Na época em que o jornalismo vive o ápice da plataformização e da inteligência artificial, profissionais têm migrado do chamado “jornalismo tradicional” ou dos “meios de comunicação de massa”, como TV e rádio, para novas aventuras digitais. Guilherme Frossard é um exemplo dessa trajetória.
Após mais de oito anos na TV Globo, a principal emissora do Brasil e sonho de carreira de muita gente, o mineiro decidiu fazer uma escolha arriscada, mas que se mostrou certeira. Em 2023, amigos sugeriram que o jornalista criasse um canal no YouTube. Após um tempo amadurecendo a ideia, nasce o Canal do Frossard, um espaço que tem como foco cobrir o Clube Atlético Mineiro.
Muita gente me chama de maluco,
diz Frossard ao ser perguntado sobre a decisão de criar um canal no YouTube para trabalhar de forma independente.
Com planos de formar família, o jornalista entendia que não dava para largar uma carreira consolidada sem nenhum tipo de projeção. Em reuniões buscando patrocínio, investidores compraram o projeto quando o canal ainda era só uma aposta de um atleticano apaixonado. “Foi uma análise de mercado também. Vendo esse jornalismo setorizado cada vez maior, eu olhava para o Atlético e não via ninguém fazendo aquilo que eu achava que o torcedor queria consumir”, confessa Frossard.
Jornalismo de nicho
Para ele, o jornalismo de nicho é o futuro. Principalmente no futebol, ele entende que o sentimento de conexão do torcedor com o jornalista que torce para o mesmo clube pode transformar o consumo de esporte no Brasil nos próximos anos. “Eu sou capaz de apostar que daqui a dez anos na Globo você vai ter… alguém nichado. Vai ter um Frossard lá, um cara que é atleticano e veste a camisa e se comporta como tal.”
Ele chega até a apostar que vai começar a ter a opção de narração por clubes. Atualmente, uma das grandes reclamações de torcedores em transmissões nas grandes mídias é a falta de imparcialidade por parte dos narradores, segundo relatos nas redes sociais.
Benefícios da plataformização
Guilherme reconhece que trabalhar com a internet é um privilégio. “Eu sou um profissional que tô me descobrindo nesse ambiente, é novo para mim também”, reflete. Entre os pontos positivos, Frossard defende a aproximação com o público. Para ele, é uma relação de personificação da notícia que antes ele não possuía, mesmo com o alcance da Globo. “Eu falo para menos gente, mas eu falo para um público que tá ali por minha causa. Aquele cara ligou a TV e clicou no meu vídeo porque ele quer me ver falar do Galo.”
Frossard reconhece que as plataformas dão uma liberdade que o jornalista não tinha antes, como a oportunidade de ficar horas conversando sobre o time que ama. “É muito gostoso você poder gastar energia com aquilo que você acha que deve gastar energia”.
O jornalista revela que ainda estranha essa relação, tomando bronca em alguns momentos da esposa para dar mais atenção para o público que o assiste. “A gente aprende no jornalismo, e eu sempre defendi que o jornalista nunca pode ser a estrela. A gente é só o caminho para chegar a informação no torcedor.”
Por outro lado, Guilherme entende que, independentemente de qual seja sua posição, ele vai desagradar dois terços das pessoas, inclusive jogadores e empresários no comando de clubes.
O começo da jornada
Mas não pense que a decisão de migrar na carreira foi fácil. Deixar a Globo significou dar adeus a uma história que começou ainda como estagiário. No terceiro período de jornalismo, Frossard, que nunca havia cogitado essa profissão e entrou no curso pela facilidade com a comunicação, ficou sabendo que a Globo estava contratando estagiário para o esporte. Enviou o currículo, mesmo sem crer que iria passar. “Eu era um menino de terceiro período, sem experiência em nada ali. Mandei por desencargo de consciência, e por algum motivo me chamaram para fazer o processo.”
Naquela época, via a faculdade como uma extensão da escola, sem entender que era uma escolha para a vida. Quando foi contratado, sua ficha caiu. Ali ele entendeu que não poderia deixar a oportunidade passar.
