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Interior do Sebo Poesis com estantes repletas de livros e revistas organizados em prateleiras.
O Sebo Poesis integra a nova geração de livrarias e sebos que mantêm a tradição literária do edifício/ Maria Clara Corrêa.

Maletta se reinventa entre tradição e novos negócios

Entre bares, brechós e lojas colaborativas, Maletta preserva história e abre espaço para novos empreendimentos e gerações de frequentadores.

Palco da música, gastronomia, teatro, cinema e literatura, o Edifício Arcângelo Maletta se mantém há décadas como um dos símbolos vivos da vida cultural, artística e boêmia do centro de Belo Horizonte. Localizado no cruzamento da Avenida Augusto de Lima com a Rua da Bahia, o Edifício Maletta, como é mais conhecido, foi fundado em 1961 com o objetivo de integrar moradia, comércio e serviços.

Mais do que um ponto de encontro, o Maletta funciona como uma “pequena cidade” dentro da região central de Belo Horizonte. Além do comércio instalado nos corredores e sobrelojas, o edifício abriga moradores, escritórios e prestadores de serviços, o que mantém o fluxo constante de pessoas durante todo o dia. 

Originalmente composto por três blocos de 17, 19 e 30 andares, o conjunto inclui o Edifício Dona Genoveva (Bloco 2), que atualmente possui administração própria e funciona de forma independente. Cerca de 5 mil moradores e frequentadores circulam diariamente pelo local. Segundo levantamento publicado pelo Diário do Comércio, em dezembro de 2024, o complexo reúne 319 apartamentos, 642 salas, 72 lojas e 74 sobrelojas. O funcionamento das áreas comerciais ocorre de segunda a sábado, das 7 às 24 horas e no domingo de 9 às 19 horas.  

Tradição que atravessa gerações


O Maletta é um prédio icônico, cheio de história. Sempre esteve presente na vida política e cultural da cidade. Eu vivo aprendendo histórias sobre esse lugar.”- Soraya Mendonça, proprietária da loja Maletta Criativa

Antes de se tornar um dos principais polos culturais de Belo Horizonte, o espaço onde hoje funciona o Edifício Maletta abrigava o Grande Hotel, inaugurado ainda nos primeiros anos da capital mineira. Em 1918, o empreendimento foi adquirido pelo imigrante italiano Arcângelo Maletta, passando por ampliações que transformaram o local em ponto de encontro de artistas, intelectuais e políticos.

Em 1961, o hotel deu lugar ao edifício que herdou seu nome e preservou essa vocação de reunir diferentes públicos. Um dos principais símbolos dessa tradição permanece no mesmo endereço desde o início da história do prédio: A Cantina do Lucas.

Aberta em 1962, no térreo do edifício, um ano após a inauguração do Maletta, a tradicional cantina italiana tornou-se uma referência da gastronomia belo-horizontina. Em 1997, foi tombada como Patrimônio Cultural de Belo Horizonte e em 2023 foi eleita como o melhor restaurante tradicional da capital mineira pela Revista Encontro. O local até hoje preserva receitas que atravessaram gerações, como o tradicional Filé à Parmegiana e o Filé Surprise.

Fachada da Cantina do Lucas no térreo do Edifício Maletta.
A Cantina do Lucas funciona no Edifício Maletta desde 1962/ Maria Clara Corrêa.

Síndico do edifício há 16 anos, o ator Amauri Reis explica que embora o cenário cultural da cidade tenha se diversificado ao longo dos anos, o Maletta continua sendo uma referência comercial, consolidando-se também como um importante polo de cultura e política em Belo Horizonte. Para ele, o prédio se reinventa ao acompanhar as transformações da cidade sem perder suas raízes.

 “Hoje o Maletta continua sendo um espaço de diversidade. Aqui pode ser tudo, desde que exista respeito pelas pessoas e pelo ambiente. O prédio ainda preserva sua vocação cultural e política, embora em menor intensidade do que antigamente”, conta.

O antigo encontra o novo

Hall central do Edifício Maletta com corredores, lojas e pessoas circulando
O hall central conecta lojas, bares e salas comerciais do Edifício Maletta/ Maria Clara Côrrea.

Embora carregue mais de seis décadas de história, o Maletta continua em constante transformação. Hoje existem diferentes versões do mesmo edifício. Durante o dia, lojas, restaurantes e salas comerciais concentram o movimento de trabalhadores, moradores e estudantes. À noite, os bares assumem o protagonismo e atraem um público interessado na vida cultural e boêmia do hipercentro.

