Durante anos, mesmo sem esperanças, os fãs pediram, suplicaram, pelo retorno do Oasis, como se suas vidas dependessem da união dos ingleses. Os irmãos Noel e Liam Gallagher responderam, em uma semana qualquer, no dia 27 de agosto de 2024, anunciando uma turnê mundial de reunião. Em meio a rotinas agitadas e clássicos dos britânicos nos fones de ouvido, os fãs foram surpreendidos com o anúncio que por tantos anos sonharam.
No dia 4 de julho de 2025, com os olhos marejados, de mãos dadas e um pouco tímidos, Noel e Liam trilharam juntos, pela primeira vez em 16 anos, o caminho dos bastidores até o palco. Aconteceu, o Oasis está de volta e inaugurou a reunião em Cardiff, no País de Gales. É o fim da grande guerra, os astros estão alinhados e podem até dividir um champanhe no céu.
A trajetória dos irmãos é marcada por brigas, seja entre eles, com outros artistas, fãs e jornalistas, além da rixa eterna com o time Manchester United e seus torcedores, já que Noel e Liam são os maiores defensores do rival Manchester City. Quando se fala de Oasis, é quase impossível não citar os desentendimentos que os cercam, ao lado de toda a fama de “brigões” dos astros do britpop.
Em contrapartida, analisando dois dos maiores álbuns de sucesso, não é essa a energia transmitida nas faixas. Pelo contrário, os Gallaghers cantam sobre as nuances do rock’n’roll, romances, sonhos, decepções e amor. Mantendo a essência da vida de estrelas do rock, os irmãos do Oasis se mostram algo bem diferente nas composições.
No documentário Supersonic, lançado em 2016 por Mat Whitecross, Liam Gallagher contou que não se interessava por música até ter entre 16 e 17 anos. “Qualquer um com uma guitarra ou em uma banda eu pensava ser um pouco suspeito, eu lançaria uma ofensa a eles”, afirmou.
Já Noel sempre esteve na companhia de seu violão, compondo. “Sempre muito quieto o Noel, sempre em seu quarto com um pedaço de papel e uma caneta, sempre escrevendo e martelando o violão”, conta Peggie Gallagher, mãe dos irmãos, nos primeiros minutos do documentário.
Liam Gallagher é descrito como “aparecido” pelos irmãos no documentário. A história de como surgiu o interesse do Gallagher mais novo pela música é curiosa. Um dia, antes de ir para a aula, Liam levou uma martelada na cabeça por um desconhecido e, nas palavras do próprio, a partir dali ele “começou a ouvir música e tudo começou a fazer sentido”. Para Noel, “alguém martelou a música para dentro dele”.
Em 1991, como vocalista, Liam Gallagher se juntou a Paul “Bonehead” Arthurs (guitarra), Paul “Guigsy” McGuigan (baixo) e Tony McCarroll (bateria) na banda “The rain”. A condição do cantor foi simples: “mudar o nome terrível” do conjunto. No quarto dos irmãos Gallagher, havia um pôster do grupo de rock alternativo Inspiral Carpets, nele havia uma música chamada “Swindon Oasis”. A canção fez Liam refletir quanto a presença do nome Oasis em diversas coisas: lanchonetes, empresas de táxi e agências de viagens. Ele havia decidido o nome.
Enquanto isso, Noel Gallagher trabalhava como roadie para o Inspiral Carpets, estava sempre viajando e acompanhando a banda para shows. Quando voltou para casa, se impressionou com a banda que o irmão estava fazendo parte. Ainda no documentário de Mat Whitecross, Noel disse a Liam: “Você está cantando? Depois de todas aquelas vezes que me sentei no quarto com um violão e você costumava dizer para eu parar, agora decidiu que quer ser um vocalista? Porque você não disse nada antes?”
Liam, Bonehead, Guigsy e Tony convidaram Noel para ser agente do Oasis, porém ele negou automaticamente. Semanas depois, Liam convidou o irmão para tocar de verdade com eles. A partir dali, Noel entrou para o Oasis e tudo o que veio depois é história.
Nós vamos nos livrar de Phil Collins e Sting, música de comida ruim, música de Mc Donalds, nós temos que entrar nas paradas e acabar com eles”, afirmaram no documentário.

Definitely Maybe
Em 1994 o Oasis lançou o álbum de estreia “Definitely Maybe”, um sucesso estrondoso nascido no berço do rock mundial, o Reino Unido. Milhões de cópias foram vendidas por todo o mundo e o britpop presenciava seu maior crescimento desde então. O disco completou 30 anos em 2024 e possui hits que não foram esquecidos e não perderam o impacto, como “Live forever”, “Supersonic” e “Slide away”.