O jornalista viveu seus dias como estagiário na expectativa de ser contratado. Quando trabalhava à noite, fazendo o tempo real dos jogos no antigo Globo Esporte, ficava a madrugada inteira na emissora até dar a hora de ir para a PUC Minas, onde estudava.
Pode ter na história do esporte da Globo Minas algum estagiário que trabalhou o mesmo tanto que eu, mas mais que eu, eu duvido que tenha
Experiência interrompida
Como estagiário, Frossard rodou dentro do setor esportivo da TV. Quando entrou, produziu o Globo Esporte, clássico programa esportivo no horário do almoço, e se encantou pela produção. Ao ser avisado que iria passar a fazer outra função se chateou “pô, sacanagem, tava gostando da TV, é o mais legal que tem”. O que aquele jovem não imaginava era que ser escalado para o site faria ele se ‘encontrar’ profissionalmente.
Mas, como nem tudo na vida são flores, o atleticano, acostumado pelo time com as reviravoltas do jogo, foi surpreendido. A emissora realizou uma demissão em massa de todos os estagiários na praça em Belo Horizonte. Sem muita explicação, assunto tratado apenas como “questões orçamentárias”. Frossard conta que nem seus chefes sabiam da decisão, mas que prometeram levá-lo de volta para a Globo na primeira oportunidade.
Desesperado, com as prestações de um carro recém adquirido para pagar, ele aceitou uma proposta que, naquela situação, era irrecusável. Bastou uma ligação para Guilherme Frossard começar a trabalhar na Francis Melo Assessoria e Gestão Esportiva, a convite do dono, Francis Melo, um dos principais assessores de imprensa de atletas e treinadores na época.
As funções se invertem. Se antes, na redação, ele recebia releases e conversava com assessores de imprensa, agora a função de propagar os releases era sua. Thiago Neves e Fred são alguns dos jogadores que Frossard assessorou.
A nova experiência durou pouco. Menos de 2 meses depois, o estagiário destaque da Globo é chamado de volta e passa a ocupar a única vaga aberta para o esporte em Minas. Antes, o setor contava com três estagiários.
De novo?
Parece que a paixão do jovem pelo jornalismo estava sendo testada. Quando se formou, sem vaga no setor esportivo da TV Globo, veio uma nova promessa: “Você vai ser contratado, a gente está te dando a nossa palavra, mas não sabemos quando”, disse os chefes para o recém jornalista.
Apesar de tudo, Frossard se considera sortudo porque não ficou muito tempo parado. Bruno Furtado, então chefe do portal de notícias esportivo do Estado de Minas, convidou-o para uma vaga de plantonista. Nos primeiros meses de 2017, trabalhou no SuperEsportes aos fins de semana.
Em abril, a Globo cumpre a promessa e o jornalista começa uma longa jornada como funcionário. Seu chefe o chamou no canto e confessou que decidiu contratá-lo no dia em que ele assumiu a “bronca” de ligar para Alexandre Kalil, na época CEO da primeira liga; “A hierarquia normal não era o estagiário ligar para o Kalil, conhecidíssimo por dar patada à torto e à direita em qualquer um. Eu peguei o telefone, ‘não, pode deixar que eu ligo’”.
“Ali eu vi que você tinha personalidade”, revelou o chefe.
Do digital para a TV
Ao que me parece, apesar do povo atleticano se considerar meio azarado, Frossard deu aquela baita sorte de ter superiores que acreditaram em seu trabalho – e digo isso sem tirar o mérito de quem trabalhou duro por isso. Quando estava confortável para ele em estar no portal, lugar em que ocupou por mais de 6 anos, surge uma proposta.
Ano de 2020, pandemia, a chefia no setor de esportes da Globo em Minas é trocada. Camila Valadares, que ocupa o cargo até hoje, questiona onde Guilherme queria chegar na empresa e não aceitou quando a resposta do jornalista foi “estou satisfeito no portal”. A recém-chegada acreditava que ele possuía um perfil de vídeo e sugeriu que ele fizesse um teste. Frossard recusou não uma, mas duas vezes. Na terceira, não escapou. Virou repórter do Globo Esporte.
