Marco Antônio é um artista que dedica os seus dias a realizar um trabalho único e encantador no Hospital Metropolitano Odilon Behrens, localizado no bairro São Cristóvão, em Belo Horizonte (MG). Em meio ao alto fluxo de enfermos e acompanhantes que transitam pelo espaço, um homem alto, magro, de pele escura, vestes simples, chinelo no pé, boina na cabeça e um semblante calmo e alegre no rosto captura a atenção de todos. Ele se aproxima respeitosamente das pessoas tomadas pela angústia e pela tensão de estar em um hospital. Ao sentar-se no chão com apenas telas de MDF, um bloco de tinta óleo e muito talento nas mãos, Marco convida todos ao redor a acompanharem o processo da pintura dos seus quadros.
Durante o processo, algo ainda mais surpreendente acontece. Aqueles que antes gemiam ou derramavam lágrimas de dor se distraem, ainda que por instantes, do próprio sofrimento para contemplar o trabalho de Marco, que dispensa pincéis e utiliza os próprios dedos para dar vida às paisagens que retrata.
De onde vem Marco?
Nascido em Mococa, município localizado no estado de São Paulo, Marco não tem documentação que confirme sua idade mas a família, após contato da reportagem, confirmou que o ano de nascimento é 1978. Filho da dona Cida e do seu Pedro, Marco Antônio viveu boa parte da infância na região do Capão Redondo, também em São Paulo. Algum tempo depois, mudou-se com a família para a cidade de Guaxupé, no sul de Minas Gerais, conhecida como a “Capital do Café”, onde cresceu e viveu a juventude. Tem oito irmãs que ainda vivem em Guaxupé, ao contrário de Marco, que peregrinou durante um tempo por Ilhéus, município da Bahia, e, por R$20, conseguiu comprar uma passagem para Belo Horizonte, onde vive atualmente. Marco não sabe determinar quando foi feita essa viagem.
Quando a arte começou
A história desse artista começou lá atrás, quando ainda vivia em Guaxupé, com a confecção de colares e pulseiras feitas de material reciclável. Mas foi em Pirapora, localizada no norte de Minas Gerais, que seu interesse pela pintura despertou.
“Eu vi um rapaz pintando, me aproximei e disse a ele, ‘se você me ensinar a pintar, eu te ensino a minha arte’. Ele me respondeu grosseiramente que a minha arte não o interessava. Respondi que estava tudo bem, mas aí ele me disse que, se eu desse para ele 400 reais, ele me ensinaria a pintar. Naquele momento, me senti pequeno, porque eu não tinha e, tentando fugir daquela sensação, eu respondi, ‘então eu vou pedir pra Jesus’. A resposta que ele me deu foi a mais ignorante do mundo, pois ele me disse que Jesus não ensinava nada para ninguém e que, se eu quisesse aprender, teria que pagá-lo”, relembra Marco.
Mas seu íntimo, marcado pela fé, passou a servir de motivação para que ele começasse a pintar por conta própria, de maneira intuitiva.
“Se você clamar em nome Dele, você recebe. Eu clamei em nome de Deus para que eu também pudesse pintar e inspirar outras pessoas. E eu consegui. Claro que não com essa habilidade que eu tenho hoje para pintar, porque isso veio com a prática. Mas, três dias depois de orar, eu estava pintando”.
A arte em qualquer lugar
Marco Antônio revela que começou pintando em azulejos de cerâmica, há quase trinta anos. Hoje, ele pinta em qualquer superfície que seja branca e lisa.
“Já aconteceu de eu pintar um isqueiro branco para uma pessoa ali no bairro de Lourdes. Tem um garçom lá que, todas as vezes que eu passo pelo bairro, tem quatro, cinco isqueiros me esperando. Eu pinto todos eles e ele empresta o isqueiro para os clientes. Certa vez, ele me contou que acontece muito de ele se afastar para ir buscar o troco de uma conta e, assim que retorna à mesa, não encontra nem o cliente, nem o isqueiro. Quer dizer, a pessoa deixou o troco para ele e levou o isqueiro. Acabou comprando o objeto gravado com a minha arte”, relata Marco.
O artista trabalha majoritariamente na região do hospital Odilon Behrens e ressalta que é o lugar mais certo de ser encontrado. Entretanto, Marco também atua em outros bairros da cidade.
Os valores das obras variam entre R$10 e R$50. Marco afirma que nem sempre consegue vender seus quadros e relata que, na manhã em que foi entrevistado, precisava de R$30 para comprar material. Pintou três obras, vendeu duas por R$10 cada, e não conseguiu vender a terceira por falta de interessados.
Mesmo assim, explica que não lhe falta dinheiro, pois vive de forma simples, comprando apenas o necessário. O artista vive em situação de rua, mais especificamente, em uma barraca em frente à Unidade de Pronto Atendimento. Marco diz que não vê sentido em ter mais do que precisa, como vários carros ou uma casa grande, e resume seu modo de vida como baseado na necessidade, acreditando que Deus sempre lhe dá mais do que o suficiente.
Entre a dor e a beleza
O que mais surpreende é o contraste entre a beleza da arte de Marco Antônio e a realidade do bairro, que vai além das emergências do hospital e do sofrimento dos pacientes. A região é marcada por um alto fluxo de usuários de drogas, pessoas em situação de rua ou extrema pobreza e um elevado índice de criminalidade. Visitantes que trafegam pelo local relatam medo e insegurança. Marco Antônio, quando perguntado sobre o motivo de ter escolhido o bairro para se estabelecer e pintar seus quadros, responde com firmeza:
“Você pode me dizer onde Jesus costumava ser encontrado? Era entre o povo necessitado. E onde está o povo mais necessitado se não aqui? Eu estou no meio de várias favelas, bocas, usuários e doentes. É onde quero estar, pois sei que posso ajudar, nem que seja com as sensações boas que traz a minha arte para o coração dos adoentados, ou com a prestação de favores e auxílios à comunidade”.

