Em uma tarde de terça-feira, 34 anos depois de formada, Patrícia Pinheiro está sentada em uma das salas mais simbólicas do prédio da PUC Minas onde tudo começou. É ali que ela abre o coração e relembra a própria história: das primeiras 17 linhas publicadas no jornal Marco, o jornal-laboratório produzido na Faculdade de Comunicação e Artes, cuja redação à época funcionava bem naquela sala do prédio 13. Daquelas memórias à vida de correspondente em Paris, na França, ela conta sobre a trajetória e adianta que está de mudança para começar a atuar em Brasília, como produtora e editora da GloboNews.
Onde tudo começou
Filha de militar, natural de Belo Horizonte, Patrícia se mudou para Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, aos 7 anos, para a inauguração do primeiro quartel da cidade. Foi durante a cerimônia, como aluna do Colégio São José, que recorda da primeira experiência jornalística. Ao entrevistar o coronel Guedes, diante de toda a escola, surgiu o primeiro interesse pela área da comunicação.
“É caótico isso né? É desesperador. Pensar que uma menina de 7 anos fez isso (entrevistar um coronel), mas eu fiz.”Patrícia Pinheiro

Em 1979, após quatro anos vivendo em Montes Claros, Patrícia retornou a Belo Horizonte, à época com 10 anos de idade. Concluiu na capital a primeira fase do ensino fundamental e, em seguida, estudou no Colégio Padre Eustáquio até o nono ano. Depois, estudou no colégio que funcionava dentro da então Universidade Católica (hoje PUC Minas), onde frequentou até o terceiro ano do ensino médio.
Quando a inspiração nasce do exemplo
Patrícia prestou vestibular para o curso de medicina, mas logo optou por cursar jornalismo. Apesar da escolha ter sido desaprovada pela mãe, teve todo o apoio do pai, radiocomunicador do Exército, e uma de suas maiores inspirações. “Era uma pessoa corretíssima a vida inteira, que já faleceu, mas que lutou para a gente ter educação, sabe? Duas coisas que não podiam faltar: educação e alimentação.” Além da figura paterna, ela menciona com carinho a avó Maria Tereza, que viveu 105 anos, como sinônimo de simplicidade e respeito, carregando na carteira uma foto de quem cuidou até os últimos dias de vida.
Além das inspirações familiares, Patrícia revela ter profunda admiração pelo jornalista Caco Barcellos. Ela relembra um encontro que teve com ele ainda na época de estudante e destaca que a forma como ele faz um jornalismo ético, pautado por critério e responsabilidade, a inspira todos os dias. Outra grande referência é Luciano do Valle, conhecido pelas narrações esportivas. Patrícia ressalta sua voz firme e marcante, inconfundível para qualquer ouvinte, que também lhe traz inspiração.


A vida na universidade
Assim como os seis irmãos, Patrícia Pinheiro cursou faculdade, o que era valorizado pela família. Iniciou o curso de Jornalismo na PUC Minas em 1989. Desde caloura, era curiosa e buscava todas oportunidades dentro da área da comunicação.
Escrevendo para o jornal Marco começou a ganhar destaque entre os alunos. Mesmo não conseguindo ser monitora do laboratório, ela fazia do espaço sua casa, ajudando na produção do jornal, seja escrevendo matérias, seja atuando na diagramação. Foi assim que, percebendo um potencial que devia ser explorado, o então editor-chefe do Marco, Edson Martins, indicou Patrícia para o primeiro estágio.