Produziu conteúdos para o GE, participou de transmissões na beira do campo e entrou ao vivo nos jornais. Durante três anos, viveu o sonho de muitos jornalistas esportivos cobrindo o cotidiano dos clubes.
O extraordinário no dia a dia
Ele brinca que nunca viajou tanto na vida como em 2022, ano em que cobriu o Cruzeiro na série B: “eu tinha duas malas, uma que eu estava desarrumando e uma já pronta para a próxima viagem.” Foi assim, nessa rotina corrida, que conheceu grande parte do estado.
Na vida do jornalista atleticano, uma das coberturas marcantes foi, justamente, envolvendo o triunfo do maior rival nos últimos anos. No jogo de acesso do Cruzeiro ao topo do futebol brasileiro, o jornalista estava credenciado para fazer uma entrevista com Ronaldo “fenômeno”, dono do clube à época. Em caso de derrota, era provável que a entrevista caísse. “Foi a única vez na minha vida que eu torci para o Cruzeiro”, brinca o atleticano.
Sabendo da grandiosidade do ex-jogador, Frossard revela que foi dormir tenso na véspera. O Cruzeiro subiu para a elite do Brasileirão e a entrevista aconteceu, ficando marcada na carreira do jornalista.

Mas quando questionado sobre a cobertura mais especial que realizou, Frossard nem gastou tempo. Contraditoriamente, não foi uma vitória do Galo. Citou de cara uma goleada de 4 a 1 do Cerro Portenõ para cima do Atlético Mineiro na fase de grupos da Copa Libertadores de 2019, sua primeira vez cobrindo a competição continental. Para o jornalista, foi a realização de um sonho de criança:
“Quando eu começo a trabalhar no esporte me perguntam: ‘qual é o seu sonho? Cobrir Copa do Mundo, cobrir Olimpíadas?’ Não, eu quero tudo isso também, mas eu quero cobrir Libertadores.”
As dificuldades da profissão
Para Frossard, as entradas ao vivo nos jornais de rede são sempre relevantes na vida de um jornalista, seja pela importância de estar falando para o Brasil inteiro, seja pelo medo de virar meme. Na cobertura da final da Copa do Brasil em 2021, ele foi escalado para cobrir a festa dos atleticanos que estava acontecendo no Mineirinho, em Belo Horizonte. Com a vitória do Atlético de Minas – ou, como os torcedores gostam de apontar, o verdadeiro Atlético – Frossard subiu ao palco para fazer uma entrada ao vivo. Ele relembra que quando apareceu no telão, o pessoal começou a gritar.
Como jornalista, foi um momento de tensão. O barulho do ponto era abafado pelo da torcida. “Eu estava rezando para alguém falar mais alto comigo para eu entender… Graças a Deus, quem estava coordenando o vivo teve essa percepção e gritou no meu ouvido ‘seu’. Aí eu entendi que era para eu começar a falar”.
Terminou a entrada com um característico “volto com você” e saiu de frente da câmera para não ter risco de chamarem de novo.
Mas na vida de um jornalista também existem momentos em que o profissional é exigido técnica e emocionalmente, principalmente quando é deslocado da editoria em que costuma atuar. Entre as coberturas pesadas vivenciadas por Frossard, ele destaca a vez que foi chamado de última hora para cobrir o assassinato do ex-atleta Daniel Corrêa Freitas, em outubro de 2018. “Foi um negócio bem pesado, eu não sabia muito me comportar ali, quais perguntas fazer”, diz o jornalista sobre a cobertura do velório.
O outro caso ocorreu durante uma das maiores tragédias ambientais de Minas Gerais, o rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019.
“Foi disparado a coisa mais pesada que eu fiz [a cobertura de Brumadinho], não foi nem no jornalismo não, foi na minha vida. Voltei para casa destruído emocionalmente.”