“Live forever” é um hino, a letra é impactante e reflexiva, afinal, “talvez eu só queira voar, quero viver, não quero morrer, talvez eu só queira respirar”, não é algo que poderia ser escrito por alguém que é apenas um brigão mimado, como os irmãos eram conhecidos. É uma letra sobre sonhos, sobre medos e, de certa forma, desejos. Não à toa os fãs não esquecem essa faixa, ela vai viver para sempre, ela é a banda.
Já “Supersonic” transmite a energia de noitadas do rock, do dinheiro, das drogas e das bebidas, com certo destaque no egocentrismo. A letra é enigmática e cheia de termos que podem ser interpretados de diferentes maneiras por aquele que ouvir. “Preciso ser eu mesmo, não posso ser mais ninguém, eu me sinto supersônico, me dê gin e tônica, você pode ter tudo, mas o quanto você quer isso?”
Mais um sucesso absolutamente inesquecível do “Definitely Maybe” é a faixa “Slide Away”, uma verdadeira declaração de amor, mesmo que com um certo teor de ressentimento. “Agora que você é minha, nós acharemos um jeito de perseguir o Sol, me deixe ser aquele que brilha com você e de manhã nós não sabemos o que fazer.” Outra letra incrivelmente romântica do irmão mais velho.
Em meio a glória do álbum de estreia, os irmãos partiram para a primeira turnê norte-americana. Na primeira noite de apresentação, na famosa casa de show de Hollywood Whisky a Go-Go, toda a banda usou metanfetamina, menos Noel Gallagher. Nessa noite, Liam transformou o show em um verdadeiro caos: o Gallagher mais novo bateu com um pandeiro na cabeça de Noel, fazendo com que ele desistisse temporariamente do Oasis, pela primeira vez. O problema logo foi resolvido pela gravadora da banda, a Creation Records, porém, nove shows em solo estadunidense foram cancelados.
Os irmãos ainda enfrentavam uma intriga que pode ser considerada uma das mais famosas da trajetória da banda. A guerra “Blur vs Oasis”, os ricos contra os pobres, os educados contra os ignorantes. Os integrantes do Blur representavam a classe rica de Londres, já o Oasis surgiu nos subúrbios de Manchester, ao lado da classe trabalhadora.
É uma verdadeira representação de dois lados totalmente, ou praticamente, opostos. Depende do ponto de vista, já que ao menos uma coisa os conectava: o britpop, que vai além de um gênero musical, é um movimento da década de 90 que marca a entrada do rock alternativo para o mainstream.
No Brit Awards de 1995, a rivalidade entre as bandas foi evidenciada e, para alguns, as críticas sociais que a cercavam também. O Blur, do lado rico de Londres, venceu quatro categorias da premiação: Melhor Álbum, Melhor Vídeo, Melhor Single e Melhor Grupo Britânico. Em contraste, o Oasis venceu apenas uma: Melhor Revelação.
Ao aceitar um dos prêmios, Damon Albarn, vocalista do Blur, dedicou a vitória a banda de Manchester, “acho que devemos compartilhar com o Oasis”, afirmou de forma irônica.
A guerra do britpop continuou após a premiação. As duas bandas resolveram lançar singles no dia 14 de agosto de 1995, “Country House” do Blur e “Roll With It” do Oasis. As faixas integrariam os novos álbuns dos britânicos “The Great Escape”, dos garotos de Londres, lançado em setembro do mesmo ano, e “(What’s The Story?) Morning Glory” dos irmãos Gallagher apenas um mês depois, em outubro.
O Blur venceu, com 274 mil cópias vendidas contra 216 mil do Oasis, em apenas um dia. Em contrapartida, há quem não concorde com a vitória dos garotos de Londres, considerando que eles lançaram duas versões diferentes da faixa e ainda pela metade do preço.

(What’s the Story) Morning Glory?
No dia 2 de outubro de 1995, o Oasis lançou o segundo álbum da banda, o “(What’s the Story) Morning Glory?”, que atingiu a marca de cerca de 23 milhões de cópias vendidas por todo o mundo. Segundo a Rolling Stone, é o quarto álbum britânico mais vendido da história. É o disco em que “Wonderwall” brilha, cito essa faixa porque quando pessoas comuns – que não se incluem na lista de fãs que imploravam pela volta da banda – pensam em Oasis, a maioria pensa em “Wonderwall”. Definitivamente não é a mais brilhante do álbum, porém merece o reconhecimento.
“Eu disse: talvez você vai ser a única que me salva, e depois de tudo, você é minha protetora”, é um bom verso, não há o que dizer, é cativante. Porém, poucas músicas – de todas aquelas já feitas no mundo, não apenas do Oasis, nem somente do “Morning Glory” – chegam aos pés de “Champagne Supernova”.
