivo Família de Rua, logo passou a ser realizado no Viaduto Santa Tereza e se transformou em uma das maiores competições de freestyle rap, ou rimas improvisadas no cenário nacional.
O Duelo se tornou uma das principais referências para a estruturação do formato das outras batalhas de rima, que acontecem em diversas regiões brasileiras. A manifestação cultural é realizada em espaços públicos e promovida gratuitamente, sendo considerada uma opção de lazer democrática e acessível.
Para a juventude mineira, as batalhas também funcionam como espaço de entendimento da própria identidade, tanto para pessoas negras e periféricas, que se encontram em maioria nessas batalhas, quanto para outros grupos que sofrem discriminação.
“Eu começo a rimar como uma necessidade mesmo de falar aquilo que eu não tinha espaço. Eu tinha uma oportunidade de ter nem que seja 45 segundos, uma modalidade ou quatro versos para eu poder falar o que eu quiser”, explica Luna Ventura, mulher trans e uma das idealizadoras da Batalha da Revolução (BDR), evento que acontece na Pontifícia Universidade Católica de Minas (PUC Minas) e promove saraus de poesia e batalhas de conhecimento.
As batalhas de rima expõem e questionam o lugar imposto pela sociedade às comunidades e minorias.

“O hip-hop é sobre conexão”, explica Amazonita, fundadora da coletiva* NuTrilhar, que trata da divulgação e organização de eventos culturais, incluindo batalhas de rima. Para Amazonita, a cultura do hip-hop não se constrói sozinha e necessita de parceria entre os organizadores e de acessibilidade para o público.
Entre os DJs, os organizadores de eventos, os MCs, os cerimonialistas, o público que frequenta os eventos e tantos outros nomes por trás dos bastidores, as batalhas de rima constroem uma comunidade que mantém a cultura do hip-hop viva no cenário nacional.
A popularização gradual das batalhas de rima, ao tentar democratizar a cultura de um povo que é constantemente negligenciado, fez com que esse tipo de evento se tornasse ambiente de conforto para aqueles que podem compartilhar experiências e interagir com pessoas que se identificam
NuTrilhar e a dificuldade de ocupação nas batalhas de rua
A NuTrilhar é uma coletiva feminina fundada em 2018 por Amazonita, com o objetivo de incentivar a cultura hip-hop em Minas Gerais. Segundo ela, a coletiva surgiu com a proposta de fortalecer a comunidade mineira do hip-hop. Atualmente, a NuTrilhar realiza o mapeamento de mais de 120 batalhas. Apesar da importância, a ocupação dos espaços públicos ainda enfrenta dificuldades.
Amazonita destaca que um dos principais problemas está relacionado à falta de estrutura e ao preconceito que as instituições possuem em relação ao hip-hop. Além disso, o machismo aparece como uma das barreiras enfrentadas pela coletiva, tanto por ser formada por mulheres quanto por atuar em um ambiente historicamente marcado pela predominância masculina.
Mesmo com a ascensão de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ nas rodas de rima nos últimos anos, o ambiente ainda enfrenta situações de desigualdade de gênero ou homofobia. Pontuando isso, Amazonita considera que apesar de o machismo ser enraizado, “ele é enraizado há tanto tempo, ‘cês não vão tirar ele daí não?’ Nós estamos nesse momento, sabe? Vamos girar essa chavinha na galera. Enraizado já passou,a gente precisava tirar essa raiz e construir um outro fruto aí”.
Outro desafio apontado, é a burocracia necessária para a realização das batalhas em espaços públicos. Amazonita explica que o sistema dificulta a obtenção de autorizações e estruturas básicas para os eventos. Para conseguir um banheiro público, por exemplo, é necessário passar por várias etapas, como consultas prévias, pagamento de taxas e preenchimento de diferentes documentos. Esse processo é demorado e pouco compatível com a realidade das batalhas, muitas delas realizadas semanalmente ou quinzenalmente.
A questão da relação com os órgãos públicos também aparece como um obstáculo. Em Belo Horizonte, a Guarda Municipal é frequentemente apontada como uma das principais dificuldades para a realização das batalhas de rua. Muitas vezes, as abordagens acontecem sem diálogo prévio, o que causa conflito entre os agentes públicos e os participantes dos eventos.
Mesmo diante das dificuldades, a NuTrilhar continua atuando para fortalecer a cultura hip-hop e garantir que as batalhas de rima ocupem os espaços da cidade. A coletiva busca construir redes de apoio e compartilhar conhecimentos sobre produção cultural, organização de eventos e acesso a recursos públicos.
Amazonita destaca que o aprendizado adquirido ao longo dos anos é constantemente repassado para outros coletivos, indicando que as batalhas vão além do entretenimento.

Hip-hop ganha espaço nas universidades
As batalhas de rima também vêm se consolidando como importante manifestação cultural no ambiente universitário. Embora tenham ganhado destaque no Brasil a partir dos anos 2000, é recente a ocupação mais frequente desses espaços nas instituições de ensino superior. Hoje, além de integrarem a cultura hip-hop, essas manifestações despertam interesse acadêmico e são objeto de estudos em áreas como linguagem, educação, comunicação e cultura. É nesse contexto que surge a Batalha da Revolução (BDR). Criada por estudantes da PUC Minas, tem o objetivo de aproximar a cultura hip-hop do cotidiano universitário e ampliar os espaços de expressão artística dentro da instituição.
Idealizada pelos próprios alunos, a BDR vem conquistando visibilidade dentro e fora do ambiente acadêmico. O projeto nasceu da iniciativa de um grupo de estudantes que compartilham não apenas o interesse pelo hip-hop, mas também a necessidade de fortalecer a produção cultural na universidade.
Foi durante uma conversa entre amigos que Pedro Anthony, de 20 anos, estudante de Letras e coordenador da batalha, e Luna Ventura, estudante de Psicologia e também coordenadora da BDR, perceberam o potencial da proposta, que até então permanecia apenas no papel. “Aí eu parei e pensei: é isso mesmo, vamos pra frente e deixar acontecer”, relata Pedro.