Pela dimensão da cobertura, faltavam repórteres na rua, por isso Frossard conta que foi mandado para a porta do Instituto Médico Legal (IML) para acompanhar os familiares que tentavam reconhecer os corpos das vítimas.
Para o jornalista, essas experiências foram importantes para delimitar sua área de atuação. “Quando eu saio do esporte, eu vejo que eu quero estar no esporte”.

Câmeras escondidas na Globo?
Por mais que estivesse trabalhando em uma área que ama, Guilherme nem sempre concordava com tudo. Em uma dessas ocasiões, ao chegar para trabalhar, recebeu a pauta de “Cruzeiro Junino”, que abordava as vezes em que o clube havia levantado a taça da Copa do Brasil no período junino. “Eu lembro que eu lendo a pauta, eu comecei a olhar para o lado para ver quem que tava me filmando. Eu falei: ‘Isso aqui é uma pegadinha, não tem a menor condição’. Em conversa com a equipe, ele questionou a relevância jornalística da pauta. “Foi aquele dia que você vai para a rua para matar o seu leão do dia e vai embora para casa”.
Frossard levou essa indignação aos chefes. “Isso aqui não é o que eu gosto de fazer, eu não estudei para isso, meu negócio é notícia, é hard news, é beira do campo, é informação, é entrada ao vivo”, afirma.
Situações como essa foram um pontapé para o jornalista entrar em uma nova fase na carreira. Em TV aberta, a linguagem precisa ser simples, sem aprofundamento técnico, para que todo o público, mesmo aquele que não assiste futebol, consiga entender, e isso, de certa forma, incomodava o jornalista que queria mais. “Eu gostava de falar de futebol para um público que consome futebol”.
Canal do Frossard: como surgiu?
Foi então que, em 2023, amigos do jornalista começaram a plantar uma ideia na sua cabeça: “Frossard, você já parou para pensar sobre a possibilidade de fazer alguma coisa na internet?” Como o contrato com a Globo exige exclusividade, sugeriram que ele saísse da TV. Vivendo uma boa fase, o jornalista negou essa possibilidade, mas não esqueceu a ideia.
Guilherme Frossard considera que sua cabeça funciona melhor quando o resto do mundo está dormindo e, nas madrugadas da vida, o projeto foi tomando forma. “Comecei a escrever sem muito conhecimento de internet, porque minha carreira era inteira em TV”, reconhece.
A decisão de arriscar
Para alguém que não se considera uma pessoa de fazer planos para longo prazo, o jornalista planejou – e muito – o novo desafio. Definiu o estilo, alguns quadros, a logomarca do canal e foi atrás de montar um estúdio. Tudo isso enquanto ainda era repórter da Globo.
Hoje, ele reconhece que faltava coragem para dar o último passo. Em uma conversa com o jornalista dono do canal Samuca TV, focado na cobertura do Cruzeiro, Frossard foi aconselhado a dar a cara a tapa. “É aventura, é doideira, mas se você tiver um parceiro para começar, para colocar o carro para rodar, as coisas fluem, acho que você tem capacidade”, disse Samuel Venâncio.
A decisão de fazer acontecer veio após um jogo pela Copa do Brasil em que o Atlético enfrentou o Volta Redonda, em jogo único na cidade de São João del Rei. Já no hotel após o jogo, Frossard relembra que estava deitado no sofá pensando na vida quando veio a coragem. Ao retornar para Belo Horizonte, conversou com a família, chamou os chefes para uma conversa e pediu demissão.

O Canal do Frossard, hoje com mais de 71 mil inscritos, começou ocupando um cômodo em um apartamento de dois quartos onde Frossard morava com a noiva. Na produção, o próprio jornalista e um colega.
Escolhido pelo Galo
Hoje o jornalista tem um canal inteiramente dedicado ao Atlético Mineiro, mas essa relação com o time começou ainda na infância. Nostálgico, Frossard lembra que sempre esteve envolvido com esportes, jogava tênis e assistia futebol. O palco das férias era a cidade do pai, no interior do Rio de Janeiro, ia para a praia com os primos e passava os dias à base de sol e samba.