Em 7 minutos e 30 segundos de uma verdadeira obra prima, Liam Gallagher canta com alma, as palavras mais especiais já escritas por Noel Gallagher, acompanhado de uma melodia que quase nos faz querer voar. “Mas você e eu, nós vivemos e morremos. O mundo ainda está girando, não sabemos o porquê. Por que, por que, por que, por que?”, seguido de um esplêndido solo de guitarra: o verdadeiro clímax de uma canção incrível, que começa bem e termina ainda melhor.
Em entrevista à rádio SiriusXM, em comemoração aos 25 anos do “(What’s the Story) Morning Glory?”, Noel afirmou não ter ideia do que se trata “Champagne Supernova”. Porém, para ele, é uma canção que percorreu gerações e ainda é um dos maiores clássicos do Oasis. Ele está certo – e nada poderia ser mais Gallagher do que isso. É o álbum mais glorioso do Oasis.
Em “Don’t Look Back In Anger”, também um dos maiores sucessos da banda e do “Morning Glory”, os irmãos deram um spoiler aos fãs do que viria a acontecer 14 anos depois. “Por favor, não ponha sua vida nas mãos de uma banda de rock’n’roll que irá jogar tudo isso fora”, eles jogaram fora em agosto de 2009, quando também desistiram da banda mais legal de todos os tempos.
Compondo o álbum de maneira única, Noel também escreveu “She’s Electric” como uma faixa alegre, lúdica e dançante, para garotos apaixonados e garotas estranhas. “Pois eu serei você e você será eu. Há muitas e muitas coisas para nós vermos, há muito e muito para nós fazermos. Ela é elétrica, eu posso ser elétrico também?”. As rimas da canção se conectam de uma forma sensacional enquanto os Gallagher’s tentam compreender a garota elétrica e sua família excêntrica.
No Brit Awards de 1996, a banda recebeu três prêmios: Álbum Britânico do Ano, com “(What’s the Story) Morning Glory?”, Melhor Vídeo Britânico, pelo clipe de “Wonderwall” e Melhor Grupo Britânico.
Os “Brigões Gallagher” fizeram jus à fama e, ao subirem ao palco, responderam Damon – que os provocou na premiação de 1995 – de uma forma bem característica. Os irmãos cantaram a música Parklife, do Blur, de maneira debochada. “Eu gostaria de agradecer todas as pessoas… ‘Todas as pessoas, tantas pessoas e elas todas vão de mãos dadas’ em sua vida de merda.”
O que difere a versão cantada por Liam da original é apenas o último verso, o correto é “de mãos dadas por sua vida de parque”, mas o caçula Gallagher quis dar mais um toque de provocação, como de costume.
Em meio ao sucesso e a composições incríveis, a reputação dos irmãos estava ainda mais em evidência. Eles eram rabugentos, chatos e implicantes, e faziam questão de deixar isso claro no dia a dia – em premiações, em entrevistas e nos palcos – era uma contradição às canções maravilhosas escritas e interpretadas pelos irmãos Gallagher.
Em contrapartida, o relacionamento de Liam e Noel nunca deixou de ser conturbado. Durante as gravações do “(What’s the Story) Morning Glory?”, em 1995, Noel Gallagher bateu na cabeça de Liam com um taco de críquete, algo bem britânico da parte dele. Mesmo com um relacionamento complicado, eles continuavam compondo e gravando músicas que marcaram a história do rock mundial, de forma boa ou ruim, já que muitos não gostam dos irmãos e de suas faixas.
O Oasis continuou a fazer sucesso. Em agosto de 1996 a banda britânica levou 250 mil fãs ao Knebworth Park, na Inglaterra, em um final de semana de shows. Em artigo publicado pela Folha de S. Paulo no dia 13 de agosto de 1996, uma terça-feira, o autor Igor Gielow afirmou: “o Oasis marcou de vez sua posição como principal fenômeno do pop britânico da década. […] Nunca uma única banda havia juntado tanta gente no Reino Unido. Em 1969, os Rolling Stones atraíram 200 mil pessoas, mas como parte de um festival no Hyde Park.”
A cobertura ainda reforça o que foi dito durante essa análise, Liam Gallagher foi descrito como “arrogante mesmo quando fala dos Beatles”, os maiores ídolos da banda.

Do fim ao Oasis live 25
Após os dois primeiros álbuns da banda, os mais bem vistos pela crítica, o Oasis lançou mais 5 álbuns de estúdio: “Be Here Now” (1997), “Standing on the Shoulder of Giants” (2000), “Heathen Chemistry” (2002), “Don’t Believe the Truth” (2005) e “Dig Out Your Soul” (2008). As composições de Noel combinadas a presença de palco de Liam os manteve sob a luz dos holofotes por mais alguns anos.