A cada fase, um novo olhar para o jornalismo
O primeiro estágio foi na Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), como assessora de comunicação. Após se formar, continuou o trabalho como assessora até receber uma proposta para atuar no Sistema de Ensino Promove, onde ficou até iniciar os trabalhos na Ideia de Comunicação, que na época funcionava como uma agência voltada para o mercado na produção de releases, e hoje está mais focada em acompanhar as estratégias de comunicação internas das empresas.
Ainda trabalhando na Ideia, em 1996 Patrícia recebeu o convite de uma colega de faculdade para atuar por três meses no núcleo de eleições da TV Globo. Após três dias, recebeu uma nova proposta da diretora de jornalismo da emissora. Foi aí que Patrícia começou a entender como de fato funcionava a televisão. Saía à rua com a equipe para ver de perto como eram os processos de uma entrada ao vivo, afinal, estava vivendo algo que nunca tinha vivenciado antes. Depois de dois anos como produtora, Patrícia subiu de posição e se tornou subchefe de reportagem e, mais tarde, chefe de reportagem do jornalismo da Globo.
Após 20 anos trabalhando na Globo Minas, Patrícia decidiu pedir transferência para acompanhar o marido em um novo trabalho em Brasília. Ao chegar na TV Globo no Distrito Federal, assumiu inicialmente a função de produtora, mas logo se tornou chefe de reportagem. E ela revela ter sido uma das experiências mais marcantes de sua vida.
Brasília a fez ver o jornalismo com outros olhos. Teve contato maior com questões políticas, do Congresso, e até mesmo com as dificuldades da pandemia. Também presenciou inúmeras tentativas de violência contra jornalistas em períodos eleitorais.
Em 2022, mudou-se para a França junto com o marido e as duas enteadas. Fez freelancer para a Rádio Itatiaia e para a Rádio Alvorada em Paris. Foi no final de 2023 que se tornou correspondente da Rede TV!, função que exerceu até fevereiro deste ano. Em março, decidiu voltar ao Brasil por questões pessoais e comunicou à TV Globo que estava retornando a Brasília. Após o comunicado, recebeu uma proposta para assumir a produção e a edição da GloboNews a partir de junho.
Da capital mineira ao coração da Europa
A jornalista admite não ter planejado a transição de carreira quando decidiu morar em Paris em 2022, mas que mesmo assim aceitou o desafio. “Não foi uma coisa planejada, ‘estou indo lá, mas vou ser correspondente de TV’, não teve esse planejamento em momento algum”.
Durante a mudança de país e da área de atuação, ela cita algumas dificuldades na jornada, destacando a independência na produção de conteúdo como uma das grandes adaptações que teve que enfrentar. “Você vai ter que produzir, vai ter que ligar para o entrevistado, vai ter que marcar, fazer a entrevista, ter que ir para a rua depois para gravar, você é muito mais sozinho.”
Ainda sobre as dificuldades na carreira internacional, ela relata sobre momentos pessoais, em especial, os empecilhos no deslocamento, a saudade da família, a morte do irmão e o nascimento das sobrinhas-netas enquanto estava na França.
“O meu irmão faleceu e eu estava na França, tive que comprar uma passagem 15h para embarcar 22h, para estar aqui para o velório no dia seguinte.”
Patrícia Pinheiro
Ainda assim, Patrícia revela que encontrou um modo de conciliar a família e o trabalho. “Eu sempre fui muito família”, afirma, reforçando que também sempre valorizou o trabalho.

