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Devaneios contraditórios de um pinguim de terno

Arte: Gabriel Germano

Tomar uma decisão nunca é fácil, principalmente para flertar com alguém. Quando se é poeta, então, você acredita que quanto mais elaborada sua tentativa, mais única, mais magnânima, mais ela tem chances de dar certo. Não sou poeta. Tampouco sei flertar. Mas quando somos inundados com aquela coragem de fazer algo a mais, quando enxergamos arte pura em alguém, até o mais medroso dos bufões tem que tomar uma atitude. De fato, estamos no século XXI, e todas essas palavras bonitas se resumem a mandar mensagem na DM do Instagram de alguém. Mas uma simples mensagem escrita não poderia ser o suficiente. Então, na tentativa de arrancar um sorriso e quem sabe começar uma conversa, o bobo da corte que lhes escreve mandou uma foto de um elegante pinguim de terno, foto essa vindo diretamente do histórico e descontinuado jogo virtual Club Penguin. Eu sei, eu sei. Quais as reais chances de isso dar certo? Mas entrar em algo sem ser você mesmo não serve para mim. Por segundos, após a imagem enviada, tive certeza absoluta que daria certo. Dito isso, para a surpresa de todos, não deu.

A verdade verdadeira é que situações sociais são moldadas pelo o desencargo completo do âmbito mental. Seja justo, afinal, qual o real sentido de se expor ao ridículo e conversar com outro ser humano que se quer conhece, no intuito de sabe-se lá o que, para que o resultado disso seja, em um cenário muito hipoteticamente positivo, algo minimamente satisfatório? Não me levem a mal, parte do ser em ser humano vem do estar em contato com outros. Só se entende como humano estando com outros humanos. Viva mil vidas como ser humano e as mil vidas serão vividas com outros alguém. Então, dominar a técnica para não viver sozinho é algo que deve ser trabalhado diariamente, pelo menos, em partes. Não vamos ser tão exagerados aqui, nem tudo é preto no branco assim. O cinza existe e existe muito mais que as outras cores.

Não sei ao certo onde quero chegar com isso aqui. Seria interagir socialmente uma forma de escrita? Quem escreve, escreve para alguém ou alguma coisa. Quem interage, interage para alguém ou alguma coisa. Palavras moldam ambos, e uma boa sequência escolhida faz você querer continuar ali, consumindo a escrita ou a interação social. Nem sempre é o suficiente. Vai saber se Deus não quis ou se Júpiter não estava perfeitamente alinhado com Marte. Às vezes, você só escreve mal ou não fala tão bem, e, entenda, faz parte. Ficar parado não faz parte, não tentar nunca não faz parte, culpar os outros por seus defeitos não faz parte, mas, falhar? O ato de falhar vem andando lado a lado do ser humano desde o princípio. Quantos seres humanos falharam em fazer a roda até que a roda fosse inventada? 

No final, isso não passa de um turbilhão de pensamentos sobre interações sociais de alguém que não domina tanto tal habilidade, pensamentos esses que não devem calhar em uma crônica tão boa assim, ainda mais se esse alguém estiver submerso de filosofias contraditórias. Talvez eu tenha visto filmes demais e eu imagine que essa crônica será um marco na minha vida, um atestado bonito para se ver no futuro, algo que vou citar em momentos importantes da minha vida. Talvez eu esteja transformando essa crônica em uma grande cena como a do Heath Ledger cantando Can’t Take My Eyes Off You em 10 Coisas que eu Odeio em Você. Mas, não entendam errado, se isso por acaso for uma grande declaração de paixão, talvez seja para mim mesmo. Anos perdidos, me perdendo para enfim me achar, e estou ganhando dinheiro para escrever? Ok, me perdi em pensamentos mais uma vez. Acho que me perdi exatamente por não saber onde quero levar esse texto.

Acho, sem certezas, que isso aqui é um grande relato sentimental e melodramático sobre as frustrações que eu acumulei ao longo da vida, mas, finalmente, eu entendi que está tudo bem. Grande parte das frustrações se baseiam em uma autoconfiança irreal de uma sublime síndrome de protagonismo, afinal de contas, os roteiristas não dariam ao protagonista tais frustrações, não é? Bom, se entende-se algo sobre a jornada do herói, é que o oitavo passo é a provação suprema, aquele momento em que o herói, para chegar em sua recompensa, precisa desafiar algum obstáculo de grande magnitude. É um desafio que o nosso herói precisa cumprir para seguir seu destino. Isso, sem sombra de dúvidas, marca outro momento crucial na história. É nesse momento que ocorre a transformação psicológica do protagonista.

Finalmente, tenho certeza absoluta do que é isso aqui. Um grande devaneio precipitado e infundado, onde juntando o máximo de palavras opostas, o máximo de paradoxos e antíteses, surge uma bela carta de reafirmação do espírito plenamente resignado diante dos desígnios da vida. Narciso acha feio tudo que não é espelho, então não lidar a todo momento com espelhos coloca em cheque a autoconfiança infundada de Narciso. Por vezes, você vai achar que é único por ser um pinguim de terno. Mas não estão todos os pinguins de terno?

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