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Intervenções do MAMU no Morro do Papagaio e no Bairro Cachoeirinha transformam paisagens das comunidades / Créditos: João Simões e Ana Paula Gomes

Transformando realidades: a arte urbana como agente de mudança

Projetos artísticos modificam a paisagem da capital mineira

As artes urbanas têm ganhado cada vez mais espaço em Belo Horizonte. Diversos artistas são responsáveis por trazer vida para a cidade com obras espalhadas por toda a capital, por meio das mais diversas técnicas, como grafite, pintura e esculturas, refletindo histórias e lutas de comunidades e povos marginalizados. A arte atua como transformadora social, mudando a vida das pessoas e os espaços em que elas vivem.

Belo Horizonte possui uma rica tradição artística, sendo berço de grandes nomes como Inimá de Paula, Alberto da Veiga Guignard e Carlos Bracher. Atualmente, a cena artística está em constante reinvenção, mas ainda se mantém vibrante, diversa e  com novas expressões ganhando destaque. Entre essas manifestações, o movimento cultural CURA tem se sobressaído, contribuindo para fortalecer ainda mais o panorama artístico.

Festival CURA

Um dos maiores movimentos de arte urbana da América Latina tem origem em BH. O Festival CURA se propõe a reunir diversos artistas de todo Brasil, com a intenção de transformar locações conhecidas da população belorizontina. As obras produzidas durante o Festival também buscam fazer o público refletir, abordando temas como etnia, gênero, desigualdade, entre outros. O evento também visa dar oportunidades a artistas marginalizados, com uma curadoria que tenta trazer mais diversidade para os grandes centros.

Uma das idealizadoras do projeto, Priscila Amoni, falou sobre o surgimento do projeto: “Eu e mais duas sócias, a Juju Flores e a Jana Macruz, idealizamos o CURA. Nós criamos o Festival em 2015 e a ideia surgiu porque eu sou artista muralista e o ex-marido da Juju, Tiago Massa, também. O Festival surge a partir desse sonho de dois artistas de pintarem um prédio, e uma produtora cultural querendo fazer um evento a partir disso. Assim, a Jana trouxe a ideia de fazer um mirante de arte urbana”.

Apesar de ser um dos maiores festivais de arte urbana da América Latina, o CURA ainda tem  tido dificuldades para conseguir apoio, tanto financeiro quanto governamental. “A gente teve muitos desafios ao longo desses anos e continua tendo, por incrível que pareça. Temos tido problemas principalmente para conseguir patrocínios e para viabilizar o evento, porque é um festival muito caro de se realizar. Se gasta muito material e a logística é imensa, então nós precisamos que a cidade e as empresas abracem o nosso projeto”, explica a artista.

Mesmo com as dificuldades, a iniciativa segue crescendo e buscando atingir novos públicos “O Festival trabalha basicamente nos grandes centros das cidades onde ele opera, mas existe um sonho de descentralizar. Nós sempre buscamos trazer as pessoas marginalizadas para as zonas luminosas, de grande visibilidade, mas, quem sabe, no futuro, possamos ‘passear’ por outros lugares que não sejam só os centros”, comenta Priscila.

Como pode ser visto no mapa, muitas das obras de arte estão concentradas na região centro-sul de Belo Horizonte. A ferramenta Google My Maps permite explorar virtualmente essas intervenções. Basta clicar na imagem abaixo e ter acesso às descrições e localização exata de cada obra.

Projeto Morro Verde

O projeto Morro Verde Educacional, idealizado pelo professor Fábio Gontijo, em 2012, foi criado sem nenhum tipo de incentivo público, com intuito de preservar a cidade, cuidando da saúde mental da população por meio de mensagens positivas, além de apoiar jovens que vivem em situação de vulnerabilidade, utilizando o grafite como forma de ensino. Aluno da rede pública desde 1992, Fábio afirma sempre ter observado a necessidade de atividades lúdicas na vida dos jovens, e se mostra orgulhoso por poder contribuir para a beleza da cidade e a formação dos alunos, que possuem orgulho imenso do projeto. 

O tatuador Thiago Berny e os jovens de comunidades espalhadas pela cidade são os responsáveis pelos grafites que fomentam senso de pertencimento e oferecem novas oportunidades para pessoas que, muitas vezes, vivem à margem da sociedade.

MAMU

Outro projeto importante para a arte urbana em Belo Horizonte é o MAMU (Morro Arte Mural), que visa transformar fachadas de casas nas comunidades e vilas da capital em murais artísticos, buscando trazer visibilidade e estimular a arte em regiões vulneráveis. O MAMU contemplou a comunidade do Cruzeirinho, no Alto Vera Cruz, em sua primeira edição, em 2018, com murais assinados pelo paranaense Rimon Guimarães e o paulista Zeh Palito. A segunda edição foi realizada em Vila Nova, no bairro Cachoeirinha, e contou com a participação da belorizontina Criola. Já a edição mais recente aconteceu no ano de 2024, no Morro do Papagaio, na região centro-sul da capital mineira, com mural idealizado pela artista Kika Carvalho.

Artistas independentes

Além dos principais movimentos artísticos, há artistas independentes que contribuem significativamente para o cenário da arte mineira, como Efe Godoy, de 38 anos. Efe é uma artista visual e poeta, conhecida nas redes sociais por seus desenhos em aquarela inspirados na natureza. Em BH, ela teve a oportunidade de pintar o muro do CERSAM, o Centro de Referência em Saúde Mental, localizado no bairro Santa Tereza, na região leste de Belo Horizonte.

Com uma paleta de cores vibrantes e traços delicados, suas obras capturam a essência da natureza e da experiência humana, refletindo tanto suas vivências pessoais quanto as histórias de pessoas ao seu redor. Como artista transexual, ela afirma que encontra na arte um espaço de proteção e conforto, em que se sente plena em sua existência. Assim, Efe Godoy se destaca não apenas como artista, mas como uma verdadeira agente de mudança no cenário cultural mineiro.

Transformação e incentivo

A arte é um importante catalisador de mudanças sociais, despertando uma ampla gama de emoções em seus apreciadores e trazendo esperança àqueles que vivem em contextos desafiadores. Vale a pena conferir outros projetos que também fazem parte da capital mineira, como os famosos grafites do @querobolinho, que são conhecidos pelo bom-humor e pela presença por toda BH. O projeto Arte em Cores também é muito conceituado e leva intervenções artísticas para várias regiões da cidade. Essas iniciativas são apenas algumas das responsáveis por colorir e embelezar essa metrópole que vem se tornando um grande pólo da arte urbana no Brasil.

Reportagem desenvolvida por Ana Paula Gomes, João Simões e Ludmila Gualberto na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, no semestre 2024/2, sob a supervisão do professor Vinícius Gomes.

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