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Sonhei com aquele sonho irreal

Foto: Arquivo pessoal

Hoje eu sonhei com aquele sonho que tirava meu sono alguns anos atrás. Sonhei que tinha voltado para aquele lugar mal-cheiroso, mas muito afetivo, que se encontrava entre o gramado e a rua: o vestiário. Passei pelos corredores infinitos cheios de imagens futebolísticas, camisas, chuteiras, luvas e memórias. Como em todas experiências oníricas, tudo pode ficar um pouco embaçado entre real, irreal e uma mistura generosa dos dois. Eu sonhei e batalhei (na vida real) por alguns anos na tentativa de ser atleta profissional de futebol, porém, isso não se realizou. O sono de uma madrugada permitiu que eu viajasse para um lugar onde o que eu mais queria, era o que acontecia.

Me questionei em alguns momentos por que eu estava ali e, de repente, me vi de novo com aquele calor no peito, uma ânsia inquestionável de viver do esporte. Por alguns segundos, enquanto descia a escadaria do gramado do estádio para o vestiário, lembrei-me da minha vida passada de jornalismo, textos e conversas inteligentes, cheias de pompa. Pensei: “ixi, talvez isso tudo aqui seja um sonho!”. Porém, não me levei muito a sério e fui para o vestiário porque o treinador me esperava.

Tinha sido observado por um olheiro de fora e estava sendo requisitado na Espanha, para jogar onde sempre quis, vivendo do que sempre sonhei e materializando aquele sonho de criancinha. O Real Madrid já tinha feito a proposta, eu já tinha aceitado e estava tudo certo para a pré-lista da Copa do Mundo. Tudo aconteceu muito rápido e, quando percebi, tinha um alarme de incêndio tocando. 

Foto: Arquivo pessoal

Estava tudo em chamas! Minhas roupas, minhas luvas, as imagens de campeão e o sonho mais uma vez se despedaçava na minha frente como a há dois anos atrás. Acordei, joguei o cobertor para o lado e desliguei o despertador do celular, que dizia com letras garrafais: “AULA DA DULCE ÀS 8:50”. Já estava atrasado para o compromisso real e não no Real.

O susto não foi grande. Não foi a primeira, nem a última vez que esse sonho infantil vai me fisgar como um homem médio universal que, tão desnorteado com a meta-crise mundial, precisa se lembrar dos momentos em que acredita que foi feliz graças a força da memória de melhorar tudo que já foi, um dia, minimamente bom. Não me entenda mal, foi muito bom poder viver exclusivamente para o futebol, por um tempo. Entretanto, é muito melhor estudar, trabalhar e evoluir intelectualmente para escrever textos que ninguém mais lê. Para que os que leem me lembrem que minhas contradições me impossibilitam de fazer qualquer sentido.

Sem falar na falta de palmas constantes. Nunca fui aplaudido. Minha alma de artista chora todas as noites se questionando: “eu faço sentido?”. Talvez essa profissão não seja para mim mesmo. Eu sou um artista e artistas merecem ser aplaudidos, não tenho certeza se jornalismo é sobre isso. Deixo aqui minha consternação com essa situação estapafúrdia. Por favor, resolvam. Obrigado. Por fim, eu acordei e fui para a aula, dormi de novo na mesa ouvindo alguma aula chata sobre um tal de Edgar Morin. Cheguei ao trabalho e gastei todo meu tempo precioso escrevendo um texto que só você que corrige vai ler. Por isso, obrigado. Não se vá sem as palmas, por favor. Estou em abstinência. 

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