A iniciativa pretende ampliar as possibilidades de pesquisa e reflexão sobre manifestações culturais dentro da universidade. Helena Félix, 20 anos, estudante de Letras e integrante da equipe organizadora, destaca as oportunidades que o projeto proporciona. “Queremos focar em trazer a Batalha da Revolução para o meio acadêmico, efetivamente na escrita de projetos, na produção de artigos e publicações. Em breve, queremos tentar uma parceria com a editora da PUC. Levar isso para fora da faculdade e permanecer”, afirma.
Sem batalhas de sangue
Diferentemente das chamadas “batalhas de sangue”, em que os participantes costumam direcionar ataques verbais aos adversários, a Batalha da Revolução propõe um formato voltado ao diálogo e à reflexão. No início de cada disputa, é sorteado um tema de relevância social, sugerido pelos próprios participantes ou pelo público presente. A partir da escolha do tema, os MCs precisam construir suas rimas com base no assunto debatido, sem a intenção de ofender ou desmoralizar o oponente, mas de desenvolver argumentos e reflexões sobre a questão proposta.
“É uma tentativa de agrupar esses estudantes que estão num contexto educacional e fazê-los pensar sobre temas que a gente considera relevantes”, explica Victor Hugo Carvalho, de 21 anos, estudante de História e também organizador do projeto.
Além das batalhas, a BDR também reserva espaço para o sarau, momento em que os participantes podem apresentar poesias autorais e outras manifestações artísticas. Para os organizadores, essa proposta amplia as possibilidades de participação e fortalece o caráter cultural do evento.
Responsável pelas questões organizacionais da iniciativa, Victor revela ainda que existe o interesse de formalizar o projeto junto à instituição. Segundo ele, a equipe pretende apresentar à Diretoria do Instituto de Ciências Humanas (ICH) uma proposta de representação formal para oficializar a Batalha da Revolução dentro da universidade. Com planos de expansão e institucionalização, a BDR busca se consolidar como um espaço permanente de expressão artística, reflexão social e produção de conhecimento, reforçando a presença da cultura hip-hop no ambiente universitário.

Entre rimas e desafios
Dentre as dificuldades enfrentadas no ambiente acadêmico, os estudantes e coordenadores mencionam que, tanto nos espaços públicos quanto nos locais privados, um dos maiores desafios está na divulgação, convencimento e conhecimento acerca dos objetivos da cultura do hip hop. “Seja pela rotina, interesse ou por se sentir parte do movimento, é difícil conciliar a comunidade que a gente está e trazer para dentro da PUC ou da UFMG. As pessoas não veem o que fazemos como forma de conhecimento ou não sabem por que estamos lutando’’, explica Thales Augusto, 27 anos, psicólogo e coordenador da Drillin BH.
Entre as metas do grupo, além do reconhecimento pela comunidade e pelos próprios alunos, eles buscam por legitimação como projeto extensionista. Apesar de alguns desentendimentos com a instituição, o estudante do curso de Educação Física Davi Diniz, de 23 anos, relata que o BDR é um projeto que está na quarta edição e a tendência é crescer, além de ocupar um lugar que é dos alunos por direito. Eles reforçam a necessidade de reconhecimento dentro da PUC Minas, que, apesar do ensino privado, atua como pastoral no Bairro Coração Eucarístico, Região Noroeste de Belo Horizonte, com acesso liberado à comunidade.
A coordenadora Luna Ventura conta que a batalha nasce da dificuldade da permanência das pessoas na universidade, sobretudo bolsistas ou grupos que têm vivência marginalizada. “Com esse recorte, a gente não vê o nosso conhecimento, jeito de falar, vestir e andar como válidos neste espaço”, declara a estudante de Psicologia.
Luna Ventura também reflete sobre como as batalhas podem funcionar como uma atividade voltada à saúde e ao desenvolvimento do ser humano. “Eu sou MC, eu sou pesquisadora, eu sou artista e eu começo a rimar como uma necessidade de falar aquilo que eu não tinha espaço ou oportunidade. Quando eu faço a iniciação científica, faço um projeto pensando nisso e, enquanto MC, trago a pesquisa no olhar e no corpo de quem participa e envolve uma ciência da rua, do envolvimento. Isso, pra mim, vira, além de uma ferramenta de expressão, um lugar de construção da realidade, no sentido de escrever sobre aquilo que eu vivo e aí ter um domínio da epistemologia nesse lugar que nos foi recusado. Enquanto um corpo marginal, trans, como uma ‘pessoa da quebrada’ e bolsista na universidade, consigo entender enquanto MC e pesquisadora”, contextualiza.
* Optamos pelo uso de "a coletiva" respeitando a decisão do grupo de ser referenciado em pronomes femininos
Conteúdo produzido por Alice Giovana, Otávio Abreu, Rafaela Tomáz e Samara Estevam na disciplina Sociologia e Comunicação




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