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Mulheres indígenas reinventam o empreendedorismo no Brasil

Empreendedoras indígenas usam ancestralidade como ferramenta de geração de renda e preservação cultural

De acordo com o Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva, atualmente, vivem no Brasil mais de 800 mil indígenas, pertencentes a aproximadamente 305 povos. Em 2023, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) calculou 41 mil indígenas em Minas Gerais, de 20 etnias pertencentes ao tronco linguístico Macro-Jê e Tupi-Guarani. Nos centros urbanos, como Belo Horizonte, vivem ainda famílias de outras etnias, entre elas mulheres que usam o empreendedorismo como forma de autonomia e desenvolvimento social. 

Levantamento de 2026 feito pelo Sebrae Minas mostra que Minas Gerais tem cerca de 2,6 milhões de pequenos negócios ativos, sendo mais de 1 milhão de empresas lideradas por mulheres, ou seja, 40,9% dos negócios. Desde a colonização, os povos originários enfrentam a limitação econômica, a falta de oportunidade no meio empregatício e a opressão de suas práticas culturais. No entanto, a luta de mais de 6 mil empreendedores indígenas que vivem no Estado se destaca na insistência em resistir, usando a sabedoria ancestral e a bagagem cultural para criar seu próprio negócio. Da Feira Hippie, em Belo Horizonte, até o Parque das Tribos, em Manaus, empreendedoras indígenas usam o conhecimento herdado para gerar renda e ganhar espaço. 

Irene Flores: indígena, empreendedora e transfronteiriça

Do povo Aymara, um dos principais grupos indígenas sul-americanos que habitam o Altiplano da Cordilheira dos Andes, na Bolívia, Irene Flores é uma empreendedora indígena transfronteiriça que carrega o sonho de realizar um desfile inteiramente autoral. Empreendendo há mais de 10 anos na Feira Hippie em Belo Horizonte, Irene produz um trabalho diversificado com sementes, penas, miçangas e outros elementos para criar uma autonomia no país. 

Irene Flores, empreendedora indígena transfronteiriça

A empreendedora conta que a adaptação ao sistema e a produção é um desafio constante. “Sou uma mulher indígena transfronteiriça. O desafio é ainda maior, porque eu sou indígena, eu não sou imigrante. Então, esse é um letramento que a gente traz. Para continuar trabalhando, eu tenho que me adaptar a outro sistema. A gente vem com bagagem, mas acaba”, explica. Na capital mineira, a dificuldade aumenta quando o assunto é visibilidade. Irene entende que o maior desafio hoje em Belo Horizonte é um lugar que os povos originários possam expor a sua arte e conta o histórico de espaços que já atuaram. “A Prefeitura nos deu o aval para ficar na Praça Afonso Arinos e depois retirou. Depois, nos colocaram para a Praça Raul Soares, e não deu certo. Atualmente essa é a nossa luta, não temos um espaço indígena”, afirma. 

Independente do desafio, a empreendedora defende que o Estado deve promover a inclusão com espaços indígenas para mulheres, idosos e deficientes: “a Feira Hippie foi um espaço conquistado com muita luta, precisamos conquistar outros espaços além de vender somente aos domingos”.

Força e coragem a toda mulher. Aos povos indígenas, conecte-se a sua espiritualidade, para a cura do planeta. Viva os povos originários!’’

Irene Flores

Projetos que fortalecem

No Amazonas, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), organização da sociedade civil e sem fins lucrativos, promove o desenvolvimento sustentável e cria projetos que buscam empoderar mulheres indígenas e ribeirinhas na gestão de negócios e acesso ao mercado. Criado em 2008, a Fundação parte do entendimento de que, na Amazônia e entre os povos indígenas, não falamos apenas de empreendedorismo no sentido convencional da palavra, mas de economia indígena. 

Diferente das dinâmicas tradicionais de mercado, que normalmente valorizam iniciativas individuais e empresariais, a economia indígena nasce das relações comunitárias, da proteção dos territórios, da transmissão de conhecimentos tradicionais e da construção coletiva. Um dos projetos realizados pela instituição, o Parentas que Fazem, atuou no mapeamento de organizações formais e informais femininas indígenas, formação técnica, inclusão digital e apoio financeiro. Ao longo da execução, foram mapeadas 118 organizações indígenas lideradas por mulheres. 

 A FAS enfatiza que políticas públicas e oportunidades de financiamento enxergam essas iniciativas apenas pela lógica do empreendedorismo convencional, sem considerar que os povos indígenas trabalham coletivamente, sendo o maior desafio para as empreendedoras. “O fortalecimento econômico de uma mulher indígena normalmente fortalece também sua família, sua comunidade e seu território. É fundamental construir políticas públicas e mecanismos que respeitem os modos próprios de organização dos povos indígenas, valorizem coletivos e organizações comunitárias e compreendam que desenvolvimento, para nós, também significa bem-viver, proteção territorial e continuidade cultural”, diz Nathalia Padilha, em nome da Fundação. 

Além disso, a Fundação Amazônia Sustentável entende que outro desafio importante é conseguir manter viva a identidade cultural do negócio mesmo vivendo em grandes centros urbanos. “Quando uma mulher indígena trabalha para promover a economia, ela não está apenas gerando renda. Ela está mantendo viva a memória do seu povo, fortalecendo a autonomia das mulheres e garantindo que os conhecimentos tradicionais continuem sendo transmitidos entre gerações”, finaliza.

Projeto criado pela FAS / Crédito: Lucas Bonny

Segundo a socióloga, professora e pesquisadora do curso de Ciências Sociais da PUC Minas, Andréia dos Santos, o Estado tem uma função primordial, que é o acompanhamento e o desenvolvimento desses grupos étnicos Brasil afora. “É um trabalho muito árduo, que hoje tem tido um pouco mais de sistematicidade por parte do Estado. Na maioria das vezes, os trabalhos que são negociados com essas mulheres indígenas, por meio do empreendedorismo, tem a ver com saberes e tradições mais convencionais desses grupos”, explica Andréia. Na sociedade atual, o avanço da tecnologia traz o desafio de equilibrar a modernidade com a preservação de suas tradições. Enquanto o acesso à internet e dispositivos eletrônicos cresce nas aldeias, as lideranças indígenas se esforçam para manter vivas suas línguas e costumes ancestrais.  Para a pesquisadora, é necessário criar condições para que tenhamos uma visibilidade melhor para esses grupos, seja por meio das mídias sociais ou no contexto de organização de grupos que vão sendo trazidos ao conhecimento do público para mostrar o trabalho que fazem.

13 anos da junção de forças ancestrais

Beatriz Atara, indígena do povo Puri, artesã e coordenadora geral do Comitê Indígena Mineiro, o primeiro coletivo indígena de Belo Horizonte, ressalta a dificuldade de persistir em uma capital que ainda não possui um espaço para atuar. Com mais de 18 etnias dentro do Comitê, Beatriz conta que alguns empreendedores vêm para a Feira Hippie, ou outras feiras que acontecem esporadicamente na cidade, para expor artesanato e no meio do processo não encontram ações básicas para permanecer na capital durante essa passagem. “Muitos desses parentes são mães. Não dá para ficar dormindo na rodoviária. Às vezes um lugar pra ir no banheiro, sabe? Precisa-se de um centro de referência indígena, porque são muitos indígenas que vivem em situações precárias.O Comitê tem 13 anos, são nove anos que a gente está falando sobre o centro de referência e sendo ignorados”, afirma a coordenadora.

Beatriz Atara, coordenadora geral do Comitê Indígena Mineiro

A artesã entende que é possível viver do empreendedorismo mas que, certamente, o desafio é maior por ser mulher. “A gente tem mais dificuldade, porque as pessoas não querem pagar o preço que vale. Quando a gente cobra um preço que parece alto, é porque a gente gastou tempo, gastou manualidade e sabedoria ancestral”, enfatiza. Analisando também as políticas públicas e ações do Estado, a coordenadora destaca que os governantes devem lembrar dos povos originários para além do dia 19 de abril. “Em abril eles lembram de nós, porque aí a gente precisa ‘cumprir a cota indígena’, mas é esse letramento constante que a gente tem que fazer, além de vencer as barreiras, ainda ensinar o opressor”, desabafa.

Por fim, Beatriz Atara enxerga o Comitê como um grito ancestral e um importante aliado na luta dos povos indígenas para a criação de um centro de referência, abertura para eventos de visibilidade na capital e diversas outras frentes que os empreendedores indígenas enfrentam em Belo Horizonte. “Vejo que juntos nós somos muito mais fortes. O Comitê nasce dessa junção de forças ancestrais. É extremamente importante que a gente se una”, finaliza Beatriz.

Os Mura, o povo navegante

Diretamente do Parque das Tribos, em Manaus, Maira Bello Mura, de 43 anos, mulher indígena do povo Mura, mãe atípica e empreendedora, nasceu no município de Autazes, interior do Amazonas, na aldeia Lago do Jalari e aprendeu desde pequena o artesanato. Atualmente, a empreendedora atua no Parque das Tribos, maior comunidade indígena de Manaus. A artesã é criadora de vestimentas tradicionais e também atua como representante e tutora da comunidade Mura. 

Maira criou o próprio negócio, o Ateliê Mura, na época da pandemia, quando viu a necessidade de ficar em casa para cuidar dos filhos e criar a sua geração de renda. “Comecei a trabalhar em casa com meus filhos e comecei também a passar esse conhecimento para eles. Eu tenho uma filha de 19 anos que trabalha fazendo pinturas na roupa e escrituras corporais. Hoje, o meu filho autista, é um grande artesão. Eu e a minha família somos artistas indígenas”, explica. O Atêlie mantém a renda familiar de Maira desde 2021, época que, de acordo com a empreendedora, alavancou a moda indígena em Manaus. Além disso, a artesã conta que se for trabalhar fora do negócio, provavelmente não terá o mesmo lucro que tem atualmente no Ateliê.

Com o entendimento que o maior desafio do Ateliê estava sendo ganhar parcerias para colocar as peças do artesanato em desfiles, Maira teve a ideia de juntar alguns estilistas e criar o Moda Raiz. O projeto “A Moda Ancestral Mura” realizou em julho do ano passado, uma série de oficinas gratuitas no Ateliê Maira Mura, em Manaus. A iniciativa foi contemplada pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), e contou com o apoio do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, e do Conselho Estadual de Cultura. O objetivo do projeto era fortalecer a visibilidade da cultura Mura e expandir o reconhecimento do fazer artístico indígena. 

Grafismos produzidos no Atêlie Mura.

Segundo Maira Bello Mura, idealizadora da iniciativa, o objetivo central é sempre fortalecer cada vez mais o empreendedorismo feminino, “eu ensino as mulheres a fazer as pinturas e explico que elas tem que aprimorar o conhecimento do próprio povo. Porque na comunidade onde eu moro, são 39 etnias. Cada um eu sempre ensino a buscar falar do seu povo”. Ao fim das atividades, foram feitas a entrega dos certificados de participação e a emissão da Carteira Nacional do Artesão para mais de 60 artesãs. “Já participei de feiras em São Paulo, Minas Gerais, fui para o Expominas. Então, como indígena, como empreendedora, eu vejo que isso está fortalecendo cada vez mais o empreendedorismo, principalmente o empreendedorismo feminino no nosso Brasil”, afirma.

A empreendedora explica que o Ateliê não é apenas as roupas e o grafismo, e sim representa uma história contada pela mãe, a anciã da nossa família. “A gente conversa, ela conta toda a história. Os Mura são o povo navegante. Então, a gente usa muito grafismo com os rios, com as águas, com a flor da água, de cobras, de jacaré, com raia”, conta.

“O grafismo criado pela minha filha, que nunca conheceu a minha avó, ela acorda e diz: ‘Mãe, eu sonhei e minha avó mandou eu desenhar isso e ela explica o significado’. Isso é a nossa ancestralidade. Essa é a nossa história.”

Para Maira Mura, mostrar a arte e a cultura do seu povo, se transforma em um sentimento de gratidão e sabedoria. “Para as mulheres indígenas, artesãs indígenas, empreendedoras indígenas, continue. Fale da sua arte, fale do seu povo, porque a nossa história é muito rica”, finaliza.

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Isabella Silva

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