Alguns desses álbuns não foram tão bem vistos pela crítica. O veículo americano Pitchfork atribuiu uma nota de 1.2 para o álbum “Heathen Chemistry” e a Rolling Stone afirmou que: “Como principal escritor do Oasis, Noel Gallagher pode ter ido ao máximo que poderia com a música pop.” Já o renomado The Guardian não poupou esforços ao criticar a banda de Manchester: “Os dois últimos álbuns mostram o Oasis operando no limite, entorpecido pela arrogância induzida pela cocaína em ‘Be Here Now’, e distraído por conflitos internos em ‘Standing on the Shoulder of Giants’. ‘Heathen Chemistry é pior, justamente por soar como se o Oasis estivesse se esforçando demais.”
Ainda assim, clássicos e sucessos seguiram nascendo durante mais de uma década de produção dos irmãos. No disco “Be Here Now”, as faixas “Stand by me” e “Don’t go away” se tornaram sucessos que marcaram a trajetória do Oasis e reforçaram aquilo que mais se é admirável na banda: as letras escritas por Noel Gallagher.
“Então, qual é o problema com você? Cante algo novo para mim. Você não sabe, o frio, o vento e a chuva não sabem? Eles apenas parecem vir e ir embora. Fique comigo, ninguém sabe o jeito que vai ser”, se equivale ao romantismo e ressentimento presentes em “Slide Away”, do “Definitely Maybe”, e em “Don’t go Away”, também do “Be Here Now”.
Com o passar dos anos, Liam e Noel Gallagher seguiram brigando ainda mais, assim como bebiam e se drogavam constantemente. A rivalidade dos irmãos se agravou, até que em agosto de 2009 a banda se separou oficialmente, nos bastidores do festival Rock en Seine, em Paris. Segundo a Rolling Stone, Liam entrou no camarim da banda brincando e batendo em uma das guitarras de Noel, que se irritou e iniciou uma briga com o irmão. Liam acabou quebrando a guitarra.
Naquele momento, a decisão de Noel havia sido tomada: era o fim do Oasis. “É com certa tristeza e grande alívio que lhes digo que estou deixando o Oasis esta noite. As pessoas vão escrever e dizer o que quiserem, mas eu simplesmente não conseguia mais trabalhar com o Liam nem por mais um dia”, afirmou. Em contrapartida, para Liam, a briga foi apenas mais um momento de discussão entre os irmãos.
Os “Brigões Gallagher” mantiveram o foco em suas carreiras solo, projetos que só foram sucesso entre os verdadeiros fãs, uma pequena quantidade de seguidores fiéis os acompanhou, enquanto os irmãos trocavam insultos e farpas na mídia. Uma reconciliação esteve, durante todos esses anos, fora de cogitação.
Em 2023, o Manchester City, time de futebol do coração dos irmãos Gallagher, se classificou para a final da Champions League, maior campeonato da Europa. Ao ficar sabendo da classificação, Liam Gallagher postou a seguinte afirmação no aplicativo X: “Se o Man City ganhar a Champions League, eu ligo para meu irmão e trago a banda de volta. Beijos, LG.” Conhecido por suas publicações impulsivas no antigo Twitter, os fãs não levaram tão a sério a afirmação do Gallagher mais novo, até que foram surpreendidos em agosto de 2024.
Além do Reino Unido, o Oasis anunciou shows no Canadá, Estados Unidos, México, Coreia do Sul, Japão, Austrália, Argentina, Chile e Brasil. Os shows no Brasil acontecem em São Paulo, no estádio Morumbi, nos dias 22 e 23 de novembro. Os ingressos, vendidos com quase um ano de antecedência, esgotaram em minutos. As duas noites no Morumbi estão totalmente lotadas, os irmãos fizeram isso.
O Oasis ainda soa como na década de 90, inclusive como a primeira vez que estiveram no Brasil, em 1998, mesmo mais velhos e mesmo após tantos anos separados. Liam e Noel são carinhosos uns com os outros no palco, riem juntos, se abraçam e brincam. Ver os dois juntos é ver dois irmãos que se amam e que, mesmo em meio a todo orgulho, estavam loucos por uma reconciliação. Eles não são apenas colegas de banda, são irmãos, filhos de Peggy Gallagher e Tommy Gallagher, que cresceram juntos em Manchester e descobriram a fama lado a lado, e é exatamente isso que torna o Oasis tão especial.
De “Hello” a “ Champagne Supernova” a banda britânica ainda faz o público pular e sentir tudo aquilo que é inexplicável. Duas horas de show não parecem o suficiente para a eternidade que os fãs gostariam de vivenciar ao lado das músicas dos irmãos Gallagher. Eles vão viver para sempre.




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