Colab
Reprodução/Instagram

O Grande Museu Egípcio abre as portas e intensifica a campanha por obras repatriadas

Inaugurado em novembro, o GEM é a obra do século para os egípcios, mas sua abertura reacende debates acerca do regresso de obras ao país

Com vista para as pirâmides de Gizé, o Grande Museu Egípcio (GEM) foi inaugurado após anos de atraso – a previsão inicial de entrega era para o ano de 2012 -, além do custo estimado de R$5 bilhões de reais. Sua área é de aproximadamente 500 mil metros quadrados, e conta com um acervo de peças já antes expostas, e outras inéditas.

A tumba de Tutancâmon, descoberta em 1922 pelo arqueólogo britânico Howard Carter, passa pela sua primeira exposição na história, junto com outros 5 mil artefatos pertencentes ao antigo faraó. Tudo no museu resplandece grandiosidade, e a construção é uma aposta do governo egipcio para atrair turistas do mundo todo. De acordo com o ministro do Turismo e Antiguidades do Egito, Sherif Fathy, a expectativa é atingir 30 milhões de turistas até 2032. 

Mas apesar de toda a sua grandiosidade e relevância histórica e cultural, a inauguração reabriu um assunto antigo e recorrente: a repatriação de obras aos seus países de origem. 

Em meio ao processo de inauguração do GEM, uma campanha global tomou força: iniciando-se com o egiptólogo e arqueólogo Zahi Hawass, os egípcios passaram a cobrar autoridades internacionais para que devolvessem artefatos que se encontram expostos em países que não o Egito, mas foram saqueados, roubados ou contrabandeados de lá.  

Neste momento, o regresso dos objetos não será feito pelo governo, mas sim através de pessoas que estão em todos os lados, pedindo justiça no regresso da herança egípcia.

Entre as peças saqueadas no período colonial, o arqueólogo destaca três itens que considera fundamentais para o retorno ao Egito: o Busto de Nefertiti, a Pedra de Roseta e o Zodíaco do Templo de Dendera. As obras estão expostas em famosos museus do mundo, como Louvre, na França, no Museu Britânico, no Reino Unido e no Museu de Berlim, na Alemanha. Zahi Hawass, que é uma das vozes mais potentes e influentes do tema, foi responsável pelo retorno de 6.000 peças ao Egito anteriormente, mas sente que ainda não é o suficiente. Em uma petição online criada por ele, cerca de 150 mil pessoas assinaram a favor da devolução dos artefatos, com o foco no Busto de Nefertiti, ao seu país de origem. O Governo Alemão insiste que o busto foi retirado legalmente do Egito, com o consentimento das autoridades egípcias, e resiste em colaborar com sua repatriação.

Busto de Nefertiti. Atualmente exposto em um museu em Berlim, na Alemanha –
Ccéditos/ Flickr

A essência da contracolonialidade

O sentimento de repatriação não costuma ser muito bem recebido pelos países que detém as obras e artefatos antigos. Apesar de termos exemplos no Brasil, como o fossil do dinossauro Ubirajara e o Manto Tupinambá, relacionado a repatriação de obras, os países colonizados ainda tem uma grande caminhada até que todos os objetos retornem às suas origens.

Existe uma convenção, elaborada em 1970 pela UNESCO, relativa às medidas a serem adotadas para proibir e impedir a importação, exportação e transferência de propriedades ilícitas dos bens culturais. Entretanto, a devolução de bens culturais depende de iniciativas bilaterais, cooperação internacional e embasamento legal para que ações e políticas sejam desenvolvidas e ativadas.

De acordo com a mestranda em Comunicação pela PUC Minas, Ana Carolyna Gonçalves, o regresso dessas obras ao país de origem é complexo e envolve diversos fatores sociais, como órgãos de poder público dos países envolvidos, a comunidade científica, a população e as instituições de guarda e pesquisa antropológica e arqueológica. Apesar do nível de complexidade do trâmite, é importante pensar na lógica pré colonialista que está por trás da necessidade de repatriação. Para Ana Carolyna Gonçalves, que também atua na Comunicação do museu Espaço do Conhecimento da UFMG, em Belo Horizonte, o processo colonial se findou, mas a manutenção das relações de poder, regimes de pensamento e formas de compreender o mundo ainda são afetadas pela lógica colonialistas. 

Os museus são exímios contadores de histórias, que possuem legitimidade e autoridade para decidir o que será lembrado e o que será esquecido

Crianças visitam exposição no Museu do Conhecimento da UFMG – Foto: Espaço do Conhecimento

A repatriação, segundo a mestranda, “é uma forma de deslocar o controle hegemônico e até mesmo construir o futuro dos museus por meio de sua própria autorreflexão.” Os museus, a partir das pessoas que os formam, devem se questionar: “que histórias contamos?”, “como contamos?”, “que violências simbólicas estamos perpetuando?”