A mãe era torcedora americana. O pai botafoguense. Guilherme brinca que o pai até tentou convertê-lo ao Glorioso, mas nessa disputa quem ganhou foi a família da mãe, apaixonada pelo Galo. “Bastou um estalo para eu passar a ter essa paixão. As primeiras memórias que eu tenho como ser humano já são de um Guilherme atleticano.”

Não tirava a camisa do Galo do corpo. E a paixão sensibilizou o pai, que virou atleticano por sua causa.
Geralmente é o pai que escolhe o time do filho, no nosso caso foi o contrário, o filho escolheu o time do pai
“Até que a morte nos separe”
O sentimento pelo clube agora está marcado na pele. Em uma junção de tudo o que o liga ao Galo, um rolo de filme abraça desde o Guilherme criança, suas relações pessoais e profissionais até sua escolha pelo jornalismo.
Na mais nova tatuagem, feita em 2026, o famoso prédio 13, casa de muitos jornalistas da PUC Minas, as canoplas que marcaram sua vida – da Globo e do Canal do Frossard – os três estádios de Belo Horizonte, um avião representando as viagens, a silhueta de uma menina nos ombros (a pequena Helena, sua filha, no futuro?!) e a de um homem abraçado ao Galo, o mascote.
Para o jornalista, é o símbolo de uma relação antiga.
O Galo é minha vida, minha história, meu primeiro amigo… O Galo me norteia. Qualquer que seja a perspectiva que qualquer um use pra olhar pro Frossard, o Galo tá lá, como plano de fundo do filme da minha vida
escreveu em uma postagem no Instagram.

Frossard na Copa
Ele continua dizendo que não sabe para onde vai. Mas seu próximo destino já está definido. O jornalista vai cobrir a Copa do Mundo de 2026, no Canadá, Estados Unidos e México, e promete trazer conteúdos para o canal.
Nem o jornalista mais tranquilo escapa das polêmicas
Era pandemia de covid-19 quando Frossard recebeu uma ligação ameaçando seu emprego na Globo. Na época, trabalhando de casa, ele se deparou com uma publicação no perfil oficial do Galo informando que o presidente e o vice-presidente do clube receberam o troféu Galo de Prata, entregue a pessoas que marcaram a história do clube, como os ex-jogadores Reinaldo e Ronaldinho e personalidades como Cássia Eler, Rita Lee e Adélia Prado.
O jornalista sabia que pelo estatuto do clube, somente o presidente do time ou conselho deliberativo do clube poderiam determinar quem receberia a homenagem. Como o conselho não estava se reunindo na época da pandemia, Frossard entendeu que o presidente do Galo Sérgio Sette Câmara teria entregue o troféu a si mesmo e a Lásaro Cândido da Cunha.
Ligou para o diretor de futebol do clube, mas não teve resposta. Minutos depois, recebeu uma ligação de Sette Câmara: “Se você publicar isso aí, eu vou ligar lá no Rio (que era a chefia da Globo)”, ameaçou. Frossard justificou que só tinha feito uma pergunta e pediu uma explicação. O presidente admitiu, aos gritos com o repórter, que teria se auto-homenageado. “Eu mereço, eu tô saindo desse clube sem nada no bolso”, o jornalista relembra a resposta.
Frossard enviou a matéria para a avaliação da chefia. O jornalista é sincero quando relembra o que pensou: “das duas uma. Ou agora ela vai me bancar e vai comprar essa briga ou amanhã eu vou distribuir currículo”. A chefe comprou a briga e a matéria foi postada. Frossard foi bloqueado no WhatsApp por Sette Câmera e blindado dentro da Globo, quando o advogado pediu a cabeça do jornalista.
Frossard x Rafael Menin: os bastidores
Apesar dessa situação, Frossard não abaixou a cabeça para os dirigentes do Galo. Como colunista do Atlético Mineiro no portal do jornal O Tempo, após ter saído da Globo, um dos conteúdos de maior repercussão escritos pelo jornalista – pelo menos nas redes sociais – foi uma crítica a um dos donos do clube, após a derrota para o Botafogo na Libertadores de 2024.