Entre a correria do trabalho e os prazeres da alma
Segundo Patrícia, jornalistas nunca conseguem desligar a mente por muito tempo. Depois de realizar as reportagens, ela conta que fica esperando em frente à televisão para ver como a matéria foi ao ar, como a emissora enquadrou seu conteúdo. Será que algum outro jornalista falou a mesma coisa? Ou será que cobriu algo de forma diferente? Essas são as dúvidas que surgem enquanto ela espera o jornal começar. Só depois de ver a aparição na grade do noticiário é que ela finalmente consegue descansar.
Mesmo com a correria cotidiana, ela tenta fazer programas para esfriar a cabeça após longos dias de trabalho. Patrícia ama caminhar. Diz que uma das grandes vantagens de Paris é que tudo é plano, o que facilita muito o trajeto. Afirma que as pessoas conseguem caminhar facilmente por 30 minutos sem nem perceber, além de poder apreciar a bela paisagem que a cidade proporciona.
Patrícia também ama ler. Não apenas para se informar e ficar por dentro dos assuntos, como um bom jornalista deve fazer, mas também para consumir literatura. Coisas que fazem refletir, coisas que alimentam a alma.
Apreciadora de clássicos da música brasileira, como Caetano, Gil, Bethânia, dentre outros da MPB, e fã de teatro, ela conta que um bom texto e uma boa dramaturgia conseguem prendê-la com facilidade. “Mas um bom teatro, um bom texto, uma boa dramaturgia, isso me seduz. Faz bem para a alma, sabe? Eu gosto de ouvir uma boa música. É bom, né? Traz vida.”
O respeito como regra e a paixão pelo o que faz
Atuando como correspondente na Rede TV!, entre 2023 e 2026, Patrícia Pinheiro cobriu momentos importantes da história. Dentre as reportagens, destaca dois acontecimentos marcantes na carreira. Teve a oportunidade de perguntar para Emmanuel Macron, presidente da França, durante o Dia Internacional das Mulheres, qual mensagem o representante tinha para as mulheres brasileiras. “Sigam esse caminho”, foi a resposta do representante.
“Eu nunca recusei nenhum assunto, cobri todos que me pediram”
Patrícia Pinheiro
Ela também foi responsável pelo caso Flávio, o fotógrafo brasileiro que desapareceu na França, e posteriormente foi encontrado morto no Rio Sena. A jornalista, que foi elogiada pela sensibilidade e ética jornalística da cobertura, reforça a necessidade de fazer o trabalho mantendo os valores morais. “Eu não vou colocar uma pessoa em situação vexaminosa para conseguir um furo ou uma manchete. Isso não faz parte da minha cultura, da minha educação, da minha ética jornalística. Eu vou tratar todos os meus entrevistados com o máximo respeito. Posso discordar em grau, gênero e número do que o entrevistado está falando, mas eu não vou piorar a situação dele do meu ponto de vista.”
Atravessando diversas editorias, conteúdos, funções e lugares por meio do jornalismo, Patrícia diz gostar da vida nas cidades e de ter aproveitado as oportunidades de conhecer melhor a cultura da capital francesa. A comunicadora, que cresceu jogando basquete, praticando atletismo e acompanhando tênis, também revela ser fã de esportes.
Durante a coletiva de despedida do tenista Rafael Nadal, ela conta ter quebrado o regulamento da seleção de perguntas internacionais. Quando pegou o microfone, que transita entre a imprensa, perguntou para o esportista o que ele achava de João Fonseca, o jovem tenista brasileiro. O momento foi manchete dos jornais no dia seguinte. “Eu quase fui linchada”, brinca Patrícia. “Inclusive, eu era cara de pau de fazer uma pergunta para o Rafael Nadal. Mas você só faz aquilo ali porque você entende como funciona, então, é muito legal.”



Torcedora do Clube Atlético Mineiro, Patrícia também diz gostar de futebol. Apesar de reconhecer a fase ruim do time, gosta de assistir aos jogos do galo e vibrar em frente à televisão.
Mensagem aos estudantes
A jornalista destaca que a universidade é o lugar para aprender e, acima de tudo, para errar. Isso não significa que fora da vida acadêmica o aprendizado seja impossível. Como ela mesma diz, algumas coisas só se aprende na correria do dia a dia. Mas o recado é claro: “É na universidade que iniciamos nossa experiência como jornalistas. É ali que damos o primeiro passo.”

E recomenda: “conheçam pessoas, façam amigos e, além de tudo isso, adquiram conhecimento. E tudo o que você se proporem a fazer, façam com amor.”
Este perfil foi produzido por Ana Elisa Fonseca, Alice Giovana, Otávio Abreu, Rafaela Tomaz e Samara Estevam, sob a supervisão da jornalista e professora Fernanda Sanglard na disciplina de Apuração, Redação e Entrevista.
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Cecília Oliveira: de Contagem para The Intercept




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