No Brasil, por exemplo, podemos citar diversos exemplos de obras que foram devolvidas aos nossos museus, seja por apoio civil, comoção da comunidade científica ou pressão governamental:

Em meados de 2024 cerca de 700 objetos foram devolvidos de um museu dos Estados Unidos para Salvador: trata-se de obras de arte da cultura afro-brasileira. Também em 2024 a Funai e o Museu Nacional de Povos Indígenas conduziram a primeira repatriação de uma coleção de itens etnográficos indígenas. Cerca de 600 objetos retornaram ao Brasil, vindo da França. Para a presidenta da Funai, Joenia Wapichana, “retornar essa arte indígena é retornar um pedaço da nossa história”. 

Após mais de 300 anos, o manto Tupinambá já citado também retornou ao solo brasileiro, após longa estadia na Dinamarca. Levado no período colonial, a peça representa parte dos costumes e histórias de um dos povos originários do Brasil.

Há também exemplos importantes de outras localidades. Em 26 de setembro de 2025, as negociações entre Holanda e Indonésia para a devolução do crânio do ‘Homem Java’  finalmente foram finalizadas. Em 1891 um médico holandes, utilizando mão de obra forçada, realizou escavações e retirou o fóssil do solo indonesio. Trata-se do primeiro Homo erectus encontrado. Para o pesquisador Soefwan Noerwidi, paleoantropólogo da Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da Indonésia, o campo da evolução humana nasceu em Java, na Indonésia.  

Os casos apontam para semelhanças das práticas de colonização, com recorrência de saques ilegais e uso de mão de obra escravizada na retirada de bens culturais e históricos de seus países de origem. De acordo com Ana Carolyna Gonçalves, os mecanismos de dominação se tornaram mais sofisticados e continuaram sendo perpetuados em diferentes estruturas sociais por meio da colonialidade. Para ela, a colonialidade permanece em relações de poder, regimes de pensamento, formas de compreender o mundo e até em nossas experiências de vida e linguagens. 

Um dos Itens etnográficos repatriados, produzidos por indígenas brasileiros – Divulgação/Museu Nacional dos Povos Indígenas

O marco do fóssil Ubirajara

Em meados de 2023, a bióloga e paleontóloga Aline Ghilardi orquestrou a volta do fóssil do dinossauro Ubirajara ao Brasil, devolvido da Alemanha. O que começou como um fio no Twitter (atual X), escalou para a repatriação do fóssil à sua cidade de origem, quase 30 anos depois. Contrabandeando do Brasil na década de 90, a campanha #ubirajarabelongsBR foi um fator primordial para o avanço das negociações entre o Brasil e a Alemanha.

Aline Ghilardi explica que sua intenção com a postagem no X (antigo twitter), foi em um momento de esgotamento e frustração como pesquisadora. Ela não imaginava que a hashtag faria tanto sucesso. “A gente trabalha com conteúdo, e tenta deixar ele perfeito e acessível ao público, mas as vezes é melhor o sentimento puro. Aquele fio era um desabafo de uma pesquisadora frustrada em meio à pandemia, e acredito que esse sentimento fez as pessoas se conectarem com a história, mais do que se eu estivesse trabalhado o conteúdo”.

Fóssil do Ubirajara – Repordução/ Instagram

Aline Ghilardi foi consultada algumas vezes por autoridades governamentais durante o processo de repatriação do fóssil, mas sua atuação principal foi a frente da mobilização e comoção no resgate do dinossauro ao seu país de origem. Posteriormente, ela se juntou a outros pesquisadores para mapear e identificar fósseis brasileiros expatriados. Ela conta que, apesar de ser um trunfo e algo que resgata o orgulho e identidade brasileira, o movimento escancarou o colonialismo científico. Na época diversas falas problemáticas e preconceituosas foram proferidas por cientistas alemães, que chegaram a comparar o Ubirajara a um “estrume de vaca”. 

O retorno do fóssil, muito mais do que para a ciência em si, é falar sobre um respeito entre duas nações, é falar sobre soberania científica brasileira. Significa o Brasil lutando pela sua soberania científica.

Aline Ghilardi, paleontóloga, pesquisadora e comunicadora científica 

A cidade que recebeu o fóssil após a sua repatriação, Santana do Cariri, no Ceará, onde se encontra no Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, viveu um movimento de valorização da identidade local desde o retorno de Ubirajara: há corridas que utilizam a imagem do dinossauro, pessoas que percorreram o Brasil para visitá-lo, além da alta demanda de visitantes no museu. “A repatriação diz respeito à reconquista da autoestima da população”, reforça Aline Ghilardi. O que antes era um espaço vazio com uma placa escrito “era aqui que o Ubirajara estaria exposto se estivesse no Brasil”, agora finalmente foi ocupado. 

Leia também: Museu da Pampulha: entenda por que o edifício sede está fechado

Letícia Nogueira

Adicionar comentário