Frossard admite que estava de cabeça quente no momento em que escreveu o texto. A partida foi no sábado, em Buenos Aires, e, após um domingo de “depressão profunda”, o atleticano pegou o voo de volta para casa. Com parada em São Paulo, lá foi o ambiente de produção de um texto emblemático.
Quando encostou a cabeça no travesseiro do hotel, percebeu que ainda não tinha nada escrito para a coluna. Pegou o notebook no colo e tentou ter um insight. A ideia só veio ao abrir o Twitter e se deparar com um texto de Rafael Menin, que para o jornalista, parecia mais ter sido escrito por IA.
Como jornalista e atleticano, Guilherme se incomodou mais com o tom da postagem do que com a atuação do time na Argentina. A crítica do jornalista veio como um desabafo do torcedor. “Foi o texto mais cuspido que eu já escrevi na minha vida”, revela Frossard.
O jornalista aponta as promessas não cumpridas por Rubens Menin de tornar o Atlético uma potência mundial e questiona a capacidade do filho Menin de tentar acalmar o torcedor com “notinha oficial, videozinho editadinho e discurso de “vamos lá!”. Ao fim da coluna, o atleticano reflete sobre a perda da essência vivida pelo time. “A gente consegue viver sem título – vivemos assim em grande parte da nossa história. A gente só não consegue viver sem alma.”
A resposta de Menin
A reação veio poucos minutos depois da postagem. Em mensagens enviadas a Frossard, Rafael Menin disse ao jornalista: “A vida vai te ensinar que caráter nunca vence ao longo prazo”. Em seguida, é bloqueado pelo empresário.
Frossard admite que foi duro no texto, mas não desonesto, e, portanto, não voltaria atrás em nenhuma palavra escrita. Ele decidiu expor as mensagens em live em seu canal, porque vinha percebendo uma postura antidemocrática dos donos do clube que, na avaliação dele, não conseguiam lidar com o contraditório.
Devido a repercussão inesperada, ele procurou um advogado, mas foi tranquilizado de que não teria infringido nenhuma lei. “Eu fiz o que eu entendi como jornalista que deveria ser feito. Na minha avaliação, ou eu fazia aquilo ou eu tava rasgando o diploma.”
Colunista do Galo
Para Guilherme Frossard, a parceria com O Tempo foi um desafio que permitiu matar a saudade da escrita. “Sempre defendo que a principal característica que um bom jornalista tem que ter, independentemente do veículo para o qual ele trabalha, tem que ser um bom texto. Então, eu tinha saudade de escrever todos os dias ou quase todos os dias.”
Além disso, Frossard conseguiu atingir um público que não alcançava com o canal no YouTube. Ele relembra de quando acompanhou o pai em uma cirurgia do coração – “Graças a Deus deu tudo certo, coroa tá 100% bem” – e o médico o chamou no canto e admitiu ser fã de seu trabalho. Frossard logo imaginou ser um espectador do canal, mas foi surpreendido quando o médico disse que colocava até lembrete no celular para não perder nenhuma coluna no jornal.
O jornalista encerrou sua parceria com O Tempo para se dedicar à filha, nascida em 2025, e a outros projetos pessoais, a exemplo do “Noite de Galo”, programa transmitido pelo YouTube e dedicado à torcida atleticana, em que divide a apresentação com Fael Slim e Dudu Graffite.
Fora das câmeras
Saindo da função de jornalista, se isso é possível, Frossard, casado com Bárbara Souto e pai da pequena Helena, considera-se um cara tranquilo, que curte viajar e aproveitar a família: “O foco da minha vida é Helena, minha filha, e o meu canal, trabalho igual um maluco… Ver um joguinho na folga, ir para praia quando dá, ouvir um sambinha e seguir a vida em paz.”
Este perfil foi produzido por Danielly Camargos sob supervisão da professora e jornalista Fernanda Sanglard.










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