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Clássico termina em briga no Mineirão. Créditos André Araújo

Violência vence, atletas erram e a sociedade não reflete

Um punhado de indignação sobre futebol e violência no dia da mulher

No dia que deveria ser sobre reflexão, conscientização e respeito às mulheres, nós, homens, mostramos de novo por que não só precisamos de uma data para lembrar das que nos colocaram no mundo. Na verdade, nós precisamos de uma vida inteira de mudança de hábitos e costumes violentos, principalmente quando não aceitamos a rejeição. Seja daquelas que amamos, das que almejamos ou, no caso de domingo, da Vitória.

Não estou falando de uma mulher chamada “Vitória”, mas do resultado que o Atlético quis e não obteve dentro de campo no clássico de domingo, 8 de março, no Mineirão. O Cruzeiro não deixou barato e revidou. Muitos usarão o discurso da “defesa da honra”. Não seria um argumento inovador.

O futebol brasileiro convive com o tema da violência entre torcidas, nas ruas e nos estádios desde a sua gênese. Além desse assunto estar no inconsciente coletivo há algum tempo, uma pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que mulheres sofrem mais ameaças e violência física em dias de jogos de futebol do que em dias normais, o que só deixa o caso de domingo ainda mais pavoroso.

Créditos: André Araújo

Everson foi muito infeliz na decisão que tomou. Porém, todos comemoraram a violência e acharam de bom tom enriquecer o debate sobre socos e pontapés. Infelizmente, nessa eu me incluo também. Todos fomos tão vis e covardes quanto aqueles que ali estavam. Aqueles que, em casa, já decepcionados com o resultado esportivo, partiram para diluição sanguinária em frente à TV, torcendo por mais e mais violência, também fazem parte do problema. Esses talvez carreguem ainda mais culpa, já que, distanciados do campo, ainda tiveram o prazer pitoresco de assistir e discutir quem perdeu ou quem ganhou.

Quando me vi comemorando a decisão estapafúrdia de todos ali que partiram para uma resolução antidesportiva, foi que percebi minha hipocrisia. Assumir nossas contradições nos torna mais homens? Não sei dizer. Mas, com certeza, torcer pelo sangue do adversário não nos faz mais machos ou masculinos. Só nos faz mais descontrolados. Muitos jogadores se desculparam e, em tom de reconciliação, explicaram como aquilo não era um bom exemplo para quem assistia; no entanto, já estava feito. O cheiro de violência chegou às ruas.

A violência sem limite e sem controle que se inicia dentro de campo se reflete nas ruas. O gosto de sangue na boca e o prazer ao ver homens se agredindo se transporta para os momentos de rejeição ou decepção que eles sofrerão fora dali e aos quais reagirão da mesma maneira. Dessa vez, talvez seja sua mãe, sua tia ou a própria esposa que assiste ali do lado, assustada com o que vê.

Eu senti o gosto de sangue e gostei enquanto assistia anestesiado. Eu comemorei e disse que era a coisa mais certa a se fazer. Mas eu digo que defendo a paz, a resolução pacífica e democrática. De que lado eu realmente estou? Do certo, com certeza, não é. Entretanto, percebi a tempo, cuspi o sangue fora da boca, lavei as mãos sujas de suor e vergonha, para finalmente colocar a cara a tapa aqui.

Créditos: André Araújo

Violência não se comemora, contra ninguém. Muito menos no dia em que tentamos impedir que ela se prolongue contra as mulheres. A desumanização do inimigo ou do adversário é o primeiro passo para uma justificativa de extermínio. Assim que se torna ignorável, a gente esquece do que é normal, do que é sensato. Quando se esquece o que é sensato, a gente começa a permitir que tudo seja igualmente resolvido na base da porrada: um jogo de futebol, um desacerto no trânsito, uma discussão de casal ou ainda uma perseguição religiosa.

Sei que parece um arco enorme para uma rinha de atletas com os ânimos à flor da pele, mas os pequenos detalhes contam mais do que parece. As trends antifeministas, a machosfera, os estupros coletivos e o sujeito se apresentando com uma blusa dizendo, em inglês, “não me arrependo de nada”. Toda essa atmosfera coletiva com a qual eu e você, homens despreocupados, convivemos se importando só com o resultado pífio de um jogo que, para nós, no final, não vale nada (ou tudo, mas se questione o que isso quer dizer). Tudo isso prejudica um movimento muito mais necessário do que a volta do “futebol raiz”.

Se você parar para pensar, o futebol que se jogava na tal época de ouro também era um futebol que excluía, em um tempo que perseguia e em um país que ainda não tinha encarado suas contradições antidemocráticas. Está na hora de olhar no olho do goleiro, driblar essa camisa suja de sangue e fazer um gol pelo progresso coletivo.

Everson se manifestou em seu perfil de mídia social e defendeu sua classe: “Peço a compreensão a todos em relação aos atletas envolvidos, pois sabemos que são profissionais de caráter e pais de família”. Concordo com a prudência com que se coloca, porém, também acho importante “ressaltar e reconhecer que nada justifica aquelas cenas lamentáveis”. Eles não são culpados unicamente pelo que aconteceu ali e também não derramo a responsabilidade do patriarcado sobre atletas que tomaram decisões ruins, mas eu precisava pontuar a contradição do que dizemos, pensamos e defendemos para com aquilo que realmente fazemos.

Davi Tufic

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