Entre bares, restaurantes, cafeterias, sebos, lojas de discos, brechós, barbearias e salas comerciais, o prédio reúne diferentes serviços em um mesmo espaço. O resultado é um ambiente em que o vintage e o contemporâneo convivem de forma natural, preservando a memória do edifício enquanto incorporam novas formas de consumo e expressão cultural.

Essa mistura também aparece no perfil dos frequentadores. Durante a ditadura militar, o Maletta consolidou-se como ponto de encontro de artistas, intelectuais, estudantes e movimentos culturais. Décadas depois, a vocação permanece, mas o público tornou-se ainda mais diverso.

Para Laura Lima, vendedora da loja Sebo Poesis, esse movimento representa uma mudança de comportamento das novas gerações. Segundo ela, esses artigos voltaram a despertar interesse entre os jovens, aproximando hábitos tradicionais das novas formas de consumo.

O Maletta traz muito dessa retomada de hábitos antigos, principalmente entre os jovens. Hoje muita gente voltou a procurar livros físicos, CDs e discos. Existe uma fusão muito bonita entre o vintage e o novo.”

Os estudantes Hélio Daher e Carolina Mesquita fazem parte dessa nova geração de frequentadores. Nos intervalos entre as aulas, os dois costumam almoçar no edifício, visitar os sebos e encontrar amigos. Para Hélio, a principal característica do espaço é a variedade. “Você pode encontrar tanto o sebo quanto lojas de disco, lugar para comer, almoçar e ficar com os amigos à noite. Tudo isso com um preço que não é abusivo.”

Novos negócios mantêm o Maletta em movimento

Fachada da loja Maletta Criativa no corredor do Edifício Maletta.
A Maletta Criativa reúne brechós, moda autoral e acessórios produzidos por pequenos empreendedores/Maria Clara Corrêa

No pós-pandemia, a galera passou a empreender mais, a ter mais ousadia e perder o medo. O Maletta cresceu muito com essa desenvoltura e hoje se tornou um polo tanto de empregos quanto de sustentabilidade para várias famílias”. Paulo Augusto, gerente do Graficca Bar

Essa diversidade de públicos também impulsiona uma nova geração de empreendedores. Nos últimos anos, corredores antes ocupados majoritariamente por sebos passaram a receber brechós, lojas colaborativas, cafeterias, estúdios de tatuagem e outros pequenos negócios, ampliando o perfil comercial do edifício sem romper com sua identidade histórica.

Gerente do Graficca Bar há seis anos, Paulo Augusto acompanhou de perto esse processo. A antiga gráfica deu lugar a um bar durante o período pós-pandemia, mudança que, segundo ele, reflete uma transformação vivida por diversos empreendimentos instalados no prédio.

Além da mudança no perfil dos estabelecimentos, Paulo observa que o Maletta se consolidou como um espaço de convivência entre diferentes culturas. “O Maletta incorpora um centro de culturas. Hoje você encontra o público LGBTQIAPN+, estudantes, turistas que chegam por indicação dos hotéis, gente que vem atrás dos vinis, dos brechós… O que você procurar em relação à cultura, você encontra no Maletta. É realmente um ponto de encontro.”

A empresária Soraya Mendonça faz parte dessa nova fase do edifício. Há sete anos, ela criou a Maletta Criativa, loja colaborativa que reúne brechós, moda autoral, customização e acessórios produzidos por pequenos empreendedores, dentre eles o Cora Brechó. Segundo ela, a chegada de novos negócios transformou o perfil comercial do prédio sem apagar sua história.

“O interessante é que começaram a surgir novos empreendimentos. Antes havia muito mais sebos. O hall central era praticamente só de sebos e, aos poucos, foi dando espaço para outros tipos de lojas, atraindo públicos diferentes. Hoje sempre tem gente procurando lojas para alugar ou comprar. Isso mostra que o prédio continua vivo. O Maletta acolhe públicos e empreendimentos muito diferentes, e isso é muito interessante, conta Soraya.”

Soraya Mendonça posa no interior da loja Maletta Criativa, no Edifício Maletta.
Soraya Mendonça idealizou a Maletta Criativa e também é responsável pela criação do Circuito Maletta/ Bruna Sarnaglia.

A experiência inspirou Soraya a criar, em 2021, o Circuito Maletta, feira mensal que reúne entre 15 e 20 brechós, além de artesãos e produtores independentes no hall do segundo piso. O projeto nasceu para ampliar a visibilidade de pequenos empreendedores e também movimentar os demais estabelecimentos do edifício.

“A feira nasceu para divulgar a loja, mas também para dar espaço a brechós que trabalham apenas online ou participam apenas de feiras, oferecendo um espaço físico para eles. Essa iniciativa sobreviveu à pandemia e continua crescendo”, explica.

Araras com roupas e peças de vestuário expostas no interior da Maletta Criativa.
Roupas de brechó e peças autorais dividem espaço na Maletta Criativa/ Bruna Sarnaglia.

Mesmo diante dessa renovação, Amauri Reis acredita que o edifício apenas passou a dividir com outros espaços o protagonismo cultural que já exerceu na cidade. “Os artistas continuam vindo para o Maletta, mas hoje Belo Horizonte oferece muitos outros espaços culturais e gastronômicos. Antes, por exemplo, a Cantina do Lucas era praticamente uma referência absoluta. Hoje existem vários restaurantes renomados na cidade, então esse público se distribuiu mais.”

Os desafios de manter o Maletta vivo

Vista da cidade a partir da varanda do Edifício Maletta.
A varanda oferece vista para a região central de Belo Horizonte e integra um dos espaços mais conhecidos do edifício/Bruna Sarnaglia.

Muita gente entra pela Avenida Augusto de Lima e sai pela Rua da Bahia. É nesse percurso que descobrem lojas que nem imaginavam existir. Esse fluxo constante é o que mantém o edifício vivo e permite que novos empreendimentos encontrem seu espaço”. – Amauri Reis, síndico do Edifício Maletta

As transformações vividas pelo Maletta não se limitam aos empreendedores que ocupam seus corredores. Nos últimos anos, novas iniciativas têm buscado fortalecer o edifício como espaço de convivência, cultura e comércio, ampliando as possibilidades de ocupação de um dos principais símbolos do hipercentro de Belo Horizonte.

Uma delas é o Malê Colab, inaugurado em fevereiro deste ano. O hub colaborativo reúne marcas autorais, café cultural e uma programação permanente de saraus, shows acústicos, exposições, feiras criativas, rodas de conversa e oficinas. A proposta é incentivar pequenos empreendedores e ampliar a circulação de diferentes públicos dentro do edifício.

O fortalecimento desses espaços acompanha o desempenho do comércio na capital. Segundo levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), as vendas do comércio varejista cresceram 2,2% no início de 2025, movimento que também beneficia empreendimentos instalados na região central.

Peças de roupa expostas para venda no Cora Brechó.
Pequenos empreendimentos ajudam a movimentar a atividade comercial no Edifício Maletta/Bruna Sarnaglia.

Apesar da movimentação crescente, frequentadores apontam que parte da estrutura física ainda precisa acompanhar esse processo de renovação. O estudante Hélio Daher acredita que algumas melhorias poderiam tornar a experiência de quem frequenta o prédio ainda mais positiva.

“A questão dos banheiros, por exemplo, às vezes é meio precária. Dependendo de onde você está, não tem banheiro disponível. Também acho que algumas partes da estrutura já estão bem antigas e poderiam passar por uma revitalização,” opina.

Para a estudante Carolina Mesquita, preservar o edifício significa também cuidar de um patrimônio importante da história da cidade. “O Maletta é um edifício histórico, que está presente na história de Belo Horizonte, mas está meio largado.”

O síndico Amauri Reis reconhece que conservar um prédio com mais de 60 anos exige investimentos constantes e lembra que o edifício, apesar de não ser completamente tombado, está inserido em uma área de proteção patrimonial, o que torna qualquer intervenção mais complexa. Ainda assim, acredita que a capacidade de adaptação é justamente o que explica a permanência do Maletta como referência na cidade.

“O Maletta é muito maior do que os bares. São apartamentos, salas comerciais, lojas e milhares de pessoas circulando todos os dias. É esse fluxo constante que mantém o edifício vivo e permite que novos empreendimentos encontrem seu espaço”, enfatiza o síndico.

Confira a galeria de fotos do Edifício Maletta:

Confira a reportagem em vídeo sobre o Maletta:

Reportagem produzida por Bruna Sarnaglia, Cecília Guedes, Jamilly Flores, João Pedro Guido e Maria Clara Corrêa, sob supervisão da jornalista e professora Verônica Soares.

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