“Não é o lugar que faz a pessoa, mas a pessoa que faz o lugar. Eu tenho respeito dos usuários de droga, dos ladrões, dos traficantes, da guarda municipal, da polícia militar, dos comerciantes, dos pacientes e dos profissionais do hospital. Faço meu trabalho com honestidade e ajudo quem posso. Os policiais que protegem o hospital já compraram quadros meus, os comerciantes também, assim, vou fazendo amigos na região. Às vezes, me pedem para ir trocar dinheiro, comprar material de reposição, e eu sempre vou, porque quero ajudá-los. E, mesmo sem esperar nada em troca, eles me retribuem. Me deixam almoçar, fazer um lanche quando preciso e isso, sem eu ter que pagar nada”, finaliza Marco Antônio.
Entre a violência e a fé
Marco relata que recorrentemente acaba tendo seus bens furtados. Contou que já teve 12 celulares roubados: “Todas as vezes eu clamei a Deus para que me desse meios de conseguir outro aparelho, e eu consegui. Uma vez consegui comprar um novo aparelho depois de ser furtado e ele durou apenas três dias na minha mão. Outro durou apenas mais cinco dias”. Ele também lamenta ver os doentes dependentes da droga:
Já deixei um grupo de três mulheres dependentes da droga dormir na minha barraca, porque não queria que elas ficassem na rua, tão expostas ao perigo. Eu dormi do lado de fora. No outro dia, assim que elas foram embora, eu dei falta do meu telefone. Elas levaram, mas não me chateei. Entendi que, naquele momento, era mais forte do que elas. Alguns dias depois, uma moça que acompanhava a mãe dela aqui na UPA me deu outro”.
Marco se tornou uma figura querida pelos pacientes, ambulantes e pela comunidade local do bairro São Cristóvão. Acima de tudo, conquistou a admiração dos pacientes e familiares que diariamente se deparam com o trabalho do artista.
“Uma vez eu estava em um bar pintando e uma moça me viu e ficou admirada com as minhas telas. Disse que eu deveria divulgar o meu trabalho na internet e, para isso, criou para mim uma conta no Instagram. Eu não tinha celular nem redes sociais, mas resolvi não dispensar a boa vontade dela, então sugeri que o nome fosse ‘pintando para Jesus’”, comenta o artista.
O perfil hoje conta com cerca de 8.500 seguidores. O último post, publicado em novembro de 2018, que retrata um quadro de autoria de Marco, conta com 2.300 curtidas e quase 100 comentários, deixados por pacientes e familiares com mensagens de carinho e agradecimento. Ele relata que, quando se desencontrou com a criadora do perfil, perdeu também a senha da rede social, ficando inibido de continuar a divulgar as suas artes.
Saudade de casa
O artista relata sentir falta da família e da cidade onde passou boa parte da vida, Guaxupé. Ele conta ter deixado lá seus filhos. Marco Antônio comenta a origem religiosa do nome de alguns dos filhos: “Maximiliano Estefano significa primeiro herdeiro. E Samara é a união de Sandra e Marco, mas o significado dela, na verdade, é Samaria, onde Jesus conversou com a primeira mulher”.
Ele ainda acrescenta que seus dias são dedicados a experienciar o que ensinou Jesus. Falar de fé o alegra e remete aos dias bons. Conta que Deus tem quatro coisas que ele precisa realizar na capital mineira, que, dessas, já fez duas e, assim que completar as restantes, voltará para a sua cidade, que tanto lhe causa saudade.
Pintando a fé
Marco demonstrou ao vivo a sua habilidade, pintando um quadro ao fim da entrevista.
“No primeiro dia, Deus vinha à terra e assim havia luz. Quando ele ia embora, o mundo voltava a ser trevas. No quarto dia, ele ordena que sejam feitos dois grandes luzeiros no céu, um para que resplandeça a luz durante o dia, o sol, e outro menor, acompanhado de corpos ainda menores, para que não houvesse trevas durante a noite, a Lua e as estrelas. Aí, eu vejo dessa forma, quando Deus pediu para que fosse feito o sol, ele mostra a grandeza e a glória. Alguém no mundo inteiro consegue olhar direto para o sol? Não. E a Bíblia também fala que, se você olhar diretamente para Deus, você também não vai conseguir”, recitou ele, enquanto pintava uma obra dedicada ao momento que descrevia.

Leia também a crônica de Gabriela